Memorial - INTERATIVA

2 Everyday is like Sunday


Notas iniciais
Eu ainda não estou muito certa sobre o enredo da história, mas estava numa maratona de escrever capítulos então não queria deixar essa de fora. Boa leitura.

“Você passará por coisas que não merece,

mas irá lhe mostrar o quão forte você é.”

— O Pequeno Príncipe.

Ninguém gosta de ficar doente.

Quando se é criança, ficar doente é um motivo para ficar em casa assistindo televisão ou ganhar sorvete de graça porque ficam com dó de você. Conforme o tempo passa, ficar doente se torna cada vez mais fadigante, você entende que a doença pode se agravar e por isso precisa tomar os remédios, mas ao mesmo tempo, você não pode parar de viver.

Na sociedade em que vivemos, todos precisam começar a trabalhar desde cedo. Se você quer ter um futuro, arranje o quanto antes um emprego para ganhar estabilidade financeira e nunca em hipótese alguma pare de estudar. Com a tecnologia que o mundo vem desenvolvendo é mais fácil ter informações em qualquer lugar, mas qual é o ponto de tudo isso, se você está morrendo?

Essa é a diferença entre se estar doente e se estar morrendo, em um caso você continua vivendo com perspectiva de que logo isso passará e sua vida vai voltar ao normal. Mas no caso dessas crianças, não há sentido em viver nos padrões da sociedade.

É raro quando ingressantes do hospital Christopher Taylor tenham terminado o ensino médio, Onyx não tinha. Sua doença era de nascença, o que a impossibilitou de sequer frequentar uma escola em toda sua vida, porém ela havia aprendido a ler e escrever no hospital. Eles tinham professores particulares ali dentro, o hospital era como um pedaço do mundo criado somente para eles.

Hope Morningstar, a vizinha de cama no quarto compartilhado ao qual Onyx residia tinha uma realidade diferente. Sua insuficiência renal crônica só havia a abatido com 17 anos, antes disso, ela podia dizer que tinha uma vida dentro dos padrões adolescentes. Ia à escola, andava bêbada sempre que podia, ia ao psicólogo, uma vida de merda escondida pelos padrões que os adolescentes colocam em si mesmos, ela até mesmo seria vista como uma pessoa legal se não sofresse bullying por conta de seu peso.

Mas o destino tem um jeito engraçado de brincar com as coisas, mesmo com a vida mais fodida que tinha, ainda assim perdeu o funcionamento dos rins e precisou sair da Inglaterra para se enfiar em uma cidade que girava em torno de doença e salvação, Ihme, que Hope descobriu meses mais tarde significar milagre.

Então ali estava, a menina esperança na cidade do milagre na pior situação que podia imaginar, com pessoas em situações similares tentando passar pela merda que eles chamavam de vida. Hope suspirou ao ver as cortinas do quarto serem abertas automaticamente.

— Saco. – resmungou colocando o travesseiro no rosto.

As camas eram dispostas igualmente em qualquer outro hospital, entretanto a janela de vidro ia do chão ao teto, trazendo a luz do sol diretamente para eles. As cortinas eram sempre programadas para abrirem às 10 horas, aqueles que acordavam antes podiam levantar, entretanto, um dos segredos do câncer é que dormir é uma dar formas de combatê-lo.

— Se dormir combate o câncer, porque eu preciso acordar 10 horas? – Onyx perguntou fitando o teto branco do quarto. – Eu tinha que acordar duas da tarde e olhe lá.

— Bom, tem café da manhã. – Hope argumentou.

— Ah, é claro que você não esqueceria disso. – Onyx se sentou na cama, Hope a encarou.

Depois e um ano de convivência havia se acostumado com a dose diária de alfinetadas da mais nova sobre seu peso, Onyx tinha uma doença muito rara que havia afetado seu cérebro. Ela possuía uma garra que ficava presa em sua cabeça raspada, que descia imitando sua coluna espinhal até a lombar. Era completamente prateada com luzes azuis em todas as pontas, que possuíam pequenas agulhas perfurando o corpo da jovem e jogando radiação gama constante para o câncer impedindo que ele crescesse.

Hope odiava a sua doença, a falta de funcionamento de seus rins a privava de se alimentar do modo como ela queria, sua pele havia ficado amarela – como um minion, segundo Onyx – ela precisava fazer hemodialise constantemente e o cansaço nunca saia de seu corpo. Estar morrendo era como estar doente para sempre, você nunca sabe se vai melhorar, você espera por um milagre, mas lá no fundo sabe que vai morrer doente.

Onyx foi para o banheiro, por mais que o quarto fosse compartilhado, havia quatro banheiros, o que facilitava a vida das meninas para dividir o local com os meninos. Hope cutucou a agulha do braço, seu soro havia acabado e para modos de economia de tempo, todos tinham entradas venosas fixas o que possibilitava que Hope retirasse o tubo o do soro sem precisar tirar a agulha de seu corpo. Ela fechou o buraco de sua venosa e foi ao banheiro.

