Memórias
14 Decidindo
Notas iniciais
As preocupações daquela manhã iam se esvaindo enquanto eu tomava café ao lado daquela linda senhorita.
Eu sentia que poderia deixar tudo de lado enquanto tentava desvendar o que se passava na cabeça dela, entender o que ela queria dizer com cada resposta curta, vaga e evasiva, tanto que a hora ia passando e eu não tinha a menor vontade de deixa-la.
Por mais que eu insistisse em manter uma conversa normal entre duas pessoas que estão se conhecendo, eu me distraia facilmente pela forma com que ela me olhava por debaixo dos cílios, só por um instante antes de abaixar os olhos. Bella me seduzia e me atraia para si ora com seu lindo sorriso escondido, ora mordendo o lábio, me deixaram ainda mais hipnotizado em sua beleza impactante me fazendo pensar em nosso tempo juntos, em nosso quarto de jogos, tanto que eu deixei de falar sobre ela e passei a me deliciar com suas relações enquanto eu insinuava sobre tudo o que faríamos logo mais à noite.
Era visível o quanto minha senhorita parecia muito mais empolgada para falar sobre nosso quarto de jogos do que manter uma conversa sobre qualquer outra coisa e eu me sentia estranho — de uma maneira boa e ruim ao mesmo tempo — ao perceber que conseguia desvendar mais sobre seu corpo do que sua mente.
Inconscientemente, nós nos aproximamos durante a conversa e eu estava prestes a ceder aos seus encantos para tomar seus doces lábios, quando eu escuto alguém se aproximar de nós:
—Ora, ora, vocês por aqui? Estão em um café de manhã romântico depois de uma noite de amor ou em um programa matinal de pai e filha? — Jacob sorria olhando de mim para Bella, trazendo consigo com um copo de grande de café para viagem. Ele vestia um jaleco branco visivelmente indo ou voltando de seu trabalho.
Bella arregalou os olhos e se ajeitou no lugar, se afastando de mim ao ver seu amigo, depois de me olhar ansiosa.
—O que você está fazendo aqui? — perguntei irritado com a interrupção.
—Provavelmente o mesmo que vocês, tomando um café da manhã antes de ir para o trabalho.
—Quero saber por que veio nos importunar assim tão cedo?
—Estou atrapalhando o programa de vocês? — ele perguntou cheio de cinismo — não foi minha intenção, entrei aqui apenas para comprar meu café e já estava de saída, foi então os vi e resolvi cumprimentar minha amiga. Bom dia, Bella — o enorme sorriso que destinou a ela foi em vão, já que minha senhorita continuava a olhar para baixo como se nada tivesse acontecido.
—Não se dirija a ela. Eu já disse para ficar longe.
—E eu já disse que não vou ficar, Bella sabe o quanto eu gosto dela e que não quero me afastar — respirei fundo para me conter e fiquei em pé ficando cara a cara com ele.
—Eu não me importo com seus sentimentos e sua vontade, eu quero que você fique longe dela e você vai ficar.
—Não se Bella me quiser por perto.
—Ela não quer.
—Não pode falar por ela.
—Já falei, Black. Se não quiser que eu consiga uma ordem de restrição contra você, se não quiser que eu te denuncie por perseguição, você vai ficar bem longe dela, ouviu bem? — mal terminei de falar quando o médico começa a rir bem alto, chamando a atenção de todo mundo me deixando mais irritado.
—Tem certeza que é a mim que a polícia vai prender se souber o que está acontecendo aqui, Cullen?
—Eu tenho, tenho toda a certeza do mundo e se está duvidando, pague para ver.
—Pois eu pago, a hora que quiser — Jacob olhou para o relógio — mas não agora. Eu bem que gostaria de continuar a dizer boas verdades a você, mas não estou com a vida ganha, nem a minha, nem a de meus pacientes, como você deve imaginar — ele sorriu piscando, mesmo que em vão, para uma Bella encolhida em sua cadeira — vejo você em breve, minha vizinha linda.
Usei todo meu autocontrole para não partir para cima daquele babaca e me sentei de volta ao lado de Bella assim que o médico deixou o local. Fiquei olhando para a porta tentando me acalmar, pensando em como as coisas tinham mudado desde que acordei naquele hospital.
