Menino anjo
25 Era uma vez um menino anjo.
Notas iniciais
Naquela mesma tarde, após o menino conseguir dormir até o meio dia e ter tentado explicar à mãe o ocorrido em sua casa, de volta ao consultório de doutora Maria Angélica, sentou-se e ela, simpática como deve ser todas as psicólogas, lhe perguntou:
— Como vai meu jovem paranormal?
O menino não respondeu. Ele não gostava destes rótulos: Clarividente, médium, paranormal, sensitivo, profeta, bruxo e tantos outros. Gostava quando o chamavam de “menino anjo”.
— Você parece tenso! — Insinuou a doutora.
— Preciso abandonar este corpo.
— O quê? — surpreendeu-se a médica em espanto.
O menino sempre lhe fazia surpresas.
— O que está acontecendo com você, Regis? — Insistiu a doutora.
Ele franziu os lábios, levantou os ombros e nada disse:
— Você precisa parar de procurar coisas más! Precisa agir como uma simples criança. Brincar... estudar... jogar bola...
— Os demônios não deixam — alegou o menino, tornando a franzir os lábios.
— Deixe os demônios para os padres e exorcistas!
— Padres?! Exorcistas?! —riu ele. — Onde estão eles?
—Você disse que precisa abandonar o corpo? O que há com ele?
— Atrapalha minha missão.
— Esse corpo está perfeito! — Exclamou a médica. — Esse corpo é saudável, bonito, jovem e você precisa dele!
— O corpo é apenas uma matéria transitória na vida.
— Pode até ser! Eu acredito. A vida é transitória. Mas seu corpo ainda não está na hora de ser abandonado.
— Às vezes tenho uma missão a uma longa distância, a qual tenho dificuldades em atender devido meu corpo matéria...
— Seja mais claro, por favor!
— Pra me locomover por longas distâncias, devido meu corpo infantil, tenho dificuldades em usar transportes comuns. As pessoas não aceitam me levar...
— É lógico! As pessoas não podem ficar transportando crianças sem o consentimento dos pais!
— Mamãe também não me leva. Mesmo que levasse, esse transporte me gasta longo tempo, ao fato que se não fosse meu corpo matéria, estaria no local em questão de nada.
— Nada! O que é nada? Piscar de olhos?!
— No mundo espiritual não há correlação entre espaço e tempo.
— Qual sua idade, Regis? Não é só nove anos!
— Minha idade não é medida em tempo! Nem a sua!
— Quando esteve aqui pela primeira vez, você falava como criança! O que era natural. Agora você fala igual mestre! Para que eu entenda e te ajude, qual seria sua idade se fosse medida em anos?
— Nove!
— Com nove anos ninguém fala como você!
— Quem é o médico nesta sala?
— Acho que você seja realmente um anjo! Mas tenho dúvidas, um anjo da vida... Ou é um anjo da morte?
— Depende do ponto de vista. Todos somos anjos.
— Como mede sua psique?
— Sei lá o que é isso! — Fez careta o menino.
— Alma! — Explicou ela.
— Então ao falar com uma criança por que não diz... Alma? — Advertiu com sorriso maroto.
— Porque às vezes você nem é criança! Só sua carcaça é de criança.
— Carcaça! — Riu o menino.
— Você é quem disse!
— Eu disse matéria, não carcaça! Mas tudo bem! Pode ser! O pequeno príncipe disse, “O que há de triste em uma velha carcaça abandonada?”
— Por que decidiu que quer abandonar seu corpo físico?
— Ele atrapalha minha missão.
— Quando você pretende fazer isso?
— Agora!
A médica se apavorou, levantando-se.
— Pelo amor de Deus! Aqui em meu consultório não!
— O ser humano é tão hipócrita! — Insinuou o menino. — Qual o temor?
— Como se você não soubesse a resposta! — protestou ela, sabendo que ele sabia.
— Preciso ouvir de seus lábios! Tudo o que importa em minha triste decisão é o fato de não prejudicar sua reputação médica?
— É claro! Veja a reportagem, “menino morre durante consulta com sua psicóloga”. Será que alguém vai acreditar nesta doutora que vai tentar explicar, que o idiota do menino, simplesmente resolveu abandonar sua carcaça humana? Será muito mais fácil acreditar que sou um diabo qualquer, que aproveito minhas consultas para praticar magia negra com crianças!
— Um simples exame médico confirmaria o contrário.
