Memorial - INTERATIVA
4 Wednesday Song
“Quanto tempo dura o que é eterno?
As vezes, apenas um segundo.”
— Alice no País das Maravilhas
— Apolo está de volta!
Um garoto de dezessete anos adentrou a sala de quimioterapia, com os braços morenos abertos e um sorriso no rosto. Hope o encarou por alguns segundos, mesmo quase morrendo na semana passada Duke não deixava de usar aquele brinco em forma de cruz pendurada na orelha.
— Apolo é um curandeiro, não acho que se aplique a você. – Hope retrucou enquanto se ajustava a sua cadeira.
Quartas não eram reservadas para se usar rosa e sim para quimioterapia, ou no caso de Hope, hemodiálise. Adam Kaluuya Duke III sempre a acompanhava nas quartas feiras, junto de Onyx, mas como ironia do destino Adam havia se recuperado de uma pneumonia que quase o arrastara para a morte e um aneurisma quase espalhara os miolos de Onyx pelo quarto na madrugada anterior.
Hope não tinha certeza se Adam já sabia da notícia. A cacheada odiava contar esse tipo de coisas para o restante do grupo, principalmente quando uma bolsa de drogas era injetada direto em suas veias, mas não havia momento melhor para se dizer aquilo.
— O que eu perdi? – Adam quis saber enquanto o enfermeiro Mike cuidava de inserir o tubo da bolsa de remédios na nova entrada venosa do menino.
— Onyx, ela... – Hope balançou a cabeça e pigarreou. – Ela ganhou um quarto.
O sorriso de Adam morreu, era amigo da versão feminina do Caiou desde que ganhara uma vaga no Christopher Taylor, nunca havia passado por alguma situação longe da menina. Decididamente queria arrancar aquele tubo do braço e correr até Onyx, mas se ela estava em um quarto significava ficar longe de visitas que não fossem a família.
— O que aconteceu? – Adam questionou confuso.
— Um aneurisma. – Hope ajeitou a biografia do Freddie no colo. – Hoje de madrugada.
— Ela está em um hospital, como não viram aquela porcaria antes? – Adam direcionou sua indignação para o enfermeiro Mike.
Mike havia cuidado de todos aqueles jovens durante seus anos no hospital, sabia exatamente o quão próximos Adam e Onyx eram para entender que nada acalmaria o moreno.
— A doença da Onyx encobria o aneurisma e ela nunca havia reclamado de dor.
— Claro, ela está dopada o tempo todo. – Adam ralhou. – A merda daquele Steve não deixa ela sentir nada.
— Isso era pra ser algo bom, Adam. – Hope tentou persuadi-lo. – Ela não precisa sentir dor constantemente.
— O Steve dopa ela, Hope. – Adam suspirou inconformado. – Ela teria sentido algo mudar.
— O Steve é só uma garra na cabeça dela. – Hope rolou os olhos. – Além do mais, ela está cercada com os melhores médicos do mundo.
— Eu diria o contrário. – Adam bufou, mas ao olhar para a expressão de Mike revirou os olhos. – Ok, vocês já salvaram ela antes, tudo bem.
Hope observou Mike tomar algumas notas antes de sair dali, outra enfermeira ficaria de olho neles. Era difícil para os iniciantes se sentirem bem com a quimio, mas aqueles que já tomavam aquela dose de drogas há tanto tempo como Adam, nem mesmo ligavam.
— Você está melhor. – Hope observou tentando mudar de assunto. – Isso é importante.
— Foi só uma pneumonia. – Adam tentou fazer descaso, mas era obvio que aquilo era importante.
— Você quase morreu, Adam.
— Tudo culpa desses ossos velhos. – Adam bateu os dedos no peito, mas gemeu de dor.
Adam sofria com o tumor neuroectódermico primitivo periférico, também conhecido como PPNET. Basicamente havia uma quantidade massiva de tumor envolto na caixa torácica do menino, assim como em suas costelas e seu tecido mole, por vezes afetando seus fracos pulmões. Respirar normalmente não era um problema, mas Adam havia instalado duas espécies de ventiladores em seus pulmões para ajuda-lo. Ele odiava carregar cilindros de oxigênio.
— Se eu me recordo. – Adam se apoiou no encosto da cadeira fazendo o apoio de pés subir. – Tinhamos uma discussão a terminar.
— Adam. – Hope sorriu apesar suspirar cansada.
— Você ainda não me convenceu do porque eu deveria deixar meu Deus de lado. – Adam a encarava desafiador.
Hope amava discutir política, teorias do caos ou seus animes favoritos, mas discutir religião nunca foi o seu tema favorito. Porém Adam adorava discutir polêmicas e saber que Hope praticava bruxaria o deixava insanamente chocado e curioso para ouvi-la.
— Eu não acho que você tem que deixar seu Deus. – Hope deixou claro abandonando sua leitura. – Só acho que acreditar em alguma coisa superior é meio... fútil.