Jacob era mais que um médico naquela época, era realmente como um amigo para mim. Ele conseguia me tranquilizar, me dava esperanças de me recuperar enquanto fazia brincadeiras comigo, me fazendo sentir em casa com um amigo e não em um hospital com meu médico.
Isso foi até que eu perguntei a ele sobre Bella.
Assim que perguntei, sua fisionomia mudou, a forma de falar comigo mudou e depois disso, até nossas consultas não tiveram a mesma dinâmica de antes, principalmente quando eu pedia informações sobre a minha senhorita na esperança de encontrá-la, de saber mais sobre ela. Eu não tinha notado nada disso, mas agora, olhando para trás, tudo isso é muito visível.
Ao pensar nisso tudo, toda a calma que eu tinha reunido virou fumaça e antes que eu ficasse com raiva outra vez eu perguntei a senhorita ainda encolhida na cadeira, esperando que eu falasse:
—Esse cara não tem estado com você nenhum desses dias, não é?
—Não, senhor. Eu não o vi desde aquele dia em que fomos para a casa da floresta, quando o senhor estava comigo. Acredito que ele tocou a minha campainha ontem de manhã, mas como eu lhe disse, fiquei a manhã toda na cama, não sai para nada, nem para atendê-lo.
—Isso é bom — assenti me sentindo um pouco melhor, mas sem conseguir parar de pensar que há dias ele estava onde quer que estivéssemos juntos — eu não quero que você fale com ele, nunca mais.
—Sim, senhor. Já tinha me dado essa ordem e eu sempre lhe obedeço, sempre.
—Preciso levar você para a outra casa o quanto antes, não quero que ele fique te rondando e aparecendo em todo o lugar que a gente está. Cansei e vou colocar um fim nisso hoje – disse decidido – Você vai se mudar para a casa da floresta hoje mesmo, arrume todas as suas coisas.
—Sim, senhor — ela assentiu agarrando a asa da xícara e eu suspirei.
—Eu prometi para mim mesmo que não iria mais mandar em você e deixar que decida sua própria vida, mas sobre isso eu não abro mão...
—Meu senhor...
—Você é minha, só minha e eu não quero ele em volta de você.
—Sim, meu senhor. Eu sou sua, aceito suas decisões por que sabe muito bem o que é bom para mim — eu cheguei bem perto dela e segurei seu queixo olhando em seus olhos, aqueles olhos que me faziam tremer.
—Tem muita coisa que ainda preciso entender sobre nós dois, muita coisa em minha vida que eu preciso ter de volta o controle. Tudo em minha vida tem sido muito difícil, mas quando eu estou com você... É diferente, é fácil por que eu consigo ter visões mais claras sobre mim, eu me sinto eu mesmo ou pelo menos quem penso ser e é por isso que eu quero e preciso estar com você.
—Para o que o senhor precisar, sempre.
—Se o que nós fazemos juntos é tão forte como você disse que é, acho que muita coisa pode ser respondida quando estivermos no quarto de jogos — sorri para ela — sem falar, é claro de todo o prazer que nos aguarda.
—Sim, senhor — ela mordeu o lábio e eu entendi sua expressão.
—Eu também estou muito ansioso para isso — me aproximei e deixei um beijo em seu rosto quente deixando que meus lábios beijasse todo o caminho até sua orelha para sussurrar — vamos começar essa noite, esteja pronta para mim.
.
Foi difícil deixar Bella naquela manhã. Eu precisava dela, da tranquilidade de estar com ela para conseguir manter minha mente focada em alguma coisa, já que tudo ao meu redor parecia poder desmoronar a qualquer momento e eu não poderia evitar se acontecesse.
Enquanto caminhava em direção ao fórum, eu pensava na proposta que Tanya me fez. Eu ri. A única coisa que ela queria com isso era me controlar outra vez como quando eu voltei para a casa. Tudo bem que naquela época eu realmente acreditava nela, acreditava que éramos um casal feliz e que podíamos continuar assim, retomar nossa vida de onde tínhamos parado, mesmo que eu não me lembrasse de onde foi. Eu acreditava piamente no que Tanya me dizia, mas não durou muito, foi como um cego que confia em seu guia até que ele o deixa cair em um buraco.
