Memórias
13 Sentindo
Notas iniciais
—Tanya? — eu a chamei quando seu corpo parou de tremer com o choro, tempo o suficiente para organizar minha mente e perceber que o momento de sentir pena já passou e que eu tinha que pensar mim e no que ela estava me escondendo, em primeiro lugar — eu entendo você, mas não poderei suportar isso por muito tempo. Eu tenho o direito de saber de tudo e farei o que tiver de fazer para descobrir o que está me escondendo.
—Eu sei.. — fungou enxugando o rosto — Eu sei.
—É bom que você saiba — eu dei um passo atrás me separando dela — agora eu preciso trocar de roupa e ir para o fórum.
—Tudo bem eu... Eu só preciso tomar um banho rápido para irmos.
—Você não vai comigo — Tanya desfez seu sorriso fraco franzindo o cenho.
—Eu... Pensei que tivesse percebido que eu posso ajudar você, pensei que tivesse visto que eu posso ser útil no seu trabalho.
—Sim, eu percebi, mas você não dormiu a noite toda e precisa descansar...
—Não seja bobo, Edward, eu estou bem, posso ir com você. Sem falar que eu sinto sua falta e essa pode ser a única forma de ficar perto de você.
—Prefiro que você fique. É melhor assim — dei um tapinha em seu ombro e estava prestes a ir para meu quarto a fim de me arrumar, mas Tanya me segurou.
—Edward, eu estou decidida a ir. Eu vou, não estava pedindo sua permissão.
—Você vai ficar, não quero que venha comigo — me desvencilhei imaginando para onde foi toda aquela fragilidade que ela estava apresentando até há alguns segundos.
—Nunca mandou em mim desse jeito, sempre respeitou minhas vontades, Edward, não vamos regredir nesse aspecto, por favor — eu me aproximei olhando em seus olhos.
—Se quer que as coisas sejam como eram você precisa me contar o que está escondendo, não há outra maneira.
—Eu sei, só estou pedindo que me deixe pensar, deixe ser quem eu quero ser, fazer o que eu quero fazer. Eu não sou uma... — ela estava ofegante falando com os dentes cerrados e hesitou por um momento antes de continuar — eu não gosto de receber ordens.
—Não estou impedindo você de fazer nada, apenas não quero que venha comigo ao fórum. Se vai ficar aqui e dormir ou sair e fazer o que quer que seja isso não me importa.
—Por favor, deixe-me ir com você, por favor — Tanya parecia frágil novamente e um pouco desesperada quando me alcançou ao pé da escada e eu percebi a facilidade com que ela ligava e desligava isso, já que há um segundo ela parecia estar em um ataque de fúria. Fiquei um minuto avaliando a situação e imaginei que a melhor maneira de agir seria seguindo seu humor, então eu sorri parar acalmá-la.
—Olha, por mais que eu esteja confuso, não vou fazer nada de uma hora para outra. Vou trabalhar e vou voltar para a casa no fim do dia, tudo bem?
—Eu sei que você vai voltar, você sempre volta — ela deu um leve sorriso e depois suspirou — mas tudo o que eu quero é ficar ao seu lado o máximo que eu conseguir. Posso, por favor? — olhei para ela por um longo minuto enquanto tentava entender o que ela estava tentando me passar agora.
Tanya parecia um pouco desesperada para me acompanhar, mas seu desespero que ela era diferente do que ela estaria sentindo se ficasse sozinha. Ela parecia não querer que eu fosse sem ela por que, talvez eu não pudesse ficar sozinho, como se ela tivesse medo do que poderia acontecer ou do que eu poderia descobrir se ela não estivesse ao meu lado.
—Eu sinto muito — mesmo sem sentir coisa alguma, dei de ombros e subi as escadas querendo mais do que tudo sair daqui. Ao sair do closet já vestido, como eu já esperava, Tanya estava me olhando com os olhos inchados e abraçando seu próprio corpo, sem nada dizer. Terminei de me arrumar olhando no espelho e depois deixei o quarto escutando os passos dela atrás de mim.
