Mensagem Diária
4 Músicas de Distância
Seis da manhã. Alarme do celular tocando uma música do Alvin e Os Esquilos (me deixa, tive uma boa infância). Esqueci a cortina aberta, acordei com a luz do dia nublado entrando no meu quarto. Não tão nublado, aliás. Parecia que iria fazer sol. Prendi parte meus cabelos num rabo alto (eram curtos e lisos, portanto precisava de um bom tempo pra conseguir um... meio rabo). Tomei um banho, vesti uma camiseta com a estampa da banda Red Hot Chilli Peppers, um jeans, um par de all stars e uma jaqueta verde escura, comi, escovei os dentes, saí de casa.
Essa era minha rotina. Não muito diferente da maioria das pessoas, eu acho. Acordava com cara de mendiga, olheiras do tamanho de sei lá o quê, andando como um zumbi. Isso não parece tão anormal em mim. A única anormalidade, pelo jeito, era não passar horas escondendo olheiras, escolhendo roupas, ou passando cremes hidratantes sem fim no cabelo.Indo a pé da minha casa até a escola, deveriam ser umas três músicas de distância. Sim, sou do tipo que mede tempo e distância em músicas; é muito mais prático, talvez até mais preciso do que os padrões de medidas normais. Naquela manhã, a playlist escolhida era a Diferentona. Juro que não me lembro o motivo para eu ter escolhido devido nome para devida playlist.Chegando na escola, tive que guardar meus fones de ouvidos na mochila. Demorou um pouco, já que o zíper estava enganchando. Algum ser, com muita pressa, esbarrou em mim, derrubando minha mochila (graças a Deus, ainda fechada) no chão. Me abaixei para pegá-la. Seria uma ótima hora para alguma daquelas cenas clichês em que o homem da minha vida aparece para me ajudar a juntar os livros (no caso, carregar minha mochila), ou talvez, a menina malvada e suas seguidoras aparecerem para me humilhar. Mas é a minha vida, né. Acha mesmo que acontece qualquer tipo de coisa interessante por aqui?A primeira aula era de física. Foi útil para uma boa produção de desenhos. Que pena que eles estão ocupando todo o espaço para preencher com respostas... É, pelo jeito, não poderei responder. Que coisa, não? Ah, depois eu estudo. Minha mente não estava lá para a escola naquele dia; estava completamente focada em Lua. Como raios eu faria para me transformar nela? Só por aquela pequena descrição, ela vive muito mais do que eu. Não tenho nem experiências para comparar! Nem sei como me comportar numa balada. E o jeito que falei? Eventos? Que tipo de eventos? Não sei nem que tipo de eventos tem por aqui.Intervalo. Uau, já se passaram três aulas? Como é que os professores não percebem que não estou captando nenhuma palavra dita? Depois de tanto devaneio, tentando planejar como seria a personalidade de Lua, percebi uma coisa: não conhecia Mateus. Ele poderia muito bem ser um fake ou um estranho como nós ou algo do tipo. Imagina só: o cara é como a gente, mas estamos fingindo ser outras pessoas para poder impressioná-lo.Decidi abrir seu perfil, analisei sua foto. Ele era bem gato. Não num padrão comum, era gato de outra maneira. Como aquelas pessoas que a gente vê na internet, mas sabe que não existe. Seus cabelos castanhos escuros eram encaracolados, mas o corte formava um topete. Sua pele era extremamente clara. Olhos também castanhos escuros. Seus lábios eram muito cheios. Na foto, ele usava uma camisa xadrez vermelha e preta, um colar-cordão com uma palheta e também tinha um piercing preto no septo.Olhei em volta. Absolutamente nenhum menino da minha escola era sequer comparável com Mateus. Todos faziam o mesmo tipinho de... uh... exatas? Exatas. Só que mais descolados. Voltei ao perfil de Mateus; queria descobrir tudo o que pudesse sobre ele. Escutei uma voz atrás de mim:—Hahaha, olha ela, tadinha, tá excluída de novo...—Deixa ela, deve estar falando com o amiguinho virtual.—Não era imaginário?Algumas risadas seguiram. Eram as amigas de Cris. Elas pareciam estar tentando ser discretas. Só tentando, mesmo. Não mexiam comigo; outra vez: nada lá muito interessante acontecia comigo. Mas fofocas me irritavam um pouco. Se a vida fosse um filme, elas seriam as próprias Meninas Malvadas. Só que em vez de uma loira como líder, teriam uma falsa "ruiva" — que na verdade, tingia as longas madeixas de vermelho cereja, mas se chamava de ruiva — que usava mais roupas swag do que saltos e saias. A não ser que fosse pra balada. Aí ela tirava uns saltos do tamanho da própria cabeça e saias do tamanho das próprias mãos.Apenas me virei, olhei para elas e dei um sorriso forçado, meio que indicando ter ouvido a conversa. Escutei uma delas sussurrar:—Ih, acho que ela quer socializar.Vieram para perto de mim, com sorrisos tão falsos quanto notas de três reais.—E aí, May? — disse Cris. Me controlei para não rir do apelido. Grande Cibelle. — Como estão as coisas? Ainda falando com... Como era o nome dele? Rafael, Daniel...—Gabriel. Sim, sim. Ele é meu melhor amigo. E você, Cris?—Ah, na mesma de sempre. Sabe como é, né?—Indo a baladas, passando o rodo...—Exatamente. — concluíra com um sorriso estampado na cara — Nunca te vi em nenhuma... Não costuma ir?—Não é lá minha praia, né...—Uhum. Se quiser sair desse mundinho, te dou carona esse fim de semana. Vai ter um show de rap no centro da cidade. Como é o nome da banda mesmo, Anna?
