Memórias

39 Interrogando


Notas iniciais
Olá, olá senhoritas, como estão? Espero que gostem bastante desse capítulo! Boa leitura!

—Charlie eu não aguento mais ver isso – reclamei depois de assistir como Eleazar conduzia o interrogatório. Fazia duas horas que eles estavam ali naquele lengalenga e até agora nenhum dos dois tinham revelado nada que preste – eu vou lá dentro arrancar respostas de verdade deles.

—Controle-se, Cullen. Eleazar sabe o que está fazendo. Não vai querer estragar tudo não é?

—Eles estão enrolando tanto quanto Aro e Quill devem estar sendo orientados pelo mesmo advogado! – esbravejei incrédulo com a paciência de Charlie – precisamos fazer alguma coisa ou eles não vão falar nada!

—Senta ai e espera, Edward. É só o que podemos fazer.

Bufei tirando meu paletó e o atirando em qualquer lugar tentando me acalmar, como não funcionou, acabei me levantando daquela cadeira desconfortável e bagunçando meu cabelo na esperança de recuperar minha paciência, mas não estava dando certo principalmente enquanto ouvia o interrogatório.

—Qual a relação de vocês com Aro Volturi?

—Trabalhei com ele algumas vezes, quando necessário – respondeu indiferente o delegado – da mesma maneira que já trabalhei com você. Acha que temos alguma relação por causa disso?

—A minha pergunta se deve ao parentesco que têm com ele.

—Nosso primo é um filho que o Volturi nunca assumiu. Que tipo de relação acha que teríamos com ele, se o próprio Quill mal falou com o pai a vida toda?

—Agora chega, não aguento mais isso! – dei a volta naquela cadeira horrorosa e antes que Charlie pudesse dizer alguma coisa para me impedir, eu sai da sala e logo estava de frente com Eleazar e os bandidos. Fui recebido com surpresa pelos irmãos e com um sorrisinho de Denali.

—Até que demorou para você se juntar a nós, Cullen.

—Cansei dos joguinhos desses dois ai, vim acabar com isso de uma vez por todas.

—Joguinhos? – Paul, o delegado se manifestou ainda mais sarcástico – então foi para isso que nos chamaram aqui?

—Não tem ninguém aqui de brincadeira, vocês quiseram escapar, mas não conseguiram por muito tempo.

—Não estamos entendendo o que querem de nós – Sam retrucou parecendo bem mais preocupado do que o irmão – por que estamos aqui?

—Pode parar com a palhaçada. Sabemos que vocês dois estão mergulhados até o pescoço em toda a sujeira que tramaram contra mim e eu quero que abram o bico, agora.

—Edward... – pelo tom de voz, imaginei o delegado daria mais uma de suas voltas para tentar nos enrolar e eu cansado dei um soco na mesa e gritei:

—Eu falei que acabava com a sua raça e não duvide de mim! Ou você fala tudo o que sabe sobre o acidente e todo o resto e paga pela sua participação nisso tudo ou vamos atrás de cada uma das falcatruas que cometeu nesses anos todos a frente daquela delegacia que eu sei que não são poucas e o mesmo digo de você – olhei para o médico – sabemos dos remédios que distribuiu por ai, tanto para Tanya quanto para mim a fim de nos prejudicar. Então o melhor a fazer é abrir a boca o quanto antes se não quiser que a coisa fique ainda mais feia para o lado de vocês.

—E quem me garante que se eu falar você não vai fazer o que disse?

—Quem disse que não vou fazer? – se não estivesse com tanta raiva até poderia ter rido de seu rosto assustado – só estou dizendo que se não falar vou fazer com que no mesmo julgamento tudo o que você fez seja colocado em evidencia e de uma só vez você pegue prisão perpétua.

—Eu...

—O melhor que os dois têm a fazer é falar logo tudo o que sabem sobre o acidente. Agora.

—O acidente que te deixou em coma? – perguntou meu antigo neurologista ainda chocado com tudo o que eu tinha dito e eu bufei.

—Não. O acidente nuclear em Chernobyl. Fala logo antes que eu não responda por mim!

—Não sei por onde começar – ele deu de ombros e eu me sentei, me controlando e Eleazar tomou a palavra.

—Que tal pelo começo? Como já foi dito, sabemos todos os envolvidos: Tanya, a ex de Edward, seu primo Quill Atera e Aro Volturi, o pai dele. Tem mais alguém? – Eleazar repetiu a pergunta que fez no começo do interrogatório e dessa vez não recebeu uma resposta carregada de sarcasmo, mesmo que ela tenha demorado enquanto os irmãos ponderavam.