—Qual é, você não acha que Deus vale a sua fé?
— Na verdade não. – Hope riu nasalmente, era bom ser sincera e não receber olhares estranhos de volta. – Mesmo que ele exista, qual é o sentido de acreditar nele? Eu faço meu próprio destino.
— Ok, senhora destino. – Adam caçoou. – Então qual escolha você fez para ganhar uma insuficiência renal?
— Eu sei lá. – Hope franziu as sobrancelhas. – Talvez eu bebesse demais ou isso tenha acontecido porque é assim que o corpo funciona, Adam.
— Bom você chama de causa natural, mas eu chamo de maldição divina.
— Então, Deus nos escolheu a dedo para nos amaldiçoar? – Hope riu mais uma vez da ideia do menino.
— Exato. – Adam não se preocupou com os olhares que os cercavam, ele sabia que a maioria dos adolescentes ali não eram cristãos ou sequer acreditavam em Deus. – Seja uma punição para seus pais, seus avós ou para você mesma.
— Primeiro que minha mãe não merecia essa merda. – Hope se defendeu. – Segundo que isso é revoltante só de se pensar.
— Aqui se faz, aqui se paga, querida. – Adam deu de ombros. – Mas chega de falar disso, eu realmente quero que você me conte tudo o que eu perdi.
Não demorou muito para que Adam caísse no sono enquanto Hope falava, por mais animado que ele estivesse às drogas entrando em contato direto com o seu sangue sempre o venciam.
Hope não era fã da troca e limpeza de sangue constante que tinha que fazer, mas era algo pela qual tinha que passar. Pelo menos dessa vez poderia observar Adam dormindo, por mais doente que fosse, ela não podia negar que ele era lindo.
Apesar do corpo magro, a pele negra era encantadora. Os olhos completamente escuros como dois buracos negros, o bigode fino pela qual ele tanto prezava e aquele amontoado de fios que ele chamava de barba. Hope o achava estranhamente engraçado e bonito, mas ela o achava mais enxerido do que Onyx.
Adam raramente falava sobre si mesmo, mas adorava saber sobre os outros. Suas opiniões, afazeres e gostos, qualquer contato humano o deixava radiante. Hope apostava que ele era muito carente, talvez o fato dos pais o visitarem com pouca frequência fosse o motivo.
Em um ano, Hope só vira a família de Adam duas vezes. O que era estranho, já que sua mãe a visitava todos os dias assim como a maioria dos pais das crianças naquela sala, porém Adam sempre ficava sozinho. Onyx havia instruído Hope a não perguntar sobre a família do menino, mas ela não conseguia conter a curiosidade.
— Você está encarando de novo, Morningstar. – Duke reclamou se ajustando na cadeira.
— Desculpe. – Hope sentiu suas bochechas esquentarem. – foi só por um minuto.
—Um minuto pode ser uma eternidade, querida. – Duke sorriu e fechou os olhos mais uma vez. – Canta pra gente.
Alguns jovens concordaram, Hope geralmente cantava para eles quando estavam fazendo quimio. As cordas vocais da castanha eram abençoadas com o poder de reproduzir qualquer nota vocal, Hope imaginava que se não fosse doente fisicamente e mentalmente, talvez tivesse gravado algum álbum musical, mas as coisas nunca colaboravam para ela.
— There was a time when i was alone. – Hope começou a cantar Lost Boy, uma música que a deixava particularmente inspirada para qualquer coisa.
Entretanto a música fala com cada um de forma diferente, logo alguns derramavam lágrimas ou cantavam junto da jovem. Todos se sentiam perdidos de alguma forma.
Adam não sabia se a escolha daquela música havia sido proposital, mas sentia as memórias de sua infância invadirem sua mente. Sua infância teria sido normal se sua avó não o tivesse submetido a tratamentos religiosos ao invés de médicos, talvez nem mesmo precisaria estar no Christopher Taylor se tivesse cuidado do seu problema desde cedo. Ele sentia raiva e aquilo definitivamente era algo que queria esquecer.
— Uau, eu nunca vou me acostumar com essas cordas vocais. – Adam elogiou rindo de nervoso. – Mas que tal dar um descanso para elas agora?
— O que você propõem, Adam? – Uma das jovens perguntou.
— Cinema de quarta-feira!
Hope sorriu, gostava de assistir filmes com o pessoal. Até mesmo se esquecia que estava dentro de um hospital nesses momentos, a alegria de assistir uma comédia pastelona do Adam Sandler fazia a diferença em suas semanas.
Porque em um momento você pode estar aproveitando a companhia de seus amigos ou de sua família e por um segundo tudo é infinito. Mas Deus ou o destino podem simplesmente transformar o eterno em repentino, por mais difícil que fosse para Hope admitir, ela temia que aquela fosse a última vez que teria visto Onyx viva.
Fale com o autor