Memories of the Past
44 Capítulo 44
Hermione andou apreensiva pelos corredores da Maternidade St. Valentim em Londres, pois recebera um patrono há algumas horas dizendo que Ginny estava dando luz à terceira filha deles. Ainda demorou a se decidir se era hora de, finalmente, reencontrá-la, mas Harry garantiu que sim pela mensagem, sua mulher ficaria muito feliz.
Apesar de tudo, durante aquela semana não tivera tempo de reencontrar seus antigos amigos e ter uma conversa franca com cada um deles, exceto por Harry, obviamente. Ele lhe explicara, após todo o ocorrido na antiga propriedade de McLaggen, que este estava sendo manipulado o tempo todo por Lucius Malfoy.
Nenhum dos dois seria punido, o que a indignara, mesmo que estivesse falando do pai de Draco. Lucius possuía um atestado médico autenticado pelo Ministério que comprovava que o mesmo intercalava momentos de lucidez e loucura e era mentalmente incapaz de responder diretamente por seus crimes. Harry disse que poderia conseguir uma indenização, já que devido à idade avançada o homem não estava apto a prestar serviços comunitários. Porém, Hermione dispensou no mesmo instante, não precisava do dinheiro deles.
McLaggen ainda estava completamente envergonhado perante os colegas, havia sido enganado da forma mais chula possível por um ex-comensal da morte aposentado e, para Hermione, isso já bastava. Parou na recepção, perguntando pelos Potter enquanto observava como a senhora de cabelos louros ficara afobada para atendê-la o mais rápido – e melhor — possível. Será que era sempre assim com Harry ou seria apenas um efeito do fato de estar efetivamente de volta à sociedade bruxa?
– Ela está no apartamento 102, quer que alguém a acompanhe?
– Não, obrigada, eu encontro sozinha. – Sorriu para tornar a sentença um pouco mais educada ao vê-la visivelmente decepcionada e virou-se para encaminhar-se ao elevador.
Não estava realmente a fim de ouvir a mulher tagarelar sobre como era sua fã há muito tempo, havia passado por situação parecida ao aceitar ir ao Beco Diagonal com Nina há dois dias. Havia sido tudo tão diferente, não era como na primeira vez em que tudo era novidade e estava encantada demais para perceber o que estar ali significava. Agora, porém, tinha a impressão de estar tão deslocada daquela realidade.
A experiência não fora boa, não havia ficado radiante, muito menos ansiosa para voltar. Sua presença na festa do Ministério fora necessária, estar ali não. Por isso, suas certezas sobre voltar definitivamente ao mundo bruxo estavam um tanto quanto abaladas, ainda que Harry insinuasse isso como algo inevitável.
Para Nina, estar no Beco Diagonal era como andar de bicicleta pela primeira vez novamente, ela estava muito animada, lembrava uma criança que acabara de ganhar um doce ou um aluno do primeiro ano de Hogwarts, apontando para todos os lados falando a todo o momento sobre tudo de diferente que havia ali. Queria tanto ter a mesma sensação que ela, queria tanto poder dizer que as coisas finalmente estavam voltando ao normal.
O elevador apitou quando chegou ao andar correto e Hermione procurou o apartamento, tentando ignorar o cheiro de material de limpeza que embrulhava seu estômago. Detestava hospitais, na verdade. Parou em frente ao número 102 preparando-se mentalmente, embora tivesse feito a mesma coisa em casa, para entrar, porém percebeu que de nada adiantaria. Ginny e antigos conhecidos, que, segundo Harry, queria muito revê-la estavam ali e não era capaz de dar um passo para longe. Sentia que deveria correr, mas não conseguiria, pois ao mesmo tempo queria saber como estavam todos e pensar que se encontravam a uma porta de distância fazia seu coração apertar-se de ansiedade.
Finalmente, bateu a porta e adentrou o quarto. Entretanto, não havia várias cabeças vermelhas, como imaginou que seria, e alguns agregados conversando alto enquanto tentavam não fazê-lo para que o bebê continuasse dormindo. Era assim que imaginara durante toda sua vida que seria a chegada ao mundo de um Weasley.
Uma Ginny Weasley (Potter) com expressão mais madura do que se lembrava segurava um embrulho nos braços, parecendo encantada. Porém, não pareceu acreditar que Hermione estava realmente ali, nem mesmo Harry, que se levantou surpreso, tentando não acordar as duas crianças que dormiam ao seu lado.
– Hermione. – Os olhos azuis da ruiva, tão parecidos com os de Ron, se encheram de lágrimas e Hermione não conteve a emoção ao aproximar-se da cama. Ginny a seguia com os olhos, como se estivesse vendo uma miragem. – Não acredito que está aqui.
– Senti sua falta, ruiva. – Sentou-se na cama, abraçando a mais nova pelos ombros enquanto encarava o bebê em seus braços. Lily era tão parecida com Ginny, mesmo em suas primeiras horas era possível ver a semelhança, as feições quase que completamente herdadas da mulher. – Parabéns.