—Foram contratadas algumas pessoas para um ou outro serviço por fora, mas basicamente são só eles.

—Que tipo de serviço?

—O rapaz que cortou os freios do carro, por exemplo.

—Quem é esse rapaz?

—Não sabemos. O cara fez o serviço e Aro deu uma boa grana para ele que desapareceu depois disso, nunca mais o vimos.

—Então foi Aro quem recrutou as pessoas? Que recrutou vocês?

—Sim, foi ele.

—E onde vocês dois entraram nessa história? Qual sua participação nisso tudo?

—Quill nunca teve um relacionamento de verdade com o pai e quando isso finalmente aconteceu, Aro quis que o filho se juntasse a ele, que o ajudasse a se livrar de alguém que estava o incomodando muito e para isso precisava de ajuda: um delegado amigo e um médico que pudesse lhe ser útil.

—E esse alguém de que ele precisava se livrar – Eleazar perguntou olhando para mim – era Edward?

—Sim.

—E por que isso?

—Aro queria que Edward viesse para o lado dele, que fizesse todo o trabalho sujo quando não mais pudesse. Sabe, ele está ficando cada dia mais velho e precisava pensar em um sucessor.

—Que tipo de trabalho sujo Volturi costumava fazer?

—De todo o tipo. Se você acha que sou um delegado vendido é por que não sabe do que Aro é capaz. Todas as pessoas poderosas da região que precisavam que a justiça estivesse ao seu lado, procuravam pelo Juiz Volturi e pagam por isso.

—Está dizendo que ele é tão corrupto quanto você? – perguntei perplexo. Quando comecei com meu estágio e depois, quando cheguei ao fórum para trabalhar, fiquei admirado com o trabalho de anos de dedicação de Aro e imaginei que ele fosse um exemplo a ser seguido. Esse foi um dos principais motivos para que eu o interditasse quando percebi que fazia algumas escolhas erradas, por que imaginei que não estava mais em seu juízo perfeito.

—Sempre foi, muito mais que eu, afinal o que é um mero delegado se comparar com um juiz do porte dele?

—E nunca ninguém o impediu?

—Não sei detalhes da história, mas ao que parece o chamado sócio dele...

—Laurent Lahot, meu ex sogro.

—Exatamente. Parece que o pai de Tanya também não gostava de como Aro trabalhava e tentou impedir, mas foi impedido.

—Está querendo dizer que Aro o matou?

—Pelo que eu sei era o mesmo plano que tinha contra você, mas o dele deu certo e além de conseguir matar Lahot, Aro matou a mulher dele também.

—Como sabem? Estão envolvidos nisso também?

—Não, não! Nós o conhecemos muito tempo depois do ocorrido. Sabemos por que quando Edward sobreviveu ao acidente, Aro ficou furioso por não ter conseguido seu propósito, principalmente por já ter conseguido antes.

—E o que vocês têm a ver com o acidente, qual foi a participação que tiveram?

—Nós nos juntamos a eles apenas para executar o planejado. Tudo já estava armado e precisavam de alguns detalhes para começar.

—Como o que por exemplo?

—Convencer Tanya a participar foi o principal dilema.

—Ela não queria fazer isso? – Eleazar perguntou me olhando.

—Por mais que ela estivesse chateada com o marido e tivesse seus motivos para querer que ele morresse, não era exatamente o que ela queria.

—Que motivos ela teria para querer que ele morresse?

—O casamento era de fachada, Edward mantinha outros relacionamentos e jamais escondeu suas traições da esposa e acredite em mim, já vi pessoas matarem por muito menos.

—E como a convenceram?

—Já sabem que eu ministrei um remédio nela – ele deu de ombros e eu resolvi interferir.

—Podemos falar disso depois. Agora eu quero saber qual era o papel de vocês nisso tudo.

-O plano era que eu o pegasse para tratar – Sam falou hesitante olhando para mim – e alegasse ser o médico da família, alguém chamado por Tanya...

—E então você me mataria?

—Era o plano – deu de ombros friamente – mas quando cheguei ao hospital, pronto para fazer a minha parte, Black já estava tratando de você e se recusou a abrir mão do caso, tanto que estava disposto a lutar veementemente por isso, Aro também estava, mas depois que pude dar uma olhada nos exames chegamos à conclusão de que você não sobreviveria e que não valeria a pena brigar com o menino por um trabalho que já estava praticamente feito.

