Tudo em volta era um caos. Pessoas circulavam pelo jardim segurando mesas, cadeira e vários outros objetos. Merope sentia-se um pouco tonta com tanta movimentação. Estava naquela casa há duas semanas e a cada dia, mais gente chegava para ajudar. Mas aquela era a data da festa, havia não só, os empregados fixos e os temporários, como também os que trabalhavam para as firmas contratadas para organizarem a festa.

Nos dias anteriores, Merope conheceu os outros empregados: Penny tinha uns quarenta anos e trabalhava para os Riddle há mais de vinte, ela e Darcey ficavam encarregadas de toda a parte doméstica da casa; Frank aparentava ter mais de sessenta anos e trabalhava como jardineiro e, esporadicamente, fazia trabalhos extras, geralmente ligados ao ajuste do encanamento; Finn era o motorista, devia somar vinte e poucos anos. Os demais eram os funcionários que estavam encarregados de deixar a casa impecável para o grande dia. Merope ajudara Darcey e Penny na área doméstica. Mas naquele dia, ela estivera lá fora, ajudando na decoração.

"Merope!", ouviu a voz esganiçada de Penny.

"Sim", disse afastando-se da mesa onde ficariam os doces. Estivera a colocar a toalha de seda azul escura.

"Venha se arrumar."

"Arrumar-me?"

"Claro." Penny revirou os olhos, murmurou algo como “Até parece que não conhece dona Mary”, e saiu depressa. Merope a seguiu, e assim que entraram na cozinha, Darcey veio em sua direção e entregou-lhes dois uniformes. "Arrumem-se rápido.", ela não trabalharia na festa — a contragosto, Mary a liberara dessas funções por causa de sua coluna — mas ajudava avidamente nos preparativos.

Voltaram, alguns minutos depois, já vestidas. O uniforme era preto, um palmo abaixo do joelho. Um avental branco cobria a parte da frente, era bem elegante, roupas de empregados de gente de muito poder.

"Peguem." Darcey ordenou pegando alguns pratos grandes de cristal com vários aperitivos e passando para Penny. Merope pegou um prato de doces e retornou ao jardim. Depositou o prato num suporte que estava em cima da mesa que estivera arrumando.

Mais alguns momentos de correria e logo os convidados estavam chegando, já estava escurecendo. Merope olhou aquilo tudo encantada. Nunca estivera rodeada de tanta gente. Um grupo de homens com vários instrumentos tocavam uma música clássica em um canto. As pessoas circulavam pelo ambiente com graça. Àquela altura, Merope começava a servir tudo o que não estava nas mesas com ajuda de Penny e mais alguns contratados especialmente para aquilo.

Acabava de servir bebidas a um casal, quando os Riddle apareceram. Mary usava um vestido vermelho grande e pomposo, os cabelos escuros estavam presos num coque elegante. Thomas usava um terno escuro e totalmente apropriado para a ocasião. Quando olhou para Tom, Merope lembrou-se da primeira vez que haviam se visto na mansão.

Fora na mesma manhã em que ela conseguira o emprego. Estava passando pela escada para chegar à sala de jantar e assim colocar os pratos para o almoço quando ele apareceu. Desceu a longa escadaria como um rei, estava de pijama azul claro. Seus cabelos estavam desgrenhados, seu rosto denunciava que acabara de acordar. Apesar disso, Merope achou que nunca o vira tão belo.

"Quem é você?", a mesma pergunta que Darcey lhe havia feito. A diferença era o tom. Enquanto a senhora falara amavelmente, ele era ríspido.

Merope olhou para o chão e sentiu seu rosto esquentar. Como que para lhe salvar, Darcey apareceu logo em seguida.

"Merope, querida...", estacou quando viu o jovem Riddle. Carregava talheres nas mãos. "Oh, Tom, vejo que já..."

"Quem é ela?", cortou-a agressivo.

"Ah, é Merope, minha sobrinha neta.", disse sorrindo sem graça.

"Sobrinha ?", estreitou os olhos desconfiado. "Nunca disse que tinha uma sobrinha."

Merope notou que seu tom ríspido era natural; não era dirigido apenas a ela.

"Bom...", Darcey não sabia o que dizer. Os pais dele não haviam feito essa pergunta.

"Minha tia não poderia falar de todos os seus parentes, nossa família é grande.", espantou-se com seu atrevimento. Pensara isso logo que ele falara.

Tom parecia igualmente surpreso com a audácia da garota. Sua expressão ficou carrancuda. Virou-se e subiu. Merope soltou um suspiro de alívio. Darcey, ainda um pouco atordoada, voltou a chamá-la para por a mesa.

Daquele dia em diante, ele sequer olhara para ela, mas sempre que a via, seu olhar tornava-se ameaçador.