Ginny segurou seu pulso, escondendo o rosto em seu pescoço e tentando em vão segurar o choro enquanto Hermione acariciava os cabelos cor de fogo, que não mais eram longos, mas cortados na altura dos ombros.
– Pensei que nunca a encontraria novamente.
– O destino fez questão de nos colocar juntas novamente. – Disse em tom de brincadeira. – Você sabe, esse Potter não é nada sem nós duas para guiá-lo.
Ginny riu baixo e Lily resmungou chamando a atenção de ambas, os olhos azuis como água abertos encarando Hermione, parecendo querer saber quem era aquela mulher que estava ao lado de sua mãe, alguém já tão conhecido.
– Lily parece gostar de você, Ron estava até pouco tempo tentando ver seus olhinhos, mas não conseguiu.
Hermione acariciou a cabeça lisa e suave do bebê, onde havia apenas algumas penugens ruivas. Encarou os dois meninos dormindo no sofá perto da janela, supondo que eram James e Albus. Ambos tinham as feições de Harry, indiscutivelmente, assim como os cabelos muito negros.
– Ela é perfeita, não é? – Disse Harry encarando a filha com carinho. Ginny sorriu para ele e Hermione levantou-se, pegando o embrulho de presente que trouxera.
– É algo simples, comprei há algum tempo por impulso, mas não fez muito meu estilo. Espero que goste.
Entregou o embrulho a Harry, que abriu revelando uma grande caixa de música vermelha incrustada de pequenas e delicadas pérolas que revelava uma bailarina de porcelana do tamanho de uma boneca Barbie quando era aberta.
– É linda, Hermione! – Exclamou a ruiva. – Olha, Lily, tia Hermione lhe trouxe um presente.
Ginny falou tão carinhosamente que Hermione ficou sem saber o que fazer durante alguns instantes. Havia estado fora por tanto tempo, ausente da pior forma possível, pois escolhera fugir e abdicar sua antiga vida, mas a ruiva parecia não guardar mágoas, a tratava tão normalmente, como se não estivessem separadas nos últimos dez anos. Precisavam reconstruir a antiga amizade, isso é indiscutível, não era possível fingir que tudo estava normal, mas Hermione sabia que ambas estariam empenhadas.
Assim, passaram boa parte da noite conversando amenidades sobre a vida que levavam, embora não pudessem considerar uma nova vida. Ginny já era mãe há sete anos enquanto Hermione fugia dessa tarefa há quase tanto tempo quanto. Haviam escolhido estilos de vida tão diferentes que parecia quase impossível acreditar que eram as mesmas garotas que viviam sonhando em Hogwarts com seus respectivos príncipes – Harry e Ron. Agora, era inconcebível pensar que havia cogitado a hipótese de amar Ron tanto quanto Ginny amava Harry, pois o que sentia pelo ruivo não chegava nem perto disso.
Foram interrompidos apenas quando Hermione anunciou que precisava ir para casa e uma batida na porta foi ouvida. Um enfermeiro entrou trazendo um bonito vaso com um arranjo de tulipas brancas dizendo que este havia sido entregue há pouco tempo. Harry pegou o cartão sem entender e soltou um riso irônico ao terminar de ler.
– Seu namorado mandou. – Entregou o cartão a ela, que continha a conhecida letra de Draco.
Parabéns, Potter! Finalmente encontrou algo que saiba fazer direito em sua vida.
P.S. As flores são para a sua mulher.
Draco Malfoy
Hermione revirou os olhos com o insulto implícito na mensagem, embora soubesse que aquela era a maneira de Draco tentar agradar. Ginny apenas riu, mandando que as flores fossem colocadas em um local perto da janela enquanto a morena resmungava que o loiro não era seu namorado e que estavam muito longe de tal coisa, embora não houvesse necessidade de dizer isso a eles.
Resolveu que depois disso já estava mesmo na hora de ir e despediu-se de todos, prometendo que os visitaria em casa novamente. Encaminhou-se para a saída dos trouxas, visto que seu carro estava no estacionamento e seguiu direto para a casa, pensando na conversa que tivera mais cedo com Nina.
Resolvera ir almoçar na casa da ruiva, como normalmente faziam antes de tudo acontecer. Bateu à porta da mesma, com pizza e refrigerante em mãos. Quando não houve resposta, tocou novamente perguntando-se se Nina estava dormindo àquela hora. Era do costume da amiga ir para baladas e dormir até tarde no dia seguinte. Porém, ouviu passos do lado de dentro e logo estava sendo atendida por uma ruiva apenas de roupão e cabelos molhados.
– O que aconteceu? — Perguntou Nina, parecendo preocupada enquanto Hermione adentrava sua casa nem nenhuma cerimônia, mas arrependendo-se quase no mesmo instante ao deparar-se com Theodore Nott saindo do quarto de sua amiga usando apenas uma calça social e nada de camisa.