—Pois é – Paul continuou – mas o tempo foi passando e o Cullen não morreu. Aro estava ficando inquieto com a longevidade de seu colega e convenceu Tanya a apelar do jeito que fosse para que o jovem Jacob adiantasse a morte, mas ele era duro na queda e não aceitou nenhum tipo de suborno.

—Vocês tentaram suborna-lo de que forma?

—Tanya tentou seduzir o rapaz e o convencê-lo de uma maneira que só uma linda mulher é capaz de fazer, mas como ele não caia em seus encantos, ela intermediava ofertas em dinheiro em quantia obscenas e ele nem titubeou para esse lado. Era firme e defendia com unhas e dentes seu paciente – eu me remexi na cadeira desconfortável ao ouvir isso e por ter por tanto tempo ter duvidado de alguém me defendeu dessa maneira.

—E por que Tanya faria uma coisa dessas? Era a droga que você ministrava nela?

—Pois é.

—E o que era? – Eleazar insistiu me fazendo bufar.

—O medicamento que ela tomava provocava uma inibição nos sentidos de defesa. Isso causava certa confusão mental o que fazia com que ela obedecesse algumas ordem sem questionar ou perceber o que estava fazendo.

—Por quanto tempo ela tomou isso?

—Desde que Aro começou a planejar o atentado e ela se colocou contra. Foi a única maneira que encontramos de ter a colaboração dela.

—Porque tinham que metê-la nisso? Se ela não queria, poderiam tê-la deixado de fora.

—Aro acreditava que ela tinha algum tipo de influência sobre você – bufei enquanto Sam continuava – se não fosse verdade ela jamais teria conseguido que vocês se casassem. Ele achava que a presença dela era indispensável, principalmente para ter alguém em quem colocar a culpa.

—Como foi no meu segundo atentado – me lembrei de como Quill a convenceu de atirar em mim – ela sempre foi só uma marionete nas mãos de vocês.

—Exatamente.

—E onde você entra nisso? – Eleazar perguntou ao delegado – qual era o seu papel no plano todo?

—Como o acidente foi dentro do condado em que eu trabalhava, as investigações era por minha conta.

—Todo mundo sabe que não é um delegado que conduz as investigações.

—Mas o meu trabalho é fazer uma investigação inicial e então uma... seleção, digamos assim, do que deve ser encaminhado para a promotoria desenrolar e levar a julgamento ou arquivar e depois de resolver a questão ali mesmo. O que eu decidir é o que acontece.

—Então você tinha o poder de arquivar o caso para que não fosse adiante – ele sorriu.

—Sim, foi o que eu fiz. O mantive arquivado para que o inquérito não fosse aberto nem desvendassem o que havia por detrás de tudo.

—E como foi que fizeram para que o acidente fosse dentro de seu condado? Como puderam controlar isso?

—Foi pura sorte – ele deu de ombros – mas nem tanto por isso, uma vez que o Cullen tem o pé pesado para dirigir não precisou ir longe para acabar se acidentando, tudo o que fizemos foi danificar os freios.

—Quando fizeram isso? – perguntei intrigado – passei o fim de semana fora, fiz uma viagem inteira de ida e volta sem que meu carro desse um único sinal de que havia algum problema.

—Sabíamos de todos os seus passos e esperamos que voltasse e deixasse a moça no prédio dela, como sempre fazia e quando subiu com ela, o rapaz que contratamos fez o serviço – a frieza com que Paul falava só fazia com que eu ficasse com ainda mais raiva. Raiva disso tudo ter acontecido comigo e por eu jamais desconfiar de algo assim.

—E como foi que Aro os convenceu a participar disso tudo? – Eleazar continuou quando eu não disse mais nada – Vocês têm sua própria carreira e imagino que não ganhem tão mal que precisem de dinheiro sujo. O que ele ofereceu?

—Ele ofereceu dinheiro sim, mas Aro sabe ser bem persuasivo quando quer e tinha motivos bem fortes para fazer o que fez.

—Quais são esses motivos? – eles se entreolharam e Sam respirou fundo indeciso se falava ou não. Antes que eu perdesse a paciência Eleazar continuou – colabore, por favor.

—Parece que Edward não estava sendo de utilidade para ele além de estar sempre atrapalhando seus planos.

—Quando isso começou? Quando entrei com o pedido de interdição diante das loucuras que ele estava fazendo?

—Não foi muito antes.

