Memórias
1 Prólogo - União
Notas iniciais
Ah! Já chega. Eu não suporto mais este monte de memórias, este monte de informação, do jeito que está. Mas a culpa é minha. Eu pago, pago por ser intrometido, recebendo o que desejei sempre ter, e uma hora consegui. A verdade. E não estou falando da “Verdade”, pois esta não deve ser compreensível por meros humanos como nós, mas uma boa parte da verdade que sempre procurei, e achei. E eu, que sempre pensei objetivamente, acho agora que isto que entendo por verdades não passam de interpretações, percepções deste mundo pelos olhos de muitos, lembranças, memórias. E se já era difícil entender as minhas, quanto mais lidar com as dele, dela, de todos. Não consigo guardar tudo isso comigo.
Portanto, decidi escrever esta história para compartilhar aquilo que sei, aquilo que vi e vejo pelos vários olhos que tenho. Mas não é para se valorizar não, pois eu não faço isso por você, faço por mim mesmo. Como uma terapia, sabe? Colocando os pensamentos no papel. Foi uma dica de alguém muito importante pra mim. Sim, sim. Muito tempo atrás, mas eu me lembro bem. Eu estava deitado de olhos abertos, no meio da madrugada, e não conseguia parar de pensar. Pensava no que estava acontecendo e no que estava pra acontecer, mas principalmente no que havia acontecido. É, eu sempre vivi de passado, e ainda sou assim. E ela... Ah, ela ainda estava acordada. Deitada de lado, com a cabeça sobre o meu peito e o braço esquerdo cruzando o meu corpo. Os seus olhos iam direto de encontro aos meus. Será que ela estava com insônia também? Ou será que apenas se preocupava de mais comigo?
— Não consegue dormir? — Ela me perguntou, com os olhos profundos que sempre me pareciam estar pedindo ajuda. Eu estava perdido em meus pensamentos, e em seus olhos, permaneci mudo — Está preocupado? — Ainda quieto, eu apenas balancei a cabeça para os lados, quando ela respirou profundamente, se afastou de meus braços e levou os seus até o velho criado-mudo na lateral da cama. Abriu a primeira gaveta, fechou. Abriu a segunda, revirou alguns livros e olhou para mim novamente. Agora ela segurava um caderno velho, de capa vermelha, e um lápis. Pegou a minha mão esquerda e me entregou, dizendo: — Quando eu estou pensando demais antes de dormir, eu anoto tudo. Me ajuda a me livrar do peso, sabe? É como se eu transferisse as preocupações para o papel.
Ah, aquela noite... Eu me lembro como se fosse ontem. Sim, eu me lembro. Assim como me lembro de muitas outras noites, vividas por mim e por outros. Me lembro mesmo sem querer lembrar, mas eu não tenho escolha. E eu poderia dizer que foi por culpa dela, foi ela, ela que encheu a minha cabeça com isso que hoje me tortura, que não me deixa dormir. Foi ela, mas fui eu. Eu que quis, eu que pedi. Eu que busquei e implorei pra conseguir. Eu que sempre vivo do passado, nestas páginas busco a redenção. Ficará aqui o meu passado, e o de muitos outros, para que a minha mente se liberte. Se pelos olhos dela eu me perdi, talvez pelo seu conselho, venha a minha salvação.
Mas deixando meus afetos de lado, fica difícil decidir pelo que, quando, ou quem, começar. Não sou dos melhores nisso, mas acho que o normal é ir do começo, da pessoa mais importante. Mas quem é? Ele? Ou será que ela? Não, deve ser ele. Ah... Pelo menos no meu trabalho eu geralmente sabia no que focar, mas quando se acompanha tanto sobre tantas pessoas, percebe-se que todos são importantes. Bom, logo eu decido. Mas se eu vou fazer mesmo isso, melhor que seja direito. Não que eu ligue, mas já que este é um relato do passado, vou fazer jus ao perfeccionista que eu costumava ser. Sabe-se lá quando que você está lendo isso, e quantas aulas de história você assistiu, e sabe-se lá se a história já não foi alterada por aqueles que tem poder, e nunca chegou aos seus ouvidos dessa forma...
