Mensagem Diária

3 Diários-Humanos


Gabe abriu a conversa com a tal Melissa. Passou alguns segundos encarando a tela. Percebi que ele estava tremendo um pouco. Virou pra mim, com os olhos arregalados:

—O que eu falo?

—Haha, depois eu que sou a antissocial, né?

—Tá bom, eu sou antissocial! Feliz? O que eu falo?

Era uma das cenas mais estranhamente desconfortáveis que já vivi. E olha que já vivi MUITAS dessas. Tomei o celular da mão dele e comecei a escrever:

"Oi, Melissa. Meu nome é Gabriel, mas pode me chamar de Gabe. Eu vi seu post lá no grupo. Adoraria conversar sobre games contigo!"

Encaramos a tela por um tempo, num silêncio constrangedor, porém a ansiedade era maior. A menina visualizou a mensagem. Escutei Gabe dar um suspiro, meio aliviado. Digitando... digitando, digitando... Parou. Digitando... E finalmente:

"Oii gato tm alguma ft?" (insira aqui vários emojis sem nenhum sentido)

Nos entrelhamos. Gabe falou:

—Me dá o celular.

Colocou na câmera frontal, penteou os cachos castanhos claros com os dedos, deu um sorriso simpático e... Click! Selfie tirada e enviada com sucesso até Melissa. Visualizou. Não começou a digitar. Gabe voltou a ficar nervoso:

—Será que eu pareço desesperado na foto?

—Não, acho que parece bem simpático.

—E se ela me achou feio?

Vou ser sincera aqui. Gabe era a pessoa mais bonita do mundo? Não. A mais charmosa? Não. Ele era bem desajeitado, mas eu o achava adorável. Era mais alto que eu, seu corpo não era tão magro, os cabelos eram uma fofura só, olhos cor de mel. Era bonitinho. Fofinho. Aquele tipo de pessoa que você olha e solta um "awn" sem querer. Pena que esse estilo não é o tipo que a maioria das meninas quer. Elas querem caras mais sarados, com aqueles topetes e tal, que se vistam bem, deem aquele sorriso de lado. Não posso julgá-las, também preferia caras assim. O problema é que ainda não tinha achado nenhum cara assim que fosse legal.

—Claro que te achou feio. Isso é certeza. — Concluí, com um sorriso forçado de orelha a orelha.

Ele retribuiu o sorriso forçado e voltou a se concentrar na tela do celular. Finalmente, a menina o respondeu:

"Q tal tentar algo + picante?" (mais emojis sem sentido)

Ele fez cara de confuso. O vi digitar:

"Picante? Como, exatamente?"

Visualizado. Não demorou nem um minuto para Melissa contribuir com uma foto de seus peitos espremidos à fora, com a legenda de "q tal assim? hehe" (outros emojis... aqui entre nós, pra quê tantos?). Dessa vez, foi Gabe quem ignorou. Bloqueou o celular e jogou-o na cama. Cobriu os olhos enquanto me perguntava:

—Ela nem me conhecia e queria um nude? Sério isso? UM NUDE?

—É, acho que é normal, né?

—Não... Não pode ser normal.

—Sei lá, você chamou uma menina que queria conversar sobre "games" e que, para chamar atenção pra isso, postou uma seifie semi nua com um joystick em mãos. Acho que era de se esperar.

Gabe pegou o celular novamente para poder bloquear a menina e tornar ao grupo. Realmente, fomos extremamente ingênuos.

—Vou achar alguém como a gente, Maya. Juro que vou.

—Uau, quanto drama por causa de uns peitinhos. Até parece que nem vê esses todos os dias na internet. — Fiz uma cara maliciosa, a qual ele contribuiu, mas logo retornou a procurar.

—Você entendeu o que está acontecendo aqui.

Bons tempos de pesquisa. Ele em seu celular, eu no computador.

—Grupo de sexo, grupo de putaria, grupo de drogas, grupo de pegação, grupo de... masturbação. Eles conversam sobre formas de se masturbar? — me perguntou.

—Quer entrar pra ver? — respondi, ironicamente.

Passamos a tarde toda procurando algum grupo com o qual nos identificássemos. Nada. Nadica. Nenhum ser sequer. Somos tão esquisitos assim? Todos os grupos falavam especificamente sobre os assuntos que mais queríamos evitar. Não é que não gostássemos de falar disso. Falávamos entre nós. Mas não achávamos normal a intimidade forçada. E, também, nossa falta de experiência era grande.

