Memórias
2 Acordando
Notas iniciais
Acordei me sentindo desconfortável, estranho.
Tentei abrir meus olhos, mas a luz os feriu e eles se fecharam quase que imediatamente.
Foi então que uma dor insuportável em minha cabeça se fez ser notada e, ainda de olhos fechados, eu fui ouvindo um barulho estranho, como bipes muito altos. Tentei me mexer, mas havia alguma coisa me prendendo não deixando que eu fosse muito longe.
Aos poucos eu fui abrindo os olhos com cuidado, mais preparado para o que eu ia encontrar, tentando me acostumar com a claridade do lugar. Quando eu finalmente pude manter meus olhos abertos tentei entender onde é que eu estava. Haviam fios por todo meu corpo — era o que me impedia de me mexer — que me ligavam à máquinas barulhentas. Era tudo muito branco ao redor, as paredes as portas, os móveis as roupas que eu estava usando.
Seria aqui um hospital?
Tudo indicava que sim, mesmo sem conseguir me lembrar de como era um hospital ou se já estive em um antes. Tentei puxar pela minha memória e outras coisas também como o meu nome ou como foi que eu vim parar aqui, mas nada vinha.
Droga, o que aconteceu comigo?
A dor fortíssima não me deixava pensar com clareza, sendo um empecilho ainda maior para as lembranças que eu chamava e que não vinham. Meus esforços foram interrompidos quando eu percebi que ao meu lado tinha alguém.
Era uma mulher, uma linda senhorita que estava sentada em uma cadeira ao meu lado, a cabeça em minha cama e os dedos entrelaçados aos meus. Seu semblante era cansado como se há muitos dias não dormisse bem.
Quem seria ela?
Será que estou morto?
Essa linda senhorita poderia muito bem ser o anjo designado para me levar até Deus quando chegasse a hora certa, um anjo que se cansou durante sua vigília esperando que eu acordasse e acabou pegando no sono depois de muito esperar, mas que cumpriria sua missão logo que acordasse.
Sim, ela poderia ser um anjo.
Fiquei a observando dormir e ali, tão tranquilamente parecia ainda mais jovem do que deveria ser, a pele muito clara, os cabelos bem escuros, como mogno brilhante. Eram longos e estavam esparramados ao nosso redor e fazendo contraste com toda a brancura do quarto.
Que rosto lindo!
Pude perceber seus traços bem desenhados, o nariz reto e pequeno, tão delicado quanto ela parecia ser, seu lábios cheios e o de cima um pouco menos que o de baixo, fazendo com que ela ficasse com um lindo biquinho que me fez sorrir involuntariamente.
Ela me trazia paz, ver sua respiração tranquila me tranquilizou também, era como se enquanto ela estivesse ali, tudo ficaria bem.
Passei muito tempo, olhando para aquela que parecia um anjo, velando seu sono como ela provavelmente tinha feito comigo até que ela começou a se mexer lentamente, provavelmente desconfortável pela posição que se encontrava. Sem abrir os olhos ela sentou-se e esticando-se toda trouxe seu corpo de volta a vida para só então abrir seus olhos.
E eu mergulhei naquele mar de chocolate que me encarava firmemente.
Por um longo memento ficamos assim, apenas nos olhando, até que ela franziu o cenho e murmurou para si mesma:
—Será que ainda estou sonhando?
—Eu não sei — respondi estranhando minha própria voz — mas pensei que eu estivesse — ela riu olhando para nossos dedos juntos e eu quis saber o que havia de engraçado.
—É que eu não esperaria essa resposta do senhor, nem mesmo se esse fosse outro sonho.
—E você sonha comigo? — haviam tantas coisas para perguntar, mas essa foi a primeira que veio em minha mente. Eu só queria ouvir mais a voz dela e saber o que ela poderia estar pensando.
—Sempre sonho. Todos eles são muito reais, mas esse está especialmente estranho.
—Então é um sonho muito estranho para nós dois — eu apertei seus dedos entre os meus fazendo com que ela olhasse para eles. Só depois que ela desviou seus olhos de mim, pude voltar para a questão principal ali — eu me sinto estranho, não consigo me lembrar de nada...
—Não consegue? — balancei a cabeça devagar sem conseguir desviar os olhos dos dela. Franzi o cenho fazendo força mais uma vez, sem sucesso.
—Não. Tudo é estranho para mim.
—Eu não estou entendendo... Estou mesmo acordada? — dei de ombros sem saber o que responder a ela por também não saber o que era verdade e o que era sonho. A linda moça não viu meu gesto já que ainda olhava fixamente para nossos dedos juntos e eu apertei os dela querendo mais uma vez ver seus lindos olhos.