Os buracos que me fizeram deixar de acreditar em minha esposa eram formados por uma série de fatores que desencadearam a partir do nosso desastre na cama, quando eu me dei conta de que não era feliz ao lado dela e que não estávamos em sintonia como um casal. Foi ai que me dei conta de que minha família também não gostava dela, que Tanya nunca respondia minhas perguntas, que ela escondia muita coisa de mim, sem falar que ela não é mais a mesma pessoa.
Minha esposa não é a mesma desde que a conheci, ela não consegue manter sua personalidade por cinco minutos, ora doce e sensível, ora histérica e mandona. Essa inconstância me confundia e me mostrava que nela eu realmente não poderia mais confiar.
Quem dera que esse fosse meu único problema.
Ver Jacob nesta manhã me lembrou de outra coisa que eu precisava resolver, na verdade era a questão mais urgente de todas: eu precisava de um médico para me ajudar a ver o que havia de errado comigo e precisava agora.
—Gianna? — chamei assim que cheguei ao fórum interrompendo um conversa entre ela e a outra escrevente.
—Bom dia, senhor Cullen.
—Bom dia. Eu preciso de um favor seu, mesmo não sendo sua função.
—Se estiver ao meu alcance...
—É que eu preciso de um novo neurologista e não tenho nem ideia de onde começar a procurar. Tem algum para me indicar?
—Um neurologista, Cullen? — Aro Volturi adentrava o fórum escutando o que eu estava dizendo e se intrometeu sem nem ao menos me dar bom dia — você já não tem um?
—Eu tenho — respondi tentando ser cordial, mas sem olhar para ele — mas é sempre bom ouvir uma segunda opinião.
—Eu não vejo motivos, Jacob Black é o melhor em nossa região.
—Como sabe que ele é meu médico? — perguntei de cenho franzido sem me lembrar de ter comentado isso com ele alguma vez.
—Tanya me disse quando deu entrada no hospital e eu me lembrei por que o menino Black é filho de um conhecido, por isso sei o quanto é esforçado sempre muito bom em tudo o que faz.
—Pode ser, mas eu não confio mais nele — dei de ombros e voltei a falar com Gianna — pode procurar o telefone de algum para mim, por favor?
—Sim, senhor Cullen, levo para o senhor em breve.
—Obrigado — agradeci caminhando em direção a minha sala e Aro veio comigo, mesmo sem ter sido convidado.
—Posso perguntar o que houve para não confiar mais em seu médico?
—Os métodos dele não estão funcionando e eu preciso de agilidade, quero minha memória de volta o quanto antes.
—Ora, meu rapaz, e por que essa pressa toda?
—Se estivesse em meu lugar, perdido como estou, tenho certeza que faria de tudo para recuperar sua memória, ou não? – parei em frente à minha sala e olhei para o rosto velho de expressão impassível.
—Não sei. Eu nem consigo imaginar como deve ser isso, mas se eu tivesse uma esposa como a sua, eu estaria tranquilo. É o que eu faria.
—Eu duvido — ri abrindo a porta — tenha um bom dia.
—Você também, filho, se precisar estou aqui – assenti sem ânimo para responder e entrei na sala, me sentando na cadeira confortável atrás de minha mesa.
Aquela conversa com Aro Volturi só me deu mais motivos para não confiar nele, em Tanya e em Jacob.
Nossa conversa do dia anterior já tinha me deixado muito desconfiado depois de ele ter se referido a Tanya daquele jeito ensaiado e agora Aro veio com essa conversa reforçando o que disse anteriormente e, para a minha surpresa, defendendo Jacob Black.
Para mim já estava bem claro que Tanya e Aro tinham algum acordo, como se estivessem juntos para que eu permanecesse no escuro e esta conversa, só me fez acreditar que meu médico estava de conluio com eles, afinal, se pensar bem, essa hipótese não parece tão absurda pelo fato de Tanya não quer que eu recupere minha memória escondendo algo importante de mim, combina com o fato de Jacob não querer que eu me lembrasse de Bella, a escondendo de mim.
Será que eles estão juntos nessa? Será que estão unidos para eu não me lembre de minha vida?
Como poderia?
