Menina Gaunt
6 O pedido do frei
“Eu sei quem você é!”, urrou Tom, apontando um dedo para Merope. Ela servia o almoço para seus patrões quando o jovem rapaz, furioso, entrou no recinto.
“Por que está gritando assim, Tom?”, repreendeu sua mãe.
“Ela, mamãe!”, disse com cólera. “Estava andando de cavalo, e passei pela casa daquele maldito! Ela é filha do Gaunt!” explicou sem tirar os olhos ameaçadores de Merope. A menina parara com uma jarra na mão e olhava paralisada para Tom.
“O que?”, perguntou Thomas, levantando-se e olhando de Tom para a moça.
“Isso mesmo o que ouviu, papai. Ela e Darcey nos enganaram!”
“Darcy!”, gritou Mary, depois de também levantar. A empregada apareceu na sala afobada, e parou assim que viu a expressão dos presentes. “Será que você poderia me explicar isso?”, Mary perfurou-a com o olhar. Antes que Darcey pudesse responder, ela continuou. “Então quer dizer que, nós, de bom grado, acolhemos essa menina em nossa casa, e você nos apunhala pelas costas mentindo e trazendo para morar conosco a filha daquele BASTARDO?”
Merope estremeceu ao ouvi-la gritar a última palavra. Olhando para a mãe de Tom, pôde perceber de onde vinha aquela expressão assustadora que ele possuía.
“Mary, acalme-se, não queremos criar alarde.”, o tom de seu marido era baixo, mas sua voz retumbava pelo ambiente. Apesar da aparente calma, ele também parecia bastante enfurecido.
“Senhora, por favor, me desculpe, eu posso explicar...”, começou Darcey. A pobre coitada já estava desesperada.
“Não quero mais explicações.”, se contradisse Mary. “Quero que vocês duas arrumem suas malas e saiam da minha casa imediatamente!”
Merope, que pareceu sair do seu transe, começou a sentir a dor de estar segurando a jarra por muito tempo. Descansando o objeto na mesa, ela se opôs, como a voz trêmula. “Não! Por favor, Darcey não tem culpa de nada. Fui eu, eu que pedi que ela mentisse. Eu não tinha para onde ir, e precisava desesperadamente de um emprego. Não estive planejando nada, muito menos quis causar alguma mal a vocês.”, acrescentou olhando desafiadoramente para Tom em resposta às suas palavras na noite do aniversário. “Tenho que pedir perdão, e peço-lhes também que perdoem Darcey. Deixem-na ficar, por favor.”, suplicou. Pensaria na sua própria situação mais tarde. Por hora, tinha que ajudar a senhora que lhe acolhera no momento em que mais precisava.
Thomas pareceu ponderar a questão. Era muito grato a todos os anos de dedicação da empregada àquela família.
“Bom, Darcey pode ficar, já que é assim...”, antes que pudesse terminar, sua mulher interveio.
“O que disse, Thomas?” , falou Mary irritada. “Como assim Darcey pode ficar? Ela também compactou com essa mentira.”
“Mary, Darcey trabalha para essa família há 50 anos. Tenho certeza que ela não fez por maldade.”, terminou com sua voz imperiosa. Mary permaneceu em silêncio. Estava claro que ela queria livrar-se da senhora, nunca gostara da empregada. Se Darcey permanecia naquela casa por todos aqueles anos desde que Mary se tornara a senhora Riddle, era por Thomas. Ele deixava sua esposa tomar quaisquer decisões, mas sempre tomava partido da idosa. Tinha uma dívida eterna com ela. Darcey cuidara dele quando tinha apenas cinco anos e acabara de perder a mãe. Era uma espécie de figura materna para Thomas.
“E quanto a você, acho que já está na hora de partir.”, disse o patriarca da família lançando um olhar severo à menina. Tom, que permanecera em silêncio por todo aquele tempo, pareceu aliviado.
Merope apenas assentiu e virou-se para sair da sala. Entrou no quarto e estava pegando suas coisas quando Darcey entrou.
“Oh, menina!”, lamentou Darcey. Seu rosto estava banhado em lágrimas. Ela abraçou Merope que correspondeu ao doce gesto. “Sou uma covarde! Fui eu que menti e você levou toda a culpa. Desculpe-me, fiquei paralisada. Vou lá agora mesmo e ...”
