Memories of the Past
27 Capítulo 27
– Draco, quero voltar para o mundo bruxo.
Assim que proferiu a frase, viu um sorriso surgir na face de Draco. O mais genuíno que já presenciara até então, desprovido de qualquer ironia ou malícia, o mais bonito. Ali, na semi-escuridão do laboratório, com apenas o som dos carros passando ao longe na cidade e o ocasional borbulho das poções de Malfoy, Hermione perdeu-se naquele sorriso.
O pensamento racional e lógico de que era completamente inaceitável se encantar pelos sorrisos de Malfoy estava sendo ignorado pela parte irracional de seu cérebro, onde se permitia admirar os sorrisos do homem à sua frente. Não apenas aquele, mas todos os que ele se habituara a dar ao longo da vida e que Hermione insistentemente bradava aos quatro ventos odiar, apesar de secretamente achá-los sexy demais para um ser humano normal.
Por instinto, seus rostos seus aproximaram, seus corpos pareciam se chamar em uma linguagem que a própria Hermione não conhecia muito bem. A atração mútua entre eles era algo que, factualmente, não entendia, o que fazia com que temesse outra aproximação como a do escritório. Era incontrolável, pelo menos para ela, e isso era novo. Novo e bom. Hermione queria uma aproximação, apesar da contradição inerente aí ser perturbadora.
Seus olhos se voltaram para os olhos dele, tão azuis contra a claridade que as luzes da cidade proporcionavam, estavam sérios, mas retratando o desejo compartilhado por ela. Não tinha certeza de como poderia saber de algo assim, pois conviviam há pouco tempo, apenas sabia. A partir daí, as coisas aconteceram de modo natural, instintivo.
Os lábios se tocaram muito lenta, quase castamente, as coisas pareciam se encaminhar para algo menos selvagem dessa vez. Quando as línguas se tocaram, se procuraram, o beijo foi lento e profundo. Nada entre eles havia sido dessa maneira, apesar de ser muito prazeroso. Tinha a impressão de que já o beijava há uma vida, quão bem se encaixavam, combinavam.
Uma das mãos de Hermione já o puxava para mais perto pela gravata mal arrumada, enquanto a outra já bagunçava os cabelos loiros de Draco. Ele, por sua vez, apertava sua cintura onde a blusa deixava a pele exposta, inclinando seu corpo sobre ela.
Porém, apesar da vontade de continuar, o oxigênio se fez necessário. As respirações se misturaram ofegantes. Seus olhos estavam fechados, parecia uma adolescente que nunca havia trocado um beijo como aquele e, devia admitir, era a pura verdade.
– Temos que conversar... Sobre o ritual. — Draco se levantou, bruscamente, pigarreando.
– Você tem razão.
O silêncio foi constrangedor por alguns momentos. Malfoy, propositalmente, lhe deu às costas passando a folhear o livro. Ela, por sua vez, encarou seu reflexo no vidro da janela. Seus lábios e a ponta do nariz estavam ligeiramente vermelhos e tinha consciência, sem precisar ver, de que suas feições se encontravam perturbadas.
"Que beijo mais sem sentido, Hermione." Foi o que concluiu pouco antes de se xingar mentalmente e levantar-se. No momento, tinha que focar no tal ritual e em sua volta ao mundo bruxo. Foi pensando nisso que se aproximou de Draco, parando ao seu lado.
– Você consegue fazer o ritual sozinho?
– Assim você me ofende, Granger. — Ele a encarou com um sorriso convencido, empurrando o livro o que o livro dizia sobre o ritual.
Entretanto, assim que começara a entender como o ritual era feito, não estava mais tão certa assim sobre sua decisão. Olhou Malfoy, por alguns momentos, sentado, esperando pacientemente que terminasse, mas nem se deu ao trabalho.
– Isso é magia negra.
– Depende da sua definição de magia negra.
No ritual, sangue de algum familiar bruxo era usado, assim como símbolos de origem duvidosa. Pelo que entendera, basicamente servia para mover as forças ocultas do universo e fazer com que elas agissem de acordo com a vontade de quem o estava praticando, isso nas palavras da pessoa que o havia escrito ali.
Hermione sempre acreditara em destino, sempre tivera plena convicção de que alguém, ou algo, definia o que aconteceria na vida das pessoas. Obviamente, devia haver alguma razão para justificar o fato de não possuir mais o resquício mágico.
– Isso vai contra tudo que eu acreditei durante a minha vida. É quase... — Ela terminou em tom mais baixo. — Quase brincar de ser Deus.
– Acredita em Deus? — Ele soltou um riso desdenhoso.
– Deus pode ter muitos nomes, se quer saber, mas é apenas uma maneira de dizer que brincar com as "forças ocultas" não é uma boa ideia.
– Você é púdica demais. — Descartou ele com um aceno de mão, no que Hermione revirou os olhos, bufando. — Não vou dizer que o ritual é completamente seguro, mas não estaremos fazendo mal à ninguém...
– E o meu corpo? Minha mente?! — Draco não parecia, ou não demonstrava, estar preocupado com isso.