Isso não faz sentido nenhum, afinal o que ganhariam me impedindo de ter minhas lembranças de volta? Jacob teria a possibilidade de ter Bella para si, mas não poderia passar disso: uma possibilidade. Pelo que eu pude notar, a natureza de nossa relação fazia com que Bella fosse muito fiel a mim. Ela me esperou por muito tempo e algo me dizia que esperaria quanto tempo fosse preciso sem nunca desistir.
A vantagem que Tanya teria com a minha perda permanente de memória seria ter o controle sobre mim, como tinha quando eu sai do hospital, mas isso não duraria muito, como não durou, afinal, não era possível que eu estivesse feliz em um casamento daqueles antes do acidente, principalmente se estava tão envolvido com Bella como minha mãe tinha dito, a ponto de deixar todas as diferenças que tinham nos afastado de lado para pedir conselhos a minha mãe. Ao pensar nisso, eu me convencia cada vez mais que não é possível que eu ainda quisesse estar preso a esse casamento e continuasse de braços cruzados.
Quanto mais eu pensava nisso, mais eu acreditava que deveria ter um plano, alguma carta na maga que me livrasse desse martírio e que o acidente impediu que eu realizasse.
Olhei em volta ansioso em busca de respostas, decidindo procurar algumas naquele escritório, mesmo sabendo que Tanya teve tempo de sobra para revirar cada canto desse lugar. Sem desanimar, passei olhar em tudo ali.
As gavetas e arquivos estavam cheios de documentos, processos julgados por mim, arquivados ali há anos, como se fossem troféus. Encontrei várias anotações minhas todas sobre trabalhos, mas não havia nada de cunho pessoal, nada sobre minhas contas em bancos, minhas propriedades, nada!
Quando eu já tinha procurado em quase tudo daquele lugar, eu encontrei uma única anotação com uma combinação muito extensa de letras e números que estava muito bem guardada no fundo de uma gaveta em meio a outros papeis. Aquilo me parecia uma senha.
Agora a pergunta era senha do que? Seria algum lote especial em um banco? Senha de um cofre? Se fosse, onde ele estaria? Como eu poderia encontrá-lo?
Eu coloquei meus cotovelos sobre a mesa e segurei minha cabeça, sentindo uma leve dor. Ao invés de respostas, para todo o lugar em que eu olhava eu encontrava apenas perguntas que geravam mais e mais perguntas.
Eu estava ficando cansado disso! Completamente cansado de tantas perguntas, eu preciso é de respostas, preciso de soluções!
—Senhor Cullen? — a porta foi aberta e por ela passou Gianna – me desculpe ter entrado assim, eu bati e o senhor não me respondeu...
—Tudo bem. Você conseguiu o telefone do médico?
—Demorei um pouco, mas consegui marcar uma consulta para a segunda-feira.
—Muito obrigado, foi um grande favor, nem sei como agradecer — ela me olhou por um instante parecendo surpresa, mas logo se recuperou assentindo a caminho da porta.
—Não se preocupe com isso. Com licença, senhor – ela saiu e eu fiquei olhando para o papel com o endereço do consultório, cheio de esperança sobre essa consulta.
Mais animado, resolvi ocupar minha mente para que o tempo passasse depressa me entregando ao trabalho.
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Meu dia no trabalho foi cheio, e eu finamente comecei a entender o porquê voltar ao trabalho me faria bem, ao menos nessa parte Jacob não mentiu para mim. O trabalho me trouxe bastante reconhecimento, eu conseguia acompanhar todos os casos e quase me meti em uma audição que estava assistindo por não concordar com a conduta leviana de Quill Atera.
Nesse dia, eu pude perceber que o trabalho realmente estava dentro de mim e isso me fazia sentir um pouco melhor, mas relaxado, como se o controle tivesse voltando para mim, como se de alguma fora, algum dia, pudesse controlar minha vida novamente. Isso tudo era muito bom, mas não era de verdade o que mais importava agora.
Sai apressado do fórum e caminhei ansioso para a frente da cafeteria e só me acalmei quando a vi.
Bella estava ali, linda, sorridente olhando pela janela.
Sem perder tempo eu fui até ela vendo seu sorriso escondido aparecer enquanto eu me aproximava.
—Boa tarde, senhorita.
