Memories of the Past
2 Capítulo 2
O carro negro de vidros escuros parou em frente ao grande prédio de fachada luxuosa no centro e uma mulher extremamente elegante em vestes sociais saiu do mesmo, entregando a chave ao manobrista e dirigindo-se altivamente para a porta de entrada do local.
Quem não a conhecesse não poderia dizer que trabalhava ali e que era uma dessas madames que vivem à custa do marido, mas quem sabia quem ela era diria que nunca se rebaixaria a tal coisa, pois era orgulhosa demais. Ou mandona demais, era o que todos comentavam, e por isso nenhum homem em sã consciência a suportaria.
– Bom dia, Annie. – Disse à secretária que se encontrava atrás da escrivaninha de vidro.
– Bom dia, Srta. Granger. – A mulher magra de cabelos curtos e negros vestindo um conjunto de calça e terninho de alfaiataria trazendo seu nome num crachá prata colocado do lado esquerdo do peito, levantou-se imediatamente e seguiu Hermione Granger até sua sala.
– Alguma emergência para hoje? — Disse Hermione desfazendo-se da bolsa e do casaco de cor clara, assim como a toca de linho negro que lhe protegia do frio.
– Er… Os processos que precisa analisar estão sobre sua mesa, em ordem. A Srta. Foster ligou deixando este recado e a Srta. Bones disse para ir a sala dela assim que chegasse. – Annie entregou um papel a Hermione, que o leu enquanto acomodava-se atrás de sua escrivaninha.
– Retorne a ligação a Nina marcando nosso encontro nesse local e há essa hora. – Disse, rabiscando rapidamente no mesmo papel e o entregando de volta a Annie.
– Certo.
A secretária saiu da sala e Hermione resolveu fazer o que Lucy pedira antes de começar a ler os processos que Annie havia deixado ali. Nunca havia realmente advogado para alguém depois que se formara em Direito em Cambridge, mas havia feito um combinado com Lucy, uma amiga que havia conhecido nos alojamentos da faculdade: seria consultora no escritório que ela abriria com seu namorado, agora marido, Michael. Ou seja, lia os processos que os Bonnes lhe mandavam, e fazia as próprias anotações, concordando ou discordando da linha de defesa ou acusação que eles haviam montado. Duas cabeças pensam melhor do que uma.
Bateu suavemente na porta da sala de Lucy e adentrou antes de esperar resposta. Lucy estava lá, mas Michael também estava e pelo visto ambos compartilhavam de um momento um tanto quente visto que se separaram imediatamente e que estavam ofegantes e com as roupas amassadas.
– Eu poderia dizer que voltaria outra hora, mas sou uma péssima amiga então não vou. – Sentou-se na cadeira em frente à escrivaninha de Lucy e encarou o casal enquanto se recompunham.
– Nunca ouviu falar em bater na porta antes de entrar, Hermione? – Dizia Michael, colocando a camisa dentro da calça e ajeitando a gravata.
– Vocês moram na mesma casa, qual o problema em fazer sexo lá? – Ele revirou os olhos.
– Faz três dias que não nos vemos, nos dê um desconto. – Disse Lucy. – Pensávamos que ele só voltaria no sábado, lembra?
– Que seja, o que queria? – Perguntou vendo a amiga sentar-se atrás de sua escrivaninha, já recomposta.
– Michael, fez um novo amigo na Escócia e eu tenho para mim que vocês se darão muito bem. – Lucy disse animada, no que Hermione revirou os olhos sabendo exatamente onde ela queria chegar.
– Sabe que Nina é completamente contra essa sua campanha de querer me casar com todos os amigos do seu marido.
– Eu disse que ela não ia topar. – Falou Michael de um canto da sala, abrindo e fechando algumas pastas rapidamente e colocando algumas embaixo do braço.
– Eu não estou dizendo que tem que casar com ele. A questão, Hermione, é que é um gato e…
– A questão, Lucy, é que não estou à procura de namorado, muito menos marido. – Hermione levantou-se e encaminhou-se para a porta.
– Ele irá jantar em casa amanhã, então acho melhor comprar um vestido novo.
– Eu não vou a esse jantar.
– Nós estamos fechando um contrato milionário com ele e precisamos de você lá, faz parte do seu serviço.
Nesse instante, bateu a porta da sala da amiga com apenas uma certeza: iria ao jantar. Por que Lucy nunca dava ponto sem nó e desde o momento em que ela disse a palavra “jantar” Hermione sabia que daria um jeito para que estivesse lá.