Sem mais delongas, vamos a alguns (supostos) fatos. Durante a minha adolescência, o mundo ocidental via o surgimento de uma nova potência monárquica, a “União das Nações”. Na segunda metade do século XXI, com a proposta de reunir os povos, unificar a comunicação, compartilhar recursos e promover a paz entre os povos, um político de formação médica, muito inteligente e oportunista, conquistou o apoio das massas e teve uma das maiores ascensões de poder da humanidade. Foi uma “respeitável” e rápida escalada. Aquele homem, chamado Sócrates Barcos, conseguiu derrubar governos e formar um império expansionista que se prolongava por quase todo o continente americano, dividido em Estados pseudo independentes. Apesar de tudo ter começado como uma bem organizada aliança entre os países do continente, Sócrates deixou claras suas verdadeiras intenções imperialistas ao forçar o crescimento de seus inclusos não só por meios diplomáticos, mas também militares. Cada vez que novas terras eram anexadas, querendo ou não, surgia um novo Estado, com um governador eleito pelo Conselho Real, uma espécie de senado formado por políticos de várias das nações envolvidas. Não era oficial, mas todos sabiam que por trás das cenas Sócrates manipulava o Conselho, e o governador “eleito” era geralmente algum relativo do rei, seja um parente, amigo ou funcionário de confiança.
Um bom exemplo desses casos de família veio algumas décadas após a formação inicial, quando a situação na América já estava mais estabilizada. Foi em uma investida naval única comandada por Alessio, o segundo filho mais velho de Sócrates, que os países Portugal, Espanha e parte da França foram anexados pela União das Nações. Considerando os seus feitos militares, o Conselho elegeu o príncipe como governador do que então se tornava o Estado da Ibéria. Foi uma escolha esperada e em par com os interesses do rei, mas Alessio Barcos, com seus trinta e seis anos, era realmente a melhor opção da Família Real para assumir o cargo. Além do pulso firme e atitude de líder, o forte e alto homem, que tinha longos cabelos castanho-escuro, normalmente presos em um rabo de cabalo, sobrancelhas grossas e costeletas pra lá de espessas, era de impor respeito e, ainda mais importante que isto, medo.
A ideia de fazer parte de uma nação única, com transporte livre, economia autossustentável e uma linguagem unificada era atraente, mas o regime de quase ditadura dos governantes, a grande desigualdade social, as constantes questões políticas com países de fora da União e a obrigação do serviço militar para os cidadãos deixavam muitos insatisfeitos. E influenciados por isto, de tempos em tempos, nas cidades mais populosas da Ibéria, e também em outros Estados, ocorriam revoltas e protestos buscando a volta da liberdade e independência dos povos, e estes eram duramente reprimidos pela polícia militar sob o comando de Alessio.
Um novo movimento, que vinha sendo organizado por três grandes homens, pretendia mudar aquela rotina. Numa madrugada de inverno, eles estavam sentados em volta de uma mesa redonda, nos fundos de uma taverna antiga nos subúrbios de Madrid. Local rústico e sujo, em todas as figuras da palavra, onde pouco se ia para beber, muito para se conversar. O mais velho na mesa era Ramon Salles, antigo político populista espanhol, de alta popularidade nos arredores da capital, principalmente entre a classe baixa, que crescia geometricamente. Do outro lado, Juan Hoyos, conhecedor dos meios e comandante de várias das pequenas revoltas já realizadas na cidade, ao lado de Santiago Valera, homem que se dizia cria do mercado negro ibérico, informante de confiança de muitos grupos rebeldes. Este se tornara próximo de Juan após investigar e fornecer dados importantes da polícia estadual, contribuindo consideravelmente com o sucesso de suas operações. O velho Ramon, que descuidado não era, daquela vez trouxera só dois seguranças, um esperava do lado de fora e o outro estava a postos de seu lado.