—Boa tarde, meu senhor — ela me observou abrir o paletó e sentar a sua frente, mas e quando olhei para seus olhos, ela abaixou a cabeça para seu sorvete praticamente intocado como se ela tivesse acabado de pedir. Ela estava envergonhada, como se tivesse sido pega fazendo algo que não devesse — desculpe senhor, eu pensei que fosse demorar mais um pouco.
—Não se preocupe, está tudo bem — ela assentiu antes de perguntar baixinho:
—Quer que eu peça algo para o senhor?
—Não, na verdade eu estou um pouco apressado para ir embora.
—Podemos ir quando quiser...
—Termine seu sorvete com calma, depois iremos. Afinal, temos todo o fim de semana, não é? — Bella assentiu sem olhar para mim e passou a saborear seu sorvete de chocolate. Vez ou outra ela passava sua língua pelos lábios e sorria deliciada, vê-la assim, se deleitando enchia minha mente de ideias que a fariam se deleitar em nossa cama.
—Posso perguntar como foi o seu dia, senhor? — minha senhorita me distraiu alguns minutos depois quando estava quase terminado seu sorvete.
—Meu dia foi muito longo, estou feliz que tenha acabado e estou ainda mais feliz pela noite que está prestes a começar — ela abaixou os olhos mordendo o lábio me fazendo sorrir — você fez o que eu te pedi?
—Sim, senhor, minhas coisas estão todas no carro, estou pronta para me mudar hoje mesmo.
—Ótimo, você é mesmo minha boa menina — segurei em sua mão e deliciando com seu sorriso, quando ela finalmente olhou para mim, eu perguntei — Vamos então? Deixarei meu carro no fórum para irmos juntos no que está com você — Bella assentiu e se levantou caminhando a minha frente até que chegamos ao volvo prata e ela me entregou as chaves.
Abri a porta para ela e dirigi a caminho da casa na floresta. O tempo todo eu olhava para ela feliz em tê-la ao meu lado, admirando sua postura reta, seus olhos baixos o tempo todo, sem se descuidar nenhum momento sequer a não ser quando por acidente, eu mudei a marcha e minha mão tocou sua coxa descoberta pelo vestido curto, deixando nós dois arrepiados.
Meu coração acelerou vergonhosamente e Bella respirava com dificuldade, mostrando como um toque, a presença do outo nos afetava completamente.
Permanecemos em silencio durante o caminho até que finalmente parei o carro em frente a nossa casa. Quando eu a ajudei a descer, ficamos nos olhando por um longo momento, ambos sabendo exatamente o que esperar daquela noite, daquele fim de semana juntos, torcendo para que nossas expectativas fossem alcançadas.
Assim entramos na casa, Bella parecia diferente. Sua expressão era séria, respeitosa, solene. A forma como ela andava, como respirava me mostrava que ela estava ali, a minha disposição, esperando por minhas ordens. Isso fez com que eu me sentisse diferente também, como se uma força tomasse conta de mim a partir do momento que eu entrei naquela casa.
Caminhei até o aparador pegando uma bebida enquanto eu tentava deixar em minha mente apenas o que era mais necessário, o mais primordial no momento.
—Venha comigo — sussurrei trazendo o copo a caminho da sala de estar, me sentando na poltrona confortável que havia ali. Quando eu estava acomodado, Bella chegou bem perto e se ajoelhou a minha frente. Olhei para ela por um longo tempo, me deliciando ao vê-la ali, pensando em como eu poderia mantê-la, assim a noite toda, mas eu tinha mais coisas para apreciar.
—Sabe o que faremos hoje, Bella?
—Sim, senhor. Vamos retomar nossas cenas.
—Isso mesmo, vamos para o nosso quarto de jogos e quero que lá você se entregue a mim completamente.
—Sim, meu senhor, com todo o meu ser.
—Antes disso, quero que me fale sobre os limites do contrato.
—Eu posso buscá-lo para o senhor...
—Não, eu quero que me fale. Diga, Bella, quais são seus limites?
—Eu não conhecia nada desse mundo e o senhor me disse que poderia me apresentar a tudo e assim construiríamos nosso contrato a partir das experiência boas e ruins que tivéssemos. O meu único limite rígido é a respeito de cenas com eletricidade, senhor.
