Memórias Póstumas
32 Impressão
O letreiro dizia: \"The Moment Is, Magazine\"
Mas ao invés disso parecia que a placa iluminava em neon a frase \"Dê meia volta e suma daqui!\"
Near respirou fundo e enfim foi engolido pela imensidão do prédio escuro.
- Nossa editora chefe está ocupada no momento, gostaria de deixar um recado?
Disse uma recepcionista que sorria forçado, exibindo dentes que acabavam de sofrer um clareamento a laizer.
- Eu preciso tratar do assunto pessoalmente, quando ela estará disponivel?
Ela vacila nas bochechas, tremelicando com o sorriso, e buscando em uma gaveta uma agenda.
- Ela estará livre na terça-feira, está bom pra você?
- Terça-feira está perfeito.
- Marco o horário em nome de quem?
- Near Cooper.
- Cooper? — ela pergunta reprimindo uma risada, e depois a recolhe, olhando as feições sérias de Near.
- Você é o que?
- Eu sou apenas um entrevistador, tenho algumas informações que certamente a interessarão.
- Você não é do jornal concorrente, não é?
Near tosse uma risada.
- Não, fiquem tranquilos, não vim roubar noticias.
- Ah sim, ufa! Então seu horário está marcado pra terça, boa tarde.
Near assente com a cabeça, as feições ainda irredutiveis.
- Você influencia o aumento de fumantes passivos.
\"Cala a boca!\"
Near revira os olhos, ignorando a ilustre companhia que fumava sentado em sua janela.
\"Você já foi ao prédio do jornal?\" Mello aparece em milésimos de segundos ao lado de Near lhe arrancando um arfar.
- Sim, tenho um horário marcado com a editora chefe.
\"Hunpf!..\"
- O que foi? — Near bufou irritado, se virando para Mello.
\"Você podia simplesmente mandar um de seus capangas pra fazer isso por você, não tinha necessidade em ir até lá você mesmo\"
- Capangas? Você acha que eu sou como você? — Near bufou em um tom zombeteiro.
Mello arregalou os olhos, virando um borrão no ar e reaparecendo em cima de Near o puxando pelo colarinho e o espremendo contra a cadeira.
\"O que você quer dizer com isso, seu inútil?
- Foi o que você ouviu — Near murmurou, esmurrando o ombro de Mello, inutilmente, vendo sua mão transpassar pelo ombro que ficava invisível simultaneamente.
\"Seu idiota, eu...ahhh!\" Mello solta rapidamente o colarinho de Near antes de lhe acertar um soco no rosto, massageando o ombro e o assoprando, Matt dava um sorriso malicioso, voltando o cigarro pra boca.
\"MATT SEU FILHO DA...\"
\"Hei! Me agradeça por isso viu, seu branquelo\"
- Obrigado — Near murmurou, observando abismado o ombro chamuscando de Mello.
- Mello, seja racional.
Ele encara Near, ainda esfregando o ombro e espiando debaixo da franja loira, longa e desfiada.
\"Eu digo o mesmo.\"
\"HEEI, dá uma chance pra ele chefia, não é legal ser morto\"
- Hã? O que?
\"Você iria entender se seus planos fossem interrompidos por uma morte\"
A voz de Matt foi se transformando em um som de fundo, foi ficando em segundo plano, Near se fixava somente no rosto de Mello, que olhava a janela, as sobrancelhas contorcidas, os lábios franzidos em uma linha reta.
\"...E então é isso, não é legal morrer, morô?\"
- Ahh...Claro.
\"Por que eles simplesmente não somem?\" Near pensou consigo mesmo, enquanto espiava discretamente os fantasmas cutucando Gevanni.
- Eu não consigo ver um porquê nessas suas idéias e...
- Eu tive um sonho... — Near murmurou, enquanto manuseava entediado um cubo mágico.
- Um sonho? — Gevanni perguntou torcendo as sobrancelhas.
Near suspira, franzindo as sobrancelhas, Mello se estica na poltrona, Matt se empoleira no criado-mudo, todos atentos.
