Memórias Perdidas
1 Capítulo 1
Notas iniciais
— Olá, meu nome é Lorena Ellins, eu acho...
A menina morena dos olhos castanhos, que repousava sob uma cama de hospital e conectada a vários fios, se apresentou ao homem negro, alto e forte que estava sentado na beirada de sua cama.
— Olá Lorena, eu sou o detetive Joe Parkson e estou aqui para te auxiliar.
O homem, que aparentava ter uns 40 e pouquinhos anos, usava um terno xadrez e em suas grandes mãos tinha um bloquinho e uma caneta.
— Me auxiliar ao que? – Eu estava bem confusa, em que um detetive me auxiliaria? Eu não cometi nenhum crime. Pelo menos não pelo o que eu saiba, já que eu perdi completamente a memória (e o juízo, para aceitar conversar com alguém sem eu estar usando um pingo de maquiagem).
Houve um intervalo de poucos, porém longos, segundos antes do detetive Joe continuar.
— A voltar a sua vida. – Joe disse soltando um suspiro.
Só fiquei me perguntando de qual vida o detetive Joe estava falando, já que aparentemente eu não tenho nenhuma. Nem mesmo lembranças eu tenho sobre uma vida que deveria ter existido. Afinal, eu tenho 17 anos e eu tenho quase certeza que qualquer pessoa que já tenha vivido 17 fucking anos tem lembranças.
*****
Bom, o meu dia começou assim há exatamente uma semana atrás. Agora? Agora estou dentro de um carro preto, dirigido por Joe, escrevendo neste diário. (recomendações médicas). Desde o dia que Joe entrou no meu quarto do hospital, coincidentemente o mesmo dia em que sai do meu coma de nove meses, eu fui bombardeada por respostas que rodavam na minha cabeça. Como que eu fui parar ali? Por que ninguém da minha família foi me visitar? Por que eu não lembro nada dos dias anteriores ao meu acidente? Por que eu to com vontade de ir à loja da Dior e comprar uma bolsa? E o mais importante: Por que raios eu estou com cheiro de mofo????!
Claro que Joe tratou de me responder tudo naquele dia. Eu ainda estava bem tonta, mas insisti pra ele me responder as minhas perguntas. Eis aqui, em ordem, as respostas dele:
—Você veio parar no hospital porque uma ambulância te socorreu do acidente de carro.
—Você sofreu perda de memória momentânea.
— Provavelmente porque você tem a sensação de que era rica antes do acidente, mas que fique claro: você não é. Então não me vá pagar três mil dólares em uma bolsa.
— Meu deus, você está mesmo cheirando a mofo! – Joe fez uma cara de náusea – Credo, deve ser por causa desses cobertores. – Joe chamou uma enfermeira para trocar as cobertas.
— Hm.. detetive Joe?
— Sim, Lorena?
— Você não respondeu a minha segunda pergunta... Por quê ninguém da minha família veio me visitar? – Eu tentei passar a mão na minha cabeça pois ela começou a latejar um pouco, mas não consegui erguer o braço por conta de todos os milhares de fios que estavam conectados ao meu braço direito.
— Olha Lorena, você acabou de sair de um coma muito longo, e até mesmo havia chances de você nunca mais acordar, então o que você me diz de termos essa conversinha amanhã? A gente tem muito que conversar ainda... – Detetive Joe falou meio afetado, deixando o seu olhar, que parecia marejado, sobrepousar os meus olhos escuros. Algo me dizia que a conversa não seria boa.
— Tudo bem detetive Joe, amanhã conversamos então.
Toc, Toc, Toc
Uma enfermeira bateu na porta e adentrou o quarto pedindo licença. Li em seu crachá seu nome ‘’Annie’’. Algo forte apertou meu coração, não sei o porquê. A moça alta e loira se aproximou da minha cama com novas cobertas.
— Olá Lorena, eu sou Annie, vim trocar as suas cobertas e te dar o remédio para você poder seguir para os seus exames. – A moça tinha lindos olhos azuis. Era linda o suficiente para ser uma modelo da Victoria’s Secret. Acho que era por isso que ela tentava se jogar em cima do detetive, mas ele simplesmente a ignorava.
— Exames para que exatamente? – Perguntei
— Bom, já que você ficou um período considerado perigoso em coma, são necessários alguns exames para verificarmos se está tudo bem por dentro.- Annie falava num tom calmo, até parecia enfermeira para crianças, mas algo no meu interior falava que ela era uma falsiane.
Joe pigarreou, por um instante até esqueci que ele estava por perto ainda.
— Bom senhorita Ellins, preciso ir indo, mas amanhã voltarei com mais noticias para você.
— Ok detetive. Até amanhã. –Soltei um sorriso amarelo. Por mais que eu não tenha memórias, ou seja, lembranças, eu ainda tenho boas maneiras. Lembro-me de nome de coisas superfolas (como marcas), e eu tenho certeza que ainda sei fazer um delineado de arrasar nos dois olhos. Sinceramente, eu tenho uma sensação de que eu posso dispensar tudo, menos uma boa maquiagem e um bom salto alto.
Detetive Joe se levantou e saiu pela porta com o silêncio o cercando.
— Srta. Ellins, vou precisar que você se sente nessa cadeira de rodas, te levarei até o seus exames. – Annie se pronunciou, desta vez com uma voz já menos ‘’fofa’’ que em nossa primeira conversa.
— Olha, eu posso perfeitamente andar, não fiquei paraplégica até onde eu saiba. – Não tava começando a gostar dessa enfermeira não, eu hein. Fica mudando o tom de voz perto de macho.
— Srta. , você não está em condições para andar. – Annie falava mais firmemente.