—Se é um limite rígido — perguntei nervoso — quer dizer que não teve uma boa experiencia com ele, estou certo? — Bella assentiu ainda olhando para o chão — conte para mim, como foi isso?
—Sem querer, o senhor misturou aparelhos de alta voltagem e água em uma de nossas cenas e... – Bella estremeceu se encolhendo e eu segurei seu queixo, olhando para seus olhos.
—Foi assim que eu machuquei você, não foi?
—Foi um acidente, senhor – por mais que ela parecesse serena, eu ainda podia ver um pouco de medo nos olhos dela e isso me deixava indignado, ainda mais por tê-la se entregando a mim daquele jeito, sem pensar em mais nada.
—Não sei como consegue confiar em mim depois disso – externei meu pensamento ainda olhando para os olhos assustados de Bella.
—O senhor cuidou muito bem de mim naquele dia e depois, tirou tudo que poderia envolver eletricidade de nossas cenas. O senhor prometeu que não faríamos de novo.
—Obrigado por isso – eu dei um leve beijo em seus lábios macios – quero ser merecedor dessa confiança, quero cuidar de você, fazer você feliz – eu a beijei novamente por um longo tempo até que ficamos sem ar. Olhei para Bella, ofegante e corada feliz por tê-la ali – O que mais? – perguntei olhando em seus olhos – quais são seus outros limites.
—Nossas cenas não envolvem nada que possa deixar marcas permanentes no corpo. Usamos muito controle de temperatura, alternamos entre o quente e o frio, mas eu tenho algumas reservas sobre o fogo, não por motivos nenhum, mas eu não sou muito curiosa a respeito disso, senhor.
—Tudo bem. Tem mais alguma coisa que não queira fazer, Bella?
—Não senhor, ainda não exploramos todos os ramos, mas eu estou disposta a isso.
—E sobre o que você mais gosta?
—Gosto de tudo, meu senhor, de ser contida, das surras de açoite, das de varas das palmadas que o senhor me dá. Gosto das mordaças, das vendas, dos acessórios que o senhor usa, de todas as nossas cenas. Eu gosto muito de como o senhor me domina em cada ambiente daquele quarto, da forma que você me fode, sem sentido, sem parar — ela continuou falando com a voz rouca e sussurrada, me deixando louco por ela.
—Sei que o senhor é muito cuidadoso em todas as cenas, tudo o que o senhor faz é muito bem pensado. O senhor me conhece muito bem e ainda temos as palavras de segurança. Não há por que não confiar no senhor.
—Obrigado, mais uma vez – sorri me sentindo ainda mais poderoso com aquelas palavras.
—Eu que agradeço, senhor.
—Agora, Bella, fale-me sobre as regras.
—Todas elas prezam pelo meu bem estar e por seu prazer, senhor.
—Seu bem estar? — ela assentiu.
—O senhor se preocupa que eu esteja sempre bem vestida, bem alimentada, cuida para que eu continue bem, física e mentalmente falando, para que todas aquelas coisas ruins que me atormentavam não apareçam mais.
—E pelo meu prazer? Isso envolve você me servir na cama durante o fim de semana inteiro?
—Mais do que isso, senhor. Meu comportamento agrada o senhor, se eu for recatada, manter minha voz, meus olhos baixos diante do senhor, ser obediente dentro e fora do quarto de jogos, eu estarei lhe deixando feliz, lhe deixando excitado — ela olhou para mim apenas por um instante e voltou a abaixar os olhos – eu sei que o senhor tem se sentido incomodado com a minha forma de agir por que não se lembra do que era antes, mas é assim que eu me comporto no quarto de jogos, é assim que eu agrado o senhor.
—Você me agrada de qualquer jeito, já disse isso a você. Eu não vou mentir e dizer que não gosto de te ver assim, que não me agrade esse seu jeito, tão mansa como um cordeirinho, mas eu quero você assim apenas em nossos fins de semana, fora disso eu quero você, só você — acariciei seus cabelos trazendo ela para mais perto de mim fazendo com que ela se aconchegasse em meu joelho.
—Sei que você tem se sentido tão estranha quanto eu em relação a isso, é tudo novo para nós dois, mas deve ser por que nós não nos víamos muito longe do quarto de jogos, vamos ficar bem quando nos acostumarmos.