— Você não me disse que vinha acompanhado, Juan. — Comentou o velho político, com o bigode branco sujo de tequila, pouco após os outros chegarem.
— Nem você. — Respondeu o homem — Mas este fará parte da operação.
— Deixe que eu me apresente, senhor. — Disse o dito cujo, que tinha uns trinta e tantos anos — Me chamo Santiago. Santiago Valera. Nascido e criado nas ruas de Madrid, conheço todos mas poucos me conhecem. Tenho um dedo em quase todas as transações obscuras que rolam nesta bela cidade e sou informante de muitas das gangues de protestantes que vem tentando derrubar o governador.
— E quais são suas motivações? — Interrompeu o velho.
— Nada pessoal nem ideais revolucionários, mas digamos que o governo atual não contribui tanto quanto o anterior, e como todo negociador que se preze eu não suporto monopólio. O senhor me parece alguém muito mais flexível, senhor Ramon.
— Sossega, Salles. Santiago é de confiança, trabalho com ele tem quase um ano já. Tu não tens ideia do armamento que ele me arranjou pro protesto em Guadalajara, era arma saindo pelo ladrão. Fizemos as tropas municipais recuarem duas vezes antes de deixarmos a prefeitura.
— Eu sei, eu sei. Sendo assim, será muito útil... — Continuou Ramon — Aquela manifestação foi o que inspirou o povo. Fez eles pensarem que ainda temos chance contra a União, que dá para lutar e mudar, de dentro.
— Dessa vez será muito maior — Descreveu, entusiasmado, Santiago — O povo de Madrid se unirá ao redor do Palácio Central contra o terror do governador Alessio, e eu e o senhor Hoyos juntamos muita gente, e bem armada, para combater o exército. Os pegaremos de surpresa e não terá para onde fugirem.
— Ainda com parte das tropas deslocadas para dar suporte aos conflitos do sul, não terá como eles superarem a força das massas. — Continuou Juan — Cercados, os caras de cima vão ter que fugir pelos ares, isso se não sucumbirem a fúria do povo.
— E então o bom e justo político do povo, Ramon Salles, aparece para salvar a pátria, faz um belo discurso e assume o cargo de governador com o apoio do povo — Disse o próprio.
— Com o popular revolucionário Juan Hoyos de vice, não esqueça!
— O povo irá à loucura. Será uma nova era para a Espanha. Vamos mostrar pra esses americanos de merda que o que aqui se faz, aqui se paga. — Terminou Santiago, ao levantar seu copo de whisky e brindar com os companheiros — À justiça.
Após beberem, o informante colocou a cadeira para trás e ficou de pé. Enquanto os outros riam e continuavam o papo, Santiago deu dois passos para alcançar a garrafa de álcool e se servir mais um copo, segurando-a com a mão direita. Encarou os supostos parceiros e bebeu tudo num gole, de canhota. Olhou pra cima, pensou por alguns segundos e levantou a garrafa, ainda na sua mão. Baixou a cabeça, olhou para Juan, que ainda ria distraído, e inesperadamente, para a surpresa dos outros, arremessou a bebida, com força e impulso de quem pratica o esporte em olimpíadas, em direção à cabeça de Hoyos. Com o tiro certeiro, o homem apagou no mesmo instante. Enquanto o velho exclamava, em alto e bom tom, que me perdoem as crianças, — Que porra é essa!? — o homem já tinha sacado a pistola que carregava e dado dois tiros em seu segurança pouco ágil.
— Levanta as mãos ou morre! — Ordenou Santiago, apontando a arma para o político, antes que este terminasse de levar a mão direita ao lado de dentro do casaco — O senhor está preso por conspirar contra a União, Ramon Salles, seu lixo de deputado.
O velho seguiu a ordem, sem saber o que estava acontecendo, morrendo de medo e se perguntando o que o seu segundo segurança estava fazendo no momento, mas a essa altura os reforços já tinham chegado e cuidado do contratempo. A porta da taverna se abriu e entraram uma dúzia de bem armados militares, crias da unidade de operações especiais da União, para render e algemar os três homens, incluindo os outros dois, ainda apagados. O bom informante ignorou a maioria e se dirigiu à entrada do estabelecimento, quando foi interrompido pelo comandante em ofício.
