Mensagem Diária

2 Os "Esquisitões"


Pera, deixa eu voltar ao foco: onde eu parei, mesmo? Ah, sim, eu tinha terminado um mais um dia de aula. Não tinha exatamente terminado ele, o professor tinha faltado na última aula, então eu poderia ficar vadiando pela escola, ou sair de lá o mais rápido possível. Adivinha qual das duas opções eu escolhi? Pois é, bye-bye, escola.

Joguei meus livros na mochila, coloquei meus fones de ouvidos, enfrentei a multidão narcisista, checando o visual nas câmeras frontais, falando sobre festas, marcando de sair. Nossa, como eu não me encaixava ali. Desviei de algumas pessoas que andavam quase que parando. Ainda tive que atravessar algumas rodinhas, que estavam muito concentradas em seja lá o que eles estavam conversando para poder me dar licença. Passei pela saída, dei uma acenada pra um guarda simpático, rumei para o ponto de ônibus mais perto.

Estávamos naquela transição de outono para inverno, portanto o dia estava bem frio. Tive que parar para pegar minha touca enfiada em algum lugar no meio daquela bagunça que eu chamava de mochila. Meu ônibus chegou. Escuto uma senhorinha que estava ao meu lado me chamar:

—Com licença, a senhorita poderia me ajudar a subir no ônibus?

—Ahn, claro.

Ajudei-a, mas logo em seguida, a escuto de novo:

—Espere, esse aqui vai para o centro?

—Não esse vai para... — mas a senhora não me deixou terminar.

—Eu preciso ir para o centro! — reclamou ela, sacudindo um guarda-chuva que, sinceramente, não sei de onde ela tirou.

A senhora saiu do ônibus lentamente, mas negando qualquer ajuda que ofereceram. Tentei ignorar aquela cena. Reposicionei meus fones, passei a olhar minhas playlists: AaAAaAaaAA, Diferentona, Bad, Frio, PDT, Seven Summers... É, acho que não sou lá tão boa com nomes, também. Escolhi a Bad. Senti o ônibus começar a se movimentar. Avistei um lugar vago, no qual sentei. Fechei os olhos e tentei me concentrar apenas e somente nas músicas que tocavam.

Depois de umas cinco músicas, cheguei em meu ponto. Fui até a casa de Gabe; ficava bem perto do ponto, para falar a verdade. Começo a revirar a mochila novamente, procurando minhas chaves — porque, sim, eu tinha as chaves da casa dele. Ele me deu uma cópia depois daquela vez em que fiquei uns dez minutos esperando a mãe dele vir abrir a porta, já que ele estava "ocupado demais" (ou seja, os fones estavam muito altos e ele estava quase dormindo). Abri a porta, e, para minha surpresa, a cena que vejo é a de mãe de Gabe brigando com a filha caçula, Bia, na sala. Ela me percebeu, logo falando:

—Oi, Maya! Achei que fosse Gabe matando aula também. Está tudo bem? Não deveria estar na escola?

—Está tudo bem sim, espero que não seja incômodo eu ter chegado antes dele. Eu fui liberada mais cedo e... também?

—É, eu tive que voltar pra casa do trabalho. Recebi uma ligação e fiquei sabendo que essa coisinha aqui — deu uma olhada raivosa para Bia — matou aula para vir para casa. Disse que estava doente, e que eu estava indo buscá-la. A escola a liberou! Vou lá agora com ela, para tentar entender o que está acontecendo. Como é que podem liberar uma criança de apenas oito anos de idade assim? Sem saber se eu fui buscá-la?

E então percebi que tinha chegado numa hora errada. Ela começou um discurso enorme sobre não poder confiar na própria filha e que a escola teve uma atitude muito irresponsável. Coisas do tipo. Depois de meia hora de falação, ela puxou Bia pelo braço, arrastou-a até o carro. Bia não parecia muito abalada com isso; bem pelo contrário: ela me deu um sorriso e acenou, toda charmosa. Apreciava essa menina. A criança mais esperta e cara de pau que eu conhecia.

Fui até o quarto de Gabe. Parecia ser meio apertado por causa da bagunça, mas nem era pra tanto. A janela dava pra rua, então nos dias de verão, o quarto ficava extremamente iluminado. E nem falei daquele monte de posteres... Ele tinha começado uma coleção (eu o ajudava). Me joguei na cama, em meio de cobertores amassados e jaquetas que ele deve ter jogado por lá naquela manhã. Ele realmente tinha um problema com isso. Parecia até um ritual: colocava poucas roupas, sentia medo de passar frio; depois colocava muitas roupas e ia tirando peça por peça, jogando na cama até chegar num acordo consigo mesmo. Como sei disso? Péssimas experiências de "ei, vamos sair agora?".