—Você vai embora sem nem se despedir de mim? — ela perguntou quando eu coloquei a mão na porta da frente — Vai embora sem nem me dar um beijo?
—É melhor assim, nós dois temos muita coisa para pensar — respondi sem olhar para ela e sai.
Enquanto eu dirigia tentava não pensar na conversa que tive com Tanya para não estragar minha manhã perfeita, mas não tinha como. Ela me perturbava na mesma proporção em que Bella me fazia bem e era gritante a diferença entre elas, a diferença do que faziam no meu dia só de pensar nelas, só de vê-las.
Imerso nesses pensamentos, cheguei ao fórum antes do que imaginava e encontrei apenas uma das senhoritas que estavam ali no dia anterior vendo nela um meio de encontrar respostas que eu precisava e resolvi interrogá-la, afinal, eu precisava começar por algum lugar.
Percebendo a movimentação, ela olhou em minha direção enquanto eu me aproximava e assim que me viu, ficou em pé para me cumprimentar.
—Bom dia, senhor Cullen.
—Bom dia. Pode, por favor, me acompanhar até a minha sala?
—É claro, senhor — ela deu a volta em sua mesa e passou a minha frente abrindo a porta para mim quando chegamos ao nosso destino — em que posso ajudá-lo?
—Sente-se — pedi dando a volta na mesa e abri meu paletó antes de me sentar a frente dela — Primeiro quero saber o seu nome.
—É claro, me perdoe, as vezes eu me esqueço de que o senhor não se lembra. Eu sou Gianna Lee.
—E o que você faz? Quero dizer, qual é a sua função?
—Sou escrevente, senhor. O meu trabalho é...
—Tudo bem, eu sei o qual é o seu trabalho aqui — eu a interrompi e ela assentiu com os olhos arregalados me fazendo perceber que fui um pouco rude e tentei me controlar para não fazer de novo — desculpe, mas eu só não me lembrava de sua função, sei muito bem o que um escrevente faz.
—Sim, senhor.
—E a sua colega? Qual a função dela?
—Kate e eu fazemos a mesma coisa.
—E quem faz a assessoria aos juízes e promotores daqui?
—Cada um tem seu próprio assessor, nós temos a assessoria do fórum, mas de modo geral. Se alguém precisa de uma só para si, contrata a parte.
—Entendo. Eu tenho algum tipo de assessora ou secretária? Alguém que cuida de minha agenda, de meus negócios?
—Não que eu saiba, sempre cuidou de tudo sozinho.
—Não tenho um advogado, um consultor, alguém que me ajude em alguma coisa?
—A única coisa que eu sei é que quando o senhor precisa de algum conselho fala com a senhora Cullen e vice versa, o máximo que faz é trocar algumas palavras com o senhor Volturi, mas não acredito que ele cuide de algum assunto que diz respeito ao senhor.
—Aro Volturi? — ela assentiu — E ele está aqui?
—Sim senhor, a sala dele é no fim do corredor.
—Tudo bem, obrigado — Gianna levantou-se para sair e fui logo atrás dela sem nem pensar, imaginando poder encontrar respostas com Aro.
—Cullen — o juiz sentado atrás de sua mesa me saudou assim que permitiu que eu entrasse em sua sala. Aro era visivelmente um homem bastante velho, o rosto bem marcado pelo tempo, mas seus longos cabelos eram muito negros como se não tivessem sido atingidos pelo tempo. Sorrindo, ele ficou em pé com dificuldade estendendo a mão para mim — eu fiquei sabendo que você voltou ao trabalho, mas ainda não tinha te visto.
—Eu voltei ontem, não poderia dar tempo — ele sorriu apontando a cadeira para que eu me sentasse.