Não precisou de muito tempo para se preparar, apesar de ter exames aquela tarde, ela via aqueles médicos todos os dias em sua melhor e pior condição, não havia o que melhorar ali. Ela observou o reflexo no espelho, talvez ela devesse gostar mais de si mesma como sua psicologa falava, amar a si mesmo é a chave. Ela bufou, como poderia amar alguém assim? Desviou seu olhar, era sempre um erro se encarrar no espelho. Ela não gostava de sua aparência e reconhecia as palavras de dó das pessoas por verem ela daquela forma.

Mas quem gostaria de uma menina de pele amarela, gorda e feia daquele jeito? Ela suspirou. Sentia um vazio enorme dentro do peito desde que podia se lembrar, nada a preenchia, nem mesmo a comida. Cruzou os braços e saiu dali, Onyx trocava de roupa ao lado da cama, sua doença TDC – Transtorno Desconhecido Cerebral havia afetado muitas áreas de sua massa cinzenta, inclusive a da percepção então ninguém mais se importava de vê-la de calcinha e sutiã pelo hospital enquanto procurava roupas para vestir.

— Essa blusa é minha? – Hope questionou ao perceber que sua blusa preferida do Queens estava com ela.

— Meu pai levou minhas roupas pra lavar ontem e não trouxe ainda, eu precisava vestir alguma coisa. – Ela justificou.

— Eu já disse pra você não mexer nas minhas coisas! – Hope ralhou. Não era necessariamente amiga de Onyx, mas a outra sempre abusava de qualquer um.

— Qual é, é só uma camiseta. – Onyx rolou os olhos enquanto amarrava os cadarços do all-star. – Eu vou te devolver ainda hoje.

— Eu não sei o que eu fiz pra merecer você. – Hope se sentou cansada, nem mesmo brigar era seu forte, tudo a deixava cansada.

— Eu sei que você não gosta de mim, mas a gente vai ter que se aturar até seus rins artificiais ficarem prontos. – Onyx falou ficando de pé. – O que achou?

— Qualquer coisa. – Ela desdenhou.

Onyx ia contestar, porém os enfermeiros entraram com a comida. Todos tinham uma dieta diferente, o que exigia da cozinha uma atenção especial. Muitos incidentes já haviam acontecido por conta de alimentos que os jovens insistiam em comer fora da dieta, por isso eles eram supervisionados até para se alimentar.

— Você vai ser o nosso guarda hoje, enfermeiro Mike? – Onyx sorriu feliz.

Hope deu um riso breve, era engraçado ver como Onyx tinha uma paixão platônica enorme pelo enfermeiro e sempre caia de amores pelo menor gesto que ele fazia com ela. O enfermeiro sorriu e confirmou que ficaria com ele, fazendo Onyx suspirar leve enquanto o encarava.

Ter rins ruins era bem difícil quando se tratava de alimentação, Hope não conseguia comer praticamente nada. Por isso sua alimentação era sempre a menos saborosa e menos bonita. Onyx esbanjou a pratada de salada de frutas e ovos com queijo que ela comeria enquanto mostrava a língua para a vizinha de cama.

“Criança.” Hope pensou, o dia nem havia começado direito e ela já se arrependia de ter acordado. Era desse jeito todos os dias, ela só não queria estar mais ali, ela queria fechar os olhos e desaparecer para sempre. Mas sempre que fechava os olhos a imagem de sua mãe lhe vinha a cabeça.

A única razão que a mantinha viva.

Ela olhou para os lados, imaginando quantos daqueles jovens estariam na mesma situação, morrendo por dentro, desejando não estarem ali. Mas mesmo assim vivendo um dia atrás do outro por outra pessoa.

Porque esse era o real efeito colateral de se estar morrendo, não era depressão, a ansiedade, as noites de dores ou os infinitos coquetéis de remédios, era saber que você estava lutando não por você, mas por outra pessoa.

Porque você não aguenta mais estar ali, mas se você for embora, aqueles que ficarem nunca vão se recuperar. Hope pensou na mãe, ela já havia sofrido tanto e perdido tanta coisa, ela não merecia perder a filha também.

Hope encarou o prato e começou a comer, tudo o que ela enfrentaria ali seria para tentar melhorar sua situação atual, ela não entendia porque passava por coisas que não merecia, mas sua mãe sempre dizia que tudo aquilo a tornaria mais forte no final.

Quem sabe ela não tivesse razão.

Notas finais
A doença da Onyx é completamente inventada assim como o tratamento dela e da Hope, eu não sou a melhor pessoa pra retratar casos de depressão, mas vou dar o meu melhor. Beijinhos