Mensageiros Do Apocalipse
3 Luxuria e Vaidade
Os Buffon corriam pelas ruas da bela Itália. O mais velho usava uma jaqueta de couro por cima de uma camisa social branca de mangas compridas, calça jeans e tênis. Seu cabelo louro era raspado do lado, assim todo o cabelo caía para o lado esquerdo. Tinha uma argola na orelha direita e carregava uma mochila preta nas costas. Logo atrás dele, vinha correndo uma menina de aparentemente 16 anos. Esta usava uma regata cor de rosa e um blazer preto curto, botas de cano alto estavam por cima da calça jeans justa, argolas grandes nas orelhas e muitas pulseiras. Seu rosto era levemente maquiado e seu cabelo louro era liso e comprido, o sonho de consumo de mais da metade da população feminina mundial. Os dois possuíam olhos verdes idênticos, o que entregava que eram irmãos.
Ao passar em frente a uma loja cuja televisão estava ligada, a garota pára, ofegante.
– Eva? — Pergunta o garoto, voltando até a irmã.
– Olha Pietro. — Diz se referindo a tevê enquanto ajeita a mochila pesada em suas costas.
Na tevê, uma moça — do jornal da tarde — faz um comunicado internacional de extrema importância:
"Hoje foi oficialmente confirmado pela secretaria da saúde a informação passada a uma semana atrás." — Nesse momento a imagem mudou para um homem moreno de aproximadamente 30 anos. Embaixo havia seu nome, Jean Williams. Ele começou a falar e várias pessoas nas ruas pararam para ouvir a notícia. — "A pouco mais de uma semana começamos a notar que muitas crianças estavam nascendo mortas. Começamos a considerar uma epidemia, mas..." — Ele hesitou por segundo — "Está oficialmente confirmado que há mais de uma semana nenhuma criança nasceu com vida em todo o mundo." — Todos se espantaram, algumas pessoas suprimiram um grito colocando a mão em frente a boca. Os irmãos Buffon se olharam. — "O governo tenta entender o que está acontecendo, mas não há nenhuma pista ainda..."
– Vamos logo. — Pietro pegou a irmã pela mão e os dois começaram a correr novamente, sem ao menos esperar a apresentadora do jornal terminar de falar.
Os dois se dirigiram ao aeroporto de Veneza.
–
– Você não pode ir mais rápido com isso? — Pergunta Yata, impaciente. Apesar de preguiçoso, ficava entediado com facilidade.
– Não, não dá. — Respondeu Hikaru secamente. — Agora fica na tua aí.
Eram quase sete horas da noite. Hikaru escrevia para seus pais, explicando o por que de estar indo embora sem se despedir, e pedindo que não se preocupassem com ela, pois estaria bem. Terminada a carta, ela deixou-a em cima da mesa, pegou sua mochila e junto de Yata foi embora.
Uns minutos de silêncio se seguiram na sua caminhada.
– Por que mesmo que o ponto de encontro não é na Itália? — Perguntou Yata.
– Por que quando o Número 1 soube que eu estava no Brasil, disse que queria conhecer as garotas daqui. — Hikaru deu de ombros — E pra mim é melhor assim.
– E por que mesmo que tem que ser você?
– Por que eu sou o Número 2. — Respondeu brava.
– Sim, a Gula. Eu nem teria percebido se não houvessem me dito. — Disse Yata irônico.
A garota, já irritada parou e o encarou.
– E você é a preguiça. Mas infelizmente eu não posso dizer o mesmo. — Sorriu sarcástica, e recomeçou a andar, deixando-o para trás. Definitivamente esse garoto a irritava.
Os sete escolhidos, como eram chamados, eram na verdade sete anjos renegados escolhidos dentre vários. Cada um deles havia sido exilado por cometer um dos 7 pecados capitais. Hikaru era a Gula, Yata era a Preguiça. Ainda faltavam os outros cinco.
Após mais ou menos uma hora de ônibus, os dois chegaram há um hotel simples em Florianópolis. Foram para uma suíte grande com dois beliches e um sofá. Cada um se instalou em uma cama.
– O que vamos fazer até os outros chegarem? — Perguntou Yata deitado de costas no sofá.
– Não sei direto. Acho que vou ver se tem como eu arranjar uma bíblia ou qualquer livro que fale sobre o Apocalipse. Eu não gosto muito de estudar — ela deu de ombros — mas é o que vou fazer.
O garoto a observou.
– Será que aquele lance das pestes, ratos, moscas e coisas do tipo vai ser trabalho nosso?
Hikaru suspirou.
– Não sei. Espero que não. Eu odeio ratos, moscas e coisas do tipo. — Pegou o celular que estava na mochila e colocou no bolso da calça. — Você tem meu número, certo? Qualquer coisa ligue. — Deu as costas e foi em direção a porta.
– Não acho que eu vá precisar de você. — resmungou para si mesmo. A garota ouviu, mas simplesmente ignorou.
Após Hikaru sair — "Aquela chata" como Yata resolveu a chamar mentalmente, — o tédio alcançou um nível tão extremo que acabou dormindo.
Ao chegar e ver o garoto dormindo resolveu deixá-lo assim. Mas era uma situação realmente tentadora. Vê-lo ali jogado no sofá, dormindo de forma tão inocente, com baba escorrendo pelo canto da boca, não resistiu. Se aproximou de seu rosto, silenciosamente, com uma caneta preta nas mãos, e começou uma verdadeira "obra de arte" ali.
Por volta das dez horas da noite, Yata acordou. Sentou-se, esfregando os olhos.
– Eu não sabia que a Bela Adormecida babava enquanto dormia. — Disse Hikaru, que estava sentada no chão encostada em sua cama com um grande livro nas mãos.
– Cala a boca. — Disse bocejando. Levantou-se e foi até o banheiro, reparando no caminho que Hikaru esbanjava um pequeno e convencido sorriso. Ao chegar ao espelho entendeu o motivo do sorriso. Seu rosto estava todo riscado, e ele agora tinha um bigode de tinta preta. — AH! Hikaru eu vou te matar! — Começou a correr atrás da garota, que começou a rir e correr. Assim uma perseguição se iniciou.
De repente, os dois pararam. Foram surpreendidos por uma sensação já conhecida, como se algo estivesse pra acontecer. Sentiram uma presença forte, porém familiar. Batidas soaram na porta e ecoaram pelo quarto, seguindo-se de um silêncio. Eles sabiam. Haviam chegado.
A Gula dirigiu-se até a porta, e a abriu. A sua frente estavam um garoto alto de cabelo loiro e uma garota muito parecida com ele. Hikaru reparou que o cabelo da garota era perfeito. No mesmo instante ela soube: O garota era com certeza a vaidade.
O cara alto a analisava de cima a baixo, como se fosse um garoto faminto observando um bolo de seu sabor favorito. Ele sorriu quando Hikaru corou.
– Eu sou Pietro Buffon. — Disse em um português perfeito — E essa é minha irmã, Evangeline. — A linda garota sorriu.
Notas finais
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