Memories of the Past
5 Capítulo 5
A rua estava praticamente deserta quando Hermione parou o carro em frente ao Bar Café de Mr. House. Tinha certeza que não havia lugar mais apropriado para ter aquela conversa com Malfoy que não fosse ali.
Respirou fundo antes de descer do carro, soltando os cabelos para proteger o pescoço do vento frio e guardando a pequena presilha dentro do bolso do casaco. Estava um gelo lá fora. Malfoy saiu do carro e a acompanhou em silêncio até o estabelecimento.
– O que estamos fazendo aqui? – Perguntou ele, confuso, mas Hermione sequer se deu ao trabalho de responder e meramente abriu a porta fazendo uma campainha soar.
– Hermione?
– Boa noite, Mr. House. – Ela o cumprimentou, forçando o mais simpático que tinha. – Pode nos servir… O que vai querer, Malfoy?
– Uma dose dupla de uísque.
– Duas, então.
Encaminharam-se para uma mesa perto da janela. O bar estava consideravelmente cheio. Gente de todo tipo estava espalhada pelas mesas, conversando e bebendo, animadamente. Exceto por duas mulheres que não dividiam a mesa com ninguém e sequer estavam com perspectivas de fazê-lo devido ao estado de aparente decadência em que se encontravam.
Lamentável. O cabelo de uma das morenas caía por seu rosto, fazendo uma sombra sobre os olhos, mas era possível ver, pelos movimentos meio descoordenados e despreocupados, que a mulher já estava bêbada. A outra encarava o copo pensativamente, como se estivesse debatendo um dilema interiormente.
As luzes dos postes lá fora ultrapassavam os vitrais na cor verde, deixando todo o clima ainda mais propício. Que outra cor, além do preto, combinava tanto com Malfoy? Não havia cor mais apropriada.
– Pode começar, Malfoy. – Ele meramente a encarou. – A contar o que aconteceu. Eu quero saber.
– Você é maluca. – Hermione o encarou com uma sobrancelha levantada. – Tudo bem. Er… Potter ganhou a guerra, como todos esperavam. Minha família foi absolvida nos julgamentos, pois minha mãe mentiu para o Lorde das Trevas para ajudar Potter.
Nesse instante Mr. House chegou com suas bebidas. Apesar de haver tanta gente entrando e saindo, ele parecia tratar a todos exatamente igual, jogando conversa fora e às vezes sendo um cavalheiro. Havia acabado de mandar a mulher dos cabelos negros embora, pois já havia bebido demais. Ela saíra cambaleando, tentando se equilibrar nos saltos.
– Bellatrix também? – Perguntou, engolindo em seco.
Hermione ignorou a bebida a sua frente e escondeu as mãos no colo para que Malfoy não visse o tremor que as dominava. Ele não deveria perceber o ponto de sua vulnerabilidade ou iria querer respostas. Respostas essas que não queria dar.
– Não, ela morreu no dia da batalha de Hogwarts. Molly Weasley a matou. – Não pode evitar o suspiro aliviado, embora achasse que ele poderia encarar o ato como falta de educação. – Então, assim que tudo se acertou com o Ministério, eu decidi sair do país e fui para a França. Eu fiz alguns contatos e entrei para uma faculdade trouxa de química.
– Mesmo? – Ela perguntou, surpresa.
– Não é muito diferente da Escola Inglesa de Poções. – Ele deu de ombros e Hermione finalmente sentiu-se pronta para degustar sua própria bebida, já que Draco já havia feito isso há muito em pequenos goles enquanto falava. – Eu achei que seria melhor expandir meus negócios para o mundo trouxa, por isso escolhi química.
– E por que perfumista?
– Não sei, sempre gostei de poções e aromas. – Ela meneou a cabeça. – Mas primeiro abri uma pequena fábrica de poções no Beco Diagonal. Como você deve saber, minha família é uma das pioneiras nesse ramo, então não foi difícil começar.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, encarando, mas não realmente vendo, um casal que passava abraçado do lado de fora, encolhidos por causa do frio. Não estava certa se queria saber sobre Harry, Ron e Ginny, mas ali estava sua oportunidade de perguntar. Tinha certeza de que Malfoy estava ali por algum motivo.
– E… Os outros? – Perguntou, insegura, fixando os olhos nele novamente.