O dia já estava escurecendo. Para variar, nossa missão estava sendo um completo fracasso. Gabe já tinha desistido de vez. Ligara o som num volume consideravelmente explosivo. Estávamos ouvindo Breezeblocks, do alt-J. Quero dizer, alt-J e um belo cover desafinado de Gabe. Eu, não diferente dele, também já havia desistido. Estava vagando nesse maravilhoso mundo, também conhecido como internet. Já estava quase levantando da cadeira, me arrumando para voltar para casa, quando vi:

—MEU DEUS, GABE, LEVANTA!

Ele não tinha me escutado. Pulei da cadeira, me joguei na cama, rolei para cima dele, comecei a sacudir seus ombros.

—GABE, DESLIGA O SOM, PRESTA ATENÇÃO AQUI, POR FAVOR.

Ele pegou o controle, todo desajeitado, já que eu ainda o sacudia. Diminuira o volume da música.

—O que foi? O que foi? — falava, atordoado.

—Eu achei! Eu achei uma maneira de conversarmos com alguém!

—Qual?

—Vem cá, olha isso.

Era uma publicação sugerida daquele mesmo grupo em que nos conhecemos. Dizia ser uma inspiração no livro As Vantagens de Ser Invisível. A proposta era a seguinte: você enviava seu número nos comentários se quisesse ser o diário de alguém. A pessoa que te chamasse, teria que te mandar mensagens todos os dias, te usando como uma espécie de diário, começando com um texto de apresentação. Nesse texto, deveria-se também dar ou não a permissão do seu diário-humano te aconselhar com seus problemas. O nome do da brincadeira era Mensagem Diária.

—E o que a gente faz? — Gabe estava entusiasmado — Envia nossos números e espera que alguém nos chame?

—Acho que podemos deixar seu número aí... Mas não podemos esperar nenhum milagre, certo?

Comecei a rolar a página e salvar números em meu celular. Salvei três números: o de Cibelle, Lucas e Mateus. Em seguida, colocamos o número de Gabe nos comentários. Ele me encarava agora, com os olhos brilhando.

—E aí?

—E aí o que, louco?

—Não vai chamar ninguém?

—Ahn, isso, ok, vamos lá.

Comecei por Lucas:

"Oi, Lucas, tudo bom? Meu nome é Maya, tenho 15 anos. Vi seu número pra Mensagem Diária. Se não se importar, eu gostaria de te usar de diário. Aliás, pode sim opinar nos meus desabafos. Pode trocar ideia sim. Quero conversar mesmo."

Ele, surpreendentemente, não demorou tanto para olhar a mensagem e respondê-la. Cheguei a me assustar.

—Acho que agora vai, hein? — Gabe sorria de lado, agora.

"Oiê Maya. Quem tá falando aqui é a namorada do Lucas. Ele n tá interessado em conversa ctg n. Passar bem."

—Ops... — sussurrei.

—Vamos lá, tenta a Cibelle.

"Alô, Cibelle, como vai? Sou Maya, 15. Vi teu número por aí, queria te usar de diário. Tudo bem? Ah, e pode opinar sim, tô afim de trocar ideia ^^"

Essa demorou um pouco a mais para me responder.

"Oin, May :3 (emojis inexplicáveis seguiam) Pood mim uza de diarioo siiim (mais emojis inexplicáveis)... quantoo a trocaah ideiaaaa.... eu num so lés, bb, mim disculpa"

—Que português horrível... — reclamou Gabe.

—Ela acha que sou lésbica porque quero conversar com ela? E sério, isso?

—Eita, ela está escrevendo de novo, olha aí!

"mais, ó eu too abertaa a discobertaaz' hehe (milhões de emojis inexplicáveis) qtos aninhos linda??"

—Agora ela está dando em cima de mim? EU SÓ FALEI QUE QUERIA CONVERSAR!

—Ah, queríamos alguém pra conversar e achamos, ué. Vira lésbica aí.

—Gabe, você não entende nada sobre homossexualidade, né?

—Não. Me desculpa, não sou culto o suficiente.

—Cala a boquinha, migo. Vou explicar as coisas pra ela.

"Olha, acho que você não entendeu direito. Por trocar ideia, eu quis dizer só conversar. Eu só queria conhecer gente nova, fazer amizades, talvez. Entende?"

