Notas iniciais
Terceira história original (:
Fiquei meio receosa em postar essa... espero que gostem!

Trovões e raios caíam lá fora sem parar e estávamos eu, Angie, Drew, Tyler e Andrew na minha casa.

Íamos fazer um “bazar de antiguidades” e a nossa banda ia tocar para tentar atrais pessoas, quer dizer, como se conseguíssemos atrair pessoas, para falar a verdade era mais provável que os espantássemos, mas tínhamos que tentar.

Aliás, meu nome é Claire e o nosso grupo se conhecia desde quando éramos pequenos, nunca nos separávamos.

–Alguém aqui está com fome? –uma voz fina e doce disse, Angie. Ela era minha melhor amiga e estava com um moletom enorme que serviria para minha mãe e meu irmão juntos e uma calça jeans velha, amarrotado pelos anos. –Porque eu estou a ponto de atacar a sua geladeira sem a sua permissão.

Ela disse para mim fechando o livro que lia, estava chovendo e por isso não tinha dado certo a nossa reunião para armar o bazar então todos tinham que ficar “presos” dentro de casa, a chuva que nos atrapalhou era mais uma tempestade, o trânsito tinha parado e a energia caído, por isso meus amigos iriam esperar até que o transtorno da tempestade se acalmasse.

Coloquei as caixas cheias de coisas velhas e razoavelmente bem cuidadas em cima da mesa onde eu iria arrumar com cuidado para coloca-las no porão e olhei para Angie com um meio sorriso.

–Ninguém a está impedindo.

Angie pulou do sofá no mesmo instante e saiu correndo para a cozinha, seus longos cabelos loiros deixando uma trilha por onde ela passava, fazendo a luz das velas tremeluzirem e logo ela desapareceu de vista.

Meneei a cabeça e voltei para as caixas.

–Sintam-se em casa, podem fazer o que quiser por aqui. –falei sem se virar, pegando um ursinho de pelúcia antigo que havia caído no chão e colocando-o de volta na caixa.

Escutei um barulho de algo se quebrando, como de um vidro estilhaçando-se, vindo da cozinha.

–Tipo isso? –falou sarcasticamente Tyler, que estava com a testa franzida olhando em direção do corredor.

Drew levantou-se, colocando o caderno fechado junto com seu lápis no chão, onde estava desenhando, suspirou.

–Vou ver o que aconteceu. –avisou antes de sair.

Drew era a minha amiga de infância que conheci logo depois de Angie, ela era mais alta que Angie e eu, com cabelos pretos e curtos um pouco depois dos ombros, ela tinha olhos castanhos claros e era a mais quieta do grupo.

Respirei fundo fechando os olhos por um momento, aquilo já era previsto para acontecer, Angie sempre arranjava confusão.

Uma nota fina me fez voltar a abrir os olhos, Andrew estava afinando sua guitarra, ele olhou para mim.

–Já sabia que isso ia acontecer, não?

Virei-me e me apoiei na mesa, tirando a franja que havia caído nos meus olhos.

–Acho que todos nós sabíamos.

Tyler levantou-se subitamente gritando para a tela do Ipod dele “Por que você fez isso, seu inútil! Era para m-a-t-a-r ele, entendeu?”.

–Que anime ele está assistindo agora? –perguntei para Andrew com indiferença, ele deu de ombros.

–Talvez algum que tenha um personagem que se identifique com ele, finalmente. –piscou.

Sorri e olhei para Tyler novamente, ele estava encolhido no canto do sofá com os olhos grudados na tela do aparelho, os cabelos claros refletindo com a luz do visor e os olhos azuis brilhando de entusiasmo, ele podia ficar com sérios problemas de visão se continuasse daquele jeito.

Peguei as caixas que eu tinha empilhado, estavam um pouco pesadas, virei a cabeça para Andrew.

–Que tal um pouco de cavalheirismo? –indiquei as caixas que sobravam na mesa, ele olhou receoso para as caixas, mas por fim cedeu e assentiu.

Descemos até o porão, Andrew levava uma vela que ajudava na iluminação.

Fui para um armário e chutei as coisas espalhadas no chão para poder abrir a porta, colocando com cuidado as caixas e pegando as que estavam com Andrew arrumando-as ao lado.

Fechei a porta do armário e virei para Andrew enxugando com as costas das mãos o suor que havia na minha testa.