—Sabe que tenho grande estima por você, contei no dia em que estive em sua casa — ele sorriu parecendo paternal ao se referir ao jantar que Tanya ofereceu quando eu voltei do hospital. Minha esposa o apresentou como meu mentor, a grande inspiração para meu trabalho em quem eu poderia confiar cegamente.
—Sim, eu me lembro e sou muito grato por isso.
—Não precisa agradecer, eu estou mesmo feliz que meu pupilo esteja de volta. Então, recuperou sua memória?
—Infelizmente não — ele assentiu depois de um breve sorriso.
—Voltar ao trabalho deve ser realmente um grande desafio para você já que não se lembra do funcionamento desse lugar.
—Na verdade, viver tem sido um grande desafio para mim, eu não me lembro do funcionamento de nada, por isso estou aqui justamente para pedir a sua ajuda.
—No que precisar — Aro se colocou a disposição me deixando um tanto esperançoso em poder encontrar ao menos algumas das respostas que minha mente precisava para ter um pouco de paz.
—Eu estou tentando descobrir algumas coisas sobre minha vida e Gianna disse... Bem, eu gostaria de saber se existe alguma coisa que você possa me contar.
—Sobre o que exatamente? Eu realmente posso te contar muitas coisas sobre você, sobre a forma com que mesmo muito novo você chegou aqui e com o seu talento, com a sua audácia e conseguiu se tornar o juiz mais respeitado dessa jurisdição, competindo até com o meu histórico impecável construido antes mesmo de você nascer — ele sorriu cruzando as mãos em frente aos lábios — eu posso te contar sobre seus feitos grandiosos, sobre suas vitórias ou sobre como foi que você fez inimigos, dentro e fora desse lugar. É só escolher.
—Não, não é sobre isso que eu quero saber — respondi olhando firmemente em seus olhos que agora não me pareciam tão quentes.
—O que é então, meu jovem?
—Quero saber se você conhece alguém que cuidava de meus assuntos ou que me prestava alguma consultoria. Pensei até que poderia ser você ou...
—Consultoria a você? Em relação a que?
—Alguém que me ajudasse com os meus negócios quando eu não estivesse ou me desse algum conselho jurídico, algo assim.
—Por que estava pensando nisso? Está precisando de um advogado para que? Aconteceu algo que eu deveria saber?
—Estou tentando retomar minha vida, como eu já lhe disse e por isso, eu preciso saber dessas coisas.
—Sim, eu entendo, mas pelo que eu conheço de você acredito que deve cuidar pessoalmente de seus próprios negócios.
—Nunca lhe pedi nenhum conselho?
—Você? — ele riu surpreso — Edward, você sempre foi auto-suficiente demais, se bastava para qualquer situação, não aceitava conselhos, não aceitava sugestões. É até engraçado te ouvir dizer isso.
—Você acabou de dizer que eu sou seu pupilo — franzi o cenho diante de sua reação, estranhando o fato de que todo o calor que percebi em seu olhos quando cheguei se transformou em frieza de repente — como eu posso ser se nunca te pedi opinião de nada?
—Eu quis dizer que você se transformou completamente do período em que chegou aqui como um estagiário, com ganas de aprender e depois quando sabia o suficiente, quando conquistou o lugar no qual queria chegar. O que foi uma pena — ele deu de ombros — quando eu disse que não me perguntava nada, me referia a essa sua segunda... Fase, por assim dizer.
—Sim, já ouvi sobre isso.
—Quem pode te culpar, filho? — seu rosto enrrugado se retorceu em uma careta — se eu tivesse chegado onde chegou com sua idade, eu provavelmente teria deixado isso subir a cabeça, como você fez.
—O que você quer dizer com isso? — franzi o cenho sem entender de onde vinha aquilo.
—Estou dizendo que depois de meia dúzia de boas atuações, você se achou o dono desse lugar, queria passar por cima de todo mundo que já trabalhava aqui há anos...
—Quis passar por cima de você? — perguntei entendendo o ressentimento em sua voz.
