Memories of the Past
36 Capítulo 36
Pelas frestas da cortina, Hermione podia perceber que o sol já estava alto no céu, embora a vontade de sair da cama lhe fosse inexistente. Revirou-se entre os lençóis macios por mais alguns minutos, buscando uma posição confortável, até perceber, frustrada, que não havia uma.
Suspirando, jogou as cobertas pesadas para o lado e sentou-se. Seu corpo todo doía, a tensão habitava cada um de seus músculos. Decidida a, finalmente, começar o dia, andou até as janelas e, num impulso, puxou as cortinas para o lado, fazendo com que a luz do dia adentrasse o quarto de Draco.
A vista era a melhor da casa, constatou, embora soubesse que seu dono não tinha tempo para valorizá-la. Ao longe, o Big Ben destacava-se em meio à uma imensidão de telhados e, à sua esquerda, havia um parque muito grande. A neve ocupava boa parte da paisagem, cobrindo calçadas, árvores e até mesmo casas.
Observou as pessoas andando nas ruas, devidamente agasalhas, completamente absortas em seus próprios problemas. Hermione daria tudo para ser uma delas, ter problemas que uma pessoa normal teria. Consciente de que isso não seria mais possível, prendeu os cabelos num coque desajeitado e seguiu para o banheiro, deixando as cortinas propositalmente abertas — como Draco detestava. Se a Sra. Jo insistia em insinuar que não era apropriada, iria provar que ela estava certa.
Deixou que a água quente escorresse por seu corpo, lembrando-se da noite anterior e de como haviam "lidado com Michael". Ele era realmente um homem problemático, mas, apesar disso, louco por Lucy. Draco o levou para sua própria casa, fazendo-o prometer que não ligaria para a polícia dos trouxas, pois eles só serviriam para atrasar a investigação dos aurores. Entretanto, a ideia de haver pessoas que faziam magia e um mundo completamente em ordem feito por essas pessoas ainda o deixavam desconfiado e, até mesmo, amedrontado.
Colocou uma roupa apropriada para sair e deixou seu rosto tão apresentável quanto possível, passando uma maquiagem leve. Quando chegou à sala, estranhou que não houvesse ninguém por ali para lhe dizer o que estava acontecendo. Nem mesmo a Sra. Jo que tanto gostava de parecer informada e saber de tudo que se passava naquela casa estava perambulando pela sala, alisando o que não precisava ser alisado, limpando o que não precisava ser limpo. Desceu até o primeiro andar e parou, surpresa, ao evitar trombar em um homem de sobretudo negro que passou apressado por ela e saiu pela porta da frente.
Franziu o cenho e adentrou o escritório. Foi uma surpresa perceber que este estava arrebatado de homens discutindo seriamente sobre o invasor e seus planos, certamente com base nos depoimentos de Draco e Michael. Porém, todos eles pararam o que estavam fazendo para encará-la quando se deram conta de sua presença. Viu as figuras de Malfoy e Nott, lado a lado a um canto, e Michael, acuado perto das janelas, encarando tudo com um olhar assustado.
– Bom dia. — Todos responderam num murmúrio, parecendo envergonhados ante sua presença. Franziu o cenho, confusa.
– Esses são os Aurores que estão cuidando do caso de Lucy... — Anunciou Draco. — Theo e McLaggen estão supervisionando, já que a Seção deles tem jurisdição do seu caso.
Claro, Nott a havia encontrado, entretanto, sabia que essa era uma mera desculpa para que ele pudesse acompanhar a resolução do caso de Lucy. Olhou ao redor, curiosa, sequer havia reconhecido McLaggen em meio a tantos rostos estranhos. Ele parecia estar completamente absorto enquanto encarava um mapa sobre a mesa de Draco. Apesar disso, era possível perceber que seus cabelos cor de areia ainda tinham o mesmo corte e o rosto possuía feições mais maduras, completamente formadas. O pequeno envolvimento que haviam tido no sexto ano parecia tão distante agora, nunca passara muito tempo pensando sobre isso depois que saíra da escola.
