Memórias
4 Capítulo 4 - Chandelier
Notas iniciais
{Há um canto escuro.
Neste quarto há um canto escuro.
Por que ele é escuro? Por que a luz não o alcança?
Por um momento, todo o quarto ficou escuro.
Esse momento se recusa a passar.
Ainda está escuro.
Por que? }
Helicópteros sobrevoam a cidade de Linoi, o impacto em Joinville causou queda de energia em parte da cidade.
Um quarto. Um lustre no teto, um porta-jóias tocando "FUR ELISE" de Beethoven em ritmo lento enquanto uma bailarina dança no meio. Neste quarto, Irie, dezoito anos, cabelo loiro liso caído até a metade das costas, pintado até a metade dum verde meio desbotado, calça preta assim como os sapatos, camisa branca com colarinho, sem mangas, e, uma limitação.
{O que eu sinto é destruição. Não estou dizendo que quero acabar com tudo.
Só estou dizendo que minhas memórias criam medo.
Pequenos apocalipses.}
Ouve-se um grito feminino, mais uma vez Irie enlouquecera, sempre às três da tarde, o horário mais depressivo do dia, de acordo com ela. De cima os helicópteros puderam avistar uma garota correndo descendo a serra, arranhando o rosto nos galhos das árvores, tropeçando nas raízes, com as ouvidos tapados com as mãos. Árvores malditas. Por um mero momento sentiu raiva, e desta raiva uma tristeza velha que já pairava a garota, e em algum canto do mundo abriu-se uma cratera que engoliu uma pequena cidade inteira. Que tipo de sentimento acarretaria a queda de um meteoro?
De tropeços em tropeços, Irie caiu e arremessou com força a cabeça num tronco, indo para um estado de inconsciência, deixando no seu quarto vários álbuns de fotografias espalhados pelo chão.
{Onde estou?}
– Você está em casa!
{Quem é você?}
– Eu sou você, eu sou Irie Lamperouge.
{Não brinca comigo, eu não sou você.}
– Olhe bem ao teu redor.
Era um lugar escuro com um chiado ao fundo, como o de chuvisco em TV antiga.
{Essa não é minha casa também.}
– Claro que é, boba! — respondeu Irie para Irie, sorrindo sadicamente. — Essa é a SUA casa, um mundo em que só você existe! Logo, eu sou Irie Lamperouge também.
{Vai embora!} Disse tapando os ouvidos.
– Bobinha! Está se mandando ir embora? Você não pode fugir de si mesma!
{Cala a boca!} Gritou. {Eu não quero te ouvir!} Disse fechando os olhos com força. Ao abri-los estava sozinha, ao fundo tocava FUR ELISE num ritmo mais rápido. O local passou a se encher de água, uma inundação que subia o nível cada vez mais. Risos podiam ser ouvidos.
– Você está ficando tão cheia de si...
–x-
Fairuz certamente estava feliz e aliviada, todos os seus medos e preocupações acumulados por tantos anos de solidão e isolamento haviam se esvaído, protegida por um abraço fraternal, era fácil para ela se apegar a bons momentos e por isso os temia. No entanto, ainda era cedo demais, algo começava a reagir dentro do corpo de Jaafar, algo que trará consequências inimagináveis que poderão mudar todos os conceitos de Fairuz, sendo que neste momento, com uma leve dor de cabeça, sobrepondo a imagem deles, ela viu nitidamente tomar conta do cenário em sua mente ambos abraçados sob a chuva em meio a rodovia que estava se congelando.
– Aconteceu alguma coisa? — perguntou Jaafar.
– Ah, não, é que esse abraço...
– Perdão, acho que me empolguei. — disse levantando-se.
Algum momento após, a maçaneta da porta da frente fez um barulho e a porta rangeu como se alguém houvesse abrido-a, alertando ambos ali presente.
– Esperando alguém?
– Não, ninguém nunca me visitou antes.
– Foi o que imaginei. — confirmou avançando cautelosamente em direção de onde partiu o ruído, a sala de estar. — Tu fica quietinha aí.
Enquanto observava Jaafar agindo, Fairuz teve outra dor de cabeça, dessa vez a imagem tomou conta do ambiente inteiro como se ela estivesse lá: Era em frente ao lago, uma garota estava se afogando. Tentava se aproximar para ajudar mas não conseguia tocar em nada, foi então que repentinamente retornou a realidade. O que seria essas dores de cabeça? Alucinações? Sequelas da hipoglicemia de mais cedo? A mesma ainda não havia comido nada desde então. Foi quando escutou risadas e uma voz superficialmente familiar, um outro rapaz o acompanhava.
– Ei, Fairuz! Ele é o Haran, lembra dele? Da escola há dez anos.
– Haran...? — perguntou confusa.
– E aí, avestruz! — cumprimentou zombando, Haran.
– Credo, Han, de todos você é o que mais me deixou feliz de ter ido embora... — respondeu Fairuz.
– Ué, que bicho te mordeu? Aposto que foi o Jaafarzão aí! — gracejou cutucando Jaafar com o cotovelo. Fairuz automaticamente corou.
– Jaafarzão...?! — indagou Jaafar rindo. — Não pode, tu sabe que somos irmãos gêmeos, seria o cumulo do incesto.
– De mães diferentes, não importa se o pai foi vagabundo e engravidou duas no mesmo dia! — Jaafar encolheu-se ainda sorrindo segurando um dos braços. — Isso não pode ser chamado de gêmeos, no máximo irmãos paternos, certo?
– Cala a boca, tá bom? — retrucou Fairuz.
– E aliás, que cheiro de tabaco é esse? — inquiriu coçando o nariz. — Ah, falando em tabaco, a Coda está aí fora.
– "Falando em tabaco"... O que ela tem a ver com isso? — questionou Jaafar.
– Às vezes acho que ela se droga, ela fica com aquela cara de zumbi morto, parece que está sempre viajando.
– Será que poderia parar de zombar um pouco? — queixou-se Fairuz.
– Eu amo sua voracidade tanto quanto te amo, farofa!
– E você é muito mais agradável na guilhotina. — rebateu sorrindo cinicamente. — A propósito, é Fairuz.
Jaafar estava rindo bastante, na época ele e Haran eram como melhores amigos e Jaafar acompanhava seu senso de humor que tendia ao desagradável. Do lado de fora, Coda escutava os risos e reclamações de Fairuz, sentou no chão e monologou, como sempre, de forma apática.
– Esqueceram de mim... Acho que sentei numa poça... Tanto faz. — Deu um leve suspiro e prosseguiu. — Se aquele babaca me ver assim serei motivo de piada sem graça a vida toda. Fui trouxa.
Inesperadamente, um barulho de algo caindo no lago chamou-lhe a atenção. Gritos abafados por muita água descendo garganta a baixo. Havia alguém se afogando. Jaafar, Fairuz e especialmente Haran escutaram, sendo este último o mais preocupado, sabia que Coda tinha medo de grande quantidade de água e que não sabia nadar, apressando-se ao sair do casebre seguido pelos outros dois. Ao sair e encarar a cena, Fairuz não acreditava no que via.
– Não foi uma alucinação?! — assustou-se. — Jaafar, corre, ajuda!
– Eu não posso... — disse olhando para as mãos.
– Como?! Por que?!
Haran, aliviou-se ao ver que não era Coda, mas ainda assim tirou a camisa e os tênis e correu em direção ao lago. Irie estava se afogando.
O lustre havia quebrado.
Fale com o autor