–Obrigada.

Ele se curvou fazendo com que a vela quase caísse.

–Foi um prazer.

Ri e enquanto íamos para a escada conversando notei algo cintilar quando passamos perto de um baú. Parei.

–O que foi? –perguntou Andrew seguindo meu olhar para o baú.

Aproximei-me devagar e toquei na superfície empoeirada da madeira e soprei para tirar o pó, Andrew tossiu e espirrou.

–Desculpe. –falei olhando para ele que apenas fez um gesto de indiferença com a mão, voltei à atenção ao baú passando minha mão pela madeira escura.

De onde era aquele brilho?

–Algo que a interessou por aqui? –ele perguntou meio que engasgando apoiando a mão no baú. Afirmei.

–Algo reluziu por aqui, não sei dizer direito... –comecei, relembrando. -Esse baú ficava no meu quarto quando eu era pequena, eu nunca o vi depois que meu pai falou que havia doado quando eu fiz algo que não devia, lembro-me de ter ficado muito triste, mas não me lembro do por que... E agora o baú está aqui! Mas como...?

–Acho que ele sentiu a sua falta e resolveu aparecer aqui andando.

Bati de leve no ombro de Andrew, rindo.

–Não fale bobagens, a verdade é que meu pai me enganou.

Meu pai havia morrido há oito anos, quando eu tinha oito anos também. Na verdade foi uma semana depois de ter tirado meu baú de mim, lembro-me de não ter conversado com ele e quando ele se foi eu não tive tempo de me despedir... Não havia falado com ele e eu tinha me culpado desde então.

Ele havia morrido em um acidente de carro e segundo as evidências ele tinha acabado de sair de uma loja de brinquedos, ele tinha comprado um guaxinim de pelúcia e meu nome estava gravado nele.

Talvez se eu não tivesse sido tão dura com ele...

–Está tudo bem? –Andrew tirou-me dos meus devaneios, aproximando-se.

–Tudo. –funguei retendo as lágrimas que insistiam em descer pelo meu rosto. –É só que...

Abaixei a cabeça e vi: debaixo do baú uma chave, a que eu tinha visto brilhar. Peguei-a.

–Olhe. –mostrei a Andrew, encaixei a chave no trinco do baú e a girei, escutei um estalo. Olhei para Andrew que assentiu, encorajando-me.

Abri o baú e lá estava. Todas as minhas coisas e tranqueiras de quando era pequena e lá no canto, um papel já se mostrando antigo. Peguei-o delicadamente e o desdobrei, a folha estava amassada como se quem o tivesse escrito houvesse apagado e o dobrado várias vezes. Minha mão começou a tremer e meus olhos ficaram marejados, era uma carta do meu pai.

Uma mão firme e quente segurou as minhas fracas e frias, era Andrew, ele sabia o que havia acontecido com meu pai. Quando eu tinha oito anos fora ele que havia me consolado e agora devia ter entendido o que estava acontecendo.

–Quer que eu leia? –ele murmurou olhando-me nos olhos, eu assenti com a cabeça, pois eu sentia que se eu falasse algo eu não iria aguentar. As mãos de Andrew apertaram as minhas e ele começou a ler:

–“Minha amada filha, estou escrevendo esta carta para pedir perdão e agradecer a todos esses anos que você me fez sentir o pai mais feliz de todos, porque se eu chegasse a falar sei que não conseguiria chegar ao fim com você me interrompendo tanto como você sempre faz, o que me lembra um pouco de mim quando era menor...”

Andrew parou e eu funguei aconchegando-se mais perto dele tentando segurar para não me descontrolar.

–”... Sua mãe sempre disse que você se parece comigo, eu contrariava e falava que na verdade você era como ela, mas agora consigo ver a semelhança entre nós, desculpe-me por ter te passado isso, acho que não foi o melhor dos legados, não é, querida?...”.

Eu ri e solucei quando ouvi isso, apoiei minha cabeça no ombro de Andrew como sempre faço quando preciso de um ombro amigo.

–”... Mesmo assim vejo muito de sua mãe em você, o jeito como arruma seus cabelos, quando você ri ou até em suas feições quando você briga comigo, o que faz com que eu a ame mais, filha, nunca esqueça disso, eu a amo e sempre irei amar, mesmo quando estou bravo com a senhorita. Sempre que precisar de algo pode contar comigo, sempre estarei aqui seja no seu lado ou no seu coração.”