– Er... Por que estão todos aqui?
– O Sr. Bones não pode ir até o Ministério da Magia... — Disse Theo, em tom descontraído — Então o Ministério da Magia veio até ele.
– E tiveram alguma novidade?
– Hermione? — Congelou ao ouvir a voz conhecida logo atrás de si e virou-se, prendendo a respiração, consciente de todos os olhares sobre eles.
– Harry.
Ele não estava tão diferente do garoto de 17 anos que deixara no passado, Tiago Potter não deixava muito trabalho à imaginação, afinal. Os cabelos não eram espetados, mas penteados para trás, devidamente arrumados, e usava um terno escuro, basicamente igual aos outros homens daquela sala. Supôs, corretamente, que fosse o uniforme de Auror.
– Respondendo à sua pergunta, não, não tivemos novidade, pois não fomos acionados quando os primeiros indícios de perseguição começaram. — Ele levantou a pasta que segurava onde, pôde notar claramente, estavam todas as evidências que o invasor lhe deixara, desde o primeiro bilhete até o convite para a festa no Ministério. — Ele age de modo aleatório, mas esperando que faça algo até amanhã, visto que parece empolgado para a recepção no Ministério.
– E se não agir?
– Montaremos um aparato na festa visando sua segurança, é claro. — Ele tirou do bolso um bloco de notas e uma pena de repetição rápida. — Posso ter o seu depoimento?
Hermione engoliu em seco e encarou Draco, do outro lado da sala, observando-os em silêncio, inexpressivamente. Por que ele não havia dito que Harry estaria ali? Que todos aqueles aurores estariam ali? Viu o moreno seguir seu olhar e deixar o escritório em direção à saída. Balançando a cabeça, refez seu caminho e abriu a porta.
O ar era frio do lado de fora, o que a fez se encolher enquanto caminhava em direção a Harry, que se encontrava encostado tranquilamente em uma árvore antiga, os braços cruzados e o olhar, sob os mesmos óculos de aro redondo, fixo no chão. Não sabia se preferia uma explosão de raiva ou aquela indiferença fria que detestava em qualquer circunstância.
– Harry, eu... — Ele a interrompeu, antes que pudesse enunciar todos os seus motivos, começando a andar com uma deixa para segui-lo. Não podia esperar atitude diferente, mas Harry no auge de seu autocontrole era, no mínimo, surpreendente.
– Diga seu nome e idade para que a pena de repetição anote. — Hermione suspirou e o fez, percebendo que não teria escolha, as coisas seriam do jeito dele. — Quando esse homem começou a lhe mandar coisas?
– Na noite de Natal.
– E, inicialmente, você suspeitou de alguém?
– Sim, Draco Malfoy. — Harry a olhou, confuso. — Eu... Havia acabado de reencontrá-lo, foi algo completamente não planejado. Logo depois disso, recebi a primeira rosa negra.
– Uma única rosa.
– Exatamente. Estava em meio às minhas antigas coisas de Hogwarts, jogadas no meu closet. Então, só pude presumir que um bruxo a tinha colocado ali, principalmente por ter saído tão rápido do meu quarto. — Hermione deu de ombros, mexendo as mãos nervosamente dentro do bolso do casaco.
– Procurou Malfoy depois disso?
– Eu queria confrontá-lo. Uma rosa negra havia aparecido em meio às minhas coisas dias depois de reencontrá-lo, não poderia ser tanta coincidência. — Resolveu esconder que realmente havia rosas negras na estufa de Draco, pois não queria fazer dele um suspeito. Sentia que suas investigações em conjunto com Nott e Lestrange dariam muito mais resultado do que o trabalho dos aurores, embora estes estivessem empenhados. — Mas então ele aceitou me ajudar a procurar esse... Invasor, por falta de palavra melhor.
– Embora ainda o tivesse como suspeito. — Ele concluiu com ar resignado.
