Duas semanas se passaram e Hermione, surpreendentemente, não vira Draco novamente. Dedicou toda sua atenção ao trabalho nos últimos dias que teria antes dos feriados de Natal tentando adiantar a análise de todos os processos em andamento do escritório.

Michael estava trabalhando pessoalmente com Malfoy, na sede de suas empresas, e sua presença no escritório era rara. Lucy passara a reclamar, com mais frequência do que de costume, da ausência do marido no trabalho, pois não gostava de ficar sobrecarregada. Porém, Michael sempre conseguia convencê-la de que esse contrato com Draco era o passaporte para o futuro deles e do escritório.

Então, a última sexta-feira antes do Natal oficialmente chegou. Na semana seguinte haveria as comemorações e Hermione, como nos últimos anos, tinha uma lista limitada de presentes para comprar. O Natal não havia sido bom para ela depois da guerra. Não havia mais aquela pilha enorme de presentes ao pé de sua cama e não havia mais família com quem pudesse comemorar. Tradicionalmente, passava sozinha todos os Natais, já que não queria alugar a família de ninguém.

Saiu do trabalho, encolhendo-se e apertando o casaco ao seu redor. Havia nevado a noite inteira e as ruas haviam sido limpas, mas o frio continuava o mesmo, se não tivesse caído ainda mais a temperatura. Dirigiu-se ao carro, estacionado ao lado do manobrista.

– Obrigada, Jeff. – Lhe lançou um sorriu assim que alcançou a chave. – Feliz Natal.

– Igualmente, Srta. Granger.

Hermione dirigiu sem pressa até o Soho. Sorriu ao dar uma olhada no movimento da rua. Aquele era definitivamente o bairro que combinava com sua amiga. Eclético e inspirador. Nina não poderia ter encontrado lugar melhor. Estacionou o carro, com alguma dificuldade, a alguns metros do prédio de Nina e desceu.

As pessoas na rua andavam para todos os lados, sem nenhuma organização. Algumas falavam ao celular, outras distraídas com seus acompanhantes e outros, ainda, sentados sozinhos nas mesas dos restaurantes.

Abriu a porta do prédio de fachada vermelha e subiu as escadas até o segundo andar. Nina abriu a porta, animada, como sempre.

– Hermione! – Abraçou a amiga e a puxou para dentro. – Estou começando a ficar preocupada com você, está trabalhando demais.

– E você não?

Disse, ao ver a amiga com um lápis e uma caneta esferográfica na mão. A garota, que tingia os cabelos de ruivo e tinha a pele branca como a neve, quase corou em baixo do par de óculos de grau de armação quadrada. Mas aquela ainda era Nina e ela não corava, por nada.

– Bom, a revista terá uma edição especial de Natal. – Ela deu de ombros e sentou-se numa banqueta ao lado de um balcão alto. Hermione a seguiu.

– O que está fazendo dessa vez?

– Apenas uma pequena ilustração. – Disse a ruiva enquanto contornava alguns traços no papel com a caneta esferográfica. – Para lembrar as pessoas de que o Natal é uma data especial. Hoje em dia, ninguém parece ter tempo para isso.

Hermione percebeu que se tratava de uma ilustração animada, com uma família em volta de uma mesa farta e uma simbólica árvore de Natal ao fundo. Pode imaginar as personalidades de cada uma daquelas pessoas que haviam saído da mente de Nina direto para aquela folha de papel.

Lamentava que nunca mais teria uma família como aquela para comemorar o Natal e o motivo não era a falta de tempo. Pelo menos os “apressados” tinham a quem recorrer nas horas de dificuldade e Hermione nem isso tinha mais. Mas, para compensar sua falta de sorte quanto ao passado, havia arranjado três amigos inseparáveis.

– Está ficando ótimo. – Levantou a sacola, sorrindo. – Trouxe vinho!

– Delícia, estou mesmo precisando de álcool. – Nina apoderou-se da garrafa de vinho e encaminhou-se para a cozinha parando, definitivamente, de dar atenção a seu trabalho inacabado. – Lucy me contou do novo cliente gostoso.

– É mesmo? – Disse, sem surpresa, enquanto desfazia-se do cachecol e do casaco.

– Ela está extremamente rabugenta por que você sequer deu uma chance, como se ele não fosse gostoso.

– Nenhuma de nós tem dúvida alguma sobre isso. – Confessou Hermione ao aceitar uma taça de vinho e sentar-se no sofá azul petróleo da amiga.

– Então qual foi o problema dessa vez? – Nina perguntou, ávida. – Quer dizer, não é que eu queria que vocês cheguem ao altar como Lucy deseja, mas… Nenhuma saidinha? Eu estou começando a achar que você é lésbica!

– Nina! – Jogou uma almofada na outra, sem conseguir segurar o riso. – O negócio é sério. É que… Eu já conhecia esse cara.

