Menina Gaunt
4 Os Riddle
O sol ainda não nascera e Merope já se levantava. Dormira bem, mas não conseguia passar disso. Sua vida inteira sendo acordada aquela hora, seu relógio biológico já era programado. Olhou para o lado e viu Darcey ronronar tranquilamente. Não queria acordar a pequena senhora. Dobrou os cobertores, colocou-os num canto e saiu do quarto.
Andou pelo mesmo caminho da noite anterior. A casa estava num completo silêncio. Foi até a porta da cozinha por onde entrara horas antes, e abriu-a. Saiu e divisou a sua dianteira. Uma floresta, que ela não distinguira em sua chegada, situava-se atrás da casa. No início, as árvores, grandes de troncos largos, davam certa distância uma da outra. Mas conforme olhava ao longe, Merope percebeu que essa distância sumia, chegando a um breu.
Virou-se e andou até a lateral da casa. Observou o horizonte, as casas ao longe e o nascer do sol. Daria uma bela pintura aquela paisagem. Ouviu os cantos dos pássaros, fechou os olhos, respirou fundo e sentiu uma brisa suave tocar-lhe o rosto. A sensação era boa. Nunca sentira tão bem em toda sua curta, mas sofrida vida. Será que isso seria a chamada paz? Aquele que já ouvira falar e que sabia que nunca iria alcançar?
Abriu os olhos e continuou a caminhada até parar em frente a enorme casa. Era ainda mais bonita de dia. Mesmo que a luz ainda estivesse chegando, era possível enxergar todos os detalhes bonitos de uma tradicional casa senhorial. Era branca e as venezianas faziam um lindo contraste com a cor. Ficou a se perguntar qual seria o quarto de Tom.
Seguira para sua casa pois precisava de um trabalho, mas o que a deixara contente era saber que estaria mais próxima de sua paixão. Voltou a olhar o vale, dessa vez, em direção mais afastada, quase no fim de Little Hangleton. Não era possível ver o casebre onde morara, altas árvores cobriam o local de olhares curiosos, porém, Merope sabia que mirava a direção correta.
De repente, pensou em seu pai e seu irmão. Como pudera esquecer-se dos dois tão rápido? Como será que estariam? Sentiu-se culpada por um instante, mas o encargo se fora tão rápido quanto viera. Eles é quem deveriam sentir-se assim.
Agora, que estava livre, ainda que há pouco tempo, é que conseguia compreender a imensidão dos horrores cometidos contra si. Não era para ser assim. Merope sempre fora uma boa menina, obediente, acatando todas as ordens. Nunca levantara a voz, nunca reclamara ou questionara. Sentiu raiva de si mesma por ser tão idiota e estúpida, por ter aceitado tudo aquilo.
Logo esse sentimento esvaiu-se também. Não poderia ter feito nada. Na certa, se tentasse se opor aquilo, seria agredida ainda mais violentamente.
Uma tristeza invadiu-lhe. Aquele tratamento trouxera-lhe feridas profundas. As do corpo não importavam; elas curavam-se com o tempo. O problema eram as de sua alma. Nunca tivera um conhecimento, raso ou profundo, sobre seus sentimentos. Mas naquele momento, ela era capaz de sentir as marcas do desamparo e do desprezo. Nunca tivera uma família. Seu pai e seu irmão, aqueles que deveriam protegê-la, nunca amaram-na. Sentiu-se só. Não conhecia o amor, seja lá de qual forma.
Perguntou-se se seu pai e Morfin sentiam algum remorso. Mas ela sabia a resposta. Marvolo só era capaz de sentir ódio, fúria, frustração. E Morfin era como o pai. Pensou se ela mesma não seria assim, vazia de sentimentos bons. Não, Merope podia sentir coisas boas. Se não, o que fora aquela sensação serena que experimentara instantes antes?
