Notas iniciais
O planejado era o capítulo ser postado ontem, mas eu tive uns contratempos na escola e não deu certo... Mas aqui estou eu com o derradeiro capítulo da saga da nossa Regina. Boa leitura *-*

–Vitória...? — perguntou Graham do nada, me encarando.

É eu sei. Você já entendeu que eu vou me dar mal. Vamos terminar logo com isso.

Robin continuou andando. Algumas cabeças se viraram em minha direção. Inclusive as de Mary e David. O roqueiro deu um pulo.

–Regina!

–Eu sabia! — exclamou Mary, o rosto contorcido pela raiva. — Sabia que você tinha alguma coisa a ver com isso. Você tentou me matar com amendoim!

–Não seja ridícula! Eu nem sabia que você era alérgica a amendoim. — retruquei, já tava na merda mesmo.

–Você tentou me matar! Você me envenenou!

Revirei os olhos.

–Ah, por favor! Se eu tivesse a intenção de te matar, a essa altura você já estaria morta. Oportunidades não me faltaram.

–O que colocou na comida dela? — David exigiu saber, assumindo uma postura protetora. Sabe, pensando bem, aquele cara não tinha nada de especial.

–Na dela... nada. — Abri um sorriso enorme. Eu sei reconhecer quando estou ferrada, então não havia razão para não me divertir.

Zoião que ainda me segurava, levou a mão livre à barriga.

–Tem alguma coisa de errada comigo. Puta que pariu! Ela me envenenou! — O garoto foi ficando meio verde e cambaleou. — Ah, cara, minha vida tá passando diante dos meus olhos...

Aproveitei a distração e me livrei dele. Disparei em direção a saída. Se eu chegasse até o carro, poderia sair dali e nenhum deles conseguiria provar nada. O portão de ferro estava aberto e eu acelerei. Um corpo surgiu do nada e colidiu comigo.

Graham me segurou pelos ombros. Perdi o equilíbrio e caí. Ele se aproveitou disso, se jogando em cima de mim e me prendendo no chão.

–Me deixa sair. Eu não fiz nada! — pedi, me contorcendo sob ele.

–Fez, sim, senão não estaria fugindo.

–Juro que não tentei matar ninguém. Era só laxante. Seu amigo vai ter uma baita dor de barriga e só. Me deixa sair.

–Você queria machucar a Mary. — Seu semblante continha raiva e algo mais.

–Ah, qual é? Para de bancar o namoradinho dela. Acha mesmo que tem alguma chance com a Mary? Qualquer um de vocês? Olha pra ela. Repara no jeito como ela se derreteu para aquele músico. Ela vai dar as costas pra vocês e nem vai se dar o trabalho de dizer um tchauzinho. Ela vai te descartar para ficar com o cara rico.

–Ela não é assim.

–Então senta e assiste — desafiei. Meu peito subia e descia rápido demais.

O olhar dele se deteve nos movimentos de minha caixa torácica. Ou em outras partes de minha anatomia, para ser mais exata.

Bem...

–Vem comigo, Graham. — Eu me remexi embaixo devagar. Homens daquela idade eram tão fáceis de ludibriar. — Só quero sair daqui, a gente pode conversar com clama num lugar mais sossegado. Eu deixo você dirigir o Veyron!

Os olhos dele cintilaram. Se pela oferta do carro, ou meu convite despudorado, eu não tenho certeza. Ele estava estudando a proposta, percebi, já que seus dedos se contrariam e relaxavam de leve em meus punhos presos ao chão.

É como eu disse no começo. Todo mundo tem seu lado bom, e outro não tão bom assim. Você só precisa identificar qual é o predominante e aproveitar o momento certo.

Infelizmente, nunca vou saber qual era o lado predominante de Graham.

Mãos grandes seguraram o rapaz pelo colarinho e o jogaram longe.

Robin me ajudou a levantar.

–Eu tinha a situação sob controle.

–Um simples obrigada é suficiente.

–Eu sabia que você não me abandonaria — falei, entre um suspiro.

–Você está errada, Vitória — sentenciou ele numa voz apática.

Sirenes altas ecoavam do lado de fora do salão, a luz vermelha piscante refletida no mar de rostos estarrecidos. Meu coração bateu rápido dentro do peito.

–Não tentei matá-la Robin. Só quis fazer com que ela continuasse sem memória!

Uma expressão de dor profunda atravessou seu rosto.

–Isso é ainda pior, Vic. Você quer esquecer quem você é, mas, para a maioria das pessoas, isso é a pior morte. Esquecer o que viveu, quem conheceu, as experiências que compartilhou. É como perder sua alma. Foi assim que você perdeu a sua.

–Robin...

–Não temos tempo pra isso. — Ele sacudiu a cabeça, impaciente. — Você não pode esperar. É melhor fugir agora, enquanto ainda há tempo. Ouvi um daqueles caras ligando pra polícia.

Naquele momento, uma maca passou zunindo ao nosso lado. Outra sirene, mais alta e estridente, se aproximava.

–Vai, Vitória! — Ordenou Robin, me empurrando em direção a saída de emergência na lateral esquerda.

–Eu só queria manter a minha vida como era antes — resmunguei.

–E eu só queria que você me amasse. A vida é injusta. Você já deveria saber. Agora corre. A polícia vai querer falar com você. É melhor só aparecer quando a poeira baixar.

