Memorial - INTERATIVA

3 Hooray for Tuesday


“Os humanos são feras complicadas.

Vocês creem em mentiras confortáveis,

embora saibam a verdade dolorosa.”

— Sete Minutos Depois da Meia Noite

As terças feiras eram dedicadas à recreação.

Muitos dos pacientes haviam largado suas vidas em outros países e consequentemente suas escolas. O Memorial proporcionava professores particulares para todas as idades, incentivando que seus clientes construíssem um futuro, por mais que ele fosse incerto.

Hope se mantinha sentada em sua cadeira de rodas, a falha nos rins a impedia de ficar de pé por conta própria por muito tempo. Em sua frente um cavalete de madeira segurava um quadro parcialmente branco, alguns traços em preto haviam sido borrados pela jovem, mas toda a ideia do quadro ainda era mistério para sua cabeça.

A cacheada adorava os dias na sala de recreação. Por já ter terminado o ensino médio, ela podia passar o dia desenhando ou lendo, suas coisas favoritas para se fazer. Outros colegas a acompanhavam fazendo outras coisas, era incrível como tantos adolescentes estavam sobrevivendo a base de câncer e drogas a sua volta.

A doutora Addison adentrou pelas portas de vidro do salão, seu rosto geralmente cansado se iluminou ao ver o número crescente de jovens presentes na sala. Era difícil coordenar adolescentes hormonais e moribundos a fazer qualquer atividade fora de seus telefones ou tablets.

Hope observou a ruiva conversando com os enfermeiros e tutores ali presente, por vezes ela achava insultante que eles simplesmente fingiam que eles não estavam ali, cochichavam sobre tratamentos e o humor dos pacientes sem nem ao menos olhar para eles. Suspirando de cansaço, Hope encostou sua cabeça no apoio da cadeira de rodas e olhou para a janela.

O dia estava lindo.

A primavera trazia tons alegres para a cidade dos milagres, diversas famílias passeavam pela praça a frente do hospital. Uma completa ironia do destino colocar famílias saudáveis e felizes na frente do hospital do câncer, mas quando é que o destino se preocupou com os pensamentos alheios?

— Hope Morningstar.

A menina virou o rosto observando olhos claras sorrindo gentilmente para ela. A doutora a conhecia por um ano inteiro, havia sido a condutora na ideia revolucionária de colocar rins completamente artificiais dentro do corpo da menina, produzidos em laboratório, mas que a deixariam viver por mais 40 anos.

— Doutora Addison Taylor. – Hope cumprimentou e assentiu ao ver a ruiva se sentar na cadeira mais próxima.

— Soube que você estava pintando hoje. – A doutora olhou para o quadro. – Desmotivada?

— A morte me motiva bastante, doutora. – Hope respondeu seca. – Qual é o ponto de deixar mais um quadro para vocês, se eu vou morrer?

— Hope, você sabe que estamos construindo rins novos para você. – Addison percebeu o tom triste e mórbido que sua paciente levava naquele dia.

— É uma ideia utópica. – Hope rebateu revirando os olhos. – Vou ser a primeira a receber órgãos de plástico, porque minha mãe é doida o suficiente para aceitar isso.

— Little Star, você já tem 18 anos. – A doutora a encarou. – Se você quiser desistir da ideia, você pode.

A Morningstar fitou suas mãos, as unhas pintadas de preto combinando com o tosto amarelo de sua pele, Onyx tinha razão ao dizer que preto e amarelo eram cores perfeitas para andarem juntas. Hope gostava de tratar a doença como algo natural, mas a espera de uma melhoria a estava matando aos poucos.

Ela só queria se livrar daquela maldita doença.

No fundo de seu coração, queria que os rins artificiais funcionassem perfeitamente e ela pudesse atravessar aquelas portas do hospital para começar uma vida nova, mas ela era realista. Ela seria a primeira a testar órgãos de plástico e aquilo a assustava, estar morrendo era difícil, mas encarar uma cirurgia daquelas era ainda pior.

Porque querendo ou não, se ela morresse naquela mesa de cirurgia, seria estritamente por decisão própria. Sua racionalidade gritava para que negasse os malditos rins e esperasse por rins verdadeiros, ou que eles fizessem testes em outras cobaias antes dela, ela sabia que tudo aquilo podia dar errado, mas ainda assim seguir o plano era sua escolha.

Fechava os olhos e imaginava a decepção no olhar de sua mãe ao vê-la desistir do tratamento ou a tristeza ao receber a notícia de que a filha havia morrido. Ela não podia dar esse desgosto para Rosalind, aquela mulher merecia mais e ela não tinha culpa de ter dado a vida a uma menina tão ferrada quanto Hope era.

— Esquece tudo o que eu falei. – Hope pediu e virou o rosto para a janela mais uma vez.