A imagem de Tom lhe veio a cabeça reforçando sua esperança. Afinal, ela sentia algo por ele. Não sabia se era amor, no entanto, tinha certeza de se tratar, ao menos, de uma paixão muito forte. Lamentava profundamente não ser recíproco. Pensou em Darcey e percebeu que sentia um grande afeto por aquela mulher. Será que ter uma mãe era assim? Sentir-se acolhida e querida? Se algum dia tivesse um filho, faria de tudo para que ele tivesse uma vida feliz, bem diferente da sua.
Era estranho para Merope refletir. Algo novo e bom, tirava-lhe uma carga muito pesada de suas costas. Estava voltando a sensação de serenidade quando alguém lhe chamou. Percebeu que o dia já estava bem mais claro.
Virou-se. Darcey vinha em sua direção com passos pequenos, contudo, rápidos. Apesar da idade avançada, e dos problemas que vinham com ela, aquela senhora era cheia de vitalidade.
"Querida! Pensei que tivesse ido embora!", falou com ar afobado.
"Desculpe, Darcey. Só vim olhar a paisagem."
"Tudo bem, querida. Mas venha, logo os patrões vão acordar."
Merope sentiu-se um pouco nervosa. Se eles não a aprovassem ali, não teria para onde ir. Não queria, de forma alguma, volta para casa onde sofrera tanto. As duas retornaram para a mansão.
"Darcey", chamou assim que entraram na casa. "Será que eu podia tomar um banho?"
"Claro, querida. O banheiro fica na porta ao lado de onde dormimos." Explicou e, logo em seguida, pôs-se a pegar o necessário para o café da manhã.
Merope foi ao quarto, pegou sua pequena trouxa de roupa e seguiu até o local indicado por Darcey. Despiu-se e entrou na banheira. Tomou um banho rápido. Vestiu suas roupas de baixo e pôs um vestido, que embora fosse menos desprezível que o cinza que usava antes, também era feioso. Era de um creme pálido, abaixo do joelho, as mangas iam até o cotovelo. Escovou os dentes e calçou sua sandália rústica. Olhou-se no espelho, passou a mão nos cabelos para tentar ajeitá-los e saiu do banheiro. Voltou ao quarto e deixou seus pertences no mesmo lugar antes de voltar à cozinha.
"Bem em tempo, querida. Enquanto tomava banho, expliquei ao senhor e a senhora Riddle sua situação.", ela aproximou-se de Merope e abaixou o tom de voz "Querida, eu tive que mentir", ela parecia angustiada "Desculpe, odeio ter que fazer isso, mas a senhora Riddle pareceu desconfiada quando eu disse que já tinha uma nova funcionária. Tive que dizer que você era minha sobrinha neta que veio de muito longe em busca de emprego. Afirmei que não sabia de sua vinda pois, se eu soubesse, teria avisado a eles. Desculpe, menina, já pedi para você omitir a sua origem e agora..."
"Darcey," A garota interrompeu-lhe vendo o estado da senhora "Tudo bem, eu é que deveria lhe pedir desculpas por te fazer mentir. A senhora só fez isso para me ajudar, e se não fosse por você, essa hora eu estaria na rua. Obrigada e desculpe."
Darcey a olhou com compaixão. Pela sua expressão, tentou imaginar quanto ela não sofrera.Não muito diferente de mim, pensou.
"Você é um anjo. Desculpe por isso, mas é que eu realmente odeio mentiras, ainda mais mentir para pessoas que me ajudaram no momento em que mais precisei. Mas venha, querida, eu disse que te chamaria. Ajude-me a por a mesa, eles estão na sala de estar."
Rapidamente, as duas pegaram os alimentos, cada uma com os braços bem carregados, e seguiram por uma porta na cozinha na parede oposta a porta dos fundos. Viraram a direita e seguiram por um corredor mal iluminado até chegaram a uma suntuosa entrada. O chão de mármore era muito bonito, e a enorme escada era imponente.