— Pior! Um simples exame médico vai confirmar um corpo saudável que morreu sem nenhum motivo aparente.
— Não tenha medo! Não vou prejudicar sua reputação!
— Você realmente não é uma criança! — Negou ela em tom muito triste. — Onde está Regis?
— Já lhe disse mulher, no meu reino não se conta espaço e tempo! Não se conta idade. Não se conta nome!
— Seu reino! Por acaso se julga ser o filho de Deus?
— Todos somos filhos de Deus! — Afirmou ele convicto. —Ainda bem!
— Eu quero dizer, julgas ser como Jesus Cristo?
— Todos fomos feitos semelhantes a Deus! Jesus Cristo é apenas mais um entre seus filhos amados.
— Não é assim! E você sabe que não! Jesus é parte da Trindade Divina! Nós, meros mortais não somos assim!
— Deus, meu Pai e seu Pai, deu a ti mulher, o mesmo poder que depositou em seu filho Jesus Cristo. É só querer usar!
— Bela lição de moral você quer me aplicar! — Ficou brava a doutora. — Um anjinho pequeno que tem e sabe que tem o poder sobre todas as coisas, mas que, no entanto, opta em nos abandonar, simplesmente deixando de respirar e indo embora!
— Não vou embora! — Negou o menino, bravo. — Estarei mais presente do que imaginas!
— E sua mãe? Já pensou em sua mãe? Ela só tem você!
— Estarei com ela até o final de seus dias na Terra.
— Contou a ela?
— Você explicará a ela!
— Ela não conseguirá te sentir! Ela não é crente o suficiente! Nem eu sou! Ninguém é!
— Ao final de seus dias na Terra ela me reencontrará.
— Se disser isso a ela, ela se suicida junto com você!
— Nunca faça isso! — Gritou o menino, bravo. — suicida não entra em meu reino!
— Você vai se suicidar! — Riu com ironia a médica.
— Não! Só vou deixar meu corpo matéria!
— Pra mim é a mesma coisa! Quem se suicida também está apenas deixando o corpo matéria.
— Quem se suicida não se perdoa. Não admite ter feito tal coisa. Sem aceitar e se perdoar jamais alcançará o reino de Deus.
— Afinal, de verdade, de qual reino você fala? Às vezes me confunde! O reino é seu ou de Deus?
— Quanto desleixo! — Continuava bravo, o menino. — Meu reino é o reino de meu Pai que está no Céu! E que está na Terra! E que está no mar! E que está em qualquer pedacinho do infinito Universo. Meu reino é o reino de seu Pai. Embora sua ignorância humana não a deixa admitir.
— Acabou nossa consulta, Regis. — A alegou. — Você volta semana que vem.
— Mulher surda! Faz-se de ignorante.
— Não me faço de ignorante! — Ficou nervosa a médica. — Não admito que deixe sua matéria aqui! Além do que, você seja inteligente como queira, mas pra mim sua intenção é suicídio igual a todos que já vi!
— Este corpo já não me pertence desde o dia do acidente no lago.
— Afinal, de uma vez por todas, quem está neste corpo infantil? É o Regis, antes do acidente no lago? É o Regis, depois do acidente? Ou nem é Regis?
—Quantas vezes preciso dizer que o espírito não tem idade?
— Não perguntei isso!
— Sei o que perguntou! — Protestou o menino. — Ser Regis é uma questão de espaço e tempo! O tempo do espírito é diferente do seu tempo!
— Sei disso! — confirmou ela. — Sou tão inteligente quanto você se julga ser! Os humanos medem o tempo em kronos ou cronologia, Deus, porém, mede em kairós, que vem a ser plenitude de tempo. É isso?
— Não sei estas palavras! Não uso rótulos! Mas se é o que diz...
— Acabaram-se meus argumentos — Parece ter desistido a médica. — Não posso concordar que deixe este corpo perfeito! E depois, nem vai despedir-se de sua mãe?
— Chame-a!
— Por favor, menino — pediu a médica, sentida. — Não faça o que está planejando! Sei de seus poderes e o que almeja...
— Meus poderes não são maiores do que o seu. Já lhe disse isso ainda hoje.
— Estou a par de seus poderes, menino! Quem me dera ser só um pouquinho do que você é.
— Por acaso não foi criada à imagem e semelhança do Onipotente?
