\"Eu convidei celebridades?... Isso está me intrigando\"
- Eu acho que precisamos ir agora — Gevanni murmura.
Near ainda confusa se levanta da maca de Misa, onde estava sentado e sem querer acaba levantando e carta que é iluminada pela luz do corredor, e enfim tudo fica claro.
\"Eu convidei celebridades\"
\"O que? É isso!\" Near murmurou eufórico, olhando para a carta esticada em frente a luz \"Ela criou um tipo de código, então quer dizer que ela o viu, maldito! o que será que ele falou pra ela ter se matado?\"
- O que foi? — Gevanni perguntou.
- Não foi nada, vamos voltar pra Florida.
- Está perdendo o medo de aviões?
- Não é medo, somente cautela!
- Sim, claro.

Near avaliava a carta de Misa Amane, as letras se destacando logo ao colocar de frente a luz.
\"Ela até foi muito perspicaz me deixando esse recado...\"
- Seu maldito, está feliz? — Near murmura para as paredes, girando a cadeira devagar — Eu sei que você está aí!
Silêncio.
- Ahh... Near tomba a cabeça nas mãos — O que eu estou falando, ele morreu!
Near se levanta, arrastando os passos pelo quarto, e colocando uma das mãos na maçaneta.
- Não L, não vou dizer aonde eu vou...
Susan estava atrás do balcão, os cabelos presos num rabo de cavalo, totalmente envolvida no que fazia, levando um susto com a chegada de Near.
- Olá — ele murmurou frio e indiferente.
- Ahhh, olá — ela sorriu.
- Você, perdeu a correntinha? — Near apontou para o pescoço de Susan, que logo pôs a mão nele, tocando o com a ponta dos dedos.
- É, eu perdi, nem sei onde, vou ter que comprar uma outra...
Near estreitou os olhos.
- Mas não foi um presente?
Ela olhou de repente pra Near.
- Sim, foi, um presente de uma pessoa muito especial por sinal.
- Então não compre outra pra substituir.
Near busca no bolso da calça solta, a correntinha de prata, a entregando pra Susan, que radiava.
- Você achou!
- Sim, achei — Near murmurou.
Ela olhou confusa pra ele, enquanto colocava a correntinha no pescoço.
- Eu vou entrar.
- Ahh sim, claro, fique a vontade.
Soichiro estava emburrado, sentado num canto do ginásio, a cabeça baixa, o capacete de esgrima em uma das mãos, os ombros arqueados, e os lábios se resvalando num biquinho.
- O que houve? — Near perguntou.
Soichiro levantou o rostinho pequeno, um risco transparente de uma lágrima marcou as maçãs do rosto, que ele limpou furiosamente com a manga da roupa de esgrima.
- Bem, eu estive me preparando para o próximo torneio, há muitos, muitos, muitos dias, esperando que o treinador me levasse para Nova Orleans, pra competir com outros grandes esgrimistas, mas hoje, na seleção, ele simplesmente não me escolheu, por ser novo demais...