Darcey virou-se a direita e as duas entraram numa sala de jantar com uma mesa enorme de madeira. Era possível enxergar vários tipos de louças através dos armários de porta de vidro que ficavam do lado esquerdo e na parede dos fundos. Depositaram os alimentos na mesa. Darcey virou-se pelo menos lado onde vieram, mas percebeu que Merope não a acompanhava. A garota estava parada ao lado da mesa com uma expressão assustada.
"Venha, querida. Está tudo bem. Não precisa ficar assim, eles vão ver que você é uma ótima menina." Darcey tentava confortá-la, mas sabia que parte do nervosismo da menina era culpa sua, já que ela fora obrigada a mentir.
Merope respirou fundo e pegou a mão que Darcey lhe estendia. As duas voltaram pelo mesmo caminho e passaram para o outro lado da entrada. Um homem estava sentado numa poltrona lendo um jornal. Sua expressão carrancuda amedrontou Merope. Uma mulher, que estivera sentada no sofá, levantou-se assim que ouviu passos.
"Oh, então você é Merope?", sua voz era um pouco arrogante. Tinha um sorriso no rosto que não era nada de acolhedor. Era de estatura mediana, mas os sapatos pretos de salto cediam-lhe mais alguns centímetros. Usava um vestido reto azul escuro de mangas compridas.
"Sim.", a menina respondeu baixinho.
"Hum, Darcey me contou que é sua tia avó.", disse lançando um olhar a Darcey que permanecia em silêncio. "Bom, geralmente, sou mais seletiva quanto a quem vai trabalhar nesta casa, entretanto, esses dias tem sido uma correria, é aniversário de meu único filho, como você bem deve saber, e eu não estou com tempo para fazer uma avaliação mais rigorosa. De qualquer forma, é temporário, até depois da festa. Darcey pode te explicar as questões salariais, horário e tudo o mais.",explicou tudo rapidamente, olhando para Merope. "Thomas", chamou virando-se em direção ao marido.
"Hum, o que, querida?", questionou desviando pela primeira vez o olhar do jornal.
"Está de acordo? Com a mocinha aqui trabalhar em casa?"
"Claro, Mary.",respondeu disperso, sua voz era calma em contraste com sua expressão assustadora. Usava um terno claro e aparentava ter mais de quarenta anos, assim como sua mulher. "Darcey, o desjejum já está pronto?", perguntou levantando-se.
"Sim, senhor", a senhora falou pela primeira vez.
"Ótimo, hoje o dia vai ser longo.", declarou andando em direção a sala de jantar. Não olhou em nenhum momento para Merope.
"Meu esposo é um homem muito ocupado.", disse dando um sorriso amarelo, claramente irritada com o descaso do marido. "Enfim, já pode começar a trabalhar. E" lançou um olhar enojado ao vestido de Merope "Darcey, dê o uniforme para ela. É importante que os empregados desta casa tenham boa aparência."
Darcey assentiu e Mary seguiu na mesma direção que o marido. Merope pode respirar tranquilamente pela primeira vez.
"Viu? Tudo saiu bem." disse a senhora sorrindo.
"Darcey", chamou Merope dando-se conta de algo "Onde estão os outros empregados?"
"Ah, eles devem estar chegando. Sou a única que mora aqui. Os outros vivem pelos arredores."
As duas seguiram em direção a cozinha.
"Darcey", chamou novamente quando chegaram ao cômodo. "hum, o filhos dos Riddle, ele não vem, sabe, para tomar café e" , deixou a frase no ar tentando parecer casual.
"Aquele menino só acorda depois de meio-dia. Muito mimado. Já terminou de estudar, mas não arranja um emprego. Sempre nas costas dos pais. Apesar disso, é um bom garoto."
Merope assentiu e começou a ajudar Darcey nos afazeres domésticos enquanto os demais empregados chegavam.
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