— Do Onipotente, Onisciente, Onipresente... e tudo quanto é oni que você quiser! Mas meus poderes ficaram trancados em algum mundo perdido...
— Trancado na sua ignorância humana! Por acaso um pai nega sua sabedoria ao filho? Sua fortuna?! Seu poder?!
— Chega de receber indiretas de uma criança a qual eu deveria dar indiretas! — protestou a doutora. — Não concordo que abandone seu corpo matéria perfeito. Pense em sua mãe! Se você partir ela não vai suportar!
— Chame-a! — Pediu Regis, muito sério.
— Ouça menino, o que você planeja é verdadeiro suicídio. Eu sou psicóloga e tenho mais de dez pacientes que são familiares, irmãos, pais e filhos de suicidas, que não aceitam o que aconteceu a seus entes. Eles se sentem culpados, acham que tinham que ter feito alguma coisa pra impedir o tal suicídio, que em alguns casos já aconteceu a mais de dez anos.
— Não vou me suicidar! — Negou o menino.
— Vai sim senhor! Seja você o anjo que quiser, mas o que vai fazer é só suicídio e durante toda minha vida médica, nunca vi um menininho de nove anos de idade cometer essa loucura! E sendo você inteligente como é não consegue perceber que sua mãe jamais aceitará tal coisa? Não vê que irá destruir a vida dela? Que ela será minha próxima paciente de psicologia?
— Eu a confortarei.
— Regis! Ela se sentirá culpada por seu suicídio. Você sabe disso!
— Este mundo podre está condenado. Eu tentarei salvá-lo.
— Como assim?
— Enquanto conversamos, aqui mesmo no Brasil e principalmente do outro lado do mundo Terra, neste momento, crianças grandes e pequenas estão sendo violentadas, estupradas, martirizadas e suas fotos espalhadas para o mundo todo em forma de diversão, em páginas famosas de relacionamentos. Não são as fotos que são cruéis! Elas já são atitudes mortas! O cruel está acontecendo agora, em atos de prazer doentio e forma de ficarem milionários... — Regis chorava. — Eu acabarei com isso. Nem que tenha que perder minha própria alma!
— Como pretende se suicidar?
— Não vou me suicidar! — Negou Regis, rangendo os dentes.
— Como sairá de seu corpo matéria física?
— Minha alma simplesmente deixará este corpo... Meu coração deixará de pulsar e minha mente adormecerá em sono eterno.
— Como terei certeza de que sua alma continuará vagando em meu mundo?
— Traga... a minha... mãe.
— Regis!
— Quanto vale o coração de uma criança no tráfico de órgãos? — chorava o menino anjo. — Seus pulmões... olhos... pele... fígado... rins...
— Regis...
— Quanto vale a vidinha sagrada de uma criança? — seu rosto era só lágrimas.
— Você é esta criança e sua vidinha é este sagrado que falas.
— Esta noite eu não dormi! Depois minha mãe lhe conta o que aconteceu com todos os detalhes. Diga a ela, que minha primeira missão será a de resgatar aqueles nove anjinhos e punir seus malditos assassinos. Agora, traga... a... minha... mãe.
A doutora balançou os ombros como quem desistiu, simplesmente abriu a porta, fez um sinal para Jaqueline, que entrou no consultório e se aproximou do filho, que chorando muito tomou a iniciativa, abrindo os braços e abraçando-a.
— O que há meu pequeno Regis? — Disse ela, também entre muitas lágrimas, parecendo prever alguma coisa estranha.
— Sempre estarei com você, mamãe! E lembre-se que a amo muito!
— Também te amo muito meu filho! O que há?
Alguma coisa estava diferente naquele abraço, que era forte, de repente se enfraqueceu e quando Jaqueline o deixou, estava inconsciente em um sono profundo.
O desespero tomou conta daquela mulher e da médica, que chorando muito, o deitando no carpete do consultório, tentavam em vão praticar algum tipo de massagem cardíaca e respiração artificial, soprando forte em sua boca pequena e esmurrando, talvez mais do que o normal, em um peito de ossos tipo cartilagens frágeis, em ainda formação por tão tenra idade.
— Deixe-o mamãe — pediu a doutora, tentando afastar a jovem mãe. — Sua vida humana se foi, mas seu espírito ainda continuará entre nós!
A sombra de uma beleza sem comparação passou pelo rosto daquela criança e ele então, fora agora recebido por anjo Regis, que em um canto do consultório, em leve sorriso, estendendo-lhe a mão direita o recebia de volta, para então serem apenas um.