—Isso não é pessoal, se é o que está pensando, só estou respondendo sua pergunta. Você se achava bom demais, perfeito demais e qualquer outro era inútil perto de você, por isso, não tinha ninguém com quem conversar, em quem confiar — nós nos olhamos por alguns minutos e ele deu de ombros — não estou dizendo que seu trabalho não era bom, que você não trabalhou bastante e mereceu estar onde chegou, mas não precisava ser como foi. Poderia ser menos arrogante, mais humilde.
—Eu não me lembro de nada disso — respondi entendendo sua postura e dei de ombros — quero dizer que voltei a fase de aprender, estou me sentindo o estagiário que só quer saber mais — Aro me olhou por um momento parecendo refletir sobre o que eu disse, surpreso. Quando refez sua expressão ele sorriu para mim.
—Não precisa regredir, Edward, você é um excelente profissional e tenho certeza de que tem o suficiente para voltar ao seu trabalho como se nada tivesse acontecido, só o que precisa é se estabelecer e voltar ao ritmo, como quando se volta de longas férias.
—É o que eu espero, Aro.
—Saiba que terá todo o apoio que precisar de mim, como sempre teve — ele se levantou e estendeu a mão, claramente me dispensando. Depois de um momento observando eu o cumprimentei pronto para sair de sua sala.
—Muito obrigado por suas informações.
—Que é isso, meu caro? Eu não lhe disse nada. Na verdade, eu não tenho muita coisa a dizer a você, mas se quiser saber de alguma coisa, sobre seus papéis, seus negócios, sua vida, pergunte a Tanya, ela deve saber. Está para nascer mulher mais dedicada do que ela e pode confiar de olhos fechados.
—Tudo bem.
—Foi uma surpresa te encontrar tão mudado — Aro me acompanhou até a porta retardando um pouco mais nossa despedida — mal dá para acreditar que é o mesmo homem e isso é muito bom. Eu tenho certeza que se mudou o tanto que imagino, seguirá meu conselho e tudo ficará bem, Tanya sempre sabe o que fazer — eu agradeci mais uma vez e voltei para a minha sala enquanto pensava no assunto.
Aro não disse o que eu queria saber, mas me deu muito no que pensar.
A parte que mais ficou fixada em minha cabeça, foi a que eu criei inimigos aqui. Isso não era surpresa, Tanya tinha me dito que minha atuação no trabalho tinha criado inimigos fora daqui e que meu temperamento tinha criado situações desagradáveis aqui dentro. A forma com que Aro se referiu a mim anteriormente me fazia acreditar que eu mesmo tinha afastado as pessoas com a minha arrogância, mas, mesmo assim, todo mundo tinha alguém que confiava, como eu podia não ter ninguém?
Eu sei que tenho alguém por mim, afinal, Bella disse que tinha alguém que cuidava das despesas da casa dela quando eu não estava. Quem será essa pessoa? Onde eu poderia encontrá-la? O que mais ela sabia sobre minha vida?
Aro disse que tudo o que eu precisasse encontraria em Tanya, mas não sei, ele não me parecia um homem que deixaria tudo nas mãos da esposa e que não daria esse conselho a alguém, a não ser que ele acreditasse mesmo nisso ou que fosse esse tipo de homem, o que não parecia.
Eu não conseguia parar de pensar em como cada palavra que Aro disse a esse respeito pareciam devidamente ensaiadas, me deixando a seguinte pergunta: quem as ensinou para ele?
Olhei para o relógio e percebi que a manhã já tinha ido embora em meio as minhas divagações e resolvi que era melhor sair dali.
Deixei o fórum com mais perguntas do que quando cheguei e, por isso, resolvi ir para o único lugar que eu tive paz e respostas: para junto de minha família. Era uma boa ideia, afinal, se eu não tivesse respostas, ao menos encontraria um pouco de paz.