—E quando foi? – pedi quando ele se calou – fala!

—Você começou a atuar como juiz e logo depois Aro já não estava contente com a sua presença ali.

—Eu não entendo. Ele deu a maior força para que eu fizesse o concurso e conseguisse o cargo, me recebeu ali de braços abertos, foi meu mentor lá dentro e parecia estar do meu lado, me apoiando em tudo. Por que Aro fez tudo isso se não me queria ali?

—Pelo que sabemos, o velho já estava perdendo a esperança de que o filho pudesse algum dia chegar a ser juiz e de longe se vê que Quill não é lá grande coisa, por isso Aro apostou todas as fichas em você, mas não se saiu como ele esperava.

—Como assim?

—Aro sonhava grande. Ele queria que o lugar fosse conhecido pelos seus feitos, mas numa cidade desse tamanho ninguém presta a atenção. Ele vivia puxando o saco de pessoas poderosas para conseguir o que queria e, para quem sabe assim pudessem investir na repartição.

—Mas o que ele poderia querer com isso? Se fosse um escritório particular ainda entenderíamos, mas esse é o fórum da cidade, um lugar público que não tem dono nem patrão. De onde é que ele tirou isso?

—Sabe que Aro sempre se sentiu o dono daquele lugar por ter trabalhado tanto para que ele viesse para cá e que a cidade ficasse livre para resolver suas próprias questões sem ter que correr para outro lugar e então quis manter o controle de tudo mesmo depois que se aposentasse, por isso, desde que conheceu Edward, viu um herdeiro para continuar seu trabalho.

—Herdeiro? Que porra é essa? – perguntei me exaltando diante de tanta loucura.

—Aro queria que você continuasse com os trabalhos escusos que fazia, uma vez que não poderia deixar todos os seus... protegidos por assim dizer, desamparados.

—Eu nunca aceitaria isso.

—Sabemos que não, Aro também percebeu quando você ainda estava no começo, por isso precisou de Quill.

—Para que, exatamente?

—Quill e Tanya sempre foram bastante próximos, inclusive pelo que eu sei, foi ele quem consolou a recém casada quando você a deixou sozinha na festa. Depois disso eles ficaram ainda mais próximos e antes mesmo de que os remédios foram ministrados ele já a convencia de fazer o que queriam.

—E o que queriam dela afinal de contas?

-Que ela te convencesse a ser mais maleável com Aro, que se envolvesse no trabalho dele, mas isso não estava dando certo.

—É claro que não – eu bufei – Tanya e eu mal conversávamos, não é como se ela pudesse me convencer de alguma coisa.

—Foi por isso que decidimos seguir com a segunda parte do plano.

—Que era me matar?

—Na verdade, essa não era a primeira opção. Como não poderia fazer nada a seu respeito o velho estava disposto a fazer de tudo para que o filho o substituísse, mas você passou a implicar e depois veio a interdição. Aro não teve outra opção que não eliminar você e para isso colocou em pratica o plano que já tinha a tempos.

-O que eu não entendo é por que eu? Havia tantos outros lá, contanto ou ainda mais potencial que eu, que ficariam felizes em dar continuidade à toda essa sujeira. Por que eu?

—Isso é algo que apenas Aro pode te responder.

—Apesar de que a maneira como você atua pode ter despertado o interesse dele – Eleazar especulou olhando para os irmãos e Sam deu de ombros.

—Não podemos responder isso.

—Verdade e tudo o que pudemos fazer, fizemos, não temos mais nada para dizer. Espero que possamos negociar essas informações que com de tão bom grado demos a vocês – Paul pediu a Eleazar e eu logo respondi.

—Isso vai depender do que mais vocês falarem até o dia da audição.

—Certo – o delegado foi se levantando – se lembrarmos de alguma coisa voltaremos aqui ou se precisar é só chamar.

—De jeito nenhum. A menos que consigam uma liminar para responder ao processo em liberdade, vocês ficaram detidos até o dia da audiência.

—O que? Não podem fazer isso com a gente!

—E por que não? Acabaram de confessar a participação nos crimes, não vão se safar assim – peguei o telefone na mesa e pedi que os guardas viessem para leva-los.

—Você é mesmo um grande filho da puta, Cullen. Colaboramos com você e é assim que nos agradece? – Paul parecia revoltado enquanto os homens de Charlie os algemava e eu bufei.

—Não tenho nada a agradecer a quem quis me matar – os irmãos resmungaram enquanto eram levados para a cela na delegacia e assim que saíram, voltei a sentar com as mãos na cabeça e desabafei com Eleazar e Charlie que continuavam ali.