– Potter se casou com Weasley e já têm dois filhos, informações do Profeta Diário. Você sabe, eles procriam como coelhos. – Ele disse com desdém, levando o copo de uísque à boca.
– Posso não vê-los há muito tempo, mas também não te dá o direito de ofendê-los na minha frente. – Malfoy levantou as mãos, como em rendição, e continuou.
– Seu amorzinho, Weasley, casou-se com a Brown. – Hermione parou no mesmo instante, arregalando os olhos.
– Como assim? Ele a detestava!
– E ela não mudou nada. – Draco disse numa careta. – Vai entender. Eles têm uma filha.
Hermione meneou a cabeça. Não que sentisse algo por Ron, mas saber que ele havia feito uma escolha como aquela para o seu futuro a preocupava. Porém, interrompeu sua própria linha de raciocínios nesse instante. Ela não devia e nem tinha o direito de julgá-lo. Quer dizer, talvez ter escolhido se casar com Lilá Brown não tenha sido tão ruim assim já que eles tinham uma filha agora. Talvez Ron estivesse feliz com suas escolhas, Hermione a essa altura não poderia saber por que, em sua própria escolha, decidiu se afastar.
Saber que seus amigos haviam seguido com suas vidas era ótimo, não gostaria que fosse diferente. O que mudaria, certamente, era apenas o fato de que, se não soubesse que era filha daquela mulher odiosa, estaria junto com eles. Adorava o mundo mágico, adorava fazer feitiços e aprender poções, e desde que havia desistido de tudo aquilo levava uma vida muito normal e até mesmo tediosa.
Hermione lembrava-se de que o melhor dia da sua vida inteira fora quando chegou em Hogwarts. Foi quando a realidade lhe dera um choque e que percebera mesmo que fazia parte de um mundo completamente diferente, cheio de fantasias. Do barco que levava os alunos do primeiro ano até o castelo, percebeu a imponência da construção que se estendia diante de si em direção ao céu, com seus archotes acessos. Quando pisou no saguão principal tinha a impressão de estar em outra época.
Havia lutado por aquele mundo e pelo ideal em que acreditava e então, de uma hora para outra, tudo fora tirado dela. Com algumas palavras, poucas na verdade, Hermione sentiu que não seria mais bem vinda naquele mundo. Ela não se sentiria a vontade lá sabendo que sua própria mãe biológica era uma das maiores responsáveis pela destruição do lugar que considerava sua casa. E se alguém indesejado descobrisse e a repudiasse? Hermione sabia muito bem que, naquela época, havia muita gente pronta para repudiá-la, apenas esperando um pequeno erro.
– Tudo bem, agora é a sua vez.
– De quê? – Ela perguntou assustada, Malfoy a tirando abruptamente dos devaneios.
– De contar por que abandonou tudo. – Ele continuou antes que ela pudesse abrir a boca para começar a justificar a negação. – Por Merlim, você tinha o maior orgulho de dizer que era uma bruxa, que tinha sangue mágico nas veias, você me confrontava a todo o momento sobre isso! E então do nada você desistiu de tudo e desapareceu.
– Eu tive meus motivos…
– Quer saber? Eles nunca pararam de te procurar. – Hermione sentiu um bolo se formar em sua garganta. Não, ela preferia não ter ficado sabendo. – Potter, os Weasley e todos os seus amigos te procuram até hoje.
– Eles não podem… Quer dizer, eu pedi para que não fizessem isso! – Disse, entredentes, apertando os dedos ao redor do copo.
– Aparentemente, eles nunca levaram seu pedido em conta. – Ele disse, dando de ombros. – E eu quase os procurei para dizer que sabia onde estava, ou que pelos menos havia visto você.
– Você não tem o direito de fazer isso, Malfoy.
Hermione deixou uma lágrima escorrer por seu rosto, mas logo a limpou. Precisava lembrar-se de que quem estava a sua frente era Draco Malfoy. Ele era o inimigo, ele era um sonserino, um Malfoy, ele tinha um objetivo com tudo aquilo.
– Eu só não o fiz por que você fez um ótimo trabalho em se esconder durante todos esses anos e quem faz isso é por que obviamente não quer ser encontrada. – Ele manteve o contato visual firmemente. – Por que, Granger? E eu paro de te encher.
