Mente pra mim
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Elena chegou à escola a tempo de ver João saindo pelos portões, de mãos dadas com uma garota. Ela ficou feliz, mas não demonstrou, sabia que o deixaria sem graça. Quando ele a viu, soltou a mão da garota e se despediu. Logo Elena e João estavam caminhando.
– E ai John, como foi hoje?
Ele sorriu.
– Então agora eu sou mesmo John, não é?
– Você não gosta? Achei que...
– Não é isso, eu gosto! Na verdade perece que sempre vivi aqui. Afinal, não tem mais ninguém para nós lá.
– Não... Mas eu estou aqui, pra você.
John, como ela o chamava, sorriu abertamente.
– É eu sei. Também estou aqui para você.
John é um garoto doce, inteligente e dedicado. Amadureceu rápido, sem a mãe teve que ajudar nos afazeres de casa desde cedo, já que Elena e seu pai, Frederico trabalhavam fora. Sua única diversão eram os livros e a televisão, ele adorava os programas de perguntas e respostas e sua série de TV favorita era “Dr. House”. Ele sempre dizia que iria ser médico, Elena sabia que era verdade, mesmo que, para isso, tivesse que trabalhar o resto da vida.
– Bom, meu dia foi muito bom.
– Sei, deu para perceber. – Elena esbarrou o ombro no dele.
– O que quer dizer? – Olhou para o outro lado, tentando não mostrar o rosto que acabava de ficar vermelho.
– Eu vi o jeito que olhou para ela, é a garota que esteve lá em casa estudando? Heather certo?
– Não. Quer dizer, sim. É... Não, não estava olhando de jeito nenhum para ela e sim, é Heather.
– Mas e você?
– O que tem eu? – Ela o olhou distraidamente.
– Com esse sorriso bobo no rosto, até parece que viu um passarinho verde. E ainda fala de mim...
Só então Elena se deu conta de que passou todo o caminho sorrindo. Sorrindo de verdade, como não fazia há algum tempo. Por algum motivo, Oliver veio ao seu pensamento.
– Só estou feliz por você estar se dando bem. E seu inglês está cada vez melhor, não é? Vi sua redação, B+ é uma ótima nota!
Eles passaram o restante do caminho conversando sobre as aulas e o dia de John, Elena adorava aquilo. Imaginou se isso se parecia com ser mãe, algo que ela não sabia se chegaria a ter.
Elena desperta com sua música favorita tocando no despertador do celular. Lembrou-se do sonho que teve, como podia sonhar daquele jeito com alguém que mal conhecia? Mas que foi bom, foi. Sorriu.
Levanta, vai ao banheiro, toma banho, escova os dentes. A mesma rotina de sempre. Preparou o café que ela e John tomam todos os dias. Leite, suco, biscoitos, pão e frutas frescas. Tudo de melhor que o dinheiro podia comprar. Mas eles não eram ricos, longe disso. E às vezes, quando Elena se lembrava de onde vinha tudo aquilo, perdia o apetite.
O fato de que John não sabia de nada a aliviava um pouco. Ele era a única coisa a mantinha em pé, que a fazia levantar da cama todos os dias, era a única família que ela ainda tinha. A mãe morreu logo após o parto de John, tinha quarenta e um anos e um histórico de pressão alta durante a gravidez, o que causou a hemorragia que a matou.
Elena tinha quatorze anos na época, foi a mãe de John, enquanto o pai trabalhava para sustentá-los. Ela ficava com o irmão durante o dia e estudava a noite. Seu pai também se foi a cerca de três anos atrás, Elena tentou manter John e a casa, mas a crise os atingiu e a violência na cidade aumentou muito. Vendeu a casa e o carro velho de seu pai, arriscou tudo e partiu para os Estados Unidos, alugou um quarto-e-sala em um bairro pobre da periferia de Nova York. Elena não conseguia emprego por ser ilegal no país, então aceitou o emprego em uma boate luxuosa na qual uma vizinha trabalhava. Ela tinha dito que com a boa aparência, Elena conseguiria o emprego fácil. E foi lá que ela conheceu James e as coisas ficaram diferentes.
– Ei! Estou falando com você.
Elena saiu de seu torpor, e olhou confusa para John.
– Onde você estava? Marte?
John e Elena saíram do apartamento as 7:00h em ponto, ele pegou o primeiro elevador, como fazia todas as manhãs, mas Elena segue pelo corredor onde uma porta grande dá acesso às escadas, então começa a subir até a cobertura onde ‘trabalha’, onde James mora.
James é um homem de sessenta anos, cruel, rude e que se acha o dono do mundo por ter tanto dinheiro, na verdade ele é dono de vários prédios no Upper East Side, inclusive o Paradise, mas isso não o faz dono do mundo. James havia proposto à Elena por várias vezes que se casasse com ele e ele daria tudo o que ela quisesse e sonhasse, ele achava que podia comprá-la por ser apenas uma garçonete, mas ela sabia da sua fama.
Até que um dia ele ameaçou entrega-la às autoridades se ela não aceitasse ser dele, Elena era ilegal no país, não tinha visto, se viu obrigada a aceitar para não ser deportada, tinha certeza que, com isso, acabaria perdendo seu irmão. E então Elena se casou com James, às escondidas. Mas ela impôs suas condições. A primeira e mais importante era que John jamais saberia o que fez, nem ele e nem as outras pessoas no prédio, ela e seu irmão morariam em um apartamento separado, diriam que James tinha oferecido um emprego de governanta à Elena e por isso se mudaram para perto. A segunda condição é o apartamento em que morariam seria de John, de papel passado.
O que James não contava era com seu coração frágil, a cerca de seis meses sofreu um terrível infarto, que o deixou preso a uma cama desde então. Elena sentia-se uma pessoa horrível ao ficar aliviada com a situação de James, ao mesmo tempo agradecida por estar livre de suas ‘obrigações’ com ele. E para amenizar a culpa por sentir feliz com o estado de James, ela jurou continuar cuidando dele até seus últimos dias, mesmo que isso fizesse de seus dias um inferno.
Naquele dia ele estava de bom humor, o que significava apenas que ele não tentaria agarrar o pescoço dela outra vez. Mas todos os dias, ele dizia obscenidades e pedia para Elena o ‘aliviasse’, ela sempre fingia nem ouvir. Assim passava os seus dias terríveis, compensados sempre que a noite chegava e via John cada vez mais animado com a nova vida e empolgado com a escola, decidido a fazer a faculdade de medicina. Era seu porto seguro.
No fim do dia Elena desceu as escadas e foi até o hall do edifício, onde havia também um pequeno restaurante e um café, era lá que ela esperava John, quando na ia à academia. Sentou-se em uma mesa perto da janela e pediu o suco de costume, abriu seu livro e começou a ler.
Apenas um instante depois de seu pedido ter chegado, Elena viu um vulto parar em sua frente por cima do seu livro.
– Hey Elena!
Ela ergueu os olhos devagar e viu aquele sorriso que, mais uma vez, lhe tirou o ar, o sorriso que havia habitado seu sonho naquela noite, acompanhado dos olhos verdes mais fascinantes que ela tinha visto.
– Hey Oliver!
Fale com o autor