Caía uma tempestade nunca vista antes naquelas bandas de St. Catchpole, mas isso não impediu que uma figura encapuzada aparecesse de súbito na escuridão em frente à residência dos Weasley. Ultrapassou a cerca de madeira e aproximou-se da casa, que apenas sobrevivia àquele vento por magia.

Sabia que poderia abrir a porta com um feitiço simples, mas também sabia que havia um encantamento impedindo que qualquer inimigo ultrapassasse os limites da propriedade.

Abriu a porta com cuidado, percebendo que não havia uma luz sequer acessa dentro da casa e que esta parecia fria, como se não houvesse ninguém. Nem mesmo a lareira da sala de estar dava sinais de que fora acessa recentemente. Os Weasley deviam estar hospedados em outro lugar, sob a guarda do Ministério da Magia, enquanto as ameaças de guerra não cessavam.

Porém, sabia que aquele era o melhor lugar para deixar uma carta de despedida, por que havia garantia de que seria lida. Abriu o envelope e releu novamente a carta, verificando se havia abordado todos os pontos de que gostaria, para fazê-los entender o motivo de estar indo embora e para que não se preocupassem.

Queridos Harry, Ron, Ginny e família Weasley,

Espero que não me condenem como covarde ou traidora. Sei que em outra ocasião jamais deveria ir embora assim, como se estivesse fugindo. Na verdade eu realmente estou, mas não da guerra. Essa, todos nós enfrentamos com garra e espero que saiamos vencedores. Estou fugindo dos meus próprios demônios.

Na batalha de Hogwarts descobri algo terrível com o qual preciso lidar sozinha. Sei que não conseguiria fazê-lo com a presença de vocês, pois confundiriam meus pensamentos ainda mais.

Não se preocupem comigo e peço, por favor, que não me procurem, pois não estarão contribuindo em nada com meu psicológico. Já é difícil demais deixá-los com tudo isso acontecendo, então gastem suas energias com a guerra e não com alguém que não quer ser encontrada.

Espero que fiquem bem,

Hermione Granger.

Colocou a carta sobre a mesa da cozinha, com um bule de chá por cima para que o vento que entrava pela vidraça quebrada da janela não a soprasse para qualquer canto.

Então, dando uma última olhada para a casa dos Weasley, tão conhecida e acolhedora, Hermione fechou a porta e tomou o mesmo caminho pelo qual entrara. Sumindo tão subitamente quanto aparecera no mesmo instante em que um raio caía ali perto.

Novamente, uma Hermione acordava suada e ofegante com outro pesadelo da época da guerra. Quer dizer, não era exatamente um pesadelo, apenas uma lembrança de que não gostava.

Deixou-se cair no colchão novamente, respirando com dificuldade. Pelas frestas da cortina pesada, percebeu que já era dia. Enquanto levantava-se e encaminhava-se ao banheiro, associou o sonho à aparição de Draco Malfoy no seu café predileto na noite anterior.

Francamente! De todas as pessoas da época de Hogwarts com as quais ela podia topar na rua, dava de encontro direto com Malfoy, a mais odiável. Era alguma brincadeira do destino, só pode.

Tomou um banho rápido e colocou uma roupa confortável o suficiente para ficar em casa. O dia se passou extremamente rápido, para o desgosto de Hermione. É incrível como o tempo passa quando se tem que arrumar a casa.

Infelizmente, chegou a hora em que teria que começar a se arrumar para o jantar de Lucy. Se chegasse atrasada, a amiga a mataria antes mesmo de conhecer seu novo partido. Revirou os olhos enquanto passava uma base natural em seu rosto. Não queria namorar, e não queria se casar, apenas Lucy ainda não havia percebido. Quer dizer, queria alguém para se divertir e não para fazer cobranças.

Quando terminou a maquiagem, buscou um vestido casual, mas ao mesmo tempo profissional, já que segundo Lucy o homem estava quase fechando um contrato com o escritório. A peça ia até os joelhos e era azul marinho, tinha mangas, um decote discreto e marcava todo o seu corpo. Tudo bem, para quem não queria impressionar estava até arrumada demais. Mas não iria fazer feio, Lucy deve ter feito uma ótima propaganda sobre ela. Prendeu os cabelos num coque frouxo e colocou sapatos de saltos muito altos pretos.

Pegou uma carteira de mão, colocou os documentos, o celular e um batom básico dentro e saiu pela porta da cozinha ao pegar as chaves do carro. Lucy e Michael moravam num bairro de classe média alta, onde as casas não tem muro, mas jardins bem cuidados e vizinhos competitivos.

Percebeu que o tal homem já devia ter chegado, pois um Audi preto encontrava-se estacionado em frente à casa e as luzes estavam todas acesas. Respirou fundo, vestiu o casaco negro que era um pouco mais curto que o vestido e desceu do carro.

Andou calmamente pela passarela que havia da calçada até a porta e tocou a campainha. Desde que Lucy havia se casado não tinha mais tanta intimidade assim para entrar na casa dela sem sequer bater na porta.

– Querida! Pensei seriamente que não viria mais. – Ela a abraçou rapidamente e continuou em tom mais baixo. – Ele não é apenas um gato pessoalmente, mas um deus grego, sua sortuda.

– Pare de ser assanhada desse jeito, Lucy.

