Merope fechou a porta e olhou o casebre onde morara por toda sua vida. Sabia que, independente do que acontecesse, nunca mais voltaria ali. Segurou com mais força a pequena trouxa de roupa que carregava e seguiu adiante. Passou para estrada, olhou uma última vez sua casa e voltou a caminhar.

Já era noite. O tempo não estava bom, relâmpagos iluminavam o céu a todo instante e trovões pareciam fazer o chão tremer. Aquilo era estranho. De manhã, o céu estava lindo e não havia um único sinal de chuva. Agora, uma tempestade incomum para aquela época do ano se aproximava.

O frio cortante fazia a jovem estremecer. Andou um pouco mais depressa e avistou ao longe as pequeninas casas do vale. Estavam com a luz acesa e isso fazia com que parecessem estrelas no chão. Chegou ao centro da cidade, nunca estivera ali antes. Imaginava que encontraria algumas pessoas na rua, mas tudo estava deserto. Viu a igreja e a praça. Olhou os estabelecimentos locais e ficou deslumbrada com tudo aquilo. Tudo era pitoresco, mas muito bem conservado.

Continuou andando até que avistou a maior morada de todo o vale. Uma bela casa senhorial, com três andares. Algumas luzes nos andares superiores estavam acesas, mas em baixo, tudo estava um breu e era impossível enxergar o jardim.

Estava parada, admirando a bonita construção quando os primeiros pingos começaram a cair. Começou a correr para se abrigar. Subiu a encosta onde o casarão ficava e circundo-o até chegar à porta dos fundos. Encostou-se na parede ao lado da entrada; a chuva tornando-se mais forte a cada segundo . Tomando coragem, ergueu a argola que ficava na porta e a bateu três vezes. Esperou alguns instantes e bateu de novo. Dessa vez, apenas uma batida e uma pequena mulher já abria a porta.

"Meu Deus!", exclamou a senhora idosa ao ver Merope bater os dentes freneticamente, "Entre menina."

A moça entrou rodeando passando os braços um em cima do outro como se tentasse amenizar o frio. Não estava muito molhada, mas o pouco de água que havia em seu corpo fazia com que se sentisse mergulhada em um lago congelado.

O local estava mal iluminado, entretanto percebeu que se tratava de uma cozinha. Uma cozinha de verdade, bem diferente da sua.

"Quem é você?", questionou a senhora. Tinha cabelos brancos, um pouco acinzentados. Suas rugas faziam um contraste incomum com seus olhos verdes que eram extremamente vivos. Era magra, e apesar de aparentar ser frágil, sua voz demonstrava que era uma idosa forte e lúcida. Usava uma camisola branca de tecido fino. Um robe velho e desgastado a protegia do frio.

"Meu nome-e-e é Me...Merope", a garota conseguiu com algum esforço.

"Vou buscar um pano para que possa se aquecer.", dizendo isso, saiu e seguiu por um corredor escuro do outro lado da cozinha.

A menina esperou olhando ao redor. Quando relampejava, era possível enxergar o local. Estava parada ao lado da porta de madeira. Uma mesa ficava bem no meio e em volta havia algumas suportes onde estavam vários utensílios domésticos. Do outro lado, havia um fogão a lenha. Tudo era de uma madeira que, de tão polida, brilhava a luz dos raios. A mulher voltou trazendo um pano grande de retalhos. Colocou-o por cima do ombro da morena e com os braços em seu ombro, guiou-a até uma cadeira próxima. A mais nova sentou-se e puxou o cobertor mais para si. Nunca tivera contato com um pano tão macio como aquele.

A senhora foi até o fogão a lenha, acendeu-o e abriu um armário na parede tirando de lá uma chaleira de metal. Foi até a pia, colocou água dentro do recipiente e o pendurou num fino suporte sobre o fogo. Em seguida, sentou-se na cadeira diante de Merope.

"O que faz aqui à essa hora, querida? Pode pegar uma forte gripe com essa chuva.", seu olhar era de compaixão.

"Eu vim em busca de emprego.", sua voz já não estava tão trêmula.

"Oh, sim. Nós estávamos precisando de empregados. Diga-me, de onde você vem, Merope?"

A garota não estava acostumada com esse tipo de tratamento. Tanta gentileza a espantava; nunca se sentira acolhida na vida.