Ele abaixa a cabeça, reprimindo mais uma lágrima.
- Você ser novo demais, não quer dizer que você não seja talentoso, o treinador Rudolph e um profissional, ele sabe o que está fazendo, e tenho certeza que sabe valorizar seu talento.
Soichiro trincou os dentes.
- Não, ele não sabe! Eu dei um duro danado tentando me aperfeiçoar, ignorando as pessoas me humilhando e dizendo que eu não era capaz, e principalmente ele \"O que? Soichiro nunca vai ser um esgrimista com essa altura\" \"Soichiro mais isso, Soichiro mais aquilo!\" — ele imitava a voz do treinador — \"Você deve entender que esgrima não é brincadeira, Soichiro! Eles irão lhe machucar!\" — Soichiro ainda o citava.
- Ele somente estava cobrando o melhor de você — Near disse irredutível — É a função dele, cobrar de quem for.
Soichiro parou de repente, os olhos vermelhos e irritados com as lágrimas.
- Ele não cobra nada de Johnny, que lhe deu dinheiro o suficiente pra que o treinador comprasse o Jeep dos seus sonhos...
Near arregalou os olhos, seguindo o olhar de Soichiro, que fitava um garoto altíssimo, de porte elegante, cabelos cor de bronze e rodeado de amigos.
- Ele é John?
Soichiro fez que sim com a cabeça, e depois a abaixou.
- Virão outros torneios, Soichiro.
\"Droga, eu não sei mesmo consolar uma pessoa\"
Ele fungou, limpando outra lágrima.
- Mas eu não queria esperar, eu me dediquei tanto, e eu... não gosto de injustiças!
Soichiro se levantou emburrado, indo em direção ao banheiro masculino.
Near estava apreensivo, em saber o que ele fora fazer, mas não o acompanhou.
- AAHHH, por favor, alguém ajude!! — Susan entrou dentro do ginásio desesperada.
- O que foi? — Near perguntou, logo se levantando.
Ela gaguejava nervosa, fazendo muitos movimentos atrapalhados com as mãos.
Soichiro saíra correndo do banheiro, ainda limpando as lágrimas com a manga so uniforme.
- O que aconteceu?
Susan toma fôlego e diz numa só voz.
- Eu não sei bem, mas é o treinador, ele está... tendo um ataque cardíaco...

Soichiro tremia, os olhos piscavam agressivamente, forçando as lágrimas a secarem, a boca pequena e rosada entreaberta estava trêmula, fitando assustado, o treinador, caído de olhos abertos perto do próprio Jeep, no estacionamento.
- Ele morreu?!! — Susan exalou desesperada.
Near colocava dois dedos no pescoço do treinador, verificando sua pulsação.
Suspiro.
- Sim, ele está morto.
Susan solta um gemido de agonia tapando a boca com as duas mãos, os outros alunos têm a mesma reação desesperada.
Near observa próximo ao Jeep, uma rosa vermelha, caída no chão.
- Veja só... — ele murmura avaliando a rosa, ela não tinha espinhos e fora cortada com uma tesoura especial, era claro que ela não tinha caído ali do nada...
- Ele... ele... mo-mo-rreu? — Soichiro fraquejou uma frase, fungando algumas vezes.
- Sim, ele morreu — Near disse enquanto pegava a rosa do chão — Não há mais nada que se possa fazer.
Susan, de certa forma estava espantada, com a frieza com que Near lidava com a situação.
- Eu preciso ir.
- Mas... — Susan.
- Eu preciso mesmo ir, com licença.
Near saí, deixando Soichiro pra trás, as feições pequenas decepcionadas.

\"Harper\'s floriculture\" dizia a placa entalhada em madeira, era a floricultura mais próxima da academia de esgrima, e sim, Near tinha certeza que a rosa fora deixada propositalmente.
- Com licença?
Um homem de meia idade sai por de trás do balcão, os cabelos eram longos e pretos, tinha uma forte descendência latina, a pele morena destacava muito bem isso.
- O que deseja? — o homem abriu a boca, expondo os dentes amarelados.
- Gostaria de dar uma olhada nas suas rosas criadas.
O homem estreitou os olhos pra Near, acendeu um cigarro e se arrastou indo em direção a um pequeno canteiro num canto da loja.
- Brancas ou vermelhas?
- Vermelhas.
O homem voltou, trazendo um maço amarrado por uma fita.
- É o senhor quem cultiva as rosas?
- Sim senhor, sou eu mesmo — o homem diz, carrancuda, murmurando com a boca cheia pelo cigarro.
- As hastes das suas rosas são diferentes, elas são retas, quase perfeitas, é a única floricultura pelos arredores?
O homem tira o cigarro da boca, o apagando em um cinzeiro.
- Você não é nenhum magnata tentando abrir concorrência comigo não é?
Near sorri.
- Não, só sou um apaixonado por rosas.
- Huum, bem, se é assim, a minha floricultura é a unica aqui na península, a próxima fica a cerca de dez quilômetros em Tallahassee, na capital.
- Hmm, muito obrigado.
- Não vai querer levar as rosas? — o homem murmurou rouco e mal-humorado.
- Ainda não, com licença.
O homem bufou assim que Near saiu da loja, murmurou algumas palavras que Near ficou feliz em não ouvir.