– Uma semana depois, na noite de Ano Novo o invasor me fez uma nova visita. Dessa vez, ele deixou um buquê inteiro de rosas negras e um bilhete, que em nada incriminava Draco. — Ela fechou os olhos e repetiu todas as palavras do bilhete do invasor, surpresa por ainda lembrar-se perfeitamente das mesmas. — "Sua decisão, ela mudou qualquer futuro que poderíamos ter. Iríamos formar uma bela dupla, Hermione, eu e você. Pena que não soube se decidir pelo melhor." Era o que dizia o bilhete.
– Nunca teve nenhum envolvimento amoroso com Malfoy? Digo, na época de Hogwarts. — Ele perguntou, sem rodeios. — Esse conteúdo só poderia ser escrito por alguém com quem teve algo no passado.
– Não, nunca. — Resolveu não se alongar e Harry percebeu, pois apenas pediu que continuasse. — Então, nessa mesma noite, Draco me convidou para ficar na casa dele, pois a minha não era mais segura.
– E por que a casa dele seria mais segura?
– Por que eu descobri que não podia mais fazer magia. — Nesse instante, ele parou para encará-la. Já se encontravam na esquina de uma rua movimentada e a pena de repetição rápida, assim como o bloco de notas, devia estar enfeitiçada para que os trouxas não pudessem vê-los.
– O quê? — Ele perguntou atônito, pela primeira vez deixando que alguma emoção tomasse conta de suas feições. Hermione suspirou.
– Eu escolhi viver sem magia e o fiz por 10 anos. É como se... Meu poder tivesse adormecido em algum lugar dentro de mim.
– E você ainda não pode fazer magia? Como isso é possível?
Hermione suspirou e encarou a pena, amaldiçoando o modo profissional como ele a estava tratando e como conduzia toda a situação. Era ela, Hermione Granger, não uma estranha!
– Pode fazer parar?
Harry guardou ambos os objetos no bolso e a olhou, um pouco hesitante, pois agora eram apenas os dois e toda a bagagem que carregavam. Sem penas de repetição e blocos de notas para mascarar sua curiosidade.
– Draco e eu descobrimos uma forma de fazer a magia retornar, um ritual de... Magia Negra. — Esperou a reação dele, mas ela não veio. Harry simplesmente lhe virou as costas e começou a caminhar em direção à casa de Malfoy. Xingou-se mentalmente por ter entrado nesse assunto logo no depoimento, logo para Harry Potter, que obviamente repudiava qualquer ato de magia negra. — Harry, Harry, espera!
– O que você está fazendo? — Ele voltou-se para ela, tão abruptamente que precisou parar subitamente para que não lhe desse um encontrão. O encarou, confusa. — O que está fazendo com você mesma? Andando com Draco Malfoy, fazendo rituais de Magia Negra... Vocês estão juntos, é isso?
– Não! — Hermione parou, mordendo os lábios. — Quer dizer, eu não sei. Harry, o ritual só é considerado Magia Negra por que não é aprovado pela bancada conservadora do Ministério. É antigo, muito antigo, e encontramos em um livro na Seção dos Inomináveis... O Ministério só o esconde por que seria perigoso demais que as pessoas soubessem.
– É isso que ele usou para te convencer? Que o Ministério é conservador? — Harry sorriu irônico. — Me poupe, Hermione! Aquele cara é Draco Malfoy e está confiando nele como se todo o nosso passado tivesse sido apagado para você. E talvez, realmente tenha sido, não é?!
– É claro que não, Harry! — Disse, desesperada para fazê-lo entender. — É um absurdo que pense desse jeito. Eu apenas... Precisava da ajuda de alguém que... Me entendesse.
– E esse alguém seria Draco Malfoy? O cara que te xingou por anos, que sempre te odiou? — Hermione parou, respirando fundo, já estavam em frente à porta da casa de Malfoy. — Por que ele a entenderia melhor do que seus próprios amigos, Hermione?
– Não é assunto para conversarmos aqui. — Ele revirou os olhos e sorriu, amargamente. — Harry, pode não gostar dele, mas não quero que o considere como suspeito.
– Quem decidirá isso serão as evidências, não eu. — Harry abriu a porta, mas antes de entrar, ainda voltou-se para ela. — Vou chamar alguém para terminar seu depoimento.