“Darcey!”, cortou-a Merope docemente. Ela separou-se da empregada e olhou nas órbitas verdes da senhora. A menina era bem mais alta que a anciã. “Eu já disse e volto a repetir: a senhora não tem que se desculpar. Tudo o que fez foi tentar me ajudar. Eu que tenho que lhe pedir perdão por causar tantos transtornos. Quase fiz a senhora ser expulsar de onde viveu por quase toda sua vida. A culpa de tudo isso é minha. De qualquer forma, mesmo que eu não tivesse dito nada, ainda assim eu teria que ir embora. Não faz diferença.”
Tentou sorrir para a senhora. Falhou. Merope sentia uma necessidade de protegê-la, sua gratidão por ela não permitiria ver tal injustiça acontecendo-lhe.
“Você é realmente um anjo.”, sussurrou Darcey. Merope pensou ter ouvido passos atrás da porta. Ignorou e abraçou Darcey mais uma vez.
Momentos depois, as duas encontravam-se na cozinha. Merope já arrumara seus pertences e Darcey insistia que ela levasse alguma coisa para comer. Depois de relutar, a garota finalmente cedeu. Colocados os alimentos na pequena trouxa da menina, as duas seguiram pelo corredor e ouviram vozes animadas.
Entraram na sala de estar e encontraram Mary e Thomas sentados num sofá conversando com um senhor gorducho que usava vestes de padre. Tinha a pele já enrugada e era calvo.
Merope sabia quem ele era. Era o frei que Mary, no dia anterior, avisara que viria passar uns dias ali. O padre era de Londres, mas ia para a pequena cidade de tempos em tempos para a celebração de aniversário da paróquia local. Sempre que chegava, ficava na casa dos Riddle. O casal sentia-se prestigiado por receber uma figura tão importante tanto ali quanto na capital.
Tom também estava presente e suas feições não escondiam seu tédio. O rosto da dona da casa contorceu-se em desgosto ao lembrar-se que aquela menina ainda se encontrava no mesmo lugar que ele.
“Vou acompanhar Merope até Great Hangleton, senhores.”, avisou Darcey em voz baixa. Referia-se a cidade vizinha ao vilarejo em que se encontravam.
Antes que Mary pudesse dizer alguma coisa, o frei se pronunciou.
“Por que essa expressão triste, menina?”, observou olhando para Merope. Sua voz era bondosa. Vendo que Merope permaneceu de cabeça baixa e em silêncio, virou-se para os donos da casa. “O que houve com ela, minha cara Mary?”
Mary, parecendo frustrada, explicou-lhe rapidamente o acontecido. Relatou que eles a tinha acolhido e que ela mentira a respeito de sua origem e que ainda pedira para a empregada ajudar-lhe. Quando terminou, o padre pareceu chocado.
“Por Deus! É realmente lamentável.”, olhou com pesar para Merope. “Mas tenho certeza que a menina não fez por maldade. Seria bom perdoar-lhe. O maior dom do senhor nosso pai é o perdão.”, declarou olhando intensamente para Mary que estava rígida. “Peço, em nome de Deus, que perdoem essa pobre garota. Todos nós devemos ter uma segunda chance.”, finalizou com um pequeno sorriso em direção à moça.
Mary suspirou, e, não vendo alternativas para contornar o pedido de um padre, cedeu. “Tudo bem, eu perdoou. Pode ficar.”, olhou friamente para Merope. “Traga algo para comermos, Darcey.”, acrescentou zangada.
“Ah, que maravilha! É muito bom ver a presença de Deus nos atos das pessoas!”, exclamou alegremente o frei, parecendo alheio à raiva de Mary. Thomas parecia um pouco indiferente, e Tom observava Merope com um olhar intenso, como se ela o intrigasse. Merope deu um meio sorriso em direção ao padre, extremamente grata.
Ela e Darcey retornaram a cozinha. Darcey não parecia conter-se de tanta alegria. Abraçou a menina com carinho. Merope estava feliz, todavia, tinha certeza de que teria que partir assim que o padre fosse embora. Ao menos, teria mais tempo para se preparar. Deixou suas coisas no quarto e retornou à cozinha para ajudar Darcey com os petiscos que Mary pedira.
Fale com o autor