Se ela estava naquele hospital era por causa de sua mãe. Se ela morresse com os rins artificiais parando de funcionar, também seria por causa de sua mãe e sinceramente, ela preferia jogar as decisões para a mais velha do que assumir a responsabilidade de sua vida.

— Você nunca falou comigo. – a doutora encostou no ombro da menina antes de se levantar e andar até outro adolescente.

Hope observou pela janela sua mãe e seu padrasto entrarem no hospital. Apesar de ser terça-feira a jovem estava acostumada a receber visitas em horários completamente inusitados pelos familiares, sua mãe havia arranjado um trabalho flexível na cidade para conseguir sustentar os gastos com o hospital.

Arthur Hudson, o padrasto, era um cara legal. Hope reconhecia o sacrifício do homem ao mudar de país para que a filha da atual esposa pudesse ser tratada com os melhores, nem todos os homens teriam essa coragem. Ela até mesmo gostava de Arthur, ele não substituía a imagem paterna que Richard tinha em sua vida, mas era alguém considerável.

Não demorou muito para que ambos entrassem na sala de recreação com seus crachás de visitante, o sorriso de Rosalind alegrava as manhãs de Hope. A jovem se forçou a manter uma apresentação agradável para a mãe, não queria decepciona-la.

— Oi, querida. Como você está?

“Morrendo.” Hope queria responder, mas o sarcasmo não era a sua melhor hora para o momento. Ela afirmou que estava bem na medida do possível e deu um breve sorriso.

— Trouxemos mais livros. – Arthur indicou a sacola que segurava. – Sua mãe escolheu a maioria, mas achei que fosse gostar desse.

Hope segurou o livro que Arthur a entregou, era a biografia do Freddie Mercury, o vocalista de sua banda favorita. Ela queria ficar feliz com o presente, de verdade, ela queria, mas o dia simplesmente estava contra ela.

— Obrigada. – ela abraçou aos dois para que evitassem contato visual.

Ao abrir os olhos, visualizou Onyx entrando pela porta da sala, sua careca estava desenhada com tribais e símbolos vikings, seus olhos carregados de uma maquiagem preta. Ela se perguntou o que havia dado na cabeça da jovem para fazer aquilo.

— Hey, senhor Hudson e senhora Green. – Onyx cumprimentou ao ver os pais da companheira de quarto. – Estou feliz em vê-los.

— Jesus, Onyx. – Arthur se assustou ao ver a cabeça da jovem.

— Gostou, senhor Hudson? – Onyx deu uma voltinha para mostrar a obra completa. – Tivemos aula de história hoje, sobre os vikings, se você não percebeu.

— Vocês fizeram algum tipo de teatro? – Rosalind perguntou.

— Não, na verdade eu gostei tanto dessa parte do nosso passado, que decidi fazer alguns amigos para o Steve aqui. – Onyx bateu em seu capacete cerebral em cima de sua cabeça.

— Ficou sinistro. – Hope elogiou.

Onyx era a garota mais ousada que Hope conhecia, ela vencia qualquer pessoa que Hope conseguia se lembrar de suas noites de bebedeira e até o momento se mantinha invicta na lista.

— Achei que seria legal experimentar como os vikings viviam, antes de morrer. – Onyx comentou se sentando na mesa de frente para a garota de cadeira de rodas.

— Se depender de mim, você poderá experimentar esse estilo viking por muitos anos. – Addison se juntou aos pais de Hope sorrindo.

— A gente sabe que você não é Odin, doutora. – Onyx sorriu sarcástica. – Você não consegue combater o que está aqui dentro.

Um silêncio constrangedor se instalou por alguns segundos entre eles enquanto Hope erguia a mão para um hi-five, Onyx havia aceitado que iria morrer e não estava ligando nem um pouco para isso, ela só queria viver os seus últimos dias e tentar aproveitar o que ainda lhe sobrava.

— Você pode me culpar por tentar. – A doutora suavizou a situação.

— Doutora, pode nos conceder um minuto? – Rosalind pediu se separando das meninas.

— O que você acha que ela vai falar? – Hope observou os passos da mãe e do padrasto para longe dali.

— Eu sou muito boa em leitura labial. Só um instante. – Onyx se concentrou na imagem de Rosalind e serrou os olhos por um tempo. – Ela me considera uma má influência para você e quer nos separar.

— Ela acha que você está me passando depressão. – Hope bufou. – Isso não é um vírus.

— Não é o que ela pensa. – Onyx deu de ombros.

— Qual é mãe, corta o drama! – Hope gritou do outro lado da sala. – Onyx não tem nada a ver com isso.

— Não adianta. – Onyx chamou sua atenção. – Ela sabe a verdade, mas a mentira é muito mais confortável.

Notas finais
Cada capítulo vai contar 1 dia da semana deles, para depois iniciar os fatídicos acontecimentos. Beijinhos