Tinha certeza que Lucy havia feito um interrogatório com Michael sobre toda a vida pessoal do homem e estava pronta para responder qualquer pergunta que dissesse respeito a ele, mas não estava nem minimamente curiosa para saber o que ele fazia, que carro dirigia ou onde morava.
Quando saiu do trabalho era tarde e até mesmo a secretária nova que dava em cima de Michael já havia ido embora. Não gostava de levar trabalho para casa, ao contrário de seu casal de amigos que eram viciados em trabalho. Hermione suspeitava seriamente que eles falavam muito sobre processos e audiências quando estavam em casa.
Decidiu que iria passar no Mr. House Bar Café, que ficava apenas a duas quadras dali. Sorte sua que não estava nevando. Era um local simples, mas muito charmoso, e o Mr. House era o homem mais cavalheiro que existia. Por que todos os homens não poderiam ser como ele?
O ar quente do estabelecimento abriu todos os seus poros assim que passou pela porta e a fechou atrás de si. Por não ser horário comercial, não havia muita gente e tratou logo de se sentar numa das baquetas acolchoadas perto do balcão.
– Boa noite, Mr. House!
– Trabalhando até tarde novamente, minha querida? – Disse ele colocando um copo com leite desnatado, canela e açúcar à sua frente. Era o que sempre pedia e Mr. House já havia decorado.
– Eu simplesmente não vejo a hora passar. – Disse dando de ombros. – De qualquer maneira, pode começar a nevar então eu tenho que ir.
– Está certo, até amanhã.
– Coloque na minha conta, okay? – Disse levantando o copo de café quando já estava na porta, mas outra pessoa estava entrando e deu espaço para que Hermione pudesse passar. – Obrigada.
– Granger?!
Havia lançado um olhar ao estranho cavalheiro, mas tinha sido rápido demais até para ela. Então, reconheceu imediatamente a voz ao ouvi-la. Resignada, virou-se para encará-lo, mesmo que não precisasse fazê-lo para saber quem é. Por que nunca esqueceria a voz do cara mais irritante que havia conhecido em toda sua vida, mesmo quando era o que mais gostaria de fazer.
– Malfoy.
Estavam a três passos de distância, mas quase saiu correndo assim que o encarou. Ainda tinha esperanças de que fosse qualquer outra pessoa. Ele não havia mudado nada, embora usasse uma touca negra que lhe tampava os cabelos loiros platinados. Quer dizer, ostentava um ar mais masculino obviamente, seus traços haviam se acentuado e a herança dos genes Malfoy era inegável, mas isso não era novidade alguma.
– Nossa, você… Está diferente. – Disse ele, ainda admirado por vê-la ali. – Quer dizer, todos…
– Não, por favor, Malfoy. Eu não quero saber.
– Como assim?
– Eu não quero saber deles. – Repetiu, tendo certeza de que ele sabia muito bem de quem estava falando.
– Por quê? – Ele perguntou, confuso.
– Você poderia apenas me fazer esse favor? – Ela olhou para os lados, meio sem graça. – Eu sei que nunca fomos amigos, mas, por favor… Não conte a eles que me viu.
– Bom, eu não colocaria meu orgulho de lado só para dizer que encontrei a amiguinha deles. Não encare isso como um favor a você.
– Er… Obrigada, então.
Ela disse, dando às costas a ele rapidamente e recomeçando a andar. Ver Malfoy no mundo trouxa era a última coisa de que precisava. Pelo menos tinha certeza que ele não diria nada a Harry e os outros sem ganhar algo em troca.
– Granger, ei! – Suspirando, ela voltou-se para Malfoy. – Por que sumiu?
– Não te interessa, doninha.
Disse, com o nariz empinado, lembrando a menina que havia passado por Hogwarts durante sete anos. E Draco Malfoy deve ter pensado a mesma coisa, pois franziu o cenho levemente e soltou um risinho de escárnio.
Assim, Hermione entrou no carro e deu partida para sair dali o mais rápido possível, antes que ele resolvesse mudar de ideia e chantageá-la. De qualquer maneira, ele não sabia onde morava e nem onde trabalhava, então não corria qualquer risco.
Desviando a imagem de Draco Malfoy da mente, pensou em Harry, Ron, Ginny e todos que haviam ficado no mundo mágico. Será que eles nunca haviam desistido de procurá-la, será… Que ainda tinham esperanças de encontrá-la, mesmo depois de todos esses anos?
Escorou a cabeça no banco e suspirou. Ver Malfoy definitivamente não faria bem a sua sanidade.
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