Notas iniciais
Continuando a saga da nossa sofrida Regina. Espero que gostem, amados *-*

Você já teve aquele sonho assustador em que não consegue se mover? Você quer gritar ou correr mas seus membros pesados e inertes simplesmente não respondem? Foi mais ou menos assim que me senti enquanto assitia Branca cair no chão.

Por quê?, eu me perguntava. Não que qualquer uma das minhas poções tivesse aquele efeito — bom, talvez uma, mas eu havia deixado em casa, juro! -, no entanto, era surpreendente que ela tivesse morrido por causa de uma simples torta de maçã.

Os sete amigos complicados se agacharam, cada um tentando tocar em uma perna ou braço da garota. Uns a sacudiam, outros esfregavam sua pele, e alguém gritou por socorro. A galera da pista levou um tempo para entender o que estava acontecendo e, para entender o que estava acontecendo e, quando todos pararam para observar, formando um paredão humano, me dei conta de que precisava me mandar dali.

Zóião se virou e me puxou pelo braço.

– O que você colocou na torta? — Ele me sacudiu, fazendo meus dentes baterem.

Robin se juntou aos rapazes, sem jamais olhar pra mim.

– Nada — falei, tentando me livrar do aperto de Zóião.

– Colocou, sim! Pode ir abrindo o bico. — Ele me encarava como se soubesse que eu havia tentado fazer algo contra a garota. Ele não estava sob o efeito do meu especial "boa noite, Mary Margaret" agindo daquele jeito. Então o que ele ingerira foi...

– Ela não está respirando — Falou Robin para Graham, depois de checar os sinais vitais da menina.

– Alguém liga para a emergência! — berrou Graham para ninguém em particular.

– Ah, cara, se fizerem exames vão saber o que ela andou usando...

– Cala a boca, Zodaque, e liga pra emergência, porra! — rugiu Graham, esfregando um dos pulsos da garota pálida caída no chão.

Robin se livrou da tipoia e começou a fazer uma massagem cardíaca desajeitada.

– O que está acontecendo? — peguntou alguém, surgindo entre a muralha humana estarrecida. David. Só então me dei conta que a música havia cessado. — Mary? — Ele se ajoelhou ao lado dela.

– Ela não está respirando — falou um dos sete idiotas. — Ela tava de boa. Comeu essa torta aí e caiu do nada.

David se agachou ao lado do corpo e tomou a mão de Mary, abrindo os dedos. Pedaços da massa e maçã caíram no piso áspero.

– Deixa que eu faço isso — disse ele a Robin.

Robin concordou, abrindo espaço para o músico.

Os sete idiotas se entreolharam.

– Não fiquem aí parados, ela precisa de socorro! Robin não perdeu tempo, sacou o celular. — Alô? Preciso de uma ambulância. É uma emergência...

David se posicionou perto da cabeça de Mary. Aproximou a orelha do nariz dela, depois sentiu o pulso.

– O coração está batendo, mas ela não está respirando.

Mary ainda estava viva. Não sei ao certo se senti alívio ou pesar com a notícia — podem me julgar, mas metade dos meus problemas seriam resolvidos com ela sem respirar -.

David tapou o nariz da menina e a beijou.

Bom, não, não foi um beijo propriamente dito. As bochechas de Mary se inflavam enquanto ele soprava o ar para dentro.

– Não tá passando, tem algo obstruindo a passagem de ar — avisou, levantando o tronco da menina e a abraçando por trás.

– Eu vou arrebentar sua cara se você machucar ela — resmungou Zodaque.

– Nós vamos — completou Zóião.

O roqueiro os ignorou e deu início à manobra de Heimlich.

A cabeça de Mary pendeu pra frente, os cabelos longos encobrindo o rosto pálido. Os ombros dela se agitaram, e um pedaço de massa gosmenta voou longe, atingindo o tênis de Samambaia.

David a deitou de novo no chão. Ela continuava imóvel, os olhos fechado. Ele voltou a fazer respiração boca a boca insistentemente, só que dessa vez pareceu mesmo um beijo. Um beijo completo, como aquele que Robin havia... Não era hora de pensar em Robin.

Mary inspirou uma grande lufada de ar, os olhos tremularam, mas ela continuou prostrada no chão.

– Consegue respirar? — questionou David com gentileza.

Ela assentiu uma vez.

– A ambulância vai chegar logo, tá? Fica calma. — Ele afastou os cabelos dela para trás, e ela suspirou.

– O que aconteceu, Mary? — quis saber Robin.

– Robin... — a voz dela saiu rouca. — Como você veio parar aqui?

– Não importa. O que aconteceu?

– A torta. Tinha amendoim. Senti o gosto.

O olhar de Robin se fixou em mim. Era frio, triste, decepcionado. Tentei me livrar da mão de Zóião, mas ele me segurou com mais força.

– E você é alérgica — concluiu David por ela.

Ela balançou a cabeça, concordando de novo.