E ela permitiu.
Eu pude ver aqueles olhos incríveis que me faziam sentir bem sem nem o desconforto ou a dor que fazia minha cabeça latejar quando ela sorriu para mim timidamente e desviou o olhar de modo respeitoso soltando minha mão.
—Acho que isso foi muito real. Esse aperto, o disparo que ele provocou em meu coração... Eu não fico assim nos sonhos.
—Então talvez esse não seja um, pelo menos, um sonho seu.
—Mas isso significaria que o senhor está mesmo acordado — ela olhou para bem dentro de meus olhos — significaria que é tudo verdade.
—Talvez seja, eu realmente não tenho ideia — respondi meio sem folego com seu sorriso deslumbrante enquanto ela olhava em meus olhos. Eu pude perceber, por sua expressão, quando ela se deu conta de não estava mesmo dormindo.
—Oh, meu senhor! Nem acredito que está acordado — ela baixou os olhos, mas passou a me olhar por debaixo dos cílios com um pequeno sorriso — rezei muito para ver seus olhos abertos outra vez — ela limpou uma lágrima desviando o olhar novamente.
—Então estou mesmo acordado?
—Parece que sim e... e eu deveria chamar alguém para vê-lo. O senhor está bem? — eu sabia que se alguém chegasse a dor forte em minha cabeça iria embora, mas eu não queria de forma alguma que ela se afastasse de mim, então eu segurei sua mão, apertando com força tentando impedir.
—Não vá, por favor, fique aqui — ela sorriu timidamente sem olhar para mim.
—Eu não vou, mas alguém precisa vê-lo, senhor.
—Não se preocupe com isso agora, eu estou bem.
—Estou vendo. O senhor está acordado, está fanado comigo! — sorri junto com ela.
—Parece que sim — ficamos nos olhando por algum tempo, sorrindo um para o outro, mas minha cabeça ainda estava confusa demais e eu precisava de algumas respostas — você sabe o que aconteceu comigo? Por que estou aqui?
—O senhor sofreu um acidente terrível e ficou em coma por muito tempo — ela franziu o cenho como se sentisse dor, deixando seu sorriso ir embora. Sua voz era só um sussurro tremulo quando ela continuou — Muito, muito tempo.
—E você ficou aqui, ao meu lado?
—Quase sempre, mas não se preocupe. Sua família não me viu.
—Você não é da minha família? — ela negou suspirando.
—Não, senhor.
—Então por que ficou aqui?
—É que eu... eu senti sua falta, meu senhor — seu rosto ficou vermelho de repente e vi como ela estava envergonhada em confessar — e eu queria saber como estava, precisava ver se estava bem, se eu poderia ajudar em alguma coisa, qualquer que fosse. Eu sempre soube que hora ou outra o senhor acordaria, sabia que valeria a pena esperar pelo senhor.
—Esperou por mim? — perguntei sorrindo e ela assentiu sem olhar para mim, muito atenta a nossos dedos entrelaçados.
—Como uma criança espera pelo natal, senhor.
Ela permaneceu de olhos abaixados, mas olhava para mim furtivamente. Eu estava louco para ver seus olhos, aqueles lindos olhos que tinham uma força imensa sobre mim e não me lembrar de nada estava me deixando desesperando, principalmente por não conseguir me lembrar dela.
—Eu não consigo me lembrar de nada, de ninguém... — externei meus pensamentos fazendo com que ela olhasse para mim.
—É por que o senhor bateu a cabeça com muita força, o médico disse que isso poderia acontecer — isso explicava a dor forte em minha cabeça que só aumentava, não mais que minha curiosidade.
—Nós nos conhecemos ou você trabalha aqui?
—Nós nos conhecemos muito bem — seu rosto ficou vermelho outra vez olhando suas roupas — só estou vestida assim para me misturar e não criar problemas.
—Então me diga, quem é você? — ela sorriu olhando para nossas mãos e respirou bem fundo antes de começar.
—Eu sou... — a porta foi aberta naquele momento e por ela passou um homem muito alto e forte que sorriu ao me ver. Assim que ele entrou, o anjo ao meu lado se levantou ficando no canto.
—Ora, ora que novidade! — ele disse muito alto quando me viu — Quando sai de minha casa esta manhã, algo me dizia que seria um dia muito bom e não é que sou surpreendido ao chegar ao trabalho? Uau! Eu finalmente eu te vejo vivo! — ele se aproximou verificando os monitores que estavam ligados a mim — Eu sou o doutor Black estou te acompanhando desde que chegou aqui estou muito feliz em ver que valeu a pena apostar em você. Gosta mesmo de viver, não é?
—Eu acho que sim — respondi sem tirar os olhos da moça sorridente no canto.
