Mente pra mim
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Elena tomou um longo banho no chuveiro da academia, quase acabou com seu vidro de xampu preferido, enxugou os longos cabelos loiros, e cacheados, penteou, secou-se e vestiu uma calça preta, a blusa branca de mangas longas e o cardigã cinza de linho que ela sempre usava nos dias frios.
Cumpriu toda sua rotina de três vezes por semana, chegava à academia as 18:30h, fazia bicicleta, esteira, musculação... Sempre acabava no mesmo horário, às 20:20h, tomava seu banho de trinta minutos, sempre se sentava no mesmo banco no corredor que ficava entre os grandes salões da academia de musculação e a academia de artes marciais, separadas por janelas e portas duplas de vidro, o mesmo corredor que tinha os vestiários femininos e masculinos em cada ponta. E sempre ficava observando os lutadores através do vidro enquanto lia seus livros de ficção — sim, é estranho que uma mulher no auge de seus trinta anos goste desse tipo de leitura, mas ela o fazia, mais para fugir de sua realidade do que por prazer. — E sempre saia no mesmo horário, as 21:40h, para buscar seu irmão no curso de inglês que ficava no caminho de casa.
Naquele dia havia um novo lutador no octógono, um homem que ela achava já ter visto antes, mas não conseguia se lembrar de onde. Ficou o observando por algum tempo, ele tinha movimentos rápidos e limpos, era elegante na luta, mesmo quando recebia golpes e era derrubado pelo mestre Kai. Ainda assim, era bom vê-lo lutando.
Elena lembrava-se de seu pai falando e falando sobre as técnicas, estratégias, golpes e diferenciava cada lutador enquanto assistiam as lutas na televisão, ainda que ela não entendesse ver seu pai daquele jeito a fascinava. A perda do pai ainda dói demais, mas não a fazia chorar tanto.
O homem era alto, forte e esguio, tinha o abdômen definido, mas não como aqueles caras, bombados da academia, era como se tudo fosse natural, não para mostrar seus dons ou atributos, ou chamar a atenção. Ele tinha um fascínio no olhar.
Elena se deu conta de que não havia lido nenhuma página do livro aberto em suas mãos quando a hora de buscar João chegou, havia passado todo o tempo observando o tal homem com sua luta elegante. Guardou o livro na bolsa, colocou o sobretudo, o cachecol e se encaminhou para a saída, mas quando chegou no meio do caminhou deu de cara como tal lutador.
– Wow, sorry! – ele disse enquanto a segurava para que não se estatelasse no chão com o esbarrão. A bolsa de Elena não teve a mesma sorte, e algumas coisas se esparramaram pelo chão.
Elena precisou de um momento para se lembrar de que não vivia mais no Brasil. Que Nova York era sua casa há quase dois anos.
– Sorry, please!
– It’s ok! – ela disse sorrindo. – Eu estava distraída, digo... I’m...
– Você é brasileira? – ele disse com um sotaque esquisito que fez Elena rir.
– Yes, my name is Elena.
– I’m Oliver. – eles deram as mãos em um cumprimento.
– Você fala português?
– Um pouco, passei um tempo no Brasil.
– Good! Na verdade você fala muito bem.
– Thanks.
Oliver deu um sorriso que tirou o ar dos pulmões de Elena e aqueles olhos verdes arrancaram um sorriso dela também. Só então se deram conta de que ainda estavam segurando a mão um do outro. Abaixaram-se e começaram a pegar as coisas no chão. Oliver pegou um molho de chaves e começou a se levantar, já que não havia mais coisas para ajuntar. Ele observou o chaveiro antes de entrega-lo.
– Edifício Paradise. Você mora lá também?
É claro! Pensou Elena, foi lá que ela o tinha visto mais cedo.
– Yes, e acho que você também, claro.
– Acabei de me mudar.
– Paradise é um bom lugar.
Disse aquilo pensando que, pelo menos para ela, esse nome não podia estar mais errado.
– Yeap! Aposto que sim.
Aquele sorriso a paralisou por um instante outra vez. João veio com um estalo na mente de Elena.
– Sorry, tenho que ir. – e foi saindo apressada.
– Ok, see you.
Com certeza, ela pensou enquanto saia deixando aquele sorriso para trás.
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