Memories of the Past
35 Capítulo 35
Já era tarde quando finalmente voltou para casa. Ao abrir a porta e constatar que nada estava fora do lugar, como supôs, realmente se sentiu em casa. Não que a casa de Malfoy fosse desconfortável, era enorme, mas nada arejada e não podia realmente ficar à vontade, pois a Sra. Jo parecia estar sempre esperando uma oportunidade para olhá-la como se fosse uma intrusa e insinuar que aquele ambiente não era para ela.
Não se sentia ofendida, já era madura o suficiente para lidar com pessoas desse tipo, apenas procurava evitar a presença da senhora. Sem contar que a casa de Draco era tão impessoal que a deixava inquieta. Não havia nada essencialmente de seu dono ali — exceto o laboratório, é claro — e Hermione se perguntava como ele conseguia morar num lugar que poderia ser de qualquer um, que em nada refletia sua personalidade.
Pensando nisso, ligou todas as luzes e subiu as escadas, exausta. Havia passado a tarde toda e metade da noite conversando com Nina, como se não o fizesse há anos. Estava realmente grata que as coisas entre elas tivessem voltado ao normal. Apenas não acreditava que ela estava mantendo um romance com Nott. Bem, poderia começar a considerar a hipótese de que ele não era tão ruim assim, já que Draco e a ruiva pareciam amá-lo.
Soltou um riso divertido ao imaginar Nina em um relacionamento firme com Theodore Nott, que fizera parte da vida dela por muito tempo, sempre presente, sempre por perto, e nunca cogitara a possibilidade de ter algo com ele. Isso era, na opinião de Hermione, no mínimo estranho para uma mulher como sua amiga, que vivia à procura de um amor.
Entrou no próprio quarto, constatando que um dos elfos dos Malfoy havia despachado suas malas e as mesmas já estavam sobre a cama, prontas para serem desfeitas. Descartando a varinha no criado mudo, começou a desfazê-las lentamente. Estava acostumada demais ao estilo de vida trouxa para que o trocasse de uma hora para outra, sequer tinha certeza de que o faria completamente, aliás.
Entretanto, quando pegou a pequena maleta com os itens de uso pessoal e adentrou o banheiro, ligando as luzes, sentiu o coração quase sair pela boca. A banheira estava repleta de pétalas de rosas negras, boiando na superfície da água parada. Hermione supôs que estivessem enfeitiçadas para nunca murchar, pois não havia como o invasor saber que voltaria para a casa naquele dia. Seria impossível.
No espelho, em letras garrafais, escrito à batom vermelho, completando o quadro macabro, a mensagem parecia piscar como um letreiro da Times Square:
Estou cansado de suas brincadeiras, Hermione! Mas irei te dar uma chance, sua última chance. O Ministério dará uma festa em comemoração aos 10 anos do fim da 2° Guerra Bruxa e eu a quero lá. Se quiser ver sua amiguinha Lucy novamente, terá de seguir minhas regras.
– Seu desgraçado!
Gritou, assimilando a ameaça, e, num impulso, socando o espelho à sua frente. Sentiu vários pedaços de caco cortando dolorosamente sua mão, mas sequer parou para pensar sobre isso. Pegou o envelope, que também estivera pregado ao espelho, mas que agora estava completamente manchado com seu próprio sangue, e revirou a bolsa à procura do celular. Não se preocupou em olhar ao redor, sabia que invasor não estaria ali, embora as chances de ele estar observando suas reações fossem muito grandes.
Discou rapidamente o número de Lucy e xingou mentalmente quando a mesma não atendeu. Em outra ocasião, considerando que haviam brigado, Hermione até entenderia que a morena a estivesse evitando, mas com a ameaça do invasor em sua mente isso não poderia ser possível. Tentou o número de Michael e respirou aliviada, pela primeira vez na vida, ao ouvir a voz dele.
– Michael? Michael, onde está Lucy? Ela está bem?
– É claro que ela está bem. — Disse ele num riso descrente. — Por que não estaria?
– Por favor, me deixe falar com ela. — Pediu, andando de um lado para o outro no quarto, manchando todo o carpete de vermelho.