—Dá para acreditar numa loucura dessas? Eu achei que Aro fosse senil não um mau caráter.

—Não é algo fácil de encarar, mas tenha coragem, está quase no fim.

—Eu sei. E quando poderemos marcar o julgamento? Agora temos provas o suficiente, não?

—Temos sim, acho que precisamos de algumas semanas para que a equipe se prepare e poderemos acabar com tudo isso. Só precisamos designar as pessoas certas para isso.

—Como assim? Eu vou julgar esse caso!

—Edward, acho que não seria justo que você fizesse isso, está envolvido até o pescoço nisso e sei que se pudesse você os mandaria para a cadeira elétrica.

—Isso é verdade – Charlie riu com o promotor e eu não estava achando graça nenhuma – cara, nós precisamos que a justiça seja feita de verdade e você não tem condições nenhuma de ser imparcial nisso, sabe muito bem.

—Tudo bem, eu sei que vocês têm razão, mas é difícil para mim.

—Não se preocupe, sem Aro e Quill nossa equipe é completamente confiável e a justiça será feita, meu amigo. Acredite em mim.

.

.

Charlie e eu nos despedimos de Eleazar assim que foram designados os componentes do julgamento e que ele fosse marcado para daqui a duas semanas. Eleazar tinha ido se reunir com o juiz e o advogado de acusação para passar o caso e traçar estratégias.

—Achei que quando o julgamento fosse marcado você ficaria um pouco mais tranquilo – Charlie disse me encarando – ou que pelo menos diante de tudo o que descobrimos você pudesse relaxar um pouco.

—Acredite em mim, eu estou mais calmo. Tudo o que eu quero é ir para casa, talvez passar um tempo com minha família, isso sempre me anima – ainda sentado eu procurei pelo meu paletó com o olhar pensando em como seria bom esquecer um pouco tudo aquilo e sem perceber estava sorrindo feito um bobo ao pensar em estar com Bella. Olhei para meu amigo esperando que ele estivesse sorrindo também, mas não foi assim, Charlie me olhava com o cenho franzido e eu não entendi o que se passava por sua cabeça até que ele falou.

—É uma boa ideia, mas antes de ir tem uma coisa que eu gostaria de falar com você.

—O que é?

—Sabe que eu ainda tenho algumas questões que ainda não foram resolvidas a respeito de seu relacionamento com a minha sobrinha, não sabe?

—Lembro que me disse algo a esse respeito – esperei tentando imaginar do que se tratava, mas Charlie estava sério demais, hesitando e parecendo escolher as palavras – O que quer me dizer? É só falar Swan.

—Em primeiro lugar, eu gostaria de entender o que deu em você para querer pegar a guarda de Bella. Se tem uma coisa que eu nunca entendi foi isso, o que deu em você?

—Foi um impulso – dei de ombros respondendo com toda a sinceridade do mundo – Na verdade, eu passei vários dias me preparando para a audição e confesso que com tudo o que eu tinha lido naquele relato, por imaginar tudo o que ela estava passando com a mãe e o padrasto, eu já cheguei na audiência muito mexido com a história. Abuso sexual é uma coisa que eu não tolero, Charlie, e eu fico extremamente revoltado com isso, ainda mais por ela ser tão jovem – respirei fundo me lembrando exatamente da sensação – eu me lembro do quanto eu estava preocupado com a moça antes mesmo de conhece-la e quando eu a vi... quando ela entrou naquela sala, soube que tinha que protege-la que não poderia deixa-la em qualquer lugar, não viveria bem comigo mesmo se não tomasse conta dela.

—E então teve a ideia de pegar a guarda?

—Eu não tive escolha ainda mais por conhecer os abrigos que deixavam crianças na situação dela. Se eu a tivesse deixado não teria paz, entende?

—Você trabalhou anos na vara da família e deve ter se deparado com vários casos como esse, infelizmente. Por que você quis tomar conta justamente de Bella desse jeito?

—Era o que eu me perguntava todo dia. Havia alguma coisa que não me deixava ficar longe. Eu precisava dela, como até aquele momento eu jamais tinha precisado de alguém.

—E o que isso quer dizer? – eu sentia que a cada pergunta Charlie ficava mais inquieto, como se tivesse medo do que poderia ouvir e por esse motivo decidi ser o mais sincero possível.