—E como você está se sentindo? — perguntou depois de verificar cada aparelho — Parece que você apenas acordou de uma boa noite de sono.
Passei a responder as perguntas que ele respondia. Eu estava me sentindo bem, apenas a dor forte em minha cabeça e a sensação de que eu estava perdido no tempo e no espaço.
—Não consigo me lembrar de nada — disse por fim — nem de meu nome.
—Isso era esperado devido ao trauma que teve em seu cérebro. Precisamos fazer alguns exames para saber como está a sua atividade cerebral e ver como anda a parte que foi afetada, para que assim possamos ajudá-lo a se recuperar por completo. Em alguns minutos, virão buscá-lo para realizar seus exames enquanto avisaremos sua família — ele terminou sorrindo para o meu anjo — tenho certeza que todos vão ficar muito felizes em saber que o senhor está de volta para o mundo dos vivos. Eu já volto, com licença.
A senhorita, do canto do quarto sorria enormemente sem deixar de olhar para mim e assim que ele se foi ela se aproximou outra vez, hesitante tocou meu cabelo acariciando ternamente.
—Estou tão contente por estar bem, senhor.
—Eu só queria me lembrar de você, de quem você é.
—Tenho certeza de que vai, meu senhor. Faz parte de quem é e, a qualquer momento sua natureza falará mais alto. Pode ter certeza de que estarei aguardando esse momento com ansiedade — ela sorriu e eu não consegui deixar de sorrir com ela, instantaneamente ansioso para que esse dia chegasse também.
Antes que eu pudesse perguntar tudo o que eu queria saber, a porta foi aberta por alguns enfermeiros que vieram me levar para os exames.
—Eu vejo você quando voltar, não é? — perguntei quando ela se afastou.
—Nos vemos em breve, meu senhor, muito em breve.
.
.
Eu fui furado de todas as maneira possíveis e colocado em várias máquinas diferentes, fiz vários exames diferentes.
Isso levou horas e horas.
Mal pude acreditar quando finalmente terminou eu fui levado para o meu quarto, branco e vazio.
—Como está se sentindo? — o médico perguntou depois que eu estava acomodado em minha cama.
—Eu estou confuso ainda, é muita coisa para assimilar.
—Isso é comum e infelizmente vai sentir assim por algum tempo, mas o que eu quero realmente saber é como está se sentindo?
—A dor em minha cabeça melhorou bastante. Estou bem, apenas um pouco cansado.
—Está em condições de receber visitas?
—Acho que sim. Agora?
—Tem algumas pessoas ai fora ansiosas para ver você. Posso mandá-las entrar?
—Pode, é claro — respondi cheio de expectativa, louco para ver aquela linda senhorita outra vez. Em poucos minutos, meu quarto ficou cheio de pessoas com grandes sorrisos, mas nenhuma era a que eu mais esperava ver.
Ali estavam cinco pessoas.
Um casal, dois homens e uma mulher.
O casal era composto por um homem loiro muito alto com as roupas gastas e jeito cansado. A mulher em seus braços, parecia tão cansada quanto ele e de roupas tão puídas quanto as de seu marido. Ela era muito bonita, como o homem, seus cabelos eram de um loiro escuro meio avermelhados, dependendo do ponto de vista que a olhasse ou de como o sol refletia naquele cômodo branco. Seu rosto bondoso estava banhado de lágrimas que contrastavam com o sorriso gigantesco que deu ao olhar para mim.
Os homens ali parados eram bem mais novos que o casal e se pareciam com eles, de certo modo. O mais alto tinha os cabelos bem escuros, quase castanhos, era muito alto, forte e sorria parecendo muito satisfeito. O outro apesar de parecer muito forte também era mais baixo que os outros, cabelo loiro como o da senhora e bem compridos, parecia feliz como os outros, mas estava bem mais contido.
A outra mulher era elegante, linda e bem vestida. Ela estava em saltos altíssimos e com os cabelos quase ruivos muito bem penteado, ao contrário da outra. Limpava o canto dos olhos com um pequeno lenço de vez em quando e fungava em silencio.
Todos ficaram olhando para mim, como se esperassem alguma ordem, alguma permissão para começar a interagir ou falar comigo e então eu disse um pouco sem jeito:
—Eu não tenho a menor ideia de quem são vocês. Desculpe.
—Nós... nós todos somos a sua família — o homem loiro mais velho disse emocionado — e estamos muito contentes por que você não ter nos abandonado como parecia.
—Isso, infelizmente não mudou nada, eu ainda não sei quem são, eu não sei nem quem sou...