— Estou sim. Olha só. – Eu me levantei da cama e dei um passo, logo depois cai.
— Era disto que eu estava falando. Suas pernas estão frouxas e desacostumadas com o seu peso. Você ficou nove meses em coma. – Ela me ajudou a me levantar e a me colocar na cadeira de rodas.
— E para onde vamos? – Eu tava muito dolorida, mas depois dessa queda... minha alma ficou grudadinha no chão. Eu despenquei no chão. 1,60 estatelado no chão.
— Para fisioterapia e maratona de exames.
********
No dia seguinte o detetive Joe cumpriu sua promessa. Ele foi me visitar de tarde. Segundo ele todos os meus exames obtiveram um resultado excelente, menos a minha memória. Parece que minhas lembranças foram apagadas mas os meus conhecimentos não, apesar de que eu não tenha noção do que eu conheça. Mas o médico me garantiu que assim que eu visse alguma coisa que eu tivesse familiaridade com, ou estudado o mesmo, eu me lembraria. Apenas as minhas lembranças que seriam algo mais difícil de recuperar. Lembranças com os meus amigos e familiares... Parece que estas foram perdidas para sempre ou por um bom período de tempo. Eu fiquei um pouco chocada com a notícia, e isso acaba explicando o porquê de eu saber sobre marcas e coisas do tipo.
— Detetive Joe, você vai me responder agora sobre a minha família? – Perguntei com um pouco de medo
— Lorena, você pode, e deve, me chamar de Joe. – Ele segurou o olhar sobre o meu rosto – E sim, eu vou te responder.
— Ok... Joe. – Eu não conseguia parar de olhar pra baixo e brincar com as minhas mãos, eu tava com uma sensação horrível.
— Lorena, não existe jeito mais fácil de lhe dizer isso, mas como você já sabe você sofreu um acidente de carro, correto?
— Sim. – Meus olhos já marejavam, era óbvio que todos haviam morrido.
— No carro – Joe pigarreou- Estava o seu pai, sua mãe e seus irmãos mais novos. – Mais uma pausa para Joe escolher as palavras certas — Bom, vocês estavam voltando de São Francisco para a casa de vocês, em Calabasas. Era de noite e chovendo, seu pai perdeu o controle do carro.. e eu sinto muito Lorena. Você foi a única sobrevivente. – Joe abaixou seu olhar e começou a fitar a coberta nova e branca que a enfermeira Annie tinha posto no dia anterior.
Eu fiquei sem palavras. Estava claro que eu não tinha mais família quando ele falou que não havia jeito fácil de me dizer. O que mais dói é saber que não cultivarei mais lembranças com eles e nem mesmo terei os momentos que vivi com eles presos em minha memória. Bateu um desespero mas eu não iria desmoronar na frente de ninguém, só quando eu estivesse completamente sozinha.
— Joe – eu levantei o meu olhar e fitei a grande cabeça careca e negra com os olhos atentos na minha frente. – você os conheceu? – Eu queria muito que ele tivesse os conhecido, pelo menos ele poderia me dizer coisas sobre a minha família.
— Lamento Lorena mas não... mas como sou policial sei de algumas informações, se você quiser saber. – Joe não fitava mais as cobertas, só segurava uma parte delas. Seus olhos agora tentavam ler minhas expressões.
— Sim, eu quero saber tudo o que você sabe, de cada uma deles.
— Bom, não sei muita coisa, apenas os nomes e idades.
— Já é alguma coisa para alguém que não tem nada, literalmente. – Ouvir eu mesma pronunciar isso foi como se alguém enfiasse uma adaga no meu coração jovem.
— Seu pai se chamava Johnson Ellis, 41 anos. Sua mãe Karina Ellis, 38 anos. Você era a filha mais velha de três. Você, sua irmã Annie de 14 anos e o seu irmão Theo de 8 anos. Só tenho essas informações.
Meu coração doeu. 4 nomes e nenhuma imagem veio a minha mente, nenhuma lembrança. É como se fossem completamente desconhecidos para mim, mas que no passado foram minha família. Ao mesmo tempo em que com o nome da minha irmã o meu coração pulava... está explicado o porque de eu ter ficado bolada quando eu li o nome da enfermeira. Vai ver que bem lá no fundo eu sabia o nome dela. Entretanto, outra questão surgiu logo em minha cabeça:
— Joe, com quem eu vou morar? – Bom, eu tinha que me preocupar comigo mesma, certo? Eu queria chorar, mas precisava ser prática.
— Olha Lorena, uma pessoa distante da sua família decidiu se tornar seu tutor, mas ela pediu pra eu cuidar de tudo pessoalmente, pois ela não quer ser identificada. Nem eu sei quem é, apenas meu chefe.
— Cuidar de tudo pessoalmente o que? – Eu estava confusa, por que uma pessoa iria quer ser mantida em sigilo se em uma semana eu seria liberada do hospital e estaria morando com ela? No sense at all.
— Bom, essa pessoa estará te mandando na próxima semana para um internato.
— Como assim, que internato? – Legal, sem família e adotada por um lunático.
— Um no sul da França. É uma escola internacional,uma entre as 10 melhores do mundo.
— Uau. – Ok, agora estava chocada. Fui adotada por um lunático (ou lunática), rica.
********
Foi assim querido diário, que eu cheguei nesse carro preto. Agora estou chegando no aeroporto e irei direto para Luynes, França. Cidade em que se é localizada minha nova casa / colégio.
PS: nem fodendo que ficarei escrevendo ‘’meu querido diário’’ e blablabla , vou só tacar as coisas aqui e quando eu quiser escrever ‘’meu querido diário’’, eu escreverei, XOXO.
Fale com o autor