- Um pesadelo, talvez, nesse sonho, eu, não era eu, ou melhor, era eu, mas na verdade, eu era o próprio L, eu sei...- Near torceu mais ainda as sobrancelhas, gesticulando com as mãos — Eu sei que é loucura, mas é verdade, estava vestindo um traje de gala, eu dançava com Misa Amane, era estranho, mas parecia que tinham duas pessoas presas num só corpo, eu e L, eu via o senhor Wammy nos observando, ele tinha a mesma expressão de que eu me lembrava anos atrás, ele tinha quase a mesma aparência, os mesmos cabelos grisalhos penteados pra trás, eu podia até sentir seu cheiro de sabonete de lavanda...
Mello e Matt se enrijeceram, se encarando por alguns segundos e depois voltando os olhos para Near.
- Depois de alguns minutos tentando dançar com Misa, surge do nada Raito Yagami, vestindo o mesmo traje que eu, só que ele conseguia andar e falar mais elegantemente.
Ele se aproximou e pediu pra dançar com Misa, ela aceitou, e depois de uma dança, ele...
- Ele?
Matt virou o rosto para Mello novamente, o curso de seus olhos eram uma incógnita, já que seus óculos eram tão escuros.
- Ele a persuadia na minha frente, lhe entregando uma arma com silenciador nas mãos, e dizia sedutoramente em seus ouvidos que atirasse em mim, ou em L, que no caso éramos nós dois, e ela assim o fez.
- Que loucura! — Gevanni exalou balançando a cabeça.
- Não, não é — Near murmurou levantando um dedo — Há uma simbologia nisso tudo, e eu só fui entender depois.
- Hã?
- Eu pude perceber enfim que esse Kira ou Killer como ele se denomina, é manipulador assim como Raito Yagami era...
-... Tanto que no tal sonho, fez com que Misa atirasse contra mim, ou L...
- Foi daí que você tirou essa conclusão?
- Sim e não, o sonho foi mais como um aviso.
- Você sabe que não pode ser movido somente por um son...
- Não é isso! Você sabe que eu nunca me deixarei mover por coisas supérfluas, como um sonho somente, eu tenho bases concretas, mais concretas aliás, que Killer é manipulador, e que seus \"discípulos\" farão qualquer coisa pra agradá-lo, ou... Protegê-lo.
***
- Eu recebi uma ligação de um chefe de polícia do Arizona, ele nos perguntou o porquê da falta de ação, mesmo sabendo de tantas mortes...
- Não se preocupem, eu me responsabilizo quanto a isso, vocês sabem.
Geremy torceu o nariz, com desconfiança.
- Eu espero que sim.
Susan trazia uma bandeja de cafés, servindo um a uma, deslizando um olhar tímido para Near, que retribuiu exatamente da mesma forma.
- Você suspeita de alguém do jornal The Moment Is?
- Digamos que sim.
- Então se ocorrer mais mortes, já sabemos de quem suspeitar?
Near engoliu em seco, sendo imitado por Gevanni.
- Sim, se houver mais mortes...
\"Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac...\"
- Você está bem?
Near piscou algumas vezes, desembaraçado sua vista, e agora vendo com perfeição a recepcionista estranhamente hiperativa.
- Estou, eu só preciso de um pouco de ar, que horas são?
Ela puxou a manga de uma blusa de tricô, expondo o pulso esquálido com um relógio semi-frouxo.
- São quatro horas.
- Já? Eu estou há mais de duas horas aqui?
Ela levantou as sobrancelhas.
- Parece que sim.
- Onde está essa tal editora chefe, que ainda não deus as caras?
Near se levantou do sofá da sala de espera, olhando a recepcionista no fundo dos olhos e esboçando um sorriso.
- Eu posso muito bem vender minha notícia para o concorrente.
Ela arregalou os olhos castanhos, deixando a respiração oscilar um pouco.
- Me acompanhe.
Um sorriso foi inevitável a surgir no canto dos lábios de Near.
A recepcionista o levou até um corredor estreito que terminava com uma porta de vidro coberta por dentro por uma persiana branca.
- Espero que você se responsabilize por isso, não quero perder meu emprego — ela murmurou enquanto abria a porta, hesitante.
- Não se preocupe com isso — disse Near com a mesma expressão de \"nada\".
A porta aos poucos foi se abrindo, aos poucos Near via o interior da sala que estava à meia luz.