Nina pareceu entender na hora. Ela às vezes tinha dessas coisas. Era compreensiva demais com os outros e pouco entendedora de seus próprios problemas. Devido a isso, nunca soube lidar com o fim de um namoro. Ela esperneava e chorava e se culpava, e depois de um tempo arrumava outro cara para substituir o último. Pelo que Hermione sabia, era assim que Nina conseguia superar suas péssimas experiências amorosas.

– Você quer dizer… Do seu passado remoto e obscuro?

– Exatamente. – Tomou um grande gole do vinho. – Nós não nos suportávamos e do nada ele aparece todo cheio de boas intenções. Isso não me parece com o Malfoy que eu conhecia.

– Bem, as pessoas podem mudar com o tempo. – Nina deu de ombros.

– Ele nunca dá ponto sem nó, eu o conheço.

– Bem, você só pode descobrir quais as intenções dele de uma maneira.

– Qual?

– Transando com ele. – Havia perguntado realmente interessada, mas revirou os olhos e balançou a cabeça ao ouvir a resposta “óbvia” de Nina.

– Talvez, se não tivesse tanta coisa envolvida no nosso passado. – Ela considerou.

– Bem, então… Você vai ter que sair para a night e escolher um gato para esquecê-lo.

– Eu não cheguei ao ponto de precisar esquecê-lo, Nina.

– Ainda bem, por que quando se chega nesse ponto você está fodida. – Disse a ruiva, colocando mais uma dose de vinho em sua própria taça.

Nina já ficara apaixonada tantas vezes que não cabiam nos dedos das mãos, mas não era uma boa conselheira nesse quesito, embora Hermione concordasse plenamente com sua teoria. Chegar a tal ponto com Malfoy era inaceitável.

Depois disso a conversa fluiu naturalmente, desde os trabalhos de ambas até os namorados de Nina e chegando às últimas pérolas de Lucy. Nina era uma ótima pessoa para desencavar os mais variados assuntos. Porém, quando a garrafa já estava chegando ao fim, chegaram ao tópico que Hermione menos gostava.

– E então, vai passar o Natal com quem este ano?

– Você sabe muito bem com quem eu vou passar o Natal, Nina.

– Com um peru assado é que não é, já que não sabe cozinhar porra nenhuma. – Disse Nina mal humorada. – Merda, Hermione, não me diga que vai pedir comida novamente, igual ao ano passado!

– Você e Lucy já deveriam estar mais do que acostumadas. – Hermione levantou-se, meio cambaleante devido ao vinho. – O Natal é uma data irrelevante para quem não tem família para comemorar, Nina.

– Você poderia ir viajar comigo para o interior. Minha família ia adorar você, muito mais do que eu, se quer saber.

– Mas é a sua família. – Amarrou o casaco ao redor do corpo e buscou o cachecol. – Não me incomodo de passar o Natal sozinha.

– Até parece. – Disse a outra, descrente, levantando-se também, mas para abrir a porta. – Lucy não vai gostar de saber disso.

– Eu me entendo com ela. — Passou os braços ao redor do pescoço de Nina, abraçando-a apertado. – Feliz Natal, Nina.

– Feliz Natal, querida. Tente repensar na minha proposta, e na de Lucy.

Apenas lançou um sorriso à amiga. A outra sabia exatamente o que este significava. Ela não iria mudar de ideia, era este pensamento que tinha em mente quando desceu as escadas do prédio de Nina.

Tinha planos de como seria seu dia de Natal. Dormiria até tarde, faria chá quando se levantasse para comer com os biscoitos que compraria no dia anterior. Então, almoçaria em uma lanchonete de seu bairro e passaria o dia lendo ou assistindo televisão. Por fim, à noite pediria algo especial em algum restaurante e degustaria em casa, na companhia de um bom vinho.

Porém, assim que passou, quase distraída, pelo quadro de avisos viu um panfleto que lhe chamou a atenção. Era todo colorido de verde e vermelho e Hermione sorriu assim que leu seu conteúdo, interessando-se imediatamente.

Até seus planos de Natais poderiam ser mudados, havia pessoas solitárias em todo o mundo.

Notas finais
Capítulo sem Draco, eu sei que isso é péssimo, mas é importante para o desenrolar da fic daqui para frente. Esse capítulo serviu para introduzir um outro tópico que veio na minha mente e eu simplesmente tive que colocar nessa fic por que vai mostrar um lado mais humano de Draco. Então... Vocês vão ter uma surpresa no próximo!! Quem gosta de "A menina que roubava livros" vai adorar. Espero que tenham gostado desse capítulo, pois foi um dos que eu mais gostei de escrever. Adorei introduzir a Nina como amiga de Hermione, como vocês puderam perceber, ela tem uma mente mais aberta que Lucy e isso vai ser bastante importante para a história. Gente, vocês são demais!! Sério. Eu adoro os comentários de vocês, leio todos, tomara que esse tenha agradado tanto quanto o anterior. Me digam se sim ou não, certo? Até o próximo, bjobjo ;)