Agora, admirava-o. Seus trajes eram parecidos com o do pai. Estava elegantíssimo e seu olhar era superior. Logo, os três começaram a cumprimentar as pessoas que também haviam parado para observá-lo. Merope voltou a servir os convidados, passou por um grupo de rapazes que reconheceu como amigos de Tom. Um deles a chamou e ela foi em sua direção no mesmo momento que Tom caminhava para lá. Ele a olhou brevemente, seu rosto demonstrava repulsa por sua presença. Ela os serviu de cabeça baixa e saiu o mais depressa que pôde.

A festa seguiu-se normalmente com pessoas andando sorridentes por todos os lados. Merope percebeu que poucas pessoas do vale estavam presentes, a maioria vinha de outros lugares. Estava distraída quando alguém esbarrou nela. Era a moça que acompanhava Tom em alguns de seus passeios. Com o impacto, as últimas duas taças de suco que estavam na bandeja que Merope segurava caíram sobre o maravilhoso vestido amarelo da garota.

"Olha o que você fez!", ela olhava a roupa horrorizada. Lançou um olhar de desprezo à Merope. "O que eu vou fazer agora?"

"Desculpe, senhorita.", falou enquanto abaixava-se para pegar os copos que estavam caídos. Por sorte, a grama amortecera a queda e eles não quebraram. "Sinto muito.", desculpou-se levantando e colocando-os na bandeja novamente.

"Sente muito?", perguntou olhando-a enojada. "Sua estúpida, você estragou meu vestido."

"Desculpe.", repetiu aflita. "A senhorita veio em minha direção e..."

"A culpa é minha agora?", disse passando a mão no vestido que estava completamente molhado na parte de cima. Antes que Merope pudesse responder, Tom apareceu.

"O que houve, Cecilia?", questionou aproximando-se. Só então Merope percebeu que as pessoas que estavam naquele canto afastado observavam a cena.

"Essa daí.", apontou para Merope. "Molhou meu vestido todo, Tom.", sua voz soara chorosa e manhosa na última parte.

"Desculpe, querida. Vamos lá para dentro.", falou Tom e lançou mais um de seus olhares ameaçadores à Merope. Passou o braço nas costas de Cecilia e a guiou para dentro.

Retornaram minutos mais tarde, Merope, que já havia levado os objetos para cozinha e pegara outra remessa de bebidas, percebeu que o máximo que a moça conseguira foi secar precariamente a vestimenta.

Por volta de meia-noite, as pessoas reuniram-se em volta da maior mesa do jardim e cantaram um breve “Parabéns para você” para Tom que não parecia muito satisfeito com aquilo. Os convidados começaram a partir, e no final, apenas quem passaria a noite na mansão Riddle estava presente. Algum tempo depois, esses convidados foram para dentro da casa em companhia dos donos do lugar. Fora para isso que dona Mary fizera questão de ter todos os cômodos impecavelmente arrumados até aquele dia.

Merope ajudou a retirar do jardim tudo o que sobrara da festa. Estava indo para cozinha de vez, depois de idas e vindas, quando alguém segurou seu braço e a puxou para perto da parede da mansão.

"Escute aqui.", era Tom, parecia irado. Sussurrou, mas sua voz era assustadora. "Não gostei de você desde a primeira vez que te vi.", revelou olhando-a nos olhos. Merope sentiu um medo quase tão grande quanto o quê seu pai lhe causava.

"Sei muito bem que você não é sobrinha de Darcey. Não lembro de onde te conheço, mas seu rosto não me é estranho. Não sei o que planeja, mas se pensa que vai nos passar a perna, está muito enganada. Não esqueci sua resposta atrevida e muito menos perdoarei o quê fez à Cecilia. Também sei que Darcey pediu para que você ficasse na casa permanentemente e minha mãe permitiu. Não sei por que ela te ajuda, mas se estiver planejando algo contra nós junto de você, também pagará muito caro. Seus dias aqui estão contados."

Merope olhava assustada não entendendo sua reação exagerada. O que ela fizera de tão grave assim? Ele a soltou e afastou-se rapidamente. Alguns segundos depois, a jovem ouviu a porta da frente se fechar com força. Correu para a dos fundos e entrou na cozinha assustada. Não havia ninguém ali, todos os demais funcionários tinham ido embora. Fechou a porta, encostou-se nela e respirou fundo. Lágrimas começaram a cair e Merope lembrou-se das ameaças que vivia sofrendo em casa. Justo naquele momento, em que pensara que poderia ter paz, vira nas feições duras de Tom que ele falara muito sério. Ela sequer sabia do pedido de Darcey, e agora, a senhora que tanto a ajudara poderia ser prejudicada por sua causa. Afastou-se da porta enxugando as lágrimas e seguiu para o seu quarto onde a idosa já dormia.

Naquela noite, deitada em sua cama, sem sono, Merope começou a se perguntar como conseguira se apaixonar por um homem daqueles.