Parei o carro em frente a casa de minha mãe, mas ninguém veio me receber como já era costume e então imaginei que ainda estivessem trabalhando. Sai do carro percebendo que estava errado já que quanto mais eu me aproximava da casa, mais podia ouvir o burburinho da família toda reunida lá dentro e, ainda fora, eu não conseguia deixar de sorrir contagiado.
—Parece que eu cheguei em boa hora — chamei a atenção para mim quando abri a porta e vi todo mundo em volta da mesa, desfrutando da refeição que mesmo sem saber o que era, sabia que estava delicioso por ter sido preparado pelas mãos habilidosas de minha mãe e pela forma com que as crianças e Rosalie mal tiraram o rosto do prato para me cumprimentar.
—Filho, que surpresa boa! — minha mãe veio me receber de braços abertos -Que bom ver você, está tudo bem?
—Agora está — sorri beijando seu rosto — o cheiro aqui está ótimo!
—Você chegou mesmo na hora certa, mais alguns minutos Rosalie ou Emmett acabariam com tudo — Jasper implicou com o prato lotado do casal que nem ligou para ele, mas acenaram para mim de onde estavam e continuaram a comer eu ri e me sentei a mesa ao lado de meu pai pegando o prato que minha mãe me estendia.
—Tio Edward, sabia que meu aniversário está chegando? — Ellie perguntou assim que me sentei para comer.
—Não, eu... Eu não sabia.
—É verdade, tio, e o meu também está! — Ella se juntou a irmã nos fazendo rir.
—Vocês duas não fazem aniversário no mesmo dia? — elas se entreolharam e deram risadinhas assentindo.
—Você vem para a nossa festa, não vem?
—Vai ter uma festa?
—O papai disse que a gente pode chamar nossas amigas e a mamãe vai fazer um bolo, a Tia Alice vai fazer alguns doces e a vovó vai fazer muitas coisas gostosas. Nós já pedimos.
—É verdade. Vai ser tão legal!
—Vai ter muitas brincadeiras...
—Vai ter muitas coisas gostosas...
—Você vai vir, não é, tio?
—Por favor! — as gêmeas se revezavam animadas querendo que eu me animasse com a festa também.
—Meninas — Emmett interrompeu a tagarelice das filhas — o tio Edward é um homem importante, ele pode não ter tempo para vir, eu já disse isso a vocês.
—Mas ele nunca veio a nenhum de nossos aniversários — Ellie reclamou e sua irmã concordou assentindo.
—Nenhuma vez.
—Vocês tem razão. Está na hora de eu vir a uma festa de vocês, afinal daqui a pouco vocês vão estar velhinhas e eu ainda não vim em nenhuma.
—Oba!
—Tio Edward, o que você vai dar para a gente de presente?
—Ellie! — Rosalie ralhou de boca cheia — não faça isso, pelo amor de Deus! Que coisa mais feia!
—Por que mamãe? Você disse que a gente podia pedir presentes para o tio Jaz e a Tia Alice, por que para o tio Edward não?
—Querida, é diferente, eles são seus padrinhos e... — Rose estava muito corada tentando controlar suas meninas, mas pelo tempo em que eu as conhecia sabia que isso não era possível, por isso quis ajudá-la.
—Mas eu sou o tio de vocês também, não é? — segurei nas mãos das menininhas sorridentes que saltitavam ao meu lado — Conta para mim, o que vocês querem ganhar?
Essa minha pergunta abriu uma grande discussão e todas as outras crianças faziam listas de todas as coisas que queriam ganhar em seu aniversário. Eu me divertia vendo meus irmãos tentando controlar seus filhos empolgados demais pensando em tudo o que já sonharam em ter na vida.
Em meio a comida, crianças e risadas eu me esquecia de meus problemas junto de minha família.
—E então, meu filho? — Carlisle bateu em meu ombro quando nos sentamos na sala tomando café enquanto todos os outros se dispersaram em busca da sobremesa — Como está a sua memória?