—Isso quer dizer que nos veremos mais, senhor? — Bella me olhou parecendo ao mesmo tempo assustada e esperançosa e ali, naquele olhar, eu decidi.
Depois de buscar respostas para minhas perguntas em tantos lugares errados, eu encontrei todas as respostas onde eu nem estava procurando. Aquele olhar de Bella, me fez entender que o que eu precisava no momento era me concentrar no que era mais importante para mim.
—Sim, é claro que sim. Nós nos veremos o tempo todo — ela sorriu maravilhada olhando para mim, me fazendo sorrir também – só tem mais uma coisa que eu preciso saber, Bella, e quero que seja muito sincera comigo.
—Sim, senhor – ela abaixou a cabeça e eu segurei seu queixo para que ela me olhasse nos olhos.
—O que você sente por mim?
—Gratidão, meu senhor – ela respondeu de imediato – por tudo o que fez por mim, mas além disso, eu sinto um respeito enorme, admiração e principalmente confiança. Como eu já disse, eu confio plenamente no senhor.
—Isso é tudo? – perguntei um pouco decepcionado, afinal, o que eu sentia por ela era muito mais forte do que isso. Bella olhou para mim parecendo um pouco confusa ao perceber que eu tinha me afetado com sua resposta.
—O senhor não ficou satisfeito com minha resposta – ela disse rapidamente parecendo apreensiva — o que quer que eu sinta, senhor? É só me dizer.
Aquele pedido só me deixou ainda mais abalado por perceber que Bella apenas me obedecia para ter o que eu oferecia a ela: as cenas no quarto de jogos e todos aqueles orgasmos múltiplos. Por um segundo eu tive a impressão de que não era eu quem a usava para o meu prazer, naquele minuto parecia que eu era o usado.
Eu tive essa impressão por tudo o que eu estava sentindo, não só pela revelação que eu tive ao olhar para ela há alguns minutos, mas por tudo o que aconteceu desde que abri meus olhos, o fato de eu estar infeliz sem ela, de vê-la em meus sonhos e de minha mãe dizer que eu já me sentia assim antes de meu acidente.
O meu silencio prolongado fez com que Bella levantasse seus olhos novamente, receosa, esperando pela minha resposta.
Eu sabia o que eu queria e sabia também que eu só poderia ter com o tempo, que teria que lutar para conseguir, então, naquele momento, eu decidi que daria apenas o que ela mais queria.
Como eu não disse nada, Bella voltou a sua postura ereta, séria e solene com o rosto voltado para o chão, se concentrando, em seu papel. Em apenas um minuto, ela estava concentrada no que estávamos prestes a fazer, mais do que isso, ela estava ansiosa, desejosa pelo que aconteceria.
—Eu acho que você não quer mais saber de conversa, ou quer, senhorita Swan? — a respiração dela acelerou, e ela não me respondeu, ainda em seu lugar, esperando — Eu também não. Antes que possamos partir para o que mais queremos, quero que sirva uma bebida para mim.
Mal terminei de falar, Bella estava se levantando e foi para o outro lado buscar um uísque como eu preferia. Assim que me entregou, ela voltou para a sua posição, ajoelhada a minha frente e assim como ela, ali, comecei a entrar no clima deixando vir a mim tudo o que estava em minha mente desde que entrei com ela no quarto de jogos há alguns dias, fui entrando no clima deixando vir a mim todo o desejo que guardei para ela, todo o prazer que guardei para nós, deixando todo o resto de lado.
Dei o ultimo gole em minha bebida e me aproximei para dizer:
—Agora eu quero que você vá para o quarto de jogos e se coloque em seu lugar para começarmos nosso fim de semana — me aproximei e sussurrei em eu ouvido — você tem cinco minutos.
—Sim, senhor — ela respondeu mais que depressa e se levantou tentando se equilibrar depois andou o mais rápido que pôde com as pernas bambas até sumir na direção do quarto de jogos.
Continuei no mesmo lugar por algum tempo e como Bella estava fazendo, comecei a me concentrar em meu papel esta noite e mesmo sem me lembrar de tudo, sem nem entender direito a mecânica da coisa, eu me sentia pronto para dominar.
Pensando nisso, eu me levantei e fui em direção ao quarto de jogos.
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