Lágrimas rolaram pelo meu rosto, era como se meu pai estivesse ali, por que ele teve que ir? Por que não eu?

–“ ... Desculpe-me por ter tirado o seu baú, mas você sabe, ser pai é complicado, principalmente em educar seus filhos, não queria ter feito aquilo e espero que me perdoe e entenda algum dia, pois sei que você guarda coisas valiosas dentro desse baú, e sei que você é muito apegada nelas, como aquele pingente de golfinho que você nunca se separa, seus amigos que te deram, se não me engano.”

Os braços de Andrew se retesaram, ele olhou para mim com um sorriso fraco.

–Você ainda o tem!

–Claro, eu só não o usava porque eu pensava que havia perdido... –sorri e os olhos de Andrew pareceram brilhar, ele continuou a ler.

–“... Você é a melhor filha que eu poderia ter e eu agradeço a cada dia por ter você. Eu me lembro de quando você nasceu e de como cresceu e chegou a este ponto, imagino-a grande e adulta sendo o meu orgulho e sempre a minha menininha. Eu te amo, filha. Venha dar um abraço no papai. Com amor, seu herói.”.

–Seu eu pudesse... –sussurrei soluçando, então eu não consegui segurar e fiquei em prantos, quando ele terminou de falar era como se meu pai tivesse partido de novo e toda a sensação de solidão me dominou novamente, abracei Andrew enterrando meu rosto em seu peito. –Eu não deveria ter brigado com ele! Por que teve que ser ele, Andy? Por que não eu?

Andrew me apertou contra si e falava palavras para me confortar, ficamos lá por um tempo até eu me acalmar então ele afrouxou o aperto e inclinou-se para frente, pegando algo de dentro do baú.

Escutei um barulho do papel de carta sendo dobrado delicadamente e ele por fim pegou minha mão colocando duas coisas: a carta e mais algo volumoso que eu não consegui identificar, ele fechou minha mão e eu levantei a cabeça, ele olhou fixamente para mim.

–Você não está sozinha, Claire, você tem a gente. Eu estou aqui. –ele disse apertando de leve meu punho.

Olhei para minha mão fechada e a abri, sorri.

O pingente de golfinho estava lá, do jeito que eu me lembrava, junto com a carta.

–Quer que eu coloque? –ele perguntou indicando o pingente e a pulseira.

Dei meu pulso e afirmei, ele pegou o pingente e o prendeu na pulseira, deu uma batida de leve e o pingente balançou, ele deu um largo sorriso.

–É tão bom vê-la usando de novo.

Olhei para a pulseira relembrando os tempos.

–É bom usá-la, é como voltar no tempo...

A gente riu, olhei em volta e dei um longo suspiro, ajoelhei-me enxugando minhas lágrimas e segurei a tampa do baú, sentia o papel frágil roçando na minha palma da mão.

Sentia falta do meu pai, mais do que tudo, mas sabia que tinha pessoas do meu lado e que não estava sozinha, aliás, eu tinha minha mãe e meu irmão.

Olhei para Andrew que esperava, me observando, levantou a sobrancelha e fez uma pergunta silenciosa.

Apertei a tampa do baú, estudei minunciosamente cada parte dele e então o fechei, trancando-o com a chave e guardando no bolso da minha calça jeans, junto com a carta.

Estava cabisbaixa e então senti um toque no meu ombro, levantei os olhos e encontrei os de Andrew me encarando, ele me ajudou a se levantar e ficamos parados de mão dados.

–Acho melhor nós irmos. –conclui indo na frente e guiando-o, conversávamos e Andrew conseguiu me fazer rir algumas vezes.

Quando estávamos perto da porta da sala onde todos deveriam estar, ele me fez parar.

Olhei para trás e vi que Andrew me fitava, ele estava levemente corado. Espera... Andrew corado?

–Preciso te falar uma coisa. –ele disse lentamente e então se calou, sua mão estava quente e suada e a chuva parecia bater mais fraca no teto, ela devia ter amenizado enquanto estávamos lá.

–Sim? –aproximei-me, Andrew era mais alto do que eu e tinha que levantar minha cabeça para ver seu rosto, só Angie e eu que éramos as mais baixas do grupo, mesmo tendo a mesma idade. Aquilo era frustrante, às vezes.

