Memories
1 On my way
Era uma manhã fria na cidade, podia ouvir o barulho dos ventos assoviarem nas frestas da janela de minha casa. Ela estava um pouco vazia aquele dia, um pouco solitária e até mesmo triste.
Há exatamente um mês e meio, minha esposa Izzy havia embarcado em um avião para Nova York a trabalho, para ser exata um projeto oferecido a ela pela revista Vougue. A princípio eu não havia concordado, pois iria ficar sem ela por um mês, mas refleti e vi que seria o melhor para carreira dela e para nossas vidas, já que a minha empresa passava por uma crise momentânea. Assim então ela se foi, embarcou em um dia como este, as 13:20 da tarde com o sorriso mais belo que tinha, porem bordado a saudades e dor, e suas pastas e malas em mãos. Lembro até hoje da forma que me olhou naquele dia, uma forma diferente, uma forma que nunca havia visto em seis anos de casada, ela definitivamente não queria me deixar só, mas sentia que se fosse, nossas vidas tomariam um rumo melhor. Lembro-me também do aperto em minha mão antes de partir, de me pedir para não deixar que a casa explodisse, não perdia seu bom humor nem em um momento difícil para nós como aquele, única como só ela ... apaixonante como só ela. Me soltou a mão e caminhou sem olhar para trás, talvez a dor aumentasse mais se o fizesse, pois eu podia sentir mesmo de longe que ela assim como eu, estava chorando.
Um mês se passou, e eu estou aqui, nessa casa enorme, em pé logo as sete e pouco da manhã, com os pés congelando e uma coberta sobre minhas pernas. Estava sentada a mesa segurando o jornal do dia anterior, o lia sem muita atenção enquanto bebia um gole do meu café quase fervendo. Estava a espera de uma mensagem dela, que ela sempre mandava nesse tempo longe, naquela manhã confesso que me incomodei com a demora, mas ao fim a mensagem chegou e nela dizia “Bom dia meu amor”. E então com somente essas palavras meu dia oficialmente havia começado, tivemos uma longa conversa a partir desse “bom dia”, ela me contava as novidades do novo emprego como se uma criança descrevesse com empolgação seu brinquedo novo. Podia imaginar o sorriso largo que estampava seu rosto enquanto me contava, podia imaginar também o local onde estaria, os gestos que fazia, os quais nossos seis anos de união me permitiu conhecer de cor.
Foram algumas horas de conversa, horas que até mesmo estranhei pois apenas tínhamos alguns minutos para nos falarmos todos os dias, pensei em questiona-la sobre isso mas, não queria estragar aquela instante com perguntas, então deixei acontecer, foi como se ela realmente estivesse perto de mim, cada vez mais perto e mais perto, eu a podia sentir ao meu lado. As horas que tivemos se foram, ela se despediu com toda a doçura de uma esposa preocupada,e me desejou um ótimo restinho de tarde de trabalho. Mal sabia ela que havia abdicado de minhas obrigações para manter aquela conversa gostosa com ela, para manter aquela sensação linda de ouvir sua voz, me pergunto se os casais de hoje em dia ainda fazem isso, ainda abdicam de coisas importantes para dar ouvidos às coisas simples, se o fazem, tenho por garantido a felicidade deles, agora aqueles que não o fazem ... com certeza hoje pensam em divorcio, ou nunca amaram realmente.
Comecei minha longa noite de trabalho, que perdurou a madrugada e logo o inicio da manhã. Estava exausta, nunca tinha revisto e feito tantos relatórios assim na vida, eram tantos que o cansaço não me permitia saber o numero exato, apenas tirei os óculos e deixei que minha cabeça repousasse sobre os papéis e cadernos que ainda sobraram por fazer. E assim dormi, dormi que nem vi o momento que isso aconteceu, apenas apaguei.
Na hora em que acordei, já era tarde, mais ou menos as 14:00 da tarde, senti meu corpo todo pesar e um bocejo tomar conta de mim assim me despertando, olhei em volta a procura de meu celular, levantei todos os papéis de cima da mesa e lá estava ele, para minha surpresa, sem nenhuma mensagem. Franzi o censo achando aquilo meio estranho, vários pensamentos tomaram minha mente e uma sensação horrível tomou meu coração. Abri as mensagens e somente havia a despedida dela como a ultima, havia se conectado exatamente da hora em que havíamos nos despedido, as 18:30 da tarde. Algo intrigada me levanto e caminhando pela sala resolvo ligar para ela, seu celular estava desligado. “Tudo bem, ela pode estar no trabalho ou em alguma reunião, não há de ser nada” me convenci deixando o celular de lado e voltando minha atenção ao resto de meu trabalho.
O dia então passou, e a noite caiu, o dia inteiro sem noticias dela, nenhuma nem uma mensagem, um aviso pela minha sogra, nada. Senti um vazio ainda maior dentro de mim, tentei mais uma vez ligar para ela, e mais uma vez não deu certo, estava começando a ficar bem paranoica, havia mandado centenas de mensagens, ligado inúmeras vezes, nunca foi do feitio dela fazer esse tipo de coisa, “ quer saber de uma coisa? Vou ligar para Lilian” disse a mim mesma já passando a mão no telefone e discando o numero de minha sogra:
— Alô? – disse a voz rouca e aguda vinda do telefone.
— Alô, er ... Lilian? – Droga! Eu sempre fico nervosa quando ligo pra ela ...
— Sim Bab, aconteceu alguma coisa ?
— É não! Quer dizer não sei, quer dizer, Izzy não me deu noticias essa tarde, ela falou com a senhora? – Enrolo o fio do telefone com o dedo ainda nervosa.