Avistei policiais conversando com um dos sete amigos complicados na calçada.

Parei de andar. Robin me arrastou alguns metros, mas por fim desistiu, bufando.

–Você veio por ela, não foi?

–Não.

Alívio varreu meu corpo.

–Por que está fazendo isso, Robin? Porque está me deixando ir?

Ele tocou minha bochecha com as costas da mão.

–Me magoa muito que você ainda precise perguntar isso. Eu te amei tanto, Vic. Amei mais do que qualquer um poderia amar. Por um segundo; cheguei a pensar que um dia você se daria conta que me amava também. Quando eu a beijei, pensei que tudo mudaria, como nos contos de fadas que você lia pra mim no abrigo. — Ele deixou a mão cair. — Eu já deveria saber que não seria assim com você.

A maca passou a toda, levando Mary. David corria ao lado dela. Segurando sua mão. Não estávamos longe, e pude ouvir ela questionar, interessada como nunca:

–... uma Hayabusa, é?

–Branca.

–Legal.

Graham se aproximou da dupla.

–Vou com você, Mary.

–Não precisa. O David vai me acompanhar.

–Mas...

–Você disse que fechou contrato com uma gravadora grande? — perguntou ela ao músico, ignorando Graham.

Graham derrapou no piso, enrijecendo os ombros, e assistiu ao casal desaparecer pelas portas duplas com o choque evidente em seu rosto.

Um policial entrou no salão, o olhar atento percorrendo o ambiente, procurando.

–Não desista de mim ainda, Robin — falei em pânico. Eu não suportaria perdê-lo. Todo o resto eu poderia encarar, mas Robin... Não, ele era meu porto seguro, era meu... meu... Era meu. Sempre foi. — Olha, eu posso tentar ser boa. Posso fazer você deixar de me odiar. Eu posso...

–Ele me impediu de continuar, colocando o indicador em meus lábios.

–Você não é má, Vic. Apenas fez péssimas escolhas. Eu bem que gostaria de ser capaz de te odiar. — O dedo deslisou preguiçoso por meu lábio inferior. Seu olhar grudou em minha boca. Meu batimento acelerou tanto que eu temi sofrer uma parada cardíaca. Mas então ele balançou a cabeça e quebrou o contato. — Mas você foi longe demais dessa vez. Tão longe que eu não consigo mais alcançá-la.

Em desespero, fiz a única coisa que me ocorreu naquele momento. Eu o beijei. E se por um momento você pensou que Robin estava tão magoado a ponto de não corresponder, sinto informar, você acertou.

Eu o soltei, dilacerada por sua indiferença. Ele manteve os olhos fechados, o cenho encrespado, lutando contra algo que eu não era capaz de ver. Até que por fim os abriu. Não gostei do que vi.

–Adeus. Se cuida... Regina.

Ouvir o nome que eu escolhera em seus lábios fez lágrimas escorrerem por minha bochechas.

–Não me chame assim. Nunca me chame assim — sussurrei, pegando-o de surpresa.

–Vamos lá, moça, parece que a senhorita tem algumas explicações a dar. — Um policial colocou a mão no meu ombro, me virando.

Algemas surgiram. Robin deu um passo a frente, mas eu balancei a cabeça. Ele hesitou e pareceu disposto a ignorar minha ordem.

–Está tudo bem. Eu não fiz nada de errado. — Olhei uma última vez para Robin, esperando que ele lesse em meus olhos tudo aquilo que eu não conseguia explicar. Tudo aquilo que eu sempre senti e era dele, só dele e de mais ninguém. Acho que ele entendeu, porque um gemido angustiado escapou em sua garganta.

–O delegado vai gostar de ouvir sua história — resmungou o policial.

Então eu fiz o que eu sei fazer de melhor. Coloquei uma expressão inocente na cara e dei início ao show.

–Ah, não sei, não — respondi ao policial -, sobretudo se eu contar sobre esses seus modos poucos cavalheirescos. — Sacudi os ombros e a cabeça. O boné, já meio solto por causa da batalha com Graham (e o beijo com Robin) caiu revelando meu rosto.

O homem fardado arregalou os olhos.

–Uau! Você não é aquela modelo supergata? A Menina Veneno.

–Sou, sim.

–Nossa! Uau! Eu sou um grande fã seu. Não acredito que você está usando minha algema! Posso tirar uma foto? — Ele pegou o celular do bolso.

–É claro, meu bem. — Pisquei algumas vezes, acompanhando-o porta afora sem olhar pra trás.

–Minha mãe não vai acreditar — continuou o homem. — Ela também te adora, sabia? Pode posar em frente a viatura? E fazer aquele olhar de Menina Veneno?

–Qual, esse?

Ele perdeu o fôlego.

–Ah, cara. Você é ainda mais perfeita pessoalmente... Com todo respeito, é claro.

O que era muito lisonjeiro, já que eu estava sem maquiagem.

Fiz umas poses, depois que o policial, se satisfez, ele me ajudou a entrar na viatura. Olhei pra Robin, paralisado no mesmo lugar onde eu o deixara, me assistindo de longe. Sorri desanimada para ele, ajeitando os ombros. Ele não retribuiu. Então examinei as pessoas que se aglomeravam em torno do carro e fiz uma pequena mesura, agradecendo a audiência, antes que os holofotes da minha vida glamorosa se apagassem.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.