– Hermione, eu já disse para manter distância da minha esposa.
– Deixe de ser idiota, Michael, eu não estaria ligando se não fosse importante.
– Não tem nada que diga à ela que eu não saberei, então...
– Michael! — Grunhiu, perdendo a paciência. — Preciso ouvir a voz dela, você... Não entende. Onde ela está? Passe para ela, agora.
– Ela está na cozinha, preparando o jantar...
Nesse instante, porém, Hermione pôde ouvir um grito do outro lado da linha e teve certeza de que era de Lucy. Arregalou os olhos, sentindo o coração na garganta e a respiração presa.
– Michael? Michael! — Chamou, mas ninguém respondeu, então ouviu passos rápidos na escada e logo a voz dele se fez presente, furiosa.
– Ei, solta ela! Solta ela, agora!
– Não se aproxime. Se afaste ou ela morre! — Alguém gritou, a voz claramente abafada por algum tecido.
– Michael. — A voz chorosa de Lucy se fez presente e Hermione fechou os olhos, tapando a boca, como se estivesse realmente presenciando toda a cena. — Michael, por favor...
Alguém falou alguma coisa, em tom tão baixo que não pôde distinguir nada. Entretanto, a mesma voz abafada se fez presente novamente, dessa vez tão perto que pulou de susto. Ele havia pego o celular de Michael para falar com ela.
– Finalmente percebeu que estou falando sério, Hermione? — A voz do invasor era maliciosa e muito instável, ele era completamente louco. — Sua amiga está comigo então é bom que não me contrarie.
Um som que lembrava o barulho de um chicote ao ser estalado foi ouvido e a linha ficou muda por alguns momentos. Hermione caiu sentada na cama, ouvindo a movimentação do outro lado. Silêncio. Por alguns minutos nada foi ouvido, até Hermione ouvir um grito furioso e o som de vidro se quebrando. Fechou os olhos, já esperando pela explosão.
– Você já sabia, não é? — Sua confissão passou despercebida de tão baixa em comparação à voz de Michael. — Escuta aqui, se algo acontecer com Lucy ou com meu filho, eu vou colocá-la na cadeia e você não irá sair de lá tão cedo, sua vadia! Está me ouvindo, Hermione? Eu te coloco na cadeia.
– Michael, Michael, se acalme, eu estou fazendo tudo que posso. — As lágrimas já escorriam livremente pelo rosto de Hermione e sequer podia tentar secá-las com a mão suja de sangue e cheia de cacos de vidro. — Eu juro que estou, apenas me dê um tempo...
– Tempo?! E deixar que Lucy corra perigo nas mãos desse louco que eu nem sei quem é? Você está muito enganada...
– Eu também não sei quem é! — Gritou, fazendo com que ele parasse de acusá-la. Sabia que tinha culpa, mas ouvir as palavras pesadas de Michael não estava ajudando em nada. — Michael, apenas vá para a casa de Draco.
Desligou, antes que ele pudesse retrucá-la e discordar, e respirou fundo. Olhou criticamente para sua mão machucada, notando, pela primeira vez, que estivera apertando fortemente o envelope enquanto ouvia pelo telefone tudo que se passava na casa de Lucy. Com cuidado, abriu o mesmo, sequer se preocupando em não manchá-lo.
O convite era completamente pomposo — roxo com rebuscadas letras negras e brilhantes -, nem parecia que se tratava de uma comemoração ao fim da guerra, onde tantas pessoas haviam morrido. Para Hermione, soava como uma ofensa. Conhecera muitos dos que haviam morrido para que hoje estivessem se esbaldando numa festa regada à álcool, onde ninguém se lembraria dos verdadeiros homenageados.
E ainda seria dali dois dias! Fechou os olhos. Deus, dois dias sem notícias de Lucy, dois dias tendo que lidar com Michael e seu maldito complexo de superioridade. Olhou para o lado. Na pressa para procurar o celular, despejara todo o conteúdo de sua bolsa na cama e agora via o que podia ser a salvação para seus próximos dias. Se estivesse inconsciente, não precisaria passar por toda a inevitável burocracia que acompanharia a prestação de queixa que fariam ao Ministério sobre o sequestro de Lucy Bones, uma trouxa.
