Encarei a tela daquele celular durante longos minutos. Na minha cabeça se passava um completo branco. Logo escuto a voz de Gabe:

—E aí? Não vai escrever nada, não?

—Não consigo pensar em nada!

—Pelo amor dos deuses, achei que tinha algo em mente!

—Ah, se acha que é tão fácil, então tenta você!

Antes que eu me desse conta, Gabe arrancara o celular de minhas mãos. Para minha surpresa, passou a digitar freneticamente.

—Como... — antes que eu pudesse terminar minha pergunta, Gabe falou, sem parar de teclar:

—Fiquei pensando naquilo que disse sobre mentiras terem de ser bem elaboradas. Passei o dia todo tentando achar uma história para nós. Não prestei atenção nenhuma na aula. Bom, graças a você, vou ter que me matar de estudar para a prova de Biologia. Perdi a revisão e agora eu vou me foder de vez.

"Oi, Teus, como está? Eu queria falar um pouco mais sobre mim hoje, meu dia não foi muito movimentado. Até porque terminei a escola ano passado e ainda não achei nada para fazer da vida ainda. Passei o dia todo praticamente dormindo, daqui a pouco saio de casa. Mas bem, vamos começar do começo, certo? Não conheço meu pai... E minha mãe também não o conhece. Nós nunca nos demos muito bem. Ela falava sobre como destruí os sonhos dela todos de uma vez só. Então, para parar de dar trabalho para ela, me emancipei logo com meus 16 anos. Eu trabalhava com uns bicos aqui e ali. Estou nessas até hoje, para falar a verdade. Lembra daquele meu amigo Logan? Ele trabalha numa cafeteria, o que é ótimo; aliás, graças a isso eu tenho uns belos descontos por lá. Mas voltando, a gente racha um ap no centro da cidade, e... Eu não sei mais o que dizer. Bom, me fale um pouco sobre você!"

—Agora a gente vê qual o padrão dele. Depois a gente só segue.

—Você planejou tudo isso mesmo, Gabe?

—Se planejei? ESCREVI UNS TRINTA RASCUNHOS DISSO! Meu caderno de geografia já era!

—Te compro um novo depois... Eita, ele tá digitando!

Encaramos a tela do celular por um instante. Não é possível que alguém seja capaz de digitar tão rápido... A não ser que seja uma máquina feita especialmente para isso. Não demorou muito para recebermos sua bíblia; digo, resposta.

"Nossa, Lua, isso deve ter sido bem difícil para você... Eu também não sei ainda o que fazer. 19 anos nas costas e ainda vivo do dinheiro dos pais! Mas claro, não vivo com eles. Moro numa casa com alguns amigos. Sem aluguel! Completamente nossa ^^ Bom, por em quanto eu estou desempregado, então eu me viro aqui em casa como o oficial procurador de festas... Talvez a gente se esbarre por aí! Seria ótimo te encontrar pessoalmente. Se quiser, traga o Logan! Quanto mais, melhor."

E agora? O que a gente responderia? O cara queria nos conhecer! Não temos nem cara de 17! Mas Gabe estava ágil, o respondia rapidamente:

"Talvez... Depois a gente marca! Agora, me dê licença, que eu vou dar uma passada na cafeteria."

Fomos respondidos com um emoji piscando. Pera... O quê? Ele estava dando em cima de mim? A foto de perfil era realmente minha, então não podia ser... A não ser que fosse!

—Uuuuuuuh, emoji piscando! Não entendo muito de socialização online, mas até onde sei, quer dizer que ele tá afim, hein? — Gabe zoava.

—Ah, para com isso! Não deve ser assim...

—Aposto que ele te achou bonita... MEU DEUS, MAYA! ALGUÉM TE ACHOU BONITA!

—Para com isso, babaca!

Ele gargalhava sem parar. Eu estava vermelha, ele deveria estar achando aquilo hilário. Alguém afim de mim? Não parece uma coisa nem um pouco realista. E por que eu estava dando tanta bola pra isso? Costumava não me importar muito com sentimentos alheios. Talvez seja só a adrenalina de estar mentindo... Nossa, como odeio mentir.

Gabe sugeriu que realmente fôssemos a um café dali. Sei lá, não me pareceu uma má ideia. Fomos a uma cafeteria perto de casa, logo ali, no fim da rua. Não era muito movimentada, ou moderna... Nem bonita. Mas era uma cafeteria e esse já era um bom começo. Ele sacou o livro de biologia de sua mochila enquanto me ordenava:

—Bom, já que me fez pensar em tudo aquilo, me ensine tudo o que sabe sobre biologia. Vai.

Acontece que... eu não sabia nada de biologia. É a minha pior matéria. Não entendo um Aa. Sempre fico de recuperação. E nem sei porquê ele estava tão preocupado com essa prova... Ele é nerd! Sempre vai bem. Ah, parece que achei minha resposta. Deixa quieto.

Comecei a tentar explicar aquela matéria doida. Mesmo que eu provavelmente estivesse errando tudo, Gabe agia como se eu tivesse completa razão. Pedimos dois expressos para acordar e estudar mais. Só que, pelo amor de Deus, Zeus e Iemanjá, que coisa horrível. Não consigo nem beber café, imagine ácool! Vou ter que escapar daquele encontro com o Mateus o máximo que eu conseguir.

—Que gosto horrível! — reclamei.

—Talvez a gente tenha que começar com algo mais leve. Sei que já está acostumada com café com leite. Que tal capuccino?

Pedimos. Aqui uma coisa sobre capuccinos: é muito caro, mas muito, muito bom. Por mais que aquela garçonete mal encarada tenha derramado metade no caminho do balcão até nossa mesa, valeu cada centavo.

Passamos mais algumas horas por ali, até o dia começar a escurecer. A garçonete já estava quase expulsando a gente de lá. Agora entendi o porquê daquele lugar ser tão vazio. Bom, além dos motivos antes listados. Gabe pegou um ônibus de volta para sua casa, e eu caminhei de volta para a minha.

Não foi um bom momento pra chegar em casa... De novo. Parece que sempre estou chegando em cenas ruins. Não importa o lugar; acho que eu atraio esse tipo de coisa. Minha mãe estava segurando os tufos de cabelo do meu irmão. Gritava tanto, que dava para ver cada uma de suas veias na testa. Não consegui entender muito, já que, por algum motivo, tinha um rock, daqueles bem pesados, tocando muito alto. A ponto de estourar as janelas. E eu não sabia nem de onde estava vindo.

Ignorei aquela cena. Subi correndo para meu quarto antes que alguém me notasse. Arranquei minhas roupas, as joguei no chão, e me lancei na cama. Peguei meus fones de ouvido, tocando Happy Together a toda altura, e cobri minha cabeça com um travesseiro; na tentativa (bem sucedida) de abafar toda aquela barulheira. Agora tudo o que eu sentia era o conforto das minhas cobertas, o ânimo da minha conversa com Mateus, e aquela delícia de música. Não consegui nem criar coragem para ir jantar, ou me vestir. Dormi ali mesmo.

Notas finais
Oi gente! Tá, duas coisas: 1- sei que ninguém tá realmente acompanhando essa história, mas vou dar recado mesmo assim (nível recorde de solidão) 2- demorei muito para postar isso aqui, mas pelo menos, eu lembrei que estava escrevendo algo! Bom, espero que gostem, acho que sai mais um capítulo ainda hoje, porque... não sou boa com programações. Beijão.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.