Parece piada, não? Pois é, eu já havia lhe dito que perspicácia não era o forte da Mary. Se você é alérgico a algum tipo de alimento, deve perguntar do que é a comida antes de enfiar tudo na boca, certo?

– É provável que ela tenha entrado em choque anafilático — explicou Davis a Robin. — O corpo deve ter impedido a passagem do alimento, o que foi a sorte. Se tivesse chegado ao estômago, não teria tempo de ser socorrida. Eu também tenho alergia alimentar. É complicado.

Mary respirou fundo e mirou os olhos dele.

– Eu conheço você... — Ela sorriu para David.

– Já nos vimos antes, sim.

– Você pediu o meu número, mas nunca ligou. Achei que ia ligar, pensei que tivesse acontecido um lance diferente entre a gente, mas você não ligou.

– Eu liguei. Pergunte a sua irmã; afinal, foi o número dela que você me deu. Você estava na casa de um de seus namorados. — Ele olhos os sete amigos complicados. Em por um. Incluindo Robin, que não percebeu porque ainda me encarava.

– Eu não tenho irmã — afirmou Mary.

– É claro que tem. Você estava na academia com ela.

E lá vamos nós...

– Quem... Ah! Aquela era a Regina. Ela não é minha irmã, é minha madrasta.

– O quê? — David engasgou.

– Regina era a mulher do meu pai. Robin pode confirmar. Ele é o motorista dela.

David olhou para Robin, que concordou, assentindo apenas uma vez, aquele olhar fixo em mim agora furioso.

– Mas por que ela mentiria?- indagou David.

– Provavelmente porque ela estava afim de você. Regina sempre desejou tudo que é meu.

Vê como ela distorce a verdade? Percebe como manipula os fatos para que ela seja a vítima? David nunca foi dela. Eu o vi primeiro. Ela é quem sempre desejou tudo que era meu, e isso incluía Leopoldo. Mary nunca se conformou por ter que viver com a mãe depois do divórcio dos pais, até a mulher acabar morrendo durante uma lipo e Mary poder se mudar para a casa do Leo, afinal.

Sim, você está certo, eu fervilhei de raiva naquele momento, mas aquele maldito moleque ainda me segurava e eu não queria que ninguém me reconhecesse, por isso fiquei quieta.

– Ela disse que você estava na casa de um de seus namorados — contou David.

Mary espiou os sete amigos complicados e desviou os olhos.

– Eu nunca tive namorado.

Os caras da faculdade se puseram a olhar para o outro lado, para o teto, o chão ou as unhas.

Robin se levantou. Não sei bem no que ele estava pensando, mas era nítido que algo dentro dele havia se apagado. Com o coração doendo, percebi que era seu amor por mim.

– Ela me enganou, então — murmurou David. — Não acredito.

– Regina é ótima nisso — falou Mary com raiva. — Minha mãe sempre dizia que ela não tinha caráter. Nem poderia, já que passou a vida num orfanato, nem a própria mãe a quis. Conviver com ela me mostrou que mamãe estava certa. Regina sempre quis tirar tudo o que era meu. Minha mãe tinha medo de que ela convencesse meu pai a passar tudo o que tinha para o nome dela e depois que ela desse um fim nele.

Ah, enfim você começa a ver a verdadeira Mary Margeret.

Espera. Vai ficar ainda melhor.

Apenas para a sua informação. Leopoldo e eu nunca discutíamos sobre dinheiro. Ele não pretendia morrer, sabe? E eu jamis faria qualquer coisa que o deixasse infeliz. Era o mínimo que eu podia fazer em retribuição a tudo que ele fizera por mim, já que eu não consegui me apaixonar por ele.

Agora voltemos a Mary e sua carinha de vítima.

– Ela me fazia passar fome! Nunca tinha nada em casa além de frutas e legumes, ou sopa. Muitas vezes fui dormir com o estômago roncando.

Mas que absurdo. O que mais essa menina faz é comer; é magra de ruim, só pode.

– Nossa! — David franziu a testa.

– Pois é. Ela é má. Ela... Não, você não vai acreditar em mim.

– Ela o quê?

– Ela pretendia me matar. Sempre desconfiei disso. Regina tem um quarto secreto. Uma vez entrei lá sem que ela soubesse. Ela tem um laboratório clandestino. Acho que ia me envenenar para ficar com tudo.

– Meu Deus! Isso é muito grave!

Robin despertou do seu transe e começou a se afastar.

– Robin, por favor, espera! — chamei, e naquele momento, perturbada com as mentiras da Mary e com a situação em que me encontrava, me esqueci de disfarçar a voz.

– Vitória...? Perguntou Graham do nada, me encarando.

É, eu sei. Você já entendeu que eu vou me dar mal.

Notas finais
Como prometido mais um capítulo. Gostaria de agradecer a todos que acompanharam, e sinto dizer que a fic está chegando ao final. Tentarei postar o mais breve possível. :*