– Como vai, Granger?
– O que ele está fazendo aqui? – Desfez-se de suas compras e encarou o casal, que parecia bastante à vontade ao acomodarem-se juntos no sofá.
– Vim almoçar, embora não o mesmo que você. – Hermione fez uma careta e revirou os olhos para o sorriso cafajeste. – Parece estressada. Ela não parece estressada, Nina?
– Absolutamente.
– Engraçado, Draco está com o mesmo problema. – Nott continuou abrindo uma revista qualquer enquanto Nina dava de ombros.
– Você pode sair, por favor? – Pediu, o encarando seriamente. – Eu preciso ter uma conversa séria com Nina, que obviamente incluirá o fato de você frequentar essa casa tão assiduamente.
Nott não demonstrou resistências ao encaminhar-se para o quarto enquanto levantava as mãos em sinal de rendição.
– Não estou nada preocupado com isso, Nina só lhe dirá o quanto sou bom de cama.
– Saia. – Disse entre dentes, observando com raiva o sorriso de escárnio no rosto anguloso do mesmo. Suspirou, encarando a ruiva, ainda no sofá e com um sorriso no rosto olhando perdidamente para onde o homem desaparecera. – Se apaixonar por esse cara foi a pior coisa que você fez na sua vida.
– Discordo, já que ele realmente faz um...
– Realmente, eu não quero saber! – Disse em tom mais alto fazendo a ruiva rir. – Theodore Nott é detestável e isso basta para mim.
Alguns minutos depois, Nott despedia-se de Nina e saía porta afora sem lhe lançar um segundo olhar enquanto comia um pedaço da pizza que trouxera. Sentou-se à mesa tentando encontrar apetite, embora não tivesse vontade de comer a alguns dias e só o fizesse por que sabia que adoeceria.
– E então, o que queria conversar?
Perguntou Nina abocanhando um pedaço grande da pizza, fazendo com que Hermione lhe xingasse mentalmente por fazer sexo tão frequentemente e ter aquela fome. Não que estivesse há tanto tempo sem sexo, mas começava a sentir falta.
– Draco e eu não nos entendemos como achei que aconteceria quando tudo terminasse. – Bebeu um gole do suco que encontrara na geladeira e encostou-se melhor à cadeira, suspirando. – Quer dizer, eu esperei que as coisas acontecessem naturalmente, não quis forçar a barra... Agora não sei se o que fiz foi certo.
– Conserte. – Para Nina tudo era sempre tão mais simples. – Procure-o, diga o que quer, veja o que acontece. Apenas não pode deixar de fazer algo, entende? Eu sei, ele é Draco Malfoy e deve ser complicado pra cacete, mas... Se gosta dele precisa dizer.
– Seus conselhos são péssimos quando está apaixonada. – Hermione revirou os olhos e pegou um pedaço de pizza, no que a ruiva riu, suspirando em seguida.
– Theo é incrível!
A partir daí a ruiva começou a discorrer sobre como sua convivência com Theodore Nott era ótima e Hermione fez questão de apagar tudo que Nina disse sobre a virilidade do mesmo, pois não tinha realmente vontade de lembrar tais relatos futuramente.
Hermione estacionou o carro em sua garagem e desceu, encaminhando-se sem pressa para a porta da frente. Porém, teve uma surpresa quando, ao começar a subir os degraus laterais da varanda, o carro de Draco parou em frente à sua casa e o mesmo desceu sem cerimônias ou esperar por Elijah.
O loiro caminhou pelo ladrilho de pedras, encarando-a determinado em seu casaco caríssimo e sapatos italianos, os cabelos devidamente penteados para o lado. Ele ficava bonito de qualquer maneira e Hermione detestava isso, pois sempre a deixava desarmada. Respirou fundo quando ele esteve perto o suficiente ao seu lado na varanda, alguns centímetros mais alto, sentindo o perfume masculino e conhecido adentrar suas narinas, quase a arrepiando.
– Podemos conversar?
No início da semana, Hermione fizera questão de voltar para casa. A hospedagem de Draco era ótima, mas gostava de estar em casa novamente. Possuía privacidade, fazia o que queria nos horários que gostaria, não havia Sra. Jo para corrigi-la...
Enfim, as coisas entre eles não haviam ficado boas após isso, pois Draco achava ridículo que ela voltasse para casa tão rapidamente, segundo suas próprias palavras, mas em nenhum momento ele dissera por que achava isso e Hermione não o pressionou para saber, não queria que ele dissesse apenas o que sabia que ela queria ouvir. Por que Draco sabia que estava apaixonada, tinha certeza disso.
– Claro.
Destrancou a porta e adentraram o hall. Hermione sentia a respiração dele em seu pescoço, mas não fez questão de demonstrar suas reações. Fechou a porta e virou-se para ele, retirando o cachecol e o casaco enquanto preparava-se mentalmente para o que ele tinha a dizer.
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