Notas iniciais
Espero que gostem.

O estouro da guerra aconteceu nos terrenos de Hogwarts e estava em seu auge no momento. Todos que lutavam pelo lado da Ordem da Fênix tentavam ignorar as ruínas da escola que fora o lar de muitos por anos, mas não era fácil, mesmo que a escola destruída significasse que estavam lutando por um objetivo em comum: suas próprias vidas.

Hermione estava num dos corredores ao lado do pátio que um dia tivera a grama viva e muito verde, mas que se encontrava pisoteado e repleto de corpos caídos. Algum feitiço muito potente atingiu uma macieira de tronco grosso que havia lá e agora a árvore estava tombada sobre o corredor, bloqueando seu caminho.

Quase desesperada, pois Harry pedira que fosse à procura de Ginny para levá-la até o grande salão onde os outros Weasleys se encontravam, Hermione deu meia volta, mas parou de supetão ao se deparar com um rosto mais que indesejado. Apertou a varinha entre os dedos, até ter os nós dos mesmos brancos, e tomou posição de combate.

- É ela, Rodolphus. – Dizia Bellatrix Lestrange ao marido com um olhar alucinado enquanto a encarava. – Ela é Hermione Granger.

Hermione a atacou antes que pudesse dizer qualquer coisa, mas seu marido tinha a varinha em mão e protegeu a Comensal habilmente.

- Nós não queremos machucá-la… Hermione.

Dizia o homem tomando uma posição amistosa. Mas Hermione sabia muito bem que ele era um Comensal da Morte muito bem treinado e como tal podia atacá-la a qualquer momento e nem saberia de onde o feitiço tinha vindo.

- O que vocês querem? Eu sou a inimiga, não sou? O que estão esperando para me matar? – Ela encarou Bellatrix. – Você esteve a ponto de fazer isso uma vez, afinal.

- As coisas mudaram, desde então.

- Não para mim.

Respondeu Hermione, firmemente. Que conversa era aquela? O que os Lestrange poderiam querer com ela àquela altura do campeonato? Estavam numa guerra e em lados opostos, não tinham nada para conversar.

- Nós precisamos conversar, seriamente.

- Eu estou ouvindo. – Ainda era uma curiosa nata.

- Há 17 anos, eu dei a luz a uma criança. A única que sempre soube disso é Narcissa, mas fizemos um juramento para jamais tocar nesse assunto.

- Entenda, estávamos no auge da guerra. – Começou Rodolphus. Ele pelo menos parecia mais racional que a mulher. – Ou melhor, o Lorde das Trevas havia acabado de ser derrotado por um Harry Potter ainda muito pequeno e sabíamos qual seria nosso destino.

- Azkaban, de onde nunca deviam ter saído. – Hermione disse, afirmando a varinha nas mãos, ainda apontada para o casal.

- Deixe-me terminar, garota! – Falou Bellatrix bufando, sem paciência. – Rodolphus e eu decidimos deixar a criança na casa de um casal de trouxas do subúrbio de Londres. Eram dentistas e pareciam ser boa gente.

- Não…

- Nós alteramos a memória deles para que pensassem que a criança era sua filha legítima e a deixamos lá. Na mesma noite fomos presos, com Bartô Crouch Jr. – Completou Rodolphus, mas Hermione já havia percebido onde eles queriam chegar e onde essa história ia dar.

- O sobrenome desse casal de dentistas, Hermione, é Granger.

Hermione acordou de súbito, respirando com dificuldade e sentindo o suor escorrer pelas costas e pescoço. Não raro tinha pesadelos como aquele, mas nunca havia se acostumado.

Sabendo que não voltaria a dormir tão logo e ainda meio trêmula, jogou os edredons para o lado e levantou-se, saindo do quarto. Desceu as escadas lentamente e andou no escuro até a cozinha, onde piscou algumas vezes com a claridade da luz que havia acabado de acender.