Visualizado. Ela demorou um pouco mais para responder essa.

"ah siim hehe' (menos emojis inexplicáveis)"

—E agora, o que eu falo?

—Ah, pergunta sobre ela... Pergunta qual o livro favorito dela.

"Bom... me fale de você, Cibelle. Qual o seu livro favorito?"

Dessa vez, ficamos dez minutos encarando a tela de celular. Ela visualizou. Esperamos mais dez.

—É, "May", não vai ser dessa vez.

—Meu Deus do céu, somos tão chatos assim? Pelo menos nós tentamos...

—Não acredito que desperdiçamos um dia todo procurando alguém pra conversar...

—Bem, conseguimos matar o tempo... Foi bom pra isso.

—NÃO! Não podemos simplesmente aceitar o fato de termos desperdiçado um dia!

—Deixa de drama, GAYbe. Nós sempre desperdiçamos nossos dias. Qual vai ser a diferença de ter desperdiçado mais um?

—A diferença é que se a gente aceitar isso, a gente nunca vai mudar! Não quero ser inútil pra sempre, Maya.

—Uau, já pensou em fazer teatro? Drama é com você mesmo.

—Por favor, me escuta. Só hoje. Vamos tentar com o último contato. Se não der certo, eu paro de insistir.

—Tá bem, tá bem. Mas só se você me deixar fazer do meu jeito.

—Achei que já tinha feito do seu jeito...

—É, realmente. Então não vamos fazer do meu jeito. Vamos fazer do jeito... Lua.

—Lua?

Nem o respondi. Simplesmente desbloqueei meu celular novamente e abri a conversa com Mateus.

"Hey, Teus. Posso te chamar assim? Vi seu número pro Mensagem Diária. Sou Luara, mas meus amigos costumam me chamar de Lua. Tenho 17 aninhos e amo tirar fotos, beber café, ir a bares e em eventos no centro da cidade com meu melhor amigo, Logan. Minha vida anda um tanto agitada ultimamente, senti que precisava desabafar com alguém. Não desabafo com Logan porque não quero envolvê-lo demais. Ele já tem os problemas dele. Mas quero os conselhos de amigo, então sinta-se à vontade para opinar em tudo o que te falar! ^^ Espero que nos demos bem."

Enviado.

—Uou. É uma versão muito mais simpática e tagarela sua. Bares? Logan?

—É. Vamos levar isso a sério. A partir de agora, teu nome é Logan.

—Ah, se você diz... — riu-se — Ei, não é você a que fica toda nervosa por mentir?

—Mentiras podem ser facilmente pegas. A não ser que sejam grandes e bem elaboradas. Passamos boas horas olhando para o teto, acho que temos tempo para elaborar uma boa por aqui. Além do mais, quanto mais gente envolvida, mais acreditável fica, não é, Logan?

Ouvimos o toque de meu celular. Mateus respondera:

"Heey, Lua! (espero que eu possa te chamar assim também) Pode me chamar de Teus, sim :D Adoraria ser teu diário, querida. Desabafe o quanto quiser. Depois me conte mais a respeito desse tal de Logan, também. Por que ele não poderia te aconselhar? Beijão do Teus."

—Pelo menos o português desse aí é bom.

—Ah, senta lá, senhor gramático. Vou responder ele...

"Ok! Então façamos assim: amanhã eu começo a conversar contigo. Depois disso, todo dia vou tentar te chamar, pode ser?"

"Topei!" (seguido de um emoji mais aceitável)

—Ele sabe usar emojis! A gente pode se casar com ele, "May"?

—Tadinha da Cibelle, para de zoar ela, bobo. — dizia, enquanto juntava minhas coisas — Agora, me dê licença, que preciso ir.

—Tá bem, tá bem. Tchau, viada.

—Tchauzinho.

A mãe dele me ofereceu uma carona pra casa. Eu aceitei. Mesmo tendo ficado sentada o dia todo, eu me sentia exausta. O cúmulo do sedentarismo? Eu mesma. Cheguei em casa pouco antes de todos. Alimentei minha gata, subi para o meu quarto, me tranquei e, por fim, me joguei na minha cama. Uau. Acabei de passar um dia inteiro tentando conversar com alguém online? Sério mesmo? Agora é oficial: devo estar com sérios problemas psicológicos.