"Moro, quero dizer, morava na pequena casa perto da estrada.", explicou e não entendeu quando a mulher colocou as mãos na boca assim que ela terminara de falar. Parecia bastante surpresa.

"Você é a filha de Marvolo Gaunt? Aquele que foi preso junto com o filho?", apesar das perguntas, a mulher falava com cautela, como se não quisesse ofender ou magoá-la com suas palavras.

"Sim.", respondeu abaixando os olhos."Se a senhora quiser, vou-me embora. Não quero causar problemas.", sentia-se envergonhada.

"Não, querida. Você não tem culpa pelos erros de seu pai. Imagino que tenha ficado sozinha depois que seus familiares foram presos, certo?", Merope assentiu. "Como ficou sabendo que estávamos em busca de gente para trabalhar aqui?"

Tentava encontrar uma boa desculpa para não ter que dizer que estava ouvindo conversas de terceiros quando a chaleira começou a fazer barulho. A senhora levantou-se. A moça continuou olhando para baixo até que viu as mãos enrugadas colocando uma xícara de chá bem quente a sua frente. Ela olhou a fumaça subindo e segundos depois passou as duas mãos em volta do objeto. O calor era reconfortante.

"Obrigada, senhora.", disse e logo começou a bebericar.

"Darcey, me chame de Darcey.", falou a mulher colocando sobre a mesa um prato com alimentos redondos que a garota não reconheceu.

"O que é isso?", não queria parecer mal-educada, deveria apenas aceitar o que lhe era oferecido, mas sua curiosidade fora maior.

"Isso? São biscoitos, querida. Nunca comeu biscoitos?", ela negou com a cabeça. "Prove um. Tenho certeza que irá gostar."

Assim que Merope colocou o biscoito na boca algo derreteu. Darcey estava certa, era uma delícia.

"Chocolate é muito bom.", afirmou olhando a expressão feliz da jovem, e voltou a sentar-se em frente a garota. "Querida, não quero ser rude, contudo vou logo lhe informando que o emprego não é por muito tempo. O filho único dos Riddle, Tom, fará vinte anos e eles estão organizando uma festança."

Ela assentiu anotando mentalmente a nova informação sobre Tom.

"E sabe, bom, eles não são muito simpáticos." Darcey falou baixo como se estivesse contando um segredo. "Sei que não deveria falar assim de meus patrões, parece que estou sendo ingrata, mas sinto que devo logo lhe avisar, para que você não desista do emprego logo que tiver o primeiro com os donos da casa."

"Já estou acostumada a ser maltratada, senhora, quero dizer, Darcey."

A velha empregada foi invadida por uma onda de pena. Merope parecia tão frágil. Sentia que deveria cuidar dela como se fosse uma filha.

"Pois bem", disse tentado disfarçar o bolo que se formara em sua garganta. "Amanhã, logo cedo, irei informá-los sobre sua chegada. Por favor, não queria que fosse assim, mas não diga de quem você é filha. Sabe, eles não gostavam muito de... seu pai.", terminou com um olhar triste.

"Tudo bem", garantiu a moça com confiança. Ela sabia que o pai já tinha causado alguns transtornos para os Riddle.

"Acho melhor comer, Merope." Darcey olhou para o prato que estivera intocado desde que começara a falar.

A morena tratou de comer os biscoitos de chocolates, seu estômago estava rocando. Continuaram mais um tempo ali até que a mais jovem terminou seu pequeno lanche. Darcey retirou o prato e a xícara e os lavou. Convidou a recém-chegada a se levantar e as duas seguiram pelo mesmo corredor escuro de onde a senhora viera com o cobertor. Ela abriu uma porta e ambas entraram no pequeno quarto. A mais velha forrou o centro do chão com três cobertores para Merope deitar-se e pegou mais um para cobri-la. A pequena tirou o cobertor que estava enrolado em si e o depositou em um canto. Darcey desculpou-se por fazê-la dormir no chão dizendo que sua coluna já não mais permitia que ela dormisse em qualquer outro lugar que não fosse uma cama.

Sorriu diante da doçura e preocupação da idosa, e disse que não havia a menor importância. Em tão pouco tempo, aquela mulher já havia feito muito por ela. Deitaram-se — Darcey em cima da pequena cama que ficava encostada na parede — desejaram-se boa noite e caíram no sono.