– Isso é o que eu venho tentando esquecer durante todos esses anos. – Ela soltou o ar. – Olha, Malfoy, eu estive muito perto de tirar a minha vida para esquecer que… Eu estive muito perto. E agora você aparece para fazer com que todas as lembranças voltem… E de uma só vez! Eu nunca consegui lidar com isso como se devia, você não pode me obrigar a lembrar e… Falar sobre isso como se fosse um assunto banal, por que não é.
A essa altura, Hermione já tinha lágrimas escorrendo por todo o rosto. Por que ver Malfoy fazia com que todas as lembranças sobre a guerra e, principalmente, Bellatrix retornassem como um furacão em sua mente, bagunçado e desordenado.
A presença de Malfoy havia feito com que tudo que lutara para esquecer em todos esses anos voltasse em questão de dias. Tinha medo de que entrasse em colapso novamente, dessa vez na frente dele. Enxugou as lágrimas grosseiramente, mas foi surpreendida quando as mãos dele seguraram-na pelos ombros, por cima da mesa.
– Granger, escuta… Eu quero te ajudar.
– Você não ajuda ninguém. – Ela disse, desvencilhando-se. – Você nunca ajudou ninguém, por que gostaria de ajudar a pessoa que mais odiou no mundo?
– Gostaria de lembrá-la novamente que você perdeu muita coisa nesses 10 anos.
– Você quer dizer que ficou bonzinho no decorrer desses anos? Me poupe, Malfoy.
Hermione disse com um riso de escárnio encaminhando-se para a saída depois de deixar uma quantia de dinheiro sobre a mesa que pagava a bebida de ambos. Nem se lembrou de se despedir de Mr. House tal era seu atordoamento. Quanto mais rápido saísse dali, melhor seria para sua sanidade.
– Não! – Surpreendentemente, Draco já estava atrás dela, na calçada, fazendo-a virar-se para ele, bruscamente. – Eu queria que entendesse que nesses dez anos eu tentei me redimir por tudo que fiz na guerra. Ao contrário do que pensa, sei que fui responsável pelo estouro dela ao encurralar Dumbledore na torre de Astronomia.
– Por quê? – Ela disse, tirando alguns fios de cabelos do rosto, ignorando a brisa fria que os agitava. A temperatura parecia ter caído pelos menos dois graus. – Por que quer tanto que eu… Te compreenda?
– Não sei. – Draco enfiou as mãos no bolso, olhando para os lados, desconcertado. Não passava ninguém na rua e o único som que ouviam era o barulho abafado de passos, risadas e música dentro do bar. – Eu, sinceramente, não sei. Mas também não sei por que o destino está nos pregando essa peça, nunca imaginei que fosse eu o primeiro a te encontrar depois de todos os esforços dos seus amigos.
Hermione o encarou por alguns momentos, antes de suspirar, vencida. Também nunca imaginou que a primeira pessoa que encontraria depois de dez anos sem jamais ver ninguém do mundo mágico fosse Draco Malfoy e ali estava ele, sem culpa alguma no cartório, aparentemente, a não ser aquelas que sempre soube que ele possuía.
Todos podem mudar com o tempo e Malfoy, há dez anos atrás, não era nada mais do que uma marionete de seu pai. Um menino assustado demais para confrontar os valores que estavam enraizados nele. Mas isso fazia tempo demais e ele havia dado provas de que estava diferente. Hermione só esperava que tais provas fossem verdadeiras.
– Tudo bem, eu acho que devo um voto de confiança a você. – Virou-se para ele, bruscamente, depois de abrir a porta do carro. – Mas se eu descobrir que está mentindo, corto seu bem mais precioso fora e faço parecer um acidente.
– Vai almoçar na minha casa amanhã? – Ela o olhou, seriamente.
– Você ainda mora naquele mausoléu? – Ele sabia muito bem o motivo de Hermione não querer ir até lá.
– Não. – Ele tirou papel e caneta do bolso do paletó, que ao contrário do que esperaria de um Malfoy, era um Armani legítimo, com um corte bem feito e muito elegante. – Aqui está o endereço.
– Nada menos do que o melhor para um Malfoy. – Ela ironizou, revirando os olhos, depois de dar uma rápida olhada no papel que ele havia entregado. – Até mais, Malfoy.
E fechou a porta antes que ele pudesse falar alguma coisa. Acelerou o carro rapidamente tomando o caminho de casa. A noite havia sido inesperada e tumultuada e teria muito que pensar enquanto dirigia. Quando imaginou que iria terminá-la bebendo uísque num bar com Draco Malfoy?
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