Memórias

3 Capítulo 3 - Fix You


Notas iniciais
Bom, tive um tempinho de férias e voltamos com o terceiro capítulo que está sendo postado mais cedo. O que tenho a dizer antes é que algumas coisas do passado estão sendo reveladas mas sem perceber eu acabei colocando muitos mistérios de uma vez, e bom, tenham paciência pois tem muita, mas MUITA coisa para acontecer. E obrigado leitores por ainda estarem aqui.

O clima não poderia ser mais tenso, duas horas após a queda do meteoro causar tamanho rebu, o trânsito estava completamente parado. Uma sinfonia escalafobética de buzinas e gritos tomaram conta da rodovia que até então tinha fama de ser deserta. Coda estava lá, com as mãos ao volante, impaciente do seu jeito, já que ela nunca demonstra ter opinião ou sentimento sobre as coisas, Haran dormia na poltrona traseira do carro enquanto isso. O rádio anunciava:

A tão esquecida rodovia Cereser que liga, a até então destruída cidade de Joinville na mais recente calamidade, à cidade de Linoi, encontra-se completamente parada devido ao número de pessoas que estão fugindo da destruição e miséria achando que a rodovia, que sempre foi alternativa, se mantivesse esquecida.
Continuem sintonizados para mais informações.

– Fui otária. — Disse apaticamente como o de praxe, desligando o rádio. Olhou para os lados buscando qualquer forma de escapar do trânsito ou voltar para Joinville, todavia, a rodovia é de mão única e o trânsito estava muito congestionado, até que, por pouco, avistou uma abertura entre as árvores, era uma trilha bem discreta na floresta e havia marcas de carro, poderia ser um atalho, mas a dúvida era se deveria arriscar-se ou não. — Por que não? — perguntou-se puxando a marcha do carro e girando o volante com tudo, adentrando na floresta. O carro sacudia bastante devido ao relevo irregular causado pela chuva, o movimento acordou Haran que logo estranhou o lugar.

– Onde estamos? — perguntou bocejando e esticando os braços.

– Algum lugar que dê para dirigir.

– Eita! Dizer algo como "não sei" seria mais a sua cara, será que estou finalmente presenciando a fúria de Coda?! — debochou Haran.

– "Vamos pela Cereser, lá vai estar vazio!" você disse. — Ironizou gesticulando com os olhos e simulando com a voz. — "Vamos chegar rapidinho!" você disse.

– Ué! Eu não imaginei que...

– Espera. — Interrompeu freando o carro.

– O quê? Por que parou o carro?

– Tem um carro estacionado na nossa frente.

– Mas que coisa, ein? — reclamou abrindo a porta e descendo, caminhando em direção do outro veículo para ver o que estava acontecendo, entretanto: — Parece que está vazio, não tem ninguém. — Coda também desceu do carro e deu puxadinhas na camisa de Haran, olhando fixamente para frente.

– O que foi agora? — perguntou.

– Esse lugar, ele é familiar.

– É? — questionou olhando ao redor.

Coda prosseguiu a trilha andando, Haran a seguiu sem opção, estava sendo puxado pela camisa, mas continuou pela curiosidade, até que chegaram numa área mais aberta com um casebre de madeira, um lago, uma árvore com um balanço e folhas secas de outono cobrindo o solo, apesar d'água. Isso não só refrescou-lhes a memória como os deram uma forte nostalgia.

– Nossa, então esse lugar ainda existe... — Disse Haran surpreendido.

– Essa casa não era do pai daqueles gêmeos?

– Jaafar e... Farofa?

– Fairuz. — Corrigiu.

– Ela mesma! O nome daquele tio era Ennio, não era?

– Sim.

– Ah! Que saudade! — disse com os olhos brilhando e um sorriso nostálgico ao olhar ao redor. — Então o carro parado ali...?

– Provavelmente.

– Pelo visto já voltou ao normal, nem parece se importar, credo!

Coda então abriu um sorriso belo e gentil enquanto direcionava seu olhar para Haran, dizendo:

– Estou muito feliz, não se preocupe. — E logo desmanchou o sorriso.

– ... Isso foi muito assustador, estou arrepiado, nunca mais faça isso...! — disse com os olhos arregalados sem reação.

– Certo.

Enquanto isso, dentro do casebre, Jaafar estava sentado na cama em frente a Fairuz que chorava e fumava deitada no chão com os cabelos espalhados cobrindo a face, estava esperando-a ficar calma, apesar que parecia que iria demorar para acontecer.

– O que aconteceu contigo nos últimos dez anos?

Fairuz novamente não respondeu.

– É para ir embora? Sinto muito, mas não irei até entender o que há contigo.

Fairuz lançou o pedacinho restante de cigarro no peito de Jaafar, que suspirou coçando a cabeça, pensando no que fazer, mas como nada vinha em mente, decidiu continuar esperando-a ficar calma, até que:

– Dois anos depois de perder todos vocês... — murmurou.

Jaafar pôs-se mais atencioso e mudou o modo de sentar.

– O quê? Eu não ouvi direito! — Disse colocando a mão na orelha de forma que ouvisse melhor.

Fairuz levantou a cabeça, encarando-o e limpando as lágrimas com as mãos.

– Depois que todos vocês foram embora e me deixaram sozinha com o papai...

– Sim, continue.

– Ele ficou doente e morreu vomitando sangue na minha frente, eu tinha onze anos! — gritou. — Você faz ideia do quão sozinha eu fiquei?! Um após o outro todos foram sumindo! Eu não quero ficar sozinha de novo! Eu não quero te perder de novo! — desesperou-se, lançando a si mesma em Jaafar com a intenção de empurrá-lo, este segurando-a pelos pulsos e a lançando na cama, ficando encima dela, olhando olho no olho. — Se você não estiver aqui, eu não te perderei...

– Ei, calma, eu não vou ir embora. — Disse enquanto continha a resistência dela. — Naquela época eu era dependente da minha mãe, não tive opção! Eu entendo teu medo e entendo tuas cicatrizes, eu queria ter ficado contigo, faz ideia do quanto eu fiquei feliz ao te encontrar? — Nesse momento Fairuz parou de reagir. — Então o pai morreu, né? Admito que já esperava por algo assim, sua mãe era uma boa enfermeira, era muito leniente com ele, com a morte dela ele ficou irresponsável e não ligava para a própria saúde...

Estava se sentindo quente. Não estava doente, não era febre, o coração estava acelerado, a respiração ofegante, um frio na barriga insuportavelmente bom, era uma sensação que Fairuz nunca havia sentido antes, mas por que? Era felicidade? Não, já experimentara momentos de felicidade na vida e nunca chegou a esse nível. Seria pela ocasião especial do reencontro com o irmão? Dúvidas, incertezas e sensações tomando conta do seu consciente.

O que é isso?

– Fairuz, pode parecer meio brega e forçado dizer algo do tipo, mas... — alertou soltando os pulsos da garota e abraçando-a, deitados, e então, em seu ouvido, Jaafar disse a frase que Fairuz jamais esqueceria:

Luzes irão te guiar até em casa e aquecerão os teus ossos, e eu vou tentar consertar você...

Notas finais
Capítulo 4 - Chandelier. (13/01/2015)