Hermione suspirou e sentou-se nos degraus da entrada. Talvez tivesse sido melhor que Harry não conduzisse o resto do depoimento. Não poderia lhe dizer que haviam suspeitado de outra pessoa, pois teria de complementar que este era Lestrange e justificar por que também o tinham descartado deste posto e então se enrolaria ainda mais, pois Harry não era nada inocente para cair numa história inventada qualquer. Por isso, pela primeira vez, agradeceu que Nott tivesse aparecido para substituí-lo.
Perfeitamente à vontade, o moreno sentou-se ao seu lado e encarou os carros passando, modelos caros e vidros muito escuros eram padrão, as pessoas no bairro de Draco não eram muito adeptas de ir caminhando para o trabalho. Hermione entendeu que ele apenas estava em silêncio para lhe dar tempo de normalizar a respiração e colocar os pensamentos em ordem.
– Não pode se contradizer, Granger. — Nott começou, depois de alguns minutos. — Somos treinados para sempre notar esse tipo de coisa.
– Não é como se houvesse um jeito de dizer tudo sem entrar em detalhes que eles irão querer saber. — Apenas disse o óbvio.
– Invente alguma coisa, enrole-os. — Ele aproximou-se para que pudesse falar num murmúrio quase inaudível. — Draco apressou seu querido tio e ele disse que daria notícias até hoje à noite, então...
– Ele certamente se empenhou. — Disse Hermione, ironicamente, ao lembrar-se de que Lestrange ainda iria pedir algo em troca pela ajuda. Sonserinos, pensou não evitando uma careta de desgosto. — E você, Nott, por que está tão interessado neste caso?
– O cargo de Chefe da Seção dos Inomináveis me parece muito atraente. — Ele lhe sorriu perversamente. — Aliás, devo lhe agradecer, Granger, se não fosse você e seu súbito desaparecimento, consegui-lo tão rapidamente não seria possível. Você foi o caso do século.
– De nada. — Revirou os olhos, esperando que Nott terminasse logo aquele maldito depoimento.
Ele apenas riu bem humorado, e pegou o bloco de notas e a pena encantada do bolso do paletó. Entretanto, antes que pudesse começar a lhe interrogar, um garoto que aparentava ter apenas 12 anos parou em frente à casa, encarando o número 18 pregado à porta e, em seguida, o envelope que tinha em mãos.
– É aqui que mora Hermione Granger? — Levantou-se prontamente, franzindo o cenho.
– Não moro aqui, mas sou eu.
– Mandaram entregar. — O menino colocou o envelope sobre a grande caixa branca que mal cabia em seus braços e a entregou a Hermione, que segurou desconfiada.
– Quem te mandou entregar isso? — Perguntou Nott, encarando o menino dos pés à cabeça. Ele não era mal arrumado, muito pelo contrário.
– Um homem, na outra rua. Ele me pediu para fazer um favor por que estava com pressa. — Nott segurou a caixa e Hermione abriu o envelope. Lá estava, mais um bilhete, com o mesmo garrancho do invasor. Desgraçado, estava jogando com eles.
"Use-o amanhã, apesar de não precisar tanto para estar sempre bela. Tenho certeza de que irá gostar."
– Ele está por aqui. — Com o coração aos pulos, olhou ao redor, em todas as direções. Entretanto, não havia ninguém suspeito à vista, o invasor não seria assim tão displicente.
– Droga, ele está brincando com a gente! — Nott lhe entregou a caixa novamente e segurou o garoto pelo braço, puxando-o para dentro da casa. — Venha aqui, vamos ter uma conversinha.
Com uma última olhada para a rua quase deserta, Hermione não teve outra opção a não ser segui-los, segurando seu presente.
No próximo capítulo
– Michael? Nós vamos encontrá-la...
– Quando entregarmos você a ele.
...
– Devia ter dito que ele estaria aqui.
– Não poderia evitá-lo por mais tempo.
...
– Por que resolveu ajudar esse orfanato?
– Devia parar com essa mania de querer saber tudo.
Fale com o autor