Que ironia. Sorriu, amargamente, descartando o convite e esticando-se para pegar os vidros de calmante. Com as mãos trêmulas, abriu um dos vidrinhos e despejou praticamente todo o conteúdo na palma da mão. Engoliu tudo de uma só vez, mesmo sem água. Fazia tanto tempo! Fechou os olhos, esperando o efeito, sentindo o suor frio escorrer-lhe pela nuca. Nada.
Não estavam vencidos, havia comprado aqueles ali há apenas algumas semanas. Nunca ficava sem pelo menos um daqueles vidrinhos. Sem paciência para esperar o efeito chegar, despejou todos os compridos de um pote inteiro na palma da mão e os tomou. Tentou levantar-se para chegar até o banheiro em busca de água, mas a única coisa que conseguiu fazer foi tropeçar na própria cama e cair no chão, a visão turva.
Lembranças de vários momentos que passou ao lado de Lucy iam e vinham de sua mente, desde a formatura de ambas até o casamento da morena, onde haviam bebido e dançado a noite toda até caírem completamente bêbadas e dormirem no local da festa. A morena até se esquecera de ir para a noite de núpcias, deixando o noivo furioso, embora ele e seus amigos não estivessem em melhor estado.
Porém, as palavras de Michael ecoavam juntamente com todas essas lembranças, chamando-a de vadia, gritando que era a culpada pelo sequestro de sua mulher. Hermione não discordava, mas ouvir em voz alta, no tom completamente desesperado e insano que ele usara, parecia tornar tudo ainda mais real.
Deus, não aguentava carregar tanta culpa em suas costas! E se algo acontecesse com Lucy? Ela estava grávida, nunca se perdoaria se o invasor a machucasse. Michael ficaria completamente louco se algo acontecesse com Lucy ou seu filho e Hermione jamais tiraria sua razão. Simplesmente não conseguiria viver sabendo que seria a responsável pela desgraça na vida dos Bones.
Pensando nisso, buscou com dificuldade o último de seus potinhos e o virou direto na boca, garganta abaixo. Nesse momento, viu o vulto de alguém ultrapassar o batente da porta de seu quarto, mas não conseguiu distinguir quem poderia ser. Tentou desvencilhar-se, pois a voz do invasor ainda ecoava em sua mente e não descartava a possibilidade de ele estar ali. Quem quer que fosse lhe disse algo — que também não conseguiu entender muito bem — e no instante seguinte sentiu-se ser levantada e carregada.
Foi só quando estava no banheiro, debruçada sobre a banheira, colocando para fora tudo que havia comido e não comido no dia, sentindo o suor escorrer pela testa de forma desconfortável, que se sentiu levemente consciente da presença de duas pessoas em seu quarto. Alguém a segurava pela cintura e o outro, que estivera andando de um lado para o outro perto da janela, apareceu na porta do banheiro.
– Não espere que tentar uma overdose de remédios irá a isentar da culpa, Hermione. Se algo acontecer a Lucy...
– Cale a maldita boca, Michael! Não vê que agora não é hora? — A porta do banheiro foi batida com força e Hermione sentiu suas roupas começarem a ser tiradas.
– Draco...? — Apenas de lingerie, ele a empurrou em direção à ducha e ligou o registro, forçando-a sob protestos a permanecer embaixo da água gelada, tremendo de frio.
– Que ótimo, era tudo que eu precisava! — Malfoy a enrolou numa toalha felpuda depois de alguns minutos ali, ambos em silêncio, e lhe buscou roupas secas, tirando sua lingerie molhada sem cerimônia. — Você agindo como uma adolescente. Eu disse que fazia isso com mais frequência do que um adulto normal.
– Lucy. Ela está... — Hermione engoliu um soluço, sentindo as lágrimas turvarem novamente sua visão, logo agora que começava a enxergar a figura irritada de Draco ajudando-a a colocar roupas. — Ele a sequestrou, Draco...
