Memories of the Past
26 Capítulo 26
Fazia exatamente quatro dias que Hermione não via Draco direito. Ele chegava quando já estava dormindo e saía muito cedo, provavelmente estava levantando antes de o sol nascer. Perguntava-se o por quê disso, já que era Malfoy quem ultimamente estava fazendo o papel de hóspede da casa. Não deixou de passar por sua cabeça, é claro, que ele a estava evitando depois da manhã um tanto quanto quente que compartilharam, mas Draco não era do tipo que fazia isso. Essa hipótese fora descartada assim que chegara a tal conclusão sobre a personalidade de Malfoy em relação às mulheres em geral. Quer dizer, estava morando na casa dele, não é como se pudesse ignorá-la para sempre.
Uma nova coleção de perfumes, talvez. A Sra. Jo fizera questão de exaltar as qualidades de Draco em relação a seu trabalho. "Ele, geralmente, fica bastante focado quando está criando uma nova linha de perfumes", a governanta dissera em mais um dos jantares em que se encontrava sozinha, no silêncio da casa enorme de Malfoy, dividindo aquela mesa descomunal com ninguém. Essa era uma das hipóteses não descartáveis, obviamente, Draco ainda era dono de uma das maiores empresas de perfumaria do Reino Unido, em expansão para a América, de acordo com Elijah. Como é de se esperar de um grande empresário, ele deveria ter muitos problemas para resolver e não poderia — nem deveria — preocupar-se apenas com ela. Sem conseguir se concentrar no artigo científico que lia em uma das revistas que Malfoy assinava, suspirou descansando a cabeça no encosto da poltrona em que estava, perto da janela, lhe proporcionando uma bela vista de Londres totalmente iluminada à noite. Era seu lugar favorito da casa. Enquanto encarava pela vidraça a cidade que parecia nunca ter fim constatara algo: Draco Malfoy, definitivamente, não estava em sua "lista de preocupações urgentes". Não falava com Nina desde que saíra do apartamento dela, na segunda-feira. A ruiva lhe dera dois dias para o choque da história de ser uma espiã do Ministério passar e ligara. Entretanto, Hermione sabia que não estava pronta e apenas ouviu, deprimida, os recados da amiga. Não, Nina não deixara de ser sua amiga, apesar de Hermione não estar pronta para lidar com a mágoa que ainda sentia pela mesma. "Hermione, por favor, eu sei que errei, mas se pudéssemos conversar melhor tenho certeza de que me entenderia", o tom de voz da ruiva expressava um resquício de esperança. "Eu sei que já liguei várias vezes e sei também que se recusa a falar comigo, mas... Hermione, por tudo que vivemos, por tudo que não foi mentira nesses anos em que estivemos juntas... Vamos conversar?", no último recado, a esperança já havia cedido espaço para o cansaço evidente. Hermione fora às lágrimas em muitos dos recados da mesma, mas as coisas ainda eram muito recentes para que pudessem ter uma conversa em que ambas não estivessem nervosas. Apesar dessa certeza, queria tanto que tudo voltasse ao normal. Sentia falta de Nina, suas pérolas fora de hora, sua visão diferenciada do mundo. Nada disso era fingimento, tinha essa convicção. Havia voltado a trabalhar no escritório, apesar de nada estar sendo como um dia fora. Lucy e Michael só falavam com ela para tratar de algo relacionado a processos judiciais. Queria conversar com Lucy sobre as trivialidades de sua vida e podia perceber que, às vezes, ela se segurava para não dizer algo além das formalidades que dominaram o local de trabalho nos últimos dias. Entretanto, algo sempre parecia puxá-la para trás e Hermione tinha a resposta na ponta da língua do que, exatamente, era esse "algo". Muitas vezes, era Michael quem procurava Hermione para discutir sobre os processos que eram da esposa. Ele evitava ao máximo que Lucy tivesse contato com Hermione. Não havia entendido ainda o porquê de Michael lhe direcionar tanto ódio, de uma hora para a outra. Tudo bem, contara uma mentira, mas quem nunca o fez que atire a primeira pedra! O próprio Michael, o tempo todo, mentia na profissão que exercia. Haviam aprendido isso juntos na faculdade: a facilidade de montar um processo que favoreça seu cliente, mentir. Portanto, era complicado para Hermione entender o motivo de tanta hipocrisia da parte dele. Apesar de tudo, ainda precisava estar no escritório, manter os olhos bem abertos, para que eles pudessem ficar seguros. Não indo ao trabalho — que era o que gostaria de fazer depois de tudo o que Michael lhe dissera — como poderia saber se eles estavam bem? Se alguma coisa errada, anormal, acontecera? Fora tirada de suas divagações sobre as brincadeiras que o destino estava lhe proporcionando ao ouvir passos rápidos e curtos subindo as escadas para o segundo andar. Estava se acostumando tão rápido à presença de Malfoy que passara a reconhecê-lo pelo som das pegadas no chão de madeira. Percebeu que ele seguiria diretamente para o último andar, o laboratório, se não tivesse visto nenhuma luz acesa na sala. Levantou uma sobrancelha quando ele parou, apoiando-se no corrimão da escada.