—Eu acredito que no momento em que nos conhecemos uma ligação foi formada entre nós – eu ri – você me conhece muito bem e sabe que eu nunca diria isso se não acreditasse veementemente. Eu juro que quando Bella e eu nos conhecemos foi como um encontro de almas.

—Desde o primeiro dia? – perguntou o tio relutante e eu assenti – E o que ela era para você quando chegou a sua casa?

—Não levei Bella para minha casa – dei de ombros me esquivando da real pergunta do chefe – não na que eu morava com Tanya pelo menos, mas ela para mim era alguém que precisava de mim, da minha proteção, do meu cuidado, do meu carinho, mas principalmente do meu respeito.

—E você a respeitava?

—Tanto quanto respeito minha mãe – jurei e Charlie passou a mão pelo bigode parecendo perder a paciência.

—Vamos parar de conversa fiada, Cullen. Eu ainda não entendi como foi que você acabou se relacionando com Bella e é o que eu quero saber na verdade – afrouxei a gravata e respirei fundo antes de começar.

—Charlie, eu sempre amei a Bella. Eu me apaixonei por ela no instante em que a vi entrar naquela sala de audiência quando a levaram até mim.

—É o que quer dizer com essa conversinha de encontro de almas?

—É o que eu estou dizendo e isso não é conversinha, estou abrindo meu coração para você, estou te contando toda a verdade. Não sabe o quanto isso é difícil para mim por que até um pouco antes do acidente era difícil admitir até para mim mesmo, mas é o que eu sinto, eu sempre a amei. Foi amor à primeira vista.

—Então pegou a guarda dela para que pudesse... ficar com ela? – Charlie parecia enjoado como se eu estivesse admitindo uma coisa horrível e isso estava começando a me cansar.

—Como eu disse, eu a respeito como respeito minha mãe, sempre foi assim e Bella era praticamente uma criança tinha apenas catorze anos e por mais que estivesse apaixonado por ela, eu sabia todo o horror pelo que tinha passado e jamais me aproveitaria disso.

—Não foi o que eu quis dizer – Charlie se retesou com o meu tom de voz – qualquer um vê como ela está feliz com você e eu não precisei ver como ela estava antes para saber que fez muito bem a minha sobrinha. Eu só quero entender como tudo aconteceu... quais as suas intenções quando a trouxe para junto de si.

—A minha maior e principal preocupação era em relação a ela. Eu só queria que Bella estivesse bem e por muito tempo eu apenas cuidei dela como a criança que era, com todo o cuidado que merecia e precisava, mas a cada minuto que eu ficava perto dela eu ia me apaixonando mais e mais...

—Até que?

—Até que Bella fez dezesseis anos e eu não pude mais esconder o que eu estava sentindo. Tive que vencer muitas batalhas principalmente internas para dar esse passo por que não era apenas por ela ser menor de idade e isso ser ilegal, mas por tudo o que ela passou e até pela minha própria visão do amor, nunca pensei que isso fosse me acontecer um dia.

—Dezesseis anos – ele repetiu balançando a cabeça – sei que ela era muito mais nova quando... quando aquilo tudo aconteceu com ela, mas é difícil pensar que ela tenha envolvido... romanticamente com um homem muito mais velho que ela.

—Juro que não fiz... – tentei me explicar, mas Charlie não deixou.

—Eu sei, sei que você é todo respeitador, mas isso não entra na minha cabeça – ele respirou fundo se mexendo na cadeira – tem mais uma coisa que eu quero saber, por que não me deixou chegar perto dela?

—Eu acreditava mesmo que você não tinha o direito de estar perto dela. Como eu falei, fiquei muito mexido com toda a história, mas me contive por que imaginei que não houvesse mais ninguém por ela e quando soube que havia você, não acreditei que não tinha feito nada para lutar por ela.

—Já te disse que não sabia de nada – Charlie empunhou as mãos tentando controlar a raiva.

—Eu sei e não é só isso, para ser sincero, no fundo eu tinha medo de você a afastar de mim antes que eu pudesse conquista-la.

—Por que nunca me contou nada sobre o relacionamento de vocês?

—Eu ia fazer isso, só estava esperando pelo momento certo – sorri me lembrando – comprei uma aliança ia pedir a mão dela e tudo, mas o acidente interrompeu todos os meus planos.

—Por que demorou tanto para fazer isso?

—Estava esperando que ela fizesse dezoito, antes disso não ia rolar de jeito nenhum.

—E por que não?