— Izzy? Engraçado que notei a mesma coisa, e é logicamente mais fácil ela ter falado com você primeiro do que comigo, mas ... não, esta tarde não falei com ela.
— Ah sim, er... se tiver alguma notícia por favor me avisa.
— Claro, mas com certeza deve ter acontecido algum imprevisto, não se preocupe atoa.
— Sim, sim, se Deus quiser foi apenas isso mesmo. Obrigada. – Digo sorrindo.
— Que isso, quando precisar só ligar.
— Com certeza ligarei — Solto um riso frouxo e logo me despeço dela colocando o telefone novamente no gancho. Pude perceber na voz de Lilian que estava preocupada, estava nítido, ela também fico muito intrigada com isso, Izzy nunca foi de não mandar noticias, nunca.
Já era tarde da noite e eu ainda não havia pregado os olhos, fitava o teto de nosso quarto, meu e de Izzy, o fitava estática, algo não me deixava dormir e a colocava em meus pensamentos a cada piscada que eu dava, isso não era normal, esse incomodo, esse vazio, alguma coisa não estava certa com minha esposa. Inquieta me levantei, vesti meu roupão e desci as escadas, precisava fazer algo para tirar os pensamentos ruins que me invadiam a mente, olhei o celular pela milésima vez aquele dia, e logo me sentei no sofá para assistir um pouco de televisão. Mudava de canal entediada com qualquer coisa que passava nele, não me agradava com nada, precisava de noticias dela. Até que em um canal de noticias estavam reportando a queda de um avião da aviação American arlines com destino Vancouver, a minha cidade. Mostrava o estado do avião que era lamentável, pois foi atingido por um raio enquanto passava por uma turbulência. De acordo com a reportagem, ele demorou cerca de dez minutos para atingir o solo e que nele viajavam 45 passageiros e que 30 deles estavam gravemente feridos, 10 mortos e 5 desaparecidos. Não sei por que tinha parado para ver aquela noticia, nem mesmo porque tinha me chamado atenção, odiava qualquer tipo de tragédia, mas aquela em particular me chamou atenção, e imediatamente meu coração se apertou, o porque de tudo aquilo? Eu não sabia, mas em um calafrio tenebroso mudo de canal e decido por ver um filme.
Passei a noite quase em claro, não conseguia dormir, era Izzy e o avião caído em minha mente martelando a noite toda, não podia me concentrar no sono, qualquer coisa já corria para o celular ver se tinha alguma mensagem,estava já totalmente paranoica. Assim que amanhece tento minha ultima chance que era Darla, assistente pessoal de minha esposa:
— Alô Darla?
— É, Sim senhora O’Brian. – Seu tom de voz parecia meio rouco, como de quem acabara de chorar.
— Oi querida, você por acaso sabe algo de Izzy? – o silêncio se fez presente no ambiente, silencio que me apunhalou o coração fortemente, logo acompanhado de um soluço de Darla.
— Co-como assim sei algo de Izzy? A senhora ainda não soube? — meu coração gela e tudo o que pude fazer era ficar em silencio e deixa-la prosseguir — Senhorita Izzy há dois dias atrás comprou uma passagem para Vancouver, a cidade onde a senhora está, disse que não era para comentar nada com a senhora, era uma surpresa, ela estaria voltando do seu projeto da revista Vougue que tinha sido um sucesso, estava pronta para lhe contar a novidade de que finalmente teriam condições de ter o filho que tanto esperam, mas ela embarcou ontem as 14:35 da tarde, me ligou uma ultima vez as 18:35 para avisar que já estava quase chegando e depois disso o noticiário na TV anunciou a queda do avião American Airlines linha 7799 ... – outro soluço angustiante tomou conta do lugar, e minha cabeça estava a mil, esta processando centenas de informações ao mesmo tempo, se lembrando da noticia da queda do avião que havia visto na noite anterior, o sumiço de Izzy, minhas angunstias, meus vazios, estavam todos se ligando de alguma forma para dizer que – a linha em que a dona O’Brian estava – Como se não bastasse a dor infernal que sentia, aquilo rasgou meu peito em mil pedaços, rasgou varias vezes, até não existir mais coração e forma da dor me ferir mais. As lagrimas no momento não conseguiam cair, mas meu peito ardia de dor e gritava dentro de mim. – já foi confirmado, a queda ocorreu devido a um raio que atingiu a asa esquerda da aeronave, demorou quase 10 minutos para que chegasse ao chão, ainda não se há informações sobre o corpo dela senhora, mas se me permite dizer com o perdão do realismo direto, creio que já não há esperanças de encontra-la viva. – O que pude fazer então foi desligar, me sentar pálida estática no sofá olhando para o nada, e ai então me permitir gritar, chorar, questionar aos céus o porque de tudo aquilo, me dizer que não era possível, me enganar dizendo que não era ela, que estava quase chegando, que a teria ao meu lado daqui pouco tempo. Me negava a acreditar em tudo aquilo, parecia mentira, parecia um pesadelo terrível que eu implorava a Deus para que me tirasse dele e que quando acordasse, ela estivesse ao meu lado. Não tive coragem de avisar a ninguém, não me sobravam forças para me mexer, para fazer nada, me mundo estava praticamente acabado, mas ainda havia uma gota de esperança, uma só, de que ela pelo menos estivesse viva, e eu iria saber, eu iria ter essa certeza, faria o mundo se mexer para encontra-la, nem que o faça com as minhas próprias mãos. Não podia ser verdade, ela não podia ter me deixado assim ...
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