– Ah, que bom que está acordada, precisava mesmo falar com você. Draco usava um casaco grosso sobre a camisa social branca. Uma gravata com detalhes em azul já estava frouxa ao redor do colarinho. Mas, apesar das vestes sempre elegantes, seu semblante encontrava-se mais cansado do que Hermione podia se lembrar. – O que aconteceu? – Tenho novidades. Franzindo o cenho, confusa, ela apenas seguiu um Malfoy apressado escadaria acima até o laboratório onde ele costumava passar boa parte do tempo quando estava em casa. Foi o que notara, antes de ele praticamente sumir por quatro dias. Draco colocou a pasta sobre o balcão de acrílico branco e, de lá, retirou um livro grosso e de aparência antiga. O tipo de livro que pegaria na biblioteca de Hogwarts apenas para se distrair, constatou com nostalgia. O título destacado em um dourado envelhecido era "Rituais raros até 1874". Não conseguira ler o nome do autor, apagado pelo tempo. – Que livro é esse? — Malfoy parecia saber exatamente o que estava procurando, pois abriu o livro numa página específica e respirou fundo para só então encará-la. – Feitiços entram e saem de moda, certo? Novos são criados e muitos são esquecidos pelo tempo, era o que o professor Flitwick dizia. — Estava prestes a perguntar onde ele queria chegar com aquilo, mas Draco não deixou que o interrompesse. — O que eu quero dizer é: a mesma regra se aplica a rituais mágicos. – O que quer dizer? – Andei fazendo umas pesquisas, perguntando por aí, cobrando alguns favores no Ministério e acabei por encontrar, Hermione. — Ela franziu o cenho, Malfoy não estava dizendo nada que fazia sentido... Até aquele momento. — Encontrei um modo de devolver o resquício mágico ao seu sangue. Por um momento, Hermione apenas o olhou, não conseguindo acrescentar qualquer coisa útil, não acreditando no que ele acabara de lhe dizer. – Como...? Está dizendo que existe um ritual para isso?– Sim. — Draco sentou-se na banqueta, como se assim ficasse mais confortável para explicar a ela o que quer que fosse necessário. — Ouça. Seria quase impossível encontrar esse ritual se não tivéssemos buscado um precedente na história, alguém que passou pela mesma situação que você. "Contei sobre sua situação de bruxa deficiente de magia a Theo, ele fez umas pesquisas na Biblioteca dos Inomináveis — o acervo do Ministério só é útil para pesquisas internas ou escolares. São raros os bruxos que escolhem viver sem magia, mesmo há séculos atrás a mágica era vista como um dom por quem conseguia fazê-la. Enfim, Theo encontrou uma coleção de diários, datada de 1638. A narradora, uma mulher chamada Jane Eldridge, fugiu do povoado onde morava depois de ser acusada de bruxaria. Era o auge da caça às bruxas, a Igreja ia até as últimas consequências para condenar uma mulher por praticar bruxaria, então ela decidiu que seria mais seguro viver sem a magia. Ela era filha de camponeses, conhecia os arredores do povoado como ninguém, então viveu na floresta por alguns meses... Até descobrir que estava grávida. Jane já estava fraca, provavelmente havia contraído alguma doença, o diário conta que produzia poções curativas a partir de plantas que encontrava na mata. Porém, Jane foi encontrada por gente que vivia na floresta há séculos, renegados pelas pessoas do povoado e... Praticantes de magia. Ela narra que eles não possuíam os mesmos hábitos das pessoas "civilizadas", vestiam vestes de couro, a comida eram os animais selvagens que caçavam na floresta e plantas nutritivas, eles utilizavam a magia apenas para a sobrevivência. Enfim, ela entrou em trabalho de parto, mas os renegados perceberam que ela provavelmente não aguentaria sem que fizessem com que a magia reacendesse no corpo, já que o sangue mágico age em bruxas como um agente protetor, quase como um sistema imunológico. Sem que esse sistema imunológico esteja ativo no corpo da bruxa, ela pode não aguentar as dores de um parto normal, ou uma doença de cunho mais grave." Hermione estava em estado de torpor quando Draco terminara de falar. Toda aquela história fez com que se arrepiasse, era um relato real do que acontecera há séculos atrás. Jane Eldridge poderia ser considerada a bruxa mais corajosa da história, mas... Por que ela não era lembrada nos livros de História da Magia? Por que seu diário fora esquecido no Departamento de Inomináveis? – Por que nunca li nada sobre ela enquanto estava na escola? Apoiou as duas mãos no balcão, podendo sentir as engrenagens enferrujadas de seu cérebro começando a funcionar. Nos últimos dias, tudo que fazia era essencialmente mecânico, desde que acordava até quando se deitava para dormir. – Você não leu todos os livros da Biblioteca de Hogwarts. — Respondeu ele com ar de desdém, no que Hermione revirou os olhos e aproximou-se, parando ao seu lado e encarando o livro. As páginas eram amareladas e grossas, gastas pelo tempo, e as letras grandes e garrafais. — Rituais