—Se eu te contasse que estava namorando sua sobrinha de dezessete anos, você aceitaria numa boa? – Charlie franziu o cenho e eu assenti – foi por isso que eu não disse nada, que estava esperando pelo momento certo. Olha eu não me orgulho do que fiz, sei que ela era nova demais, mas não teria dado um só passo se eu não a amasse do jeito que amo.

—Bella aceitou tudo o que você ofereceu a ela mesmo diante de tudo o que tinha passado.

—Desde o primeiro momento eu tenho certeza de que ela percebeu que eu a respeitava demais e, a sua maneira, estava sempre aberta para as minhas investidas, mas levou tempo para que eu a conquistasse.

—E teve muito trabalho para isso?

—Eu tive sim – sorri me lembrando – foi bem difícil chegar ao coração dela.

—Agora eu me sinto um pouco melhor sobre o casamento – ele riu um pouco mais leve e eu o encarei.

—Não confia em mim com a sua sobrinha?

—Confio desde que passei a te conhecer melhor, não sabia nada sobre o quanto vocês estavam envolvidos, mas mesmo assim confesso que era estranho. Fala sério, um homem da sua idade querer tomar conta de uma menina de catorze anos que já tinha passado por maus bocados na vida? Ainda mais sendo recém casado como era – ele balançou a cabeça – quando voltei para cá eu investiguei bastante sobre a sua vida antes de fazer contato e fiquei bastante preocupado.

—Por que? Naquela época eu já era bem sucedido e podia mantê-la muito bem.

—Não era por ela passar necessidade. Eu sei que você era bem sucedido, rico até e isso me intrigava ainda mais. Fiquei noites acordado imaginando que Bella pudesse estar nas mãos de algum pervertido e por mais que mais tarde se tornasse meu amigo, eu sempre desconfiei de tudo o que você estava fazendo por ela.

—É... parece mesmo algo que algum tarado faria com uma moça – eu ri – mas eu a amo e por mais que eu seja tarado por ela é com todo o respeito e todo o amor do mundo.

—Não preciso saber dos detalhes.

—Vai ficar tudo bem agora, não é tio Charlie? – ele deu um soco em meu ombro e eu ri – o que? Você disse que eu poderia te chamar assim.

—Não era literalmente – ele revirou os olhos e riu comigo – mas acho que vai ficar tudo bem sim. Sei que Bella te ama e que vão ser felizes juntos, mas eu não posso deixar de avisar que se algum dia você machuca-la, do jeito que for... eu esqueço nossa amizade, esqueço tudo o que fez por nós e acabo com você.

—Não se preocupe, Charlie, nem que eu quisesse eu a machucaria. Eu a amo tanto que isso jamais seria possível, só quero que ela seja feliz.

—Acredito em você, mas não custa deixar isso claro.

—Eu te entendo – sorrimos um para o outro mais leves e para terminar o assunto perguntei – E então, respondi tudo o que queria saber?

—Sim, obrigado por isso.

—Sem problemas, mas se não se importa, eu quero ir para casa agora.

—Não temos mais nada para fazer aqui – concordou se levantando e caminhamos juntos até o estacionamento onde nos despedimos.

Olhei no relógio e vi que ainda faltava um tempo até Bella sair da faculdade e resolvo ir para a casa de minha mãe para esperar minha noiva por lá.

Dirigi sem pressa tentando não pensar em tudo de ruim que ouvi no interrogatório e me concentrando na conversa que tive com Charlie. Realmente fez muito bem não só a ele, que deve ter tirado um peso enorme das costas, mas a mim também, é muito bom finalmente deixar claro a ele o quanto eu amo e respeito Bella, o quanto ela significa para mim, o quanto sempre significou, como eu quero mostrar para o mundo quando nos casarmos.

Cheguei na casa nova de meus pais e vi uma cena que já me era bastante comum: minha mãe no jardim cuidando das flores que resolveu cultivar ali, perdida em pensamentos enquanto cantarolava, feliz da vida.

—Edward! – ela veio em minha direção quando percebeu que eu estava ali, vários minutos depois que eu tinha chegado e me pegou em um abraço bem apertado do tipo que me fazia esquecer de qualquer coisa que estivesse me incomodando – que bom ver você!

—É bom te ver também, mãe. Está muito ocupada?

—Nunca estou ocupada demais quando se trata de meus filhos. Vamos entrar? Eu faço alguma coisa para você comer – eu a segui pela casa enorme vendo como ela já tinha a transformado em seu lar.