Tirou do armário uma chaleira grande, envernizada de vermelho, encheu de água com açúcar e colocou no fogo. Sentou-se à mesa de pedra da cozinha para esperar que fervesse. Quando esses pesadelos iam parar? Nunca havia acontecido duas vezes na mesma semana, mas lá estava ela novamente na cozinha, de madrugada, fazendo chá para se acalmar.

Aquela lembrança a aterrorizava mais do que todas as outras da batalha de Hogwarts. Por que era algo mais que pessoal, tratava de suas origens. Naquela época nunca havia passado por sua cabeça a possibilidade de que algum casal bruxo a havia abandonado, seja num orfanato ou na soleira da porta da casa de seus pais, e quando ouviu a história de Bellatrix e Rodolphus Lestrange foi como uma bomba explodindo sobre sua cabeça.

Não era apenas filha de um casal bruxo, mas de um casal que servia ao Lorde das Trevas e abriu mão da própria filha por ele. Era filha da mais cruel, e fiel na mesma medida, Comensal da Morte. Ou seja, pela regra devia estar do outro lado, como eles haviam lhe dito na mesma ocasião. Bellatrix queria que mudasse de lado no auge da batalha, depois de todo o sacrifício que havia feito por Harry.

Fechou os olhos, deitando a cabeça entre os braços. A lembrança veio em sua mente, clara e nítida, pois nada a faria esquecer.

- Você não tem esse direito! – Disse Hermione, com lágrimas escorrendo pelo rosto. – Nenhum de vocês tem o direito de tentar me reivindicar depois de 17 anos! O seu tempo passou e eu já tenho meus próprios valores formados.

- O seu lado não tem nenhuma chance nessa guerra, você não está a salvo enquanto apoia Potter. – Disse Rodolphus. – Hermione, você é um grande trunfo no nosso lado, Potter…

- Harry é como um irmão para mim e eu nunca o trairia. – Enxugou as lágrimas teimosas.

- Hermione, nós somos os seus pais e você devia levar os valores familiares em conta! – Exclamou Bellatrix, em tom estridente, perdendo a paciência.

- Se vocês fossem minha família, talvez. Quer dizer, se eu tivesse sido criada com vocês, eu tenho certeza que os seguiria. – Ela meneou a cabeça. – Então acho que assim foi melhor, pois eu não gostaria de ter valores familiares como os seus.

- Tudo que nós fizemos foi para o seu bem.

- E eu agradeço. – Disse Hermione rapidamente. – Os Granger não poderiam ter sido pais melhores. Eles me ensinaram o que é amar de verdade e a base para saber discernir o certo do errado. E é por isso que não vou segui-los, eu tenho certeza que estou fazendo a coisa certa.

E com um feitiço não verbal fez com que o teto acima de suas cabeças desabasse, separando-os pelos entulhos e deixando o casal atordoado por tempo suficiente para que não pudesse vê-la fugindo pelo jardim.

Hermione despertou novamente com o ruído característico da chaleira fervendo e levantou-se, desligando o fogo e pegando um saquinho de chá sabor maçã e uma xícara nos armários.

Ela nunca descobriu o que realmente sentia quanto à nova descoberta, mas preferiu fugir naquele instante do mundo bruxo para nunca mais voltar, como se estivesse apagando aquela parte de seu passado, assim como a lembrança de que era filha de duas pessoas cruéis e ordinárias como Rodolphus e Bellatrix Lestrange.

Daquele dia em diante resolveu que viveria como uma verdadeira trouxa, sem varinha, sem feitiços, sem mundo mágico. Então deixou Hogwarts e tudo que havia construído naquele mundo para trás, pois sabia que suas amizades e sua reputação nunca mais seriam as mesmas depois que descobrissem sua verdadeira origem.

Tomou um gole do chá, mas fez uma careta ao perceber que havia faltado açúcar então resolveu que já estava calma o suficiente para voltar ao dormir. No outro dia precisava levantar cedo e ainda teria um bom tempo para descansar até que o dia finalmente amanhecesse.