Memories of the Past
11 Capítulo 11
Hermione encontrava-se agora em uma sala que ocupava praticamente todo o terceiro andar do prédio onde Malfoy morava. Havia se convencido de que ali era realmente a residência dele e não apenas um endereço fictício no mundo trouxa.
Olhando ao redor, podia dizer que estava impressionada. A sala funcionava como um laboratório bruxo. No centro havia uma mesa com caldeirões de poções fumegando e outros vazios apenas esperando combinações de ingredientes. Ainda ocupava a mesa tubos de ensaio, algumas espátulas e facas e ervas tão diferenciadas que Hermione não sabia do que se tratava a maioria.
Numa das paredes, havia uma prateleira enorme, que ia do chão ao teto, repleta de vidros de poções com etiquetas de identificação. Estes eram separados por ordem de periculosidade, ela reconheceu, feliz ao perceber o fato de que ainda podia se lembrar de alguns ensinamentos de Hogwarts.
Em outra prateleira, de frente para a porta de entrada, ficavam as ervas a disposição de qualquer um, também etiquetadas. Porém, era a última que mais a fascinava. Nos espaços entre as janelas de espaldar alto, ficavam as estantes, de aproximadamente três metros de largura cada, com os livros de poções. Havia livros de variadas cores e tamanhos, novos e tão antigos que Hermione tinha a impressão de que ia desintegrar-se se os pegasse – certamente havia um feitiço para casos como esse.
Andou pela sala, notando que não havia nada essencialmente de Malfoy ali. Aquele lugar poderia pertencer a qualquer mestre de poções. Mas Hermione tinha certeza de que Snape nunca tivera um estoque como aquele, nem em Hogwarts e nem em sua própria casa.
Porém, algo que não havia visto antes chamara sua atenção. Uma porta discreta encontrava-se ao lado da prateleira de ervas. Era de madeira, não tão sofisticada como a porta de vidro que dava para o laboratório. Olhou para trás, imaginando quanto tempo Malfoy ainda gastaria com seus pais no andar de baixo.
Havia subido as escadas o mais rápido possível quando viu os três Malfoy parados há apenas 10 metros de si. Ainda não havia se esquecido de que fora na casa deles que ganhara aquela cicatriz no braço esquerdo. E que fora sua própria mãe que a fizera.
Suspirou tirando aquelas imagens da cabeça. Como se não bastasse todos os pesadelos que já tivera e ainda tinha com o episódio! Recolocou os sapatos que ainda se encontravam pressionados contra seu peito e abriu a porta. Talvez os Malfoy fossem esperar até a meia noite para cear e ainda tinha uma hora para explorar o lugar antes que Draco aparecesse por lá, segundo o relógio que se encontrava acima da porta de entrada do laboratório.
Abriu a porta, agradecendo mentalmente que não estivesse trancada. Havia uma escada escura ligeiramente curvada para a esquerda. Procurou o interruptor, mas tinha a impressão de que não havia um. Subiu os sete degraus até bater com a cabeça num alçapão.
– Droga! Eu ainda te mato, Malfoy.
Abriu o alçapão, impacientemente, e subiu sentindo novamente o vento frio da noite. Surpresa, percebeu que havia a estrutura de uma estufa a apenas três passos de si. Havia uma luz acesa lá dentro, mas nenhuma movimentação.
Quando já estava dentro, deparou-se com uma estufa muito parecida com as de Hogwarts. Além de flores conhecidas e desconhecidas, haviam vasos de uma infinidade de ervas. Basicamente, o único espaço vago no lugar eram os dois corredores compridos que serviam para locomoção.
Hermione não se atreveu a tocar nenhuma das plantas que havia lá. Lembrava-se muito bem que as estufas de Hogwarts eram uma armadilha para desconhecidos. Finalmente chegou à parte destinada às flores. Havia de várias espécies e todas as cores. Ela se perguntou se era o próprio Malfoy que as cultivava.
Porém, o que mais lhe chamou a atenção eram as rosas que estavam num vaso na ponta da mesa que ficava no centro da estufa. Aparentemente, um espaço reservado apenas par elas. Eram negras. Tão negras quanto a rosa que estava em seu bolso naquele momento. Apesar de serem lindas, a melancolia que exalavam era assustadora. Rosas negras eram deprimentes. Hermione pensou em enfiar a mão no bolso e retirar o espécime que tinha para comparar com as que Draco cultivava, mas não houve tempo.
O barulho alto da porta da estufa se abrindo congelou sua mão no ar. Era Malfoy. Ela engoliu em seco. Não tinha um relógio à mão, mas tinha certeza de que ainda não era meia-noite.
– Qual é o seu problema?!
Tirando os olhos das rosas negras à sua frente, voltou-os para Malfoy. Ele não parecia bravo, apenas indignado, e aparentemente não tinha nenhuma restrição quanto a sua presença ali.
– Gosta de rosas negras, Malfoy?
– O que isso importa? – Ele a segurou pelo braço, puxando-a em direção à saída. – Você não devia estar aqui.
– Por quê?
