Memórias de Inverno
5 Eu Confio em Você
Notas iniciais
Não havia nada nele que eu não achasse engraçado ou no minimo curioso. Ele observava tudo com muita atenção e sempre estava em estado de alerta, checava se a arma estava no bolso a cada dois minutos, acho que alguns hábitos nunca somem.
A televisão parecia mágica, depois que descobri como fazê-la funcionar ele ficou na frente dela boa parte da tarde vendo noticias ou documentários sobre a segunda guerra, o que o deixou um pouco perturbado.
Fui até as vendas e comprei algo que poderia o animar, não era o que eu esperava mas poderia funcionar.
— Bucky — chamei quando entrei na cabana — tenho algo para você.
— O que é? — ele saiu do banheiro ainda secando o cabelo.
Levantei o Pen Drive que estava na minha mão e ele me olhou deixando claro que não entendeu nada.
x Ponto de vista do Bucky x
Margaret voltou para casa com um aparelho estranho em mãos, e disse que era para mim. Ela afastou a mesa de centro da sala e cobriu o chão com um cobertor. Colocou o aparelho estranho na televisão e um filme começou.
Ela deitou no cobertor e me chamou com um grande sorriso no rosto, mas me sentei no sofá.
Da primeira vez que a vi ela parecia sentir desprezo por mim, me pergunto o que ela acha agora. Não acho que seja possível sorrir desse jeito para alguém que você odeia.
Não entendi muito bem o filme no começo, o que, só por esse motivo, me levou a deitar ao lado dela. Apenas para fazer perguntas.
— Ela não se lembra de nada mesmo? — sussurrei.
— Só das coisas que aconteceram antes do acidente — ela sussurrou de volta.
Quando o filme acabou só pude chegar a uma conclusão: era bobo.
— Vai, fala — Margaret estava me encarando, devo ter deixado minha indignação muito aparente.
— Ele acorda todo dia com uma mulher que não se lembra dele.
— Ele a faz se apaixonar todos os dias como se fosse a primeira vez porque ela vale a pena.
— Como saber se a pessoa vale a pena?
— Bem — Margaret deu ombros e começou a pensar em uma resposta convincente, ela gostava de ter bons argumentos — uma pessoa que te faz feliz só pela presença dela já vale a pena.
— Você tem alguém assim? — Perguntei por impulso. Foquei na parede a minha frente, não sei porque perguntei já que não queria saber a resposta.
— Não mais — respondeu com um sorriso amargo no rosto — já faz alguns meses.
— Ele morreu? — perguntei me sentindo um pouco culpado.
— Não, ele tem uma ordem de restrição e eu tenho isso — ela se sentou e levantou parte da blusa mostrando uma pequena cicatriz localizada nas costas — Ele foi o cara mais legal que já conheci, era engraçado, charmoso, me disse todas aquelas coisas que qualquer garota gostaria de ouvir, fazia com que eu me sentisse a única mulher no mundo — ela fez uma pausa e respirou fundo, vi que seus olhos estavam começando a lacrimejar — depois de seis meses ele começou a me bater, no outro dia pedia desculpas, me levava pra jantar no meu restaurante preferido e me lembrava de como a vida podia ser boa do seu lado se eu esquecesse apenas daquele momento ruim. Levei isso por mais quatro meses até ele tentar me esfaquear porque, segundo ele, eu paquerei o entregador de pizza.
Me levantei e respirei fundo para conter minha raiva. Eu odiava qualquer coisa que tirasse seu sorriso habitual do rosto. Margaret é incrível, saber que ela passou tanto tempo com um ser imprestável me deixa furioso.
Não sei por quanto tempo fiquei perdido na minha própria cabeça, Margaret estava na minha frente, ela havia perguntado algo que eu não havia escutado. Relaxei um pouco, ter ela por perto me fazia querer ser alguém melhor. Ela certamente não ficaria com um assassino descontrolado, mas querendo ou não, essa poderia ser uma definição para mim; assassino a sangue frio, sem controle nenhum, que poderia a matar a qualquer hora.
— Não quero te machucar — disse em voz baixa.
— Isso não vai acontecer.
— Você sabe que não sou confiável, que dentro de mim ainda tem algo que a Hidra colocou, e que a qualquer momento eu posso... — fechei os olhos e tentei espantar todas as coisas horríveis que eu já havia feito — Não confio em mim.
— Eu confio.
Ela colocou ambas as mãos em meu rosto, olhei para seus olhos negros que pareciam brilhar com a luz fraca da cabana. Ela se aproximou o suficiente para que eu sentisse sua respiração em meu rosto, e se eu ficasse ali por mais dois segundos, ela me beijaria. Por isso dei um passo ara trás, ela tirou as mãos de meu rosto e colocou no bolso da calça que estava usando.
Seu rosto ficou vermelho, nunca quis deixa-la constrangida, só não podia beija-la sabendo que nunca ficaríamos juntos. Essa não é a vida que ela merece. Sei que ela é inteligente e que ainda ouvirei falar muito dela por ai, mas isso nunca vai acontecer comigo ao seu lado.
— Boa noite, Bucky — disse gentilmente.
Assenti e a vi indo para o quarto.
— Ei — chamei — o que você passou, espero que saiba que não merece nada disso.
Ela sorriu e entrou no quarto, e eu me senti um completo idiota.
x Ponto de vista da Margaret x
Depois de tomar banho fui direto para a cama, ainda era inverno e o chuveiro da cabana não esquentava muito bem.
Chorei um pouco antes de dormir lembrando de David, essa foi a primeira vez que contei toda a história em voz alta. Me separei dele cerca de seis meses atrás, pouco antes da minha formatura, que era pra ser o momento mais feliz da minha vida já que passei oito anos estudando.
Mas no final eu estava feliz por conseguir contar tudo em voz alta, por não sentir saudade dos momentos incríveis que passamos, por só conseguir sentir nojo ao lembrar dele.
Eu estava seguindo em frente, porém o homem que eu queria tinha acabado de me rejeitar.
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