– O fato de que a magia é considerada um agente imunológico foi comprovado por muitos estudiosos bruxos, ela pode não ter sobrevivido por que era para ser assim, com resquício mágico ou não.
– Ela não sobreviveu ao parto?
Perguntou Hermione, quase congelada, no que Draco apenas deu de ombros. Respirou fundo e sentou-se, não era como se estivesse decidindo o que comeria no jantar, estavam falando do que poderia acontecer com ela depois do ritual. Quais as consequências se o mesmo não desse certo? De qualquer forma, uma magia antiga e poderosa estaria sendo colocada em contato com seu corpo e mente, algo deveria acontecer.
– Não vou mentir, convivi com artes das trevas por anos e logo notei do que se tratava o ritual, mas ignorá-lo é burrice. Conheço feitiços, e até mesmo outros rituais muito piores, que não têm nenhuma finalidade além do benefício próprio e egoísta. — Ele suspirou, apoiando os cotovelos na bancada. Draco a olhava como se quisesse convencê-la a comprar um produto e só então percebeu que ele deveria fazer isso com muita frequência, pois era extremamente bom com palavras. — Hermione, sem esse ritual você estará de mãos atadas. Sinto muito, essa é a realidade.
– Os fins justificam os meios? — Disse com um pouco de ironia, pois sabia que era assim que Malfoys agiam.
– Se assim quiser enxergar.
Respirou fundo, sentando-se numa banqueta ao lado dele. A Hermione altruísta e orgulhosa de anos atrás odiaria a Hermione atual, que estava passando a concordar com o jeito Malfoy de pensar. Os fins justificam os meios. Era exatamente assim que sua situação poderia ser resumida. Mas... Todos os resultados alcançados, bons ou ruins, podem indubitavelmente justificar os meios duvidosos?
A antiga Hermione encontraria um meio "legal" de fazer isso, descartaria completamente a hipótese de fazer um ritual que envolvesse magia negra, mas agora não via outra alternativa, outro caminho a seguir e isso era angustiante. Sentia um aperto no peito, como se tudo estivesse prestes a mudar, mas ainda não estivesse preparada para isso.
– Qual o primeiro passo? — Perguntou, vencida.
– Temos que ir para a mansão Malfoy. — O corpo de Hermione enrijeceu, imediatamente e ele pareceu ter percebido. — Não é como se pudéssemos fazer um ritual desse porte na sala ou no escritório.
– Acho que podemos escolher outro lugar.
Em silêncio, Draco suspirou e andou até a janela, apoiando as duas mãos no batente. Pôde ver os músculos proeminentes das costas saltando sobre a camisa branca, visivelmente tensos. Ele parecia nervoso, o que não havia percebido ainda, tão concentrada estava em suas próprias preocupações.
– Você... Percebeu que para o ritual é necessário sangue do parente vivo mais próximo, certo? — Começou ele com a voz suave e Hermione sentiu sua respiração suspender. Sim, percebera e ainda estava um pouco confusa sobre como contaria toda a verdade a Draco, como diria que precisaria do sangue dele para o ritual ritual. — É uma parte indispensável. Quando notei vi a ironia que seria quando lhe mostrasse.
– O que quer dizer? — Perguntou, confusa, mas ele virou-se cruzando os braços, altivo.
– Desde que se mudou pra cá fico me perguntando quando pretende me contar que é filha de Bellatrix.
Sentiu a cor sumir de seu rosto no instante em que Draco terminou de falar. Deus, como ele poderia saber? Buscou o apoio da bancada atrás de si, sua mente trabalhando de forma confusa e desordenada, o rosto dele impassível enquanto a encarava... Esperando uma resposta?
– Como... Como soube disso? — Engoliu em seco, sua voz estranhamente rouca, algumas lágrimas se formando em seus olhos, embora estivesse disposta a não deixar nenhuma cair. — Como descobriu isso, Draco?
– Minha mãe me contou, há anos atrás, você já estava desaparecida. — Ele molhou os lábios com a ponta da língua. — A família de Bellatrix sempre teve muitas posses, como você deve saber, e quando ela e o marido morreram na guerra minha mãe buscou o testamento no Ministério. Qual não foi a surpresa dela ao descobrir que esse testamento beneficiava apenas uma pessoa? Sim, está lá, registrado no Ministério, que Hermione Granger é a única herdeira dos Lestrange. Ninguém sabe disso, é claro, provavelmente Bellatrix e Rodolphus enfeitiçaram o bruxo que registrou o documento. Potter e Weasley estavam loucos à sua procura e nossa família foi a única que sempre soube por que havia, realmente, partido.
– E eu devia agradecer? — Sua voz soou mais fina do que desejava, frágil. — Deveria agradecer por não terem contado a Harry, a Ron?
– Não, na verdade, não somos muito de pedir gratidão dos outros. — Respondeu ele, com desdém, mas aproximou-se dela. — Eu só quero saber por que nunca me contou a verdade, Hermione.