—Já se acostumou bem a casa, não é? – externei meus pensamentos quando minha mãe colocou uma fatia generosa de bolo a minha frente e depois de ela me garantir estar bem de saúde e tomando seus remédios direitinho.

—Quem é que não se acostuma com o conforto? – respondeu com um sorriso – por mais que as vezes eu me deparo pensando que o meu quarto é maior que a casa inteira que eu passei mais que a metade da minha vida ou que eu me pego com preguiça de ir tão longe para ir ao banheiro, eu já estou bastante acostumada a isso tudo.

—Que bom. Mas e o pai? Emm e Jaz? As crianças? Eles já se acostumaram também?

—Pode ter certeza que sim. Os meninos parecem outra vez crianças com os carros que você deu a eles, seu pai ainda está se acostumando com o trabalho novo lá na madeireira é muita coisa para aprender por mais que seja mais leve – ela sorriu ainda mais – Para as crianças tudo é festa e quanto a mim, Rosalie e Alice, temos que procurar o que fazer, uma vez que não temos mais que trabalhar, mas estamos saindo muito bem nisso.

—Ah é? – perguntei rindo junto com ela.

—Sim, adoro mexer no meu novo jardim e testar receitas na minha nova cozinha. Estou me acostumando a tudo isso sim.

—Eu queria ter feito tudo isso antes, mãe, eu queria ter me acostumado com tudo isso junto com você.

—Não fique remoendo o que passou, vamos seguir daqui em diante e dessa vez sempre juntos – eu assenti comendo um pouco do bolo e ela perguntou – e por falar em estarmos juntos, quando é que você e Bella vem para junto de nós?

—Logo, eu acho – dei de ombros sem saber ao certo – talvez só depois do casamento.

—Estão tendo dificuldades em deixar a casa, não é?

—Tem um pouco disso também, mas para ser sincero, não sei se estou pronto para dividir minha Bella com as crianças. Nós dois sabemos que eles não a deixam em paz por muito tempo – minha mãe riu bagunçando ainda mais meus cabelos.

—Não tem nada que você possa fazer quanto a isso, mas vai ser bom para que você se acostume, logo terá que repartir a moça com seus próprios filhos e vai estar pronto para isso.

—Meus filhos não – eu ri – filho, um só. Bella e eu não estamos interessados em povoar o mundo sozinhos.

—E que graça tem ter um filho só? Uma casa boa é uma casa cheia de crianças.

—Acho que Bella concorda comigo que uma criança já está de bom tamanho.

—Você quem sabe – ela deu de ombros olhando para mim com um sorriso – mas conta para mim, você está feliz em ser pai? – Esme me perguntou e eu me dei conta de que ainda não tínhamos conversado sobre o assunto.

—Nunca pensei que seria tão feliz, mãe. E mal consigo parar de tocar a barriga de Bella e toda hora que eu me lembro que meu filho com a mulher da minha vida está crescendo ali eu fico sorrindo feito um idiota – nós rimos – mal posso esperar para que ele esteja aqui.

—Eu também não – ela secou uma lagrima e fungou – eu estou tão contente que você esteja aqui, meu filho, vivo e saudável para viver essa alegria sem tamanho que é colocar alguém no mundo, alguém que vai amar pelo resto de seus dias.

—Estou muito agradecido por estar vivo para viver todas essas coisas tão boas que estão acontecendo e acho que agora poderemos finalmente ter paz e aproveitar toda a vida que temos pela frente.

—Sei que sim, meu filho. Você merece toda a felicidade que eu sei que vai ter – enquanto minha mãe falava, Bella passou pela porta com a filha de Emm nos braços, olhando com adoração para a afilhada e foi sorrindo diante daquela cena que respondi para a minha mãe.

—É só o que eu quero, mãe, viver – antes que eu pudesse me levantar para matar a saudade de meu amor, meu celular toca e atendo rapidamente imaginando o que meu médico poderia querer comigo.

—Black? Algum problema? – pergunto sem rodeio algum.

—Edward, estou ligando por que achei que deveria saber – Jacob disse com a voz solene, séria e fez uma pausa longa demais como se esperasse que eu dissesse algo, mas fiquei em silencio aguardando o que ele tinha para me dizer – Tanya acabou de morrer.

Notas finais
E então? O que acharam? O que vai acontecer agora? O que mais gostaram? Contem para mim, por favor! Por mais que eu nao ainda nao esteja pronta para desapegar, estamos cada vez mais perto do fim. Enfim, eu volto logo! Mil beijos Té mais!