—Eu ainda não me lembro de nada, pai, isso é tão frustrante!
—Mas você está trabalhando e conseguindo tocar sua vida a diante, de certa forma, não?
—Nesta parte sim, mas é tudo muito confuso. É como se eu estivesse lendo um livro a partir da metade.
—Realmente não parece ser fácil, filho, mas continue assim, encarando com coragem e vai se dar bem como da primeira vez — ele sorriu orgulhoso — Você conseguiu muita coisa em tão pouco tempo, e assim tão jovem chegou a lugares que eu nem imaginei que eu ou alguém de minha família chegaria um dia. Tenho certeza de que vai se reerguer e eu estarei aqui se precisar.
—Obrigado, pai — sorri para ele verdadeiramente agradecido.
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—O que veio fazer aqui hoje, filho? — minha mãe perguntou enquanto me levava para o carro depois do jantar, já que sem que eu percebesse, passei a tarde toda com eles. Eu olhei para ela sem entender a pergunta, mas antes que eu pedisse explicações ela continuou — eu tive a impressão de que você veio fazer alguma coisa e que acabou não fazendo.
—Você me conhece muito bem mesmo, não é? — eu ri passando a mão pelos cabelos — bem eu vim aqui para dizer a você que não virei no fim de semana, como eu tinha dito.
—Tem outros planos? — eu assenti e ela não se deu por vencida e seu sorriso parecia um pouco estremecido ao perguntar — com Tanya?
—Não, com Tanya não. Quero tirar mais um tempo dela.
—Vai ficar com a Bella outra vez então? — ela disse normalmente e isso me fez lembrar de algo que estava em minha mente desde minha última visita.
—O que eu disse a você sobre a Bella? Você sabe sobre ela, mas eu não sei o que sabe.
—Sei o que você me disse, que Bella é uma garota que você toma conta e que teve um começo de vida difícil. Você dá casa, comida, estudo para essa menina — eu assenti pensando que ela tinha terminado, mas Esme continuou — e sei também o que você não me disse, sei que está muito envolvido com ela.
—Está dizendo que estou agora ou que já estava antes do acidente?
—Você sempre esteve, muito, muito envolvido — minha mãe mantinha um sorriso sereno, provavelmente para acalmar.
—E o que acha disso? Do meu envolvimento com ela?
—O que eu tenho que achar agora? Tentei te dizer que era errado antes do acidente, quando a moça era só uma criança...
—O que você me disse?
—Eu disse a você que isso não era bom, não só para ela que era jovem demais principalmente se o que você disse sobre a vida dela fosse verdade, mas também para você, um homem da lei.
—E eu não te ouvi? — ela sorriu tentando acertar meu cabelo que eu tinha bagunçado.
—Filho, você sempre soube o que fazer, sempre foi tão dono de si, desde pequeno. Era até estranho você vir a mim e contar todas essas coisas.
—Então era eu que te procurava? — perguntei surpreso ao me lembrar da distancia que eu tinha colocado entre nós.
—Eu sei — ela sorriu ao ver a surpresa em mim — também fiquei assim quando aconteceu, mas foi uma surpresa boa quando meu filho mais novo voltou a confiar em mim — eu me deixei ser abraçado por minha mãe, me sentindo reconfortado por estar onde eu deveria estar.
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—Oi, Edward — Tanya me saudou assim que abri a porta de minha casa. Quando me voltei, percebi que estava com boa aparência, como se tivesse feito o que eu pedi e descansado da noite em claro. Ela vestia um bonito e decotado vestido vermelho, com os cabelos arrumados, como se fosse sair. Eu acenei para ela e me servi de uma dose de uísque querendo relaxar e ir para a cama.
—Como foi o seu dia? — eu dei de ombros, minha boca ocupada com minha bebida esperando que ela desistisse, mesmo sabendo que não seria assim tão fácil — você fez algo interessante hoje?