–Eu... –ele começou, embaraçado, eu olhava para ele atentamente, vi uma poeira em seus cabelos curtos e negros, bagunçados, fiquei na ponta do pé e afastei a poeira do seu cabelo meio que o bagunçando ainda mais, voltei a olhar para os seus olhos.

–Tinha uma poeira. –sorri sem jeito, Andrew conseguiu sorrir, mas seus músculos estavam enrijecidos, tensos.

–Desculpe. –arrumei o cabelo para trás das orelhas e peguei a outra mão dele que estava mais quente ainda. –Pode falar... Você tá com febre?

Coloquei minha mão em sua testa e na bochecha dele, mas a temperatura parecia normal, exceto que agora via que ele havia enrubescido ainda mais.

–Você tá quente nas mãos, mas... –Andrew estava com um sorriso aberto, ele pegou minhas mãos que estavam no seu rosto.

–Eu estou bem. –hesitou. –É que há muito tempo quero te dizer... Mas não sei como começar...

–Bom, é só... Falar normalmente. –dei de ombros. –Estou te incomodando muito, não é? Se você quiser...

–Não! –interrompeu. –Não é isso... É que eu...

Escutamos um barulho atrás da porta da sala e tudo ficou mudo, quase não dava para ouvir a chuva, ouvia a respiração minha e de Andrew, e várias pelos trechos da porta.

Andrew ficou com uma expressão triste.

–Eu tenho que ir. –soltou minhas mãos e foi até a porta da sala, abrindo-a e assim que fez isso escutamos um estrondo e reclamações, olhei por cima dos ombros de Andrew e vi Tyler, Angie e Drew em caídos no chão e Drew reclamando por terem caído em cima dela, Andrew suspirou e ele foi pegar as coisas dele.

Eu sabia que não era aquilo que ele iria falar e não ia o deixar sair sem antes me contar.

Corri para a porta e segurei seu braço.

–Espera!

Ele parou e olhou para mim, melancólico.

–Fique mais um pouco, ainda está chovendo e... você ainda não me contou o que você queria falar.

Cruzei os braços e ele deu um sorriso de lado, olhou para o pessoal atrás de mim que parecia estar gesticulando algo, mas quando eu olhei só vi Angie batendo em Tyler e Drew olhando para o teto tentando disfarçar alguma coisa.

Voltei a ver Andrew sem entender nada, ele estava rindo.

–Eu só estou grato por poder fazer parte da sua vida. –disse e me beijou na bochecha com um meio sorriso, então abriu a porta e com a capa da guitarra protegendo-o ele saiu para a chuva e correu pelo caminho da sua casa, segui-o com o olhar até ele desaparecer na escuridão.

Foi estranho.

Fechei a porta e olhei para os meus amigos que riam ou comentavam “não creio que ele não disse” ou “é claro que não falou, ele prefere privacidade” ou até “na bochecha? Ele a beijou na bochecha?” franzi a testa diante dos comentários e coloquei a mão no bolso sentindo a textura do papel e relembrando do que aconteceu no porão, a descoberta do baú e tudo o mais.

Olhei o pingente da pulseira quando minha atenção foi desviada por uma pergunta que me fizeram.

–Você estava chorando? Por que está assim?

Segui a voz e vi que foi Angie que havia feito a pergunta e sorri o máximo que podia.

–Não foi nada, só estou cansada.

–A mesma resposta de sempre. –Angie rolou os olhos, irônica.

Ri e conversamos até que a chuva passasse e minha mãe e meu irmão chegarem e a energia voltar, então eles foram embora.

Quando fui para cama não parava de pensar naquele dia, o papel não saia da minha mão e as palavras de Andrew ecoavam nos meus ouvidos, o que era a primeira coisa que ele queria falara antes dos outros interromperem?

Pensei em Angie que havia quebrado uma jarra de vidro – para variar – e eu tive que arranjar uma desculpa para explicar para minha mãe o que aconteceu, mesmo que fosse óbvio o que acontecera.

Pensei em Drew e Tyler e nas proezas que eles faziam.

Enfim consegui fechar os olhos, amanhã mais um dia de aula. Abracei meu guaxinim de pelúcia do meu pai junto com sua carta e dormi.


Notas finais
O que acharam? Devo postar o próximo capítulo? Comentem, por favor, e me digam o que acharam! Vou postar o próximo assim que aparecer algum sinal de vida. o/