Estava quase dormindo quando escuto a porta se abrir e, logo depois, algum peso sendo atirado na cama. Tal peso também conhecido como Gabe. Ele bufou, passou as mãos na cara, em direção aos cabelos para "ajeitá-los" (como se fosse possível com aquele corte repicado em meio dos cachos encaracolados) e pôs-se a reclamar:

—Não consigo, sinceramente, entender a lógica de baladas. Você fica em pé por horas, escutando músicas que não gosta, pegando gente que não gosta, tirando fotos com pessoas que não gosta para outras pessoas que não gosta poderem curtir e mentir, digo, comentar: "como você é foda!"

—Discutiu com o Rafa de novo?

—O que acha? O viadinho mimado só sabe falar disso. E se eu passo por perto, o ataque já vai ser voltado a mim. É certeza. Isso é bullying, sabe?

—Ah, tadinho do Gabe! — ri — Vamos fazer um documentário para saber como é a vida de uma vítima de bullying.

Só então ele percebeu o quão ridículo aquele discurso era. Continuei:

—Você sabe, as coisas funcionam assim. Só respeita. É como a mãe natureza quer que seja.

—Ah, sei lá, a gente não precisa viver assim.

—Assim como?

—Assim. Sendo excluído desse jeito. Sei que a tua situação também não tá boa...

—Olha aqui, querido...

—Ah, vai me dizer que teria a casa de qualquer outra pessoa para você ir hoje?

—Tá bem, não tem mesmo. Mas o que quer fazer?

—Socializar.

—Quer tentar ir em alguma balada de novo?

—Não, não. Aquilo foi um fracasso.

Realmente foi um fracasso. Chegamos lá, nos ofereceram bebidas, a gente não sabia se teria que pagar ou não, mas bebemos. Era um treco horrível, só então entendemos que não teríamos que pagar. E também o porquê de não pagarmos. Também teve a menina com quem o Gabe tentou conversar, mas ela já foi logo se esfregando e tirando foto. Ou aquele cara que me disse coisas nojentas que nunca vou esquecer. Se esse tipo de coisa é normal, talvez sejamos realmente "esquisitões" por não gostar disso.

—Acho que quando fomos até a balada, começamos muito alto. A gente tem que pensar mais baixo. — Gabe sugeriu.

—Tipo em quê?

—Ahn... Como a gente se conheceu?

—Internet.

—E esse é um bom jeito de começar. A gente conhece alguém, desenvolve e tal...

—Ah, não sei...

—Ei, deu certo com a gente. Por que não daria de novo?

Era um bom argumento, não tinha como discordar. Se qualquer coisa desse errado, é só internet. Nada demais. Bloqueamos a pessoa e fim de conversa. Decidimos começar então lá pelo grupo onde nos conhecemos. De vez em quando, víamos algumas pessoas pedindo números de celulares para poderem discutir tais assuntos específicos. Pensamos em fazer algo do tipo, procurar por essas pessoas.

—Mas, ei... E se a gente não souber o que falar sobre o assunto? — indaguei.

—Ah, a gente pesquisa. Google tá aí pra isso, né. — Gabe encolheu os ombros.

—Então a gente vai mentir pra eles?

—Não vai ser exatamente mentir. Até porque se a gente pesquisar sobre o assunto, a gente vai aprender sobre ele, certo? O conhecimento é real.

Sei que parece ser besteira se preocupar com esse tipo de coisa — até porque queríamos só algumas conversinhas para nos soltarmos — mas eu sempre fico nervosa com mentiras. São muito facilmente desmascaradas. Você precisa ser muito bom para conseguir elaborar uma mentira acreditável. Pelo menos, eu acho isso.

Dá pra ver que fico nervosa facilmente, né? Nunca sei o que fazer. Talvez eu precise de um psicólogo. Ou talvez eu esteja fazendo dramas demais agora. Ah, eu não sei. Já não aguentava mais rolar a página procurando por algum número de celular. Até que levo um susto; Gabe gritou:

—AQUI, ACHEI! UMA MENINA, MELISSA!

—Opa e ela quer falar sobre o quê?

—Ela quer fazer um grupo sobre games! Disso eu manjo, vai, não preciso nem pesquisar.

Gabe foi logo pegando o celular, anotando o número da tal Melissa. Meu Deus, agora era pra valer.

—Nossa, nunca senti um frio na barriga tão grande antes de falar com alguém... — falei — Desde quando me tornei tão antissocial?

—Desde sempre, ué. Desde que te conheço, pelo menos. Era tão isolada, tadinha. — caçoou.

—Tá. Só chama ela logo, vai.