– Como “por que”? – Draco virou-se para ela antes que saíssem. – Não é óbvio? E se meus pais tivessem visto você? Já pensou na situação em que nos meteríamos? Eu e você!
– Ainda tem medo dos seus pais?
Malfoy não se deu ao trabalho de responder, apenas abriu o alçapão pelo qual Hermione havia subido para o terraço e a empurrou para descer na frente.
Quando já estavam dentro do laboratório de Malfoy, Hermione cruzou os braços lembrando-se do que havia visto lá em cima. Ele ainda estava fechando a porta que dava para o alçapão e trancando-a a chave. Ela engoliu em seco. Agora era a hora.
– Não respondeu à minha pergunta.
– Mas que insistência com essa pergunta! – Disse ele, numa careta, buscando duas banquetas para que pudessem se sentar. – Eu não tenho medo dos meus pais.
– Não estou falando dessa. – Ele a olhou, aparentemente, sem entender. – Sobre as rosas negras…
– Não são as minhas preferidas, satisfeita?
Hermione sentou-se ainda desconfiada, de frente para ele, mas passando a pensar. Qualquer um deixaria as rosas negras em sinal de ameaça ou aquele era apenas um toque pessoal? Nesse caso, Malfoy estaria mentindo.
Porém, antes que pudesse voltar a falar, o toque de seu celular inundou o ambiente. Quando o tirou do bolso sabia que teria que atender ou Lucy não a deixaria em paz.
– Oi, Lucy. – Malfoy levantou-se passando a andar pelo laboratório e verificar algumas poções que estavam em cozimento.
– Hermione, Michael está desejando Feliz Natal! – Pela risada estridente, sua amiga já estava mais do que bêbada.
– Eu duvido muito disso.
– É verdade! – Pode ouvir Lucy mandando Michael lhe desejar Feliz Natal.
– Feliz Natal, Hermione! – Ele gritou do outro lado com a voz enrolada.
– Querida, eu queria tanto que estivesse aqui conosco. Michael já te chamou de gostosa para todos os amigos solteiros da família. Mas, acredite, você não iria querer nenhum deles. – Ela riu, como se estivesse lembrando-se de uma piada. – Enfim, só liguei por que já é quase meia-noite e você deve estar enfurnada sozinha em casa.
– Feliz Natal, Lucy.
– Para você também, Hermione! – Ouviu Lucy brigando com Michael, pois os pais dela estavam no andar de baixo e riu. Michael era uma boa pessoa. – Espero que aceite nossos convites para a Noite de Ano Novo. Eu tenho que desligar, minha mãe não sabe fazer um molho para jogar no peru.
Lucy era a melhor cozinheira que Hermione já vira, mas agora percebia que ela não tinha herdado o dom de família. Desligou o celular e o enfiou no bolso. Viu Draco sentindo os aromas em alguns tubos de ensaio.
A postura dele não era de quem estava na defensiva. Como advogada, havia estudado muitos anos para ter a habilidade de detectar quando uma pessoa estava mentindo ou não. Malfoy não parecia nada nervoso, talvez irritado com sua visita repentina na noite de Natal. Ele a encarava sem hesitação, às vezes apenas demonstrava curiosidade ou confusão. Ou ainda, no caso de sua pergunta sobre as rosas negras, indiferença.
– Passou a noite toda com seus pais?
– Eles vieram jantar. – Ele deu de ombros, sem lhe dar muita atenção.
Hermione aproximou-se de um caldeirão fumegante que ele estava examinava. Quando estava perto o suficiente pôde sentir o aroma. Era amadeirado, mas ainda assim misturava-se com um cheiro floral inconfundível. Ela nunca havia sentido algo parecido.
– É muito bom! – Ela estendeu a mão para mexer com a espátula, mas ele a impediu segurando seu pulso. O encarou, sem entender.
– Pode estragar toda a poção se mexer agora.
Lentamente, ele soltou sua mão e Hermione suspirou, deixando os ombros caírem. Havia agido como uma idiota. Sabia muito bem que poções só deviam ser devidas na hora certa e no sentido certo, mas estava a tanto tempo longe do mundo bruxo que esquecera a regra mais básica da matéria de poções.
– Malfoy, podemos conversar seriamente?
– Eu sou a personificação da seriedade. – Disse ele, baixo, com a atenção voltada para as instruções de um livro que estava ao lado de um caldeirão.
– Você jura que não saiu de casa esta noite?
– Que tipo de pergunta é essa? Jurar pra você? Por favor, Granger.
Ele a encarou com desdém e, irritada, ela fechou o livro que roubava a atenção dele num baque alto. Draco pareceu indignado com a atitude, mas ela supôs que depois do beijo que havia trocado mais cedo nada relacionado a ela o surpreendia tanto assim.
– Eu estou falando sério.
– Não, não saí, Granger. Estava esperando meus pais. – Ele revirou os olhos, apoiando-se na bancada enquanto a olhava. – Por quê?
Ela respirou fundo, juntando toda a coragem que possuía, e retirou a rosa negra do bolso do casaco jogando-a na bancada.
– Então posso supor que não reconhece isso de lugar algum?
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