— Inspetor... Inspetor! — Exclamou o homem para que fosse notado — Meus parabéns pelo sucesso na operação! Mais um trabalho de excelência do bom e velho, ou melhor, experiente, inspetor Esdras.
— Demoraste Oscar... Mas eu não preciso de reconhecimentos agora não, só fiz meu trabalho. Assume a operação e trata dos caras que eu não suporto mais ouvir essa gente. Um ano infiltrado, concordando com essas blasfêmias todo dia, já é demais.
— Entendo, senhor. Você merece um descanso, e pode deixar que os meus homens assumem daqui. Deixe-me acompanhá-lo até a saída.
Assim o comandante disse e fez, seguindo o inspetor e inclusive abrindo a porta de entrada da taverna. Ao levar o corpo para fora, o militar infiltrado se deparou com aquele de quem havia falado aquela noite, o homem das costeletas mais espessas e escuras de toda a Ibéria, atual líder supremo do Estado e um dos mais respeitáveis membros da Família Real, o segundo filho mais velho do Rei Sócrates, autoridade nunca vista de tão perto para o inspetor de meia idade, príncipe Alessio Barcos. Após o choque imediato, Esdras, como um subalterno respeitoso, se ajoelhou sobre a uma das pernas, cruzou o peito com o braço direito e olhou para baixo.
— A vontade, inspetor. — Disse o príncipe — Hoje eu que deveria reverenciar o senhor. Inspetor Esdras Mian, se o senhor lê os jornais sabe que eu gosto de ver um trabalho bem feito com os próprios olhos. E hoje, eu estou lisonjeado com os seus serviços.
— Não agradeça, vossa majestade. Sou um homem com pouco na vida, mas faço o necessário para que a lei e a ordem sejam cumpridas. Capturamos pessoas que conspiravam contra vossa autoridade como líder, e demos mais um passo em direção à paz.
— Muito bem, inspetor. Vejo que és tão bom nas palavras quanto és no serviço. Há tempos tenho observado seu trabalho, e reconheço suas contribuições para com a União. Capturas como essa fazem uma grande diferença para o mantimento da estabilidade do nosso governo, pois servem de exemplo para outros rebeldes. Com a execução desses dois líderes, as coisas devem ficar mais calmas no Estado, pelo menos por alguns anos.
— Muito obrigado, e assim espero. É um prazer conhecer o senhor, e respeito muito seu comando e seus feitos, mas meu trabalho aqui está terminado, então peço a licença para me retirar.
O inspetor Esdras Mian era um grande profissional, tal que, mesmo não estando do seu lado, eu sempre o respeitei. Diferente de outros militares de alto cargo, ele não fazia o serviço para aparecer nos jornais, ganhar recompensas ou medalhas. Fazia porque esta era a sua visão do que era certo. E essa visão era unilateral, sem desvios e interpretações. Era objetiva e clara como o sol nascente. Rígida e muitas vezes errônea. Eu poderia dizer que seu trabalho como investigador era tudo que tinha na vida, e naquele ponto, realmente era. Mas o inspetor nem sempre fora assim. Como todos nós, ele tinha um passado obscuro, e por trás de várias camadas de “Sim, senhor”, ele tinha os próprios ideais. Por trás de seu olhar desalmado, existia um homem. Mas, como bom militar que era, nunca deixou de mostrar respeito para os seus superiores, quanto mais um membro da própria Família Real, até porque sua admiração era honesta. Reverências e cumprimentos feitos, Esdras estava prestes a se retirar, quando foi interrompido novamente pelo príncipe:
— Espere, inspetor. — Falou Alessio, à frente dele, colocando mão sobre seu ombro esquerdo — Não vim aqui hoje só para observar o serviço. Tenho outro assunto para conversar.
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