—O que pode haver de interessante que você não saiba no fórum?
—Não estou dizendo no fórum, querido, estou perguntando depois que você saiu de lá.
—Como sabe que eu sai? Está me espionando?
—Não, é claro que não. Eu fui até lá te convidar para jantar fora comigo, mas você não estava.
—É. Eu não estava — dei de ombros largando meu copo e afrouxando minha gravata, pronto para ir ao meu quarto. Ao me virar, eu vi Tanya bem próxima me impedindo de passar — o que quer?
—Quero saber se você não tem mesmo nada para me contar, Edward.
—Eu tenho. Na verdade tenho muita coisa para te dizer, mas decidi que só vou falar quando me disser tudo o que está escondendo de mim.
—Eu pensei no que disse hoje de manhã e acho que tem razão, tem todo o direito de saber sobre sua vida, eu eu não posso mais esconder...
—Ótimo! Eu estou pronto para escutar.
—Eu só tenho uma condição — ela hesitou sorrindo me deixando nervoso.
—Diga.
—Quero... Eu quero que você volte para mim. Quero que seja o meu marido novamente, que me leve para jantar, que converse e faça amor comigo. Se eu tiver isso, você terá o que quer.
—Você sabe que não estamos mais na mesma sintonia de antes, não sabe? Parece impossível que não sinta isso, que insista em algo que não existe mais!
—É claro que existe, Edward, podemos estar um pouco estremecidos, mas não acabou, é claro que não, um casamento de tantos anos não acaba assim! — ela se aproximou olhando em meus olhos — Eu insisto nisso por que acredito, e é esse o motivo de minha proposta. Vamos fazer as pazes, meu amor, vamos voltar a ser o que sempre fomos, por favor. Eu sei que isso foi culpa minha, eu sei que não fui compreensiva e agi muito errado com você, mas é que aconteceram coisas no passado que eu não consigo esquecer.
—Ao contrário de mim, não? — ela me olhou por um longo momento, seus olhos me suplicavam.
—Edward, tudo o que eu quero é começar de novo, você ganhará a confiança em mim, eu em você, será como se começássemos de novo, como se fosse novamente o seu primeiro dia em casa depois daquele acidente horrível — ela sorriu tocando em meu peito — você se lembra de como ficamos juntos naquela noite? Se lembra de como você me amou com desejo? Como aquilo tudo pode ter passado?
—Tudo aquilo o que? — eu tirei as mãos dela de cima de mim — O tesão que senti ao ver uma mulher bonita nua para mim? Por que isso foi tudo!
—Não foi, Edward, você sabe que não. Você estava comigo como sempre esteve, como nos velhos tempos, você confiava em mim! Se aceitar a minha proposta, vamos estar juntos outra vez e vai ser tudo como sempre deveria ser.
—Eu já não sei se vale a pena confiar em você.
—É o único jeito de saber o que eu tenho para te contar e eu não abro mão disso. Não precisa me responder agora, a pressa é sua — ela sorriu se aproximando outra vez pegando a lapela de meu paletó — que tal pensar nisso enquanto jantamos no seu restaurante favorito? Eu até já estou pronta.
—Não vai ser assim tão fácil para você, eu posso encontrar outras pessoas que possam me falar sobre minha vida.
—Quem? — ela riu de mim — Edward, você não tem amigos, você abandonou sua família e não tem ninguém por si, só tem a mim! Eu, apenas eu estive do seu lado esse tempo todo. Mais ninguém.
—Tem certeza? Você sabe tudo sobre mim? Não acha que eu posso ter segredos?
—Isso é você quem tem de me dizer.
—Já chega dessa palhaçada, não quero mais falar sobre isso.
—Eu estarei aqui quando quiser, querido — balancei a cabeça e subi para o quarto indo direto para o closet e peguei uma muda roupa saindo em seguida. De volta ao quarto, eu vi Tanya nua sorrindo, tentando me seduzir e ao contrário de outrora, seu belo corpo não teve reação nenhuma sobre mim. Olhei para ela com desprezo e deixei o quarto.