– Não mais do que você. – Dizia a morena enquanto a conduzia em direção à sala de estar. – Rapazes, ela chegou!

Mas nesse momento, Hermione quis encontrar o buraco mais fundo que existia para enfiar sua cabeça dentro e nunca mais sair. O tal homem que Lucy dizia ser um gato – com razão – estava tão surpreso quanto ela, mas conseguiu disfarçar bem quando Lucy a levou até ele.

– Essa é a amiga de quem te falei, Hermione Granger. – E então olhou para Hermione, que fazia um esforço danado para abrir um sorriso mínimo, mas visivelmente forçado. – Este é o amigo de Michael, Draco Malfoy.

– Amor, eu acho que seu frango está pronto. – Ouviu-se a voz de Michael da cozinha e Lucy.

– Eu vou colocar a mesa, fiquem à vontade.

Então ela saiu da sala, como se o fato de Michael estar chamando-a não ter sido combinado. Hermione respirou fundo e olhou o “partido” que Lucy havia arranjado. Agora tinha certeza de que o destino estava brincando com ela.

– O que está fazendo aqui? – Ela disse em tom baixo.

– Aparentemente, o mesmo que você.

– Não, Lucy armou tudo isso para me apresentar a um amigo de Michael, você veio para fechar um contrato. – Nesse momento, Draco riu alto e Hermione tapou a boca dele com sua própria mão, mesmo que ele ainda tentasse segurar o riso. – Finja que não nos conhecemos.

Por incrível que pareça não estava brava com ele, nem com Lucy, mas sim desconcertada. Draco Malfoy ainda era o partido que sua amiga havia arranjado para ela naquela noite, e ele sabia muito bem disso.

Pelo amor de Deus, o que estaria pensando dela? Provavelmente, que estava encalhada, sem namorado ou perspectiva de um aos 28 anos. Ela tinha certeza que Malfoy estava pensando isso de sua pessoa.

– Hermione é nossa consultora no escritório, Draco. – Disse Michael vindo da cozinha abraçado à mulher, que os encarava com expectativa. A essa altura, Hermione já havia tirado a mão da boca de Draco, que ainda tinha um ar de riso no rosto. – Um prodígio essa garota.

Ele apertou a bochecha de Hermione afetuosamente, mas esta lhe deu uma tapa na não, empurrando-a para longe. Michael sabia que ela odiava esse tipo de coisa, assim como apelidos “fofos”.

– O jantar está servido, vamos?

Todos se encaminharam para a sala de jantar. A casa de Lucy era muito bem decorada e Michael reclamava desde sempre do quanto ela havia gastado para deixá-la do jeito que sempre sonhou. Hermione sempre teve a impressão de que ele disfarçava o assunto em tom de brincadeira.

Na sala de jantar havia uma mesa de mogno com dez lugares e cadeiras de espaldar alto acolchoadas. O tapete era de temática persa, que combinava com as cortinas em tom claro e havia um aparador ao lado da porta que levava a cozinha com um arranjo de rosas vermelhas, provavelmente feito por Lucy, que sempre adorou botânica. Talvez seja por isso que todo ano ganhavam o troféu de melhor jardim do bairro.

Eles se acomodaram na mesa e Lucy fez questão de deixar muito claro que Hermione deveria se sentar ao lado de Draco, que havia ficado ao lado esquerdo de Michael e de frente para sua amiga.

– E então, sobre o contrato que vamos fechar…

– Já está fechado. Draco e eu assinaremos na segunda. – Interrompeu Michael enquanto um mordomo que estava em sua família há muito tempo, segundo Lucy, servia a entrada.

– É mesmo? E você trabalha no que… — Hermione virou-se para Malfoy, semicerrando os olhos descaradamente. – Draco?

– Estou no ramo da perfumaria.

– Draco é o próprio perfumista, sabia? – Intrometeu-se Lucy. – Ele me trouxe um de presente, depois te mostro.

– Claro.

Hermione sabia que por trás dessa história de perfumista havia muita coisa. Draco Malfoy nunca se tornaria um simples perfumista… E no mundo trouxa! Então, ela decidiu que interrogar Malfoy em frente aos seus amigos poderia não ser o melhor jeito de descobrir o que acontecera a ele e a sua família depois da guerra.

Tinha certeza de apenas uma coisa sobre o mundo bruxo: a guerra acabara e Harry ganhara, pois até mesmo o tempo em Londres havia mudado depois de alguns meses. Se Voldemort tivesse ganhado, Hermione sabia, o sol nunca mais voltaria a aparecer na Inglaterra.

Notas finais
Como sempre, espero que gostem do capítulo e comentem suas opiniões. Acho que esse é o maior capítulo até agora, mas é importante, eu tinha que escrever Hermione se "despedindo" dessa maneira, por que é como eu imaginei que seria desde o começo da história. Por favor, digam o acharam rsrsrs Então, como eu acho que perceberam, eu tento deixar o espaço de uma semana entre as postagens dos capítulos e eu não tenho planos de mudar. Caso aconteça algo que mude isso, vou fazer questão de me justificar por que eu sei por experiência própria o que é esperar ansiosa o próximo capítulo de uma fic (caso alguém fique ansioso com meus humildes capítulos kkk). Até o próximo bjobjo