– Eu sei. Michael não está aqui exatamente de visita. — Ele fez com que se sentasse na privada enquanto lhe colocava meias grossas, pois estava tremendo de frio. — Já acionei Theo, ele está fazendo o que pode e, acredite, não é muito. Estamos jogando de acordo com as regras desse cara. O que aconteceu com a sua mão?
Hermione sequer havia sentido a dor do machucado ao descontar sua raiva no espelho. Draco balançou a cabeça negativamente e, sem demora, buscou a varinha no bolso de sua calça, retirando todos os cacos com um feitiço e fechando um corte.
– O que você estava pensando? Uma overdose?! — Apesar da irritação, podia ouvir a ponta de preocupação que ele, inevitavelmente, deixava escapar e que a fazia se sentir culpada, como uma criança sendo repreendida pelos pais. — Pensei que fosse um pouco mais racional, Granger.
– Eu só... Não queria lidar com tudo.
– Sim, mas escolheu fazer isso da pior maneira possível. — Draco segurou seu rosto, analisando-o cuidadosamente, provavelmente à procura de algum indício de que ainda estaria drogada pelos calmantes. — Essa é a sua vida, se você não estiver aqui para lidar com seus obstáculos, quem o fará?
– Você está certo, me desculpe. — Admitiu, suspirando e desviando os olhos.
– Não tem que se desculpar comigo. Há quanto é dependente desses remédios? — Hermione o encarou, respirando fundo.
– Houve uma época em que os pesadelos com Bellatrix não me deixavam dormir, ainda na faculdade, então... Passei a tomá-los por conta própria. — Podia ver a repreensão nos olhos dele, mas ainda assim continuou falando enquanto Draco acariciava levemente, talvez inconscientemente, sua mão que estivera machucada. — Por um tempo, funcionou, mas meu organismo desenvolveu resistência, é claro, e eu comecei a tomar cada vez mais e em maior quantidade, não apenas para dormir.
"Há um ano, tive uma overdose depois de misturar uma grande quantidade de bebida com os calmantes. Foi uma irresponsabilidade, eu simplesmente não pensei. Lucy disse que tinha chegado ao fundo do poço e me obrigou a procurar um médico. Desde então, eu não tive mais nenhum problema com isso... Até o dia em que te ataquei no carro, antes de irmos para o Caldeirão Furado. É... Muita pressão, eu não aguento mais."
– Não pode simplesmente recorrer aos remédios sempre que está passando por dificuldades. — Os remédios haviam sido sua válvula de escape por muito tempo e nenhuma situação nos últimos meses fez com que tivesse que lidar com seu problema de dependência novamente. Então o invasor aparecera e foi como se uma bomba, pronta para explodir a qualquer instante, tivesse sido construída em sua mente.
– Eu sei, mas...
– Hermione, eu estou te ajudando, não é? — Ele a interrompeu e foi obrigada a concordar. — Confie em mim, você não está carregando isso sozinha.
– Devido ao seu imenso senso de dever com a família. — Draco sorriu, brevemente, e segurou o amuleto com pingente de espada que havia sido dele.
– Você sabe que não é apenas por isso. — Antes que Hermione pudesse dizer qualquer coisa (não que sua mente fosse capaz de pensar muito no momento), ele a ajudou a se levantar e os encaminhou para a saída do banheiro. — Você vai voltar para minha casa. E não tem direito a objeção quanto à isso!
– E quanto à Michael? — Ainda estava consciente de que ele estava do outro lado da porta, andando de um lado para o outro, como um touro enjaulado, pronto para atacar qualquer um que ousasse enfrentá-lo.
– Lidaremos com ele.
No próximo capítulo
– Esses são os Aurores que estão cuidando do caso de Lucy... Theo e McLaggen estão supervisionando, já que a Seção deles tem jurisdição do seu caso.
....
– Droga, ele está brincando com a gente!
....
– Harry, pode não gostar dele, mas não quero que o considere como suspeito.
– Quem decidirá isso serão as evidências, não eu.
Fale com o autor