Passei a noite em um dos muitos quartos de hóspedes da casa e pelo cansaço do dia, dormi depressa, durante a noite toda, mas acordei com a cabeça cheia, como se não tivesse descansado.
Tomei um banho, me vesti e mesmo sem comer sai de casa pegando o mesmo caminho de alguns dias, me adaptando a essa nova rotina. Depois de estacionar em minha vaga de sempre no fórum e caminhei alguns metros até a cafeteria, me acostumando a outro hábito, mas dessa vez, um hábito delicioso e que fazia me sentir bem.
Naquela manhã, quando eu parei em frente ao café e vi Bella com sua habitual xícara de chocolate, com o rosto na mão, perdida em pensamentos esperando por mim, eu percebi que estava farto.
Tudo estava fora de lugar e isso era uma coisa que eu já não poderia suportar por muito tempo mais. Eu me sentia completamente perdido, sem saber qual o próximo passo a dar, o que fazer para seguir minha vida, principalmente depois da ultima noite com Tanya.
Diante daquela postura e de tudo o que ela vem escondendo de mim, eu tenho vontade de fazer como meu pai disse e deixar tudo de lado, começar de novo, especialmente agora enquanto olho para aquela linda senhorita com seu chocolate gigante. Essa vontade ia contra todos os meus planos de saber mais sobre mim e sobre tudo o que eu tinha guardado para o futuro e isso me deixava sem ação, sem saber o que fazer.
Essa sensação de ter o controle escapando de minhas mãos me fazia pensar sem parar no tipo de relação que Bella e eu tínhamos.
Lembrar dela a minha frente nua, completamente a minha mercê, se entregando para que minhas vontades fossem realizadas em sua totalidade para que eu tivesse o controle era... Reconfortante e aquela sensação... Aquele sentimento era tudo o que eu precisava.
Eu precisava de Bella.
Eu precisava de tudo o que tínhamos juntos, ao menos por um fim de semana.
Movido por esse sentimento, eu atravessei a rua e finalmente cheguei perto dela, me deliciando com seu lindo sorriso assim que me viu.
—Bom dia, senhor — respondi com um movimento de cabeça e me sentei a sua frente.
—Aproveitando seu café da manhã?
—Sim, senhor. Quer que eu vá pegar alguma coisa?
—Quero ficar um pouco mais com você — ela sorriu corando e olhou para o seu chocolate esperando, como sempre, que eu desse o próximo passo — o que fez ontem?
—Eu não fiz nada em especial. O senhor pediu que eu descansasse e foi o que eu fiz, fiquei na cama praticamente o dia todo.
—Eu gostaria de ter ficado na cama com você.
—Seria maravilhoso, senhor, eu adoraria.
—Então, se prepare por que vai adorar o dia de amanhã. Eu apenas receio que não passaremos um dia tão tranquilo como o que você teve ontem.
—Estou mesmo precisando de um pouco de agito em minha vida, senhor.
—Isso é bom, por que vamos agitar todo o fim de semana — ela sorriu enormemente, sem esconder seu sorriso como costumava fazer e olhou para mim um minuto antes de olhar para baixo novamente.
—Tenho certeza que sim, meu senhor.
—Você me parece muito feliz esta manhã — disse a ela alguns minutos admirando seu lindo sorriso que só crescia.
—E eu estou, feliz pelo senhor estar aqui e... Muito ansiosa para hoje a noite.
—Imaginei que estaria. Então, eu quero que você me espere aqui esta tarde, vamos direto de meu trabalho para a casa perto da floresta e então passaremos um fim de semana inesquecível.
Bella se remexeu na cadeira e mordeu o lábio, provavelmente para conter um gemido antes de sussurrar um “sim, senhor” com a voz rouca, me deixando ainda mais ansioso para que a noite chegasse.
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