Risadinhas de lado, cara enfiada nos livros, fingir estar prestando atenção no que o professor diz enquanto, na verdade, está tendo uma bela crise existencial. É, mais um dia na escola chegara ao fim.

Não sei se deu para entender, mas eu sou a personificação da inutilidade. Enquanto as pessoas se ocupam com hobbies, estudos, sendo gênios da arte, ou populares, eu era boa no absoluto nada. Mas nada mesmo, Maya? É, nada mesmo. Não sabia uma única coisa boa em mim.

Nas horas vagas, eu brincava com minha gata, ou ficava encarando o teto por longas horas. De vez em quando, pegava um ônibus para a casa do Gabe; lá, a gente encarava o teto por longas horas... Tá, não fazíamos só isso, vai. Também assistíamos a séries. Nem eram as da moda, que todos comentavam. Víamos séries dos anos 90, que todo mundo já terminou ou odeia. Por isso a gente se dava bem: não éramos bons em nada.

Já havia um ano que minha rotina estava assim. Gabe era a minha salvação da depressão. Meus pais estavam sempre trabalhando, não davam a mínima. Meu irmão mais velho estava sempre ocupado com as "namoradas" e festas. E os amigos... Já entendeu.

Mas não se engane. Não sou assim desde sempre. Não nasci sendo "a ovelha negra". É só uma coisa que... Acontece. Pessoas crescem. De repente, fazer parte dos projetos da escola não é mais legal; ou você é obrigada a dar uma festa de debutante com as melhores bebidas e tirar várias fotos, das quais nem lembrará. Acho que essa é a famosa adolescência de que tanto falam. Talvez eu não tenha crescido a tempo.

O Gabe me entendia: ele também não cresceu. O conheci num grupo na internet. Ele queria falar sobre receitas de bolo e levou um belo de um vácuo, já que todos lá só queriam saber de sexo. Eu o respondi. BUM, amigos. Papo vai, papo vem, descobrimos morar em cidades vizinhas, nos conhecemos pessoalmente depois de dois meses. História bonita, não?

Ah, olha eu dando ideia errada de novo. Não é bem que não queríamos saber de sexo ou bebidas. É só que... Não agora, não entre nós, sabe? Não somos tão esquisitos assim. Bem, pelo menos eu acho que não.

Tudo está muito confuso, né? Repeti as coisas demais? Dei muitos detalhes? Desculpa, não foi por querer. Não consigo nem explicar minha história direito! Calma, respira, vamos lá, vamos recomeçar:

Maya, 15, estudante.

...Merda, errei de novo.