—Não se preocupe, meu querido — a mulher mais velha secou suas lagrimas com a manga de sua blusa e se aproximou, sentando ao meu lado. Antes de continuar ela sorriu para mim, um grande e lindo sorriso que fazia com que seus olhos se enrugassem ainda mais nos cantos. — Eu ensinei isso a você há quase trinta anos e fico muito feliz em ensinar outra vez — ela respirou bem fundo antes de continuar — Seu nome é Edward Anthony Cullen e eu sou Esme, sua mãe.
—Mãe? — ela assentiu sorrindo e eu a olhei com mais atenção ainda — Eu não consigo me lembrar de você.
—Não se preocupe querido, sei que aos poucos você vai conseguir se lembrar, estaremos todos com você.
—Isso é muito confuso. Por mais que eu force minha memória, não consigo me lembrar de nada antes do momento em que abri meus olhos, de nada!
—O que importa agora é que você voltou para nós, meu querido. Sou a mãe mais feliz do mundo por ter seu filho de volta — como a moça que estava aqui antes, ela hesitou em se aproximar e acariciar meu rosto, testando minha reação. Eu sorri para ela, pelo carinho que estava recebendo fazendo com que suas lágrimas vertessem abundantes — meu filho, posso abraçar você? — eu assenti e ela fungou se aproximando com cuidado — eu não quero te machucar...
—Você não vai me machucar, não se preocupe — ela ainda hesitou por um instante e se aproximou ainda tomando muito cuidado chorando cada vez mais. Então eu a abracei a apertando contra mim, tentando acalmá-la e fazer com que ela parasse de chorar, mas isso só fez com que ela chorasse ainda mais.
—Meu filho, obrigada por voltar para mim — sussurrou par mim depois de um longo tempo chorando em meus braços — Eu tive muito medo de perder você.
—Ainda não foi dessa vez e não será assim tão rápido, não se preocupe — sorri querendo confortá-la para que seu lindo sorriso voltasse e foi o que aconteceu. Então eu olhei para os outros no quarto — E eles? Quem são?
—Aquele ali no canto, é seu pai, Carlisle Cullen.
—Bem vindo de volta, meu filho — ele se aproximou me dando um beijo na cabeça — é como se eu estivesse presenciando seu nascimento outra vez. E eu estou muito mais feliz do que da primeira — sorri para ele observando os outros dois ali parados.
—Eles são Jasper e Emmett, seus irmãos.
—Cara, eu pensei que nunca mais fosse ver você — o mais forte veio em minha direção batendo em meu ombro, sorrindo cheio de animação.
—Emmett, não faça isso, Edward acabou de sair do coma! — Esme ralhou com ele e todos me olharam com medo de minha reação e só respiram aliviados quando eu dei de ombros.
—Eu estou bem.
—Sim ele está e eu sabia disso — grandalhão riu e depois olhou para mim parecendo zangado — e só fiz isso por que ele mereceu essa por nos assustar dessa forma.
—Mas nós queremos que ele fique bom e saia daqui, e não que passe mais tempo internado — o mais baixo veio em minha direção — bem vindo de volta, meu irmão.
—Obrigado — sorri para eles. Eram minha família e estavam felizes por mim da mesma maneira que eu estava feliz em vê-los e mesmo tendo gostado deles e estar feliz por estar no meio de minha família, eu não conseguia reconhecer ninguém, eles não me passavam nada, não representavam nada para mim.
—E ela? — perguntei quando meus irmãos pararam de discutir por algum motivo que eu não tinha prestado atenção me dando conta de que ela ainda estava ali — quem é?
—Aquela é Tanya — Esme deixou de sorrir ao vê-la se aproximar — sua esposa.
—Esposa? — perguntei surpreso.
—Sim, eu sou, meu querido — ela veio até mim e minha mãe se afastou para dar espaço — eu sinto muito por não ter estado ao seu lado quando acordou, mas eu não poderia imaginar... Eu não sabia que você... Que você ia...
—Que ele ia sobreviver? — Emmett perguntou parecendo com raiva.
—Não é isso...
—Todos nós ficamos muito surpresos em saber que ele acordou — Carlisle disse não muito mais calmo que meu irmão — sabemos que passou muito tempo, mas nunca perdemos a esperança de que esse dia chegaria.
—Eu também nunca duvidei — ela disse sem perder sua pose, bem próxima a mim, mas sem me tocar, sorrindo de leve — sabia que você era forte, que não iria deixar um acidente interromper sua vida.
—E você esteve ao meu lado?
—Sim, sempre que pude — Emmett, meu irmão grandalhão bufou, Carlisle e Jasper reviraram os olhos e Esme apertou os lábios, não muito contente, como se não acreditassem nela.
—E por quanto tempo eu fiquei