como esse podem se tornar perigosos nas mãos de pessoas erradas. Ela mordeu os lábios e cruzou os braços, indo até a janela. Há várias ruas de distância, havia uma avenida, onde os carros passavam a toda velocidade para lá e para cá. Sua cabeça trabalhava daquela mesma maneira, as ideias indo e vindo, sua vontade e sua razão colocadas em pauta. Por um lado, queria mais do que tudo ter sua magia de volta, poder desfrutar do dom que a fazia especial, mas tinha medo. Com o resquício mágico em seu sangue teria de voltar a viver essencialmente como uma bruxa e, assim, tudo que conquistara em sua vida como trouxa se perderia? Seus últimos dez anos seriam jogados no lixo, como se tudo que vivera nesse tempo não tivesse importância? Não podia evitar a sensação de abandono, a mesma que sentira há 10 anos, quando escolheu deixar para trás o mundo mágico. – Granger. — Ele se aproximou com cautela, observando seu perfil com atenção, Hermione pôde perceber. — Qual seu medo? – E se... E se não der certo? — Viu quando Draco franziu o cenho. — Esse ritual não é feito há séculos...– Esse é o precedente que eu encontrei, mas nada impede que haja outros casos como o seu, não registrados. — Ele a olhou com mais atenção e suspirou, quase como se tivesse perdido uma batalha interna. — Hermione, sei que não está com medo de fazer o ritual. Hermione apenas o olhou e expirou, vencida, Malfoy estava passando a conhecê-la mais do que achara ser possível e isso era um tanto quanto estranho. Quer dizer, conversar com Draco sobre seus medos nunca fora uma opção em sua mente, mas ali estava ele perguntando, querendo saber o que acontecia com ela, percebendo que havia de fato algo errado. Deveria estar pulando de felicidade por haver uma chance de obter sua magia de volta, no entanto se encontrava relutante pelo que aconteceria dali em diante. – É quase como se eu tivesse voltado no tempo, há 10 anos atrás, quando tive que fazer essa mesma escolha. Deixar para trás toda uma vida, novamente...– Ter o resquício mágico no sangue novamente não quer dizer que precisa abandonar sua vida no mundo trouxa. — Draco encostou-se à janela, de frente para Hermione, a olhando com seriedade. — Você pode conciliar tudo, facilmente. – E ter uma vida-dupla, exatamente como ando fazendo há 10 anos? Fingir que sou uma pessoa completamente normal e nas horas vagas sacar a varinha e sair por aí fazendo magia? — Disse, um pouco irônica demais, estar em dúvida a irritava profundamente. Sempre fora uma pessoa centrada, sempre tomava decisões lógicas, sempre estava certa do que faria a seguir, entretanto nada em sua vida acontecia assim nos últimos tempos. O "não estar" das coisas sob seu controle o tempo o inteiro era um fato que também a irritava muito. – Eu vivo bem assim. — Sorriu, ligeiramente, dando um pequeno tapa no ombro de Draco e sentando-se ao seu lado. Eles ficaram em silêncio por um bom tempo, cada um com seus respectivos pensamentos. Hermione percebeu que Malfoy havia deixado a decisão apenas com ela, como se entendesse que pressioná-la não os levaria a lugar nenhum naquele momento. Foi então que percebeu: estava preocupada demais em deixar seus amigos pela magia que esquecia-se do fato de que demorar demais para tomar sua decisão era fazê-los correr mais perigo ainda. Era correr o risco de não ter ter amigos para deixar. – Draco. — Ele a encarou, esperando. — Quero voltar para o mundo bruxo.
Notas finais
Oieee!!! Eu disse que esse capítulo seria importante :D É a nova fase da fic se iniciando e eu to morrendo de vontade começar a escrever logo esse ritual, já até fiz umas pesquisas, tão legal!!
Então, o que acharam do capítulo? Eu queria colocar essa historinha e o Draco bem empolgado com o fato de ela poder voltar a ser bruxa (vcs vão perceber isso melhor no próximo capítulo), por que será?!!! Só pra deixar vcs curiosas, eu sou mal, eu sei u.u Enfim, percebi que muitas leitoras querem um momento dramione, confesso que também queria, mas com tudo acontecendo muito rápido simplesmente não estava dando pra encaixar um momento entre eles, mas... Prometo que no próximo vai haver um MOMENTÃO!!! Se preparem, girls, vcs vão ficar loucas!!!
Por fim, gostaria de agradecer aos comentários, em especial a Lehblack, que deixou de ser um fantasminha por aqui :D Mas... Pelo andar da carruagem em que nós estávamos eu esperava muito mais comentários. Gente, eu preciso do incentivo de vcs, ainda mais nessa nova fase, quero saber o que vcs estão pensando, é importante para qualquer escritor!! Me digam o que acharam desse capítulo, please!
Enfim, chegamos a parte que eu temia. Dessa vez não vai ter spoiler por que o capítulo ainda está na metade, não se preocupem com o caminhar da história, está tudo programado, eu só preciso parar e escrever. Acho que vão ter que me colar numa cadeira! ^^
Galera, bjão, até o próximo!! :))
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