Menino anjo

24 Uma visita inesperada


Naquela manhã, Jaqueline percebendo que o menino, com jeitinho cansado dormia em paz, resolveu deixá-lo na cama, faltando assim às aulas daquele dia.

Poucos minutos após a mãe seguir para o trabalho, ele, ainda na cama, acordara percebendo alguma coisa anormal dentro de sua casa, quando, um forte clarão como se dezenas de sóis juntos fazia arder-lhe os olhos e toda a casa era balançada como se um grande terremoto estivesse acontecendo.

Em sobressalto, o menino sentou-se cruzando as pernas sobre a cama e percebeu que a partir da cozinha, todos os móveis balançavam juntos com a casa e as peças pequenas, como utensílios de cozinha e na sala, porta retratos, livros e outros objetos pequenos, eram lançados e despedaçados ao chão de piso frio.

Em meio a este caminho de muita luz e barulho infernal, uma criança de aparentemente sua mesma idade, se aproximava com belo sorriso estampado na face.

Era uma menina dotada de grande beleza física e riquíssimas vestes brancas com tonalidade azul claro.

— O que você faz aqui? — Questionou-a em tom severo, o menino.

— Como tem sido sua experiência fracassada em ajudar a espécie predileta do Criador? — A retrucou, em voz serena.

— Por que se apoderaste da candura de uma criança inocente pra representar seu reino de trevas?

— Faço minha sua pergunta. Por que se apoderaste da candura de uma criança para representar seu reino de vingança?

— Protejo meus anjos contra a maldade imposta nos homens por seu reino de trevas — protestou com ódio o menino.

— Está bem! Eu uso-a para falarmos de igual para igual — riu ela. — Não poderia me aproximar com toda minha majestade diante de um insignificante verme da terra.

— Toda sua majestade nada significa diante das magnitudes a mim atribuídas pelo Pai que nos criou.

— Ora, não me digas que também me pintas com o mesmo desdém com que as criaturas deste mundinho o fazem.

— Não te pintos de nada! Ignoro ti. Sei que tu foste um dos mais belos anjos do Céu, mas hoje não é nada!

— Me crias com o corpo vermelho, rosto horrendo, longos chifres de bode fedendo a enxofre, asas imundas, uma longa cauda com ferrão e um tridente nas mãos em busca de espalhar o mal entre as criaturas que nos substituíram aos olhos de quem nos criou?

— Sei o que és e ignoro ti. O que queres vindo a mim?

— Convidá-lo para ser príncipe de meu reino.

— Vá-te de mim! Serei acolhido a meu reino de luz.

— Será? — Duvidou tal menina. — Assim como eu, não traístes as ordens do criador?

— Não! — foi convencido o menino. — Segui as ordens de um anjo do Criador.

— Recebestes missão de anjo e como um deles usastes um livre arbítrio que não nos é permitido.

— Não sou anjo e farei de meu livre arbítrio minha arma para salvar oprimidos por demônios como ti.

— Quanta ignorância — riu a menina. — Não vês que esta espécie hipócrita está condenada por sua própria natureza cruel?

— Salvá-los-ei das maldades que você espalha entre eles.

— Mais ignorância! Já vi que ainda vives e pensas como eles. São dotados de maldade e dão os créditos a mim, que sequer tenho permissão do Criador para isso.

— O quê?

— Menino! Esquece de que também sou anjo e sendo assim não posso interferir a favor ou que seja contra as vontades dos preferidos daquele que nos menosprezou.

— Vá-te de mim, Satanás! — protestou o menino com ódio. — Anjo de inveja, mentira e cobiça. Serás destruído pelo Pai no fim dos tempos e trancafiado para sempre em seu maldito reino de sofrimentos.

— O fim realmente está próximo — concordou ainda com voz serena a menina. — Mas não haverá tal batalha que todos enfeitam para ocultar suas próprias maldades terrenas.

Regis não soube o que dizer e ela prosseguiu:

— Eu e todos meus anjos não vivemos na terra ajudando-os a se destruírem. Como já disse, mesmo que quiséssemos não temos permissão para fazer. Seguimos regras, como você deveria seguir.

— Você e seus anjos de trevas não obedecem ao Pai Celestial.

— Menino! — riu ela. — Os seres deste mundinho, são dotados de inveja, cobiça, maldade, hipocrisia e tantos outros fatores que os levam a mim por si mesmo, desde quando foram criados no Éden.

— Não deixarei que você cative-os.

— Você não fará nada! E eu não faço nada! Simplesmente os aguardo em meu reino, junto à outra terça parte daqueles que seguiram comigo o caminho diferente que os anjos esperam em vão no Criador.

— Destruirei o mal na Terra... e no seu inferno! — gritou o menino, com ódio. — Mesmo que eu perca a minha alma para isso.

— O mal não está na Terra, menino iludido. Nem em meu reino, ou em mim. O mal está nos donos da terra. E são eles os protagonistas do fim dos tempos por aqui. São eles quem destrói a água que os hidrata, constroem e exibem veículos de diversão, que em apenas uma hora de uso consome oxigênio suficiente a mantê-los vivos por vários dias, constroem bactérias e espalham na atmosfera envenenando a si mesmo e aos semelhantes.

— Vou corrigir tudo isso.

— Como? O que sentistes do exemplo desta noite?

— Mandá-los-ei de presente para seu reino de maldade.

— Enquanto você protege uma criança de ter sua pureza destruída pelo próprio progenitor, centenas de outras passam pelo mesmo trauma; enquanto você exclui um pequeno envenenador de jovens, milhares de grandes continuam usando sua ganância para o mesmo fim; enquanto você imagina que segura a bala de um mero revólver, metralhadoras disseminam etnias inteiras.

— Não permitirei mais isso.

— Os seres que foi o maior erro de nosso Criador, são maus por si mesmos e você não conseguirá nada em prol disso — foi conclusiva a menina. — Não sou eu ou meus anjos que espalham tal destruição e não serás tu que irás plantar a salvação.

— Segurarei as metralhadoras, castrarei os violentadores de anjos, queimarei os envenenadores de inocentes, esquartejarei os sequestradores e adoradores de teu reino...

— Quantos entre os preferidos do Criador cumprem, que seja um entre seus mandamentos? Se me fosse permitido espalhar meus mandamentos, seria com certeza mais cumprido do que tais.

— O que seria seus mandamentos? Matai a todos como matas a ti próprio?! — Ironizou o menino.

— Poderia ser! — Concordou a menina com belo sorriso. — Já fazem isso sem que eu peça.

— Conheci um psicopata, que em seu nome sacrificou sete de meus anjos, em troca de uma imortalidade eterna.

— Bem dito — riu a menina. — psicopata. Não é preciso o sacrifício de sete anjos para ganhar a imortalidade em meu reino; basta algo bem mais singelo e nem precisa blasfemar meu nome para conseguir. E sei de quem tu falas. Em meu reino ele morre do mesmo modo e resurge sete vezes todos os dias e nem é por determinação de meus príncipes.

— Como? — Admirou-se o menino.

— O espírito daqueles que cometem atrocidades na Terra, por si mesmo não se perdoam e são punidos em meu reino por si mesmo. Não há demônios que os atormentam! Tenho outras coisas mais divertidas pra fazer — Riu com malícia a menina. — E em meu reino a relação entre espaço e tempo é muito diferente da que conheces.

— Fico feliz com tal informação e no mais, ainda bem que não lhe é concedido fazer tal ato — Preocupou-se o menino.

— Nem preciso fazer! Pergunte aos preferidos do Criador, “você acredita nEle?” Se não acreditas estarás condenado ao meu reino de diversão eterna. Então você pergunte, “Acreditas em Satanás?” Se não acreditas não te importes, pois eu acredito em ti e te receberei assim mesmo em meu reino.

— Eu acredito em Deus Pai que Criou a vida eterna.

— Estarei esperando por ti, sentado em meu trono.

— Eu estarei ao lado de outro Rei, sentado em outro trono, de luz e benevolência eterna.

— Só o Criador... Nem eu... Tem o poder de decidir sobre a vida e a morte. Você infringiu esta lei. Não receberás esse reino que esperas. Farei de sua alma eterno príncipe de meu reino.

A luz se foi. A bela menina se foi e Regis, ainda assustado, ofegante, suado, voltou a deitar-se sobre a cama.

Por toda a casa, havia muito o que se fazer para deixá-la em ordem novamente, com quase tudo espalhado, a maioria quebrado. E nem adiantaria ele tentar reverter o ocorrido, pois seus poderes sobre a vida não lhe permitiria poder sobre objetos inanimados.

Notas finais
Só mais um capítulo. Conheça minhas outras estórias "Long-fics" aqui no Nyah!