– Você... Você está mesmo me pedindo satisfação? — A última palavra saiu entredentes, quão nervosa estava. — Eu fugi exatamente por que não conseguiria lidar com isso, eu simplesmente não vi nenhuma razão para dizer isso a você.
– Nos evitaria essa discussão, por exemplo. — Draco aumentou o tom, tanto quanto ela. — Eu só queria ter ouvido a verdade da sua boca, Granger, que você tivesse sido sincera ao justificar as possíveis razões para Rabastan estar atrás de você. Talvez dito que era sua sobrinha.
Hermione bufou e encaminhou-se para a porta do laboratório, mas virando-se assim que um pensamento perturbador lhe povoou a mente.
– Só aceitou me ajudar por que sou filha de Bellatrix? Por que sabia que eu não... Que eu não era uma sangue-ruim, não é?
– Granger... — Ele começou, mas já conhecia aquele tom, ele inventaria desculpas que justificariam o que fez e as vestiria com belas palavras para que pudesse acreditar, o que provavelmente aconteceria. Ouviu os passos de Malfoy, descendo as escadas logo atrás de si. — Granger, ainda não terminamos nossa conversa.
– Não temos mais nada a falar!
A Sra. Jo, que se encontrava na sala ajeitando algumas almofadas no sofá, pareceu alarmada quando os viu descendo com passos pesados enquanto discutiam daquela maneira (provavelmente nunca nada acontecia naquela casa), mas Hermione apenas a ignorou e passou reto em direção ao seu quarto.
– Percebe que está sendo ridícula, não é?
– Ridícula? — Ela parou, logo na entrada do corredor, e virou-se para ele, fazendo-o parar antes que colidissem. — Ridícula?! Você me fez acreditar em uma mentira! Me fez achar que tivesse mudado e, por isso, estava me ajudando.
– Sou um Malfoy, nunca faço nada de graça, você já deveria saber disso. — Ela grunhiu de raiva e virou-se novamente, decidida a chegar em seu quarto sem interrupções. Por que o fato de ser um Malfoy era sempre justificativa para as ações dele?! — Hermione, você sabe como funciona o conceito de família para... Gente como eu. Cresci acreditando que a primeira coisa em que se deve pensar é no bem da família e, querendo ou não, você faz parte dela.
Antes que pudesse abrir a porta do quarto, Draco a puxou pelo braço, fazendo com que se chocasse contra o peito dele, deixando-os próximos demais para sua própria sanidadade.
– Não pode me julgar pelo que cresci acreditando ser meu dever.
Hermione sempre havia sabido desse valor da família Malfoy, muitas outras famílias tradicionais tinham aderido à tal, no sexto ano ele havia se juntado a Voldemort justamente para que sua família ficasse bem. Engoliu em seco, a consciência de que ele a estava ajudando não por que precisava, mas por ser "parte da família", martelando em sua mente.
– Apenas me diga que não é aquele garoto idiota que estudou comigo. — Sim, Hermione havia percebido que Malfoy estava diferente, mas, agora que havia descoberto a verdade sobre a "boa vontade" dele em ajudar os outros, tinha o direito de temer que ele ainda fosse o mesmo Draco de sempre.
– Não sou.
– Nunca mais minta para mim. — Semicerrou os olhos, séria, a voz mais fria do que poderia ter prevido.
– Comprometa-se também. — Ele levantou uma sobrancelha, esperto, e Hermione suspirou.
– Certo. — Ambos disseram ao mesmo tempo, mas não se afastaram, pelo contrário, Draco começava a aproximar ainda mais seus corpos.
Lentamente, ele a encostou contra a porta de seu quarto, o braço que estivera segurando agora preso bem ao lado de sua cabeça. As respirações se misturando, a visão desfocada que já começava a ter dos olhos azuis, os lábios se roçando, ansiosos por um contato direto, embora Malfoy tivesse decidido dedicar a atenção ao seu pescoço.
A respiração dele contra sua pele lhe causava arrepios gostosos, os lábios em seu pescoço eram experientes e decididos. Hermione fechou os olhos fortemente quando ele mordeu um ponto específico que a deixava ainda mais excitada, mas lembrou-se da discussão que haviam acabado de ter e de tudo que ela implicava.
– Malfoy... — Chamou num sussurro, tendo consciência de que a Sra. Jo provavelmente não havia saído da sala, no que ele a olhou sem pressa. — Temos o mesmo sangue, somos primos.
Ele soltou um sorriso malicioso e fez questão de beijá-la antes de responder.
– Nós, bruxos, não nos importamos com isso.
– Mas o ritual... — Draco a interrompeu novamente com um beijo, dessa vez mais longo.
– Tenho certeza de que pode esperar uma noite.
Soltando seu braço rapidamente, Draco virou-se e abriu a porta de seu próprio quarto, puxando-a pela mão junto consigo. Não teve tempo de reparar na decoração e no quão grande era o ambiente, a boca dele caiu sobre a sua antes que pudesse raciocinar que iria dormir com Malfoy, no quarto dele, na cama dele.
Fale com o autor