—Acho que é Cone alguma coisa...—Fica pra próxima. — cortei.—Ah, imaginei que não estivesse pronta ainda pra esse tipo de coisa. — Cris riu, enquanto se retirava.Me impressionava com tamanha falsiade daquela menina. Não sei como ela não morria engasgada com o próprio veneno. Nós já fomos amigas, sabe? Mas é aquilo que já disse. Pessoas crescem e mudam. Ela seguiu o caminho dela, eu segui o meu. Estou bem com isso. Juro que estou. Mas que eu gostaria de dar uns tapas nela quando age assim, eu gostaria. Bem no meio da fuça... Acho que me empolguei um pouco.O resto do dia não foi nada interessante. Duas aulas de filme para um trabalho de história. A última foi de matemática; fizemos um teste. O dia havia esquentado. Fui guardar a jaqueta na mochila, mas as lutas para abrir e fechar durante o dia foram tantas, que a preguiça foi maior; decidi apenas pendurar a jaqueta nela. Desacelerei o passo; já estava na quarta música quando cheguei em casa.Quando estava prestes a destrancar a porta, ela se abriu. Quem a abriu foi meu irmão, Oliver. Ele estava abraçando uma menina que eu não conhecia, parecia estar cansado e... Careca? Meu irmão costumava ter capelos abaixo do ombro até ontem à noite...—Belo look. — debochei.—Cala a boca.Ele tirou as chaves do carro do bolso, ainda com o outro braço em volta da loira. Enquanto andava, gritou:—Seu namoradinho tá aí!Entrei em casa, tranquei a porta. Subi para meu quarto. Me deparo com um Gabe cobrindo a cabeça com um travesseiro.—Gabe? — Dizia, enquanto fechava a porta.Sem reação. Estranhei. Joguei minhas coisas na cadeira; mas, ué, cadê am minha jaqueta? Logo voltei para meu foco: arranquei o travesseiro de cima do Gabe. Aí sim ele me percebeu. Estava com os fones de ouvido bem altos; a ponto de quem está perto saber que ele estava escutando The Less I Know The Better do Tame Impala. Tirou os fones, pausou a música. Depois disso, ele me deu uma olhada indescritível. Como se estivesse dizendo "pelo amor de Deus, ainda bem que acabou, eu já não aguentava mais, por favor, me diz que não vai acontecer de novo".—Eles fizeram muito barulho? — perguntei.—Barulho? Aquela menina não gemia, ela gritava! Não, não. Ela berrava! — comecei a rir com as falas de Gabe — Seu irmão também. Acho que nunca escutei coisa tão horrível. Aquilo não é normal, Maya. Já vi gente escandalosa na cama, mas aqueles dois juntos...—Pelo menos foram embora.—E tomara que não voltem, também.—É o Oliver. Ele vai voltar amanhã de manhã, com outra menina. Ah, e... Alguma pista sobre o cabelo dele?—Vai no banheiro de lá de baixo. Agora.Encarei o Gabe como "você tá falando sério?". Ele me respondeu com uma olhada de "estou sim". Amo esse nível de amizade tão alto que você consegue se comunicar com apenas olhares... Obedeci. Vi no banheiro, boa parte das antigas mechas de meu irmão juntas num rabo dentro de um saco plástico. O resto estava em grupos menores, ou espalhado em cima da pia. Também tinham coisas como tesouras e uma máquina de cortar cabelo jogadas por lá.Voltei para o quarto, querendo explicações. Gabe estava revirando sua mochila.—Mas o que?—ACHEI! —O que?—Aqui, um panfleto de uma instituição de câncer. — ele me estendeu a mão para entregar o panfleto — Eu já estava aqui quando chegaram. Estava na sala, para ser exato. A hipponga viu meu cabelo e na mesma hora me entregou esse panfleto, começou a falar sem parar sobre doação de cabelo e como era legal e que seu irmão ia doar o dele. Falou que eu deveria doar também, porque eu já tenho o suficiente.—Meu irmão sendo caridoso? — Ri.—É, né. Acho que pessoas mudam.—Para comer outras, claro que mudam.—Senta aqui, vamos focar em Lua e Logan.Me joguei na cama e peguei meu celular.—Vamos começar a criar. — disse, enquanto abria a conversa com Mateus.
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