De repente, os dois pequenos anjos viram-se como teletransportado por efeitos mágicos a um lugar ermo desconhecido, envolto por trevas com pequenos brilhos de luz escura e conseguiram ver entre elas, o rosto da mesma menina que visitara o pequeno Regis em vida e ela, com sua mesma candura em sorriso irônico, justificara.
— Espere! Esta alma me pertence.
— Jamais! — Negara o espírito menino.
— Como lhe prometi, viverás para sempre em meu reino.
— Nunca! Meu reino é de luz!
— Você, assim como eu, também é um anjo rebelde e sua alma pertence a meu reino!
— Nunca fui anjo rebelde! Apenas cumpri minha missão na Terra!
— Anjos são escravos do Criador — riu com ironia, a menina. — Não tem livre arbítrio e nem decisões próprias. Você interferiu nas coisas terrenas, conquistando seu lugar em meu reino.
— Jamais!
— Ela tem razão, Regis — interferiu anjo Regis, cabisbaixo. — Somente Deus tem autoridade de decidir sobre a vida e a morte e você fez isso cometendo falhas imperdoáveis.
— Se eu interferi na vida de demônios é porque alguém me deu poderes pra isso! — justificou o espírito Regis. — E quem poderia ter me dado poderes se não meu Pai que está no Céu?
— Não teria sido eu? — Riu a menina.
— Nunca! — Negou Regis, convicto. — Se tivesse recebido poderes de Satanás teria interferido na vida de inocentes em prol de monstros e não ao contrário.
— Será que eu não queria levar meus... “monstros” comigo, como dizes e usei a ti para isso? Além do mais, estaria também ganhando sua alma. Mas não temas, em meu reino continuarás tendo todo o poder da Terra e serás aclamado príncipe dos príncipes e continuarás sua missão de punir tais “monstros” que afligem vidas inocentes.
— Por que usa da beleza sagrada de uma criança para mostrar seu reino do mau?
— Pra lhe mostrar que não sou como pintas a mente vã de insignificantes terrenos! Mas se preferir posso me apresentar assim!
Se transfigurou de repente na fisionomia do tal “Diabo Negro” o qual espírito Regis bem conhecia.
— Não aceito ir para seu reino de trevas! — Negou o espírito menino com ira. — Lutei para meu reino de luz e criar minha própria legião de anjos.
— Não digas assim Regis! — Entristeceu-se anjo Regis. — Assim você assume características de rebelde de Deus e dá mais forças ao anjo da discórdia.
— Venha meu aclamado príncipe e verás que meu reino não é tão insano como pintam os vermes terrenos.
E assim o anjo das trevas, voltando a usar a beleza incomparável de uma criança inocente, estendeu suas duas mãos, em busca do espírito surpreso do pequeno Regis. Porém, quando tentou envolvê-lo, percebeu que se tornara como espectro intocável e suas mãos passava por ele como em uma névoa transparente.
— O que há? — Atrapalhou-se tal demônio, em surpresa que ele não esperava.
— A lei do sacrifício! — Exclamou anjo Regis, admirado.
— Ãh! — O espírito Regis nada entendia.
— A dádiva mais sagrada diante de Deus Pai é sacrificar a vida por um inocente.
— Nunca sacrifiquei minha vida por inocente! — Negou ainda surpreso, tal espírito.
— Não! — Concordou anjo Regis. — Sacrificou sua alma em prol de inocentes.
Será que sacrificar sua alma, levaria o menino anjo a alcançar seu almejado reino de luz para criar sua legião de anjos, com a áurea de inocentes que tiveram seu livre arbítrio anulado pelo livre arbítrio de demônios em invólucro de humanos?
O mesmo anjo Regis virou-se para a bela menina e em voz de trovão ordenou:
— Vá-te daqui Satanás!
Uma luz intensa voltou ao local, fazendo com que os dois meninos se vissem novamente no consultório da psicóloga.
O anjo, novamente estendendo as mãos, recebia em si o espectro do pequeno Regis, e assim, sendo um só olhou para o corpo inerte naquele chão, enquanto sua mãe era afastada pela médica e em gesto de consumação, simplesmente franziu o lábio esquerdo e desapareceu envolto por um facho de luz muito brilhante, a arder os olhos de simples mortais, se tornando para sempre apenas mais um “Anjo de Deus”.
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