- O que você quer Anita? Já disse que estou ocupada.
- Agora é com você — ela murmurou fechando a porta com Near já dentro da sala.
- Quem está aí?...
- É Near.
Uma silhueta feminina surge de repente, passando os dedos suavemente pelo interruptor, e acendendo uma luz à parte que agora iluminava melhor seu rosto.
- O que você quer? — uma mulher loira, de aproximadamente 1,60, olhos verdes, e um corpo discretamente sensual, perguntava pra Near com uma voz imperativa.
Near olhou para a porta por alguns segundos, estando ciente de que a recepcionista já estivesse à alguma distância dali.
- Eu sou um detetive.
A mulher arregala os olhos, se sentando e apontando para uma cadeira vazia à sua frente.
- Sente-se, em que posso ser útil?
- Eu gostaria de fazer algumas perguntas se não for incômodo — Near sorriu, quase que involuntariamente.
- Tudo bem, fique a vontade — ela cruzou os dedos em cima da mesa, olhando Near com certa hesitação.
- Vocês provavelmente já tem ciência sobre um novo assassino, Killer, não é?
Ela fez que sim com a cabeça.
- Absolutamente, é nosso dever saber.
- Tendo base em algumas investigações e leitura de alguns fatos, supus, que o seu jornal, foi o único que teve imagens e história do sequestro do deputado em primeira mão, nenhum outro jornal teve tais informações tão claras, posso saber de onde conseguiram tais fontes? Senhora, err... — Near abaixou os olhos, espiando o crachá em cima da mesa — Sarah Garner.
Ela ficou por um minuto imóvel, os olhos varrendo a sala, e depois ela suspira e sorri.
- Posso simplesmente afirmar que meus repórteres e jornalistas são muito eficientes.
- Só isso?
- Bem, nossos repórteres passavam o local na hora exata, ele não iria desperdiçar tal oportunidade.
- E se eu disser que eu estava no local, e não havia ninguém além dos policiais, os seguranças do deputado, o sequestrador e o próprio deputado.
Ela engoliu em seco.
- Onde você quer chegar com isso? — ela insinuou com um meio sorriso e os olhos sutilmente estreitos, Near retribuiu o mesmo sorriso.
- Nada, só achei que algum de seus repórteres pudesse me ajudar a resolver algumas coisas...
- ...Nos falaremos melhor num outro dia, se você não se importar em cooperar com a polícia, não é?
- Oh sim, claro, terei um prazer em cooperar.
- Até mais ver.
Ela sorri, estendendo a mão com unhas perfeitamente cuidadas para Near.
- Até mais ver.
***
- Lembra do que combinamos?
- Sim — Gevanni suspirou.
- Não sei porque, mas isso me deixa em partes nostálgico, é como um dejavú de anos atrás.
- Se fosse só com você.
- Mas então é isso — Near pegou um bonequinho que não tinha rosto, que tinha apenas \"X-killer\" em seu peito, e o apagou escrevendo \"Sarah Garner\" — Não há dúvidas, ela é minha suspeita.
- Near? Ela? Mas... você mal a conheceu, mal conversou e...
- Não é o suficiente par você? A sua gentileza repentina, quando soube que eu era um detetive, a sua incerteza nas explicações, a hesitação, a insegurança em explicar sobre suas fontes, pra mim é muito claro, e você já sabe o que deve fazer não é?
- O mesmo esquema que fizemos com Mikami...
Near sorriu, guardando o boneco dentro da caixa.
- Sim, o mesmo esquema.
***
\"KAKAKAKAKAKA! Olhe só isso! Nosso rapaz está virando um homenzinho! KAKAKA\"
- Isso já é tão frustrante pra mim, e você ainda faz questão de piorar, Matt?
Near passava cuidadosamente uma lâmina no rosto, retirando a espuma de barbear.
\"Quem diria, Near já tem barbinha!\" Mello sibilou entre risos discretos.
\"Ahh Mello! Pára, eu to morrendo de rir aqui, ufa, ufa\" Matt se encolhia no sofá, apertando a própria barriga encharcada de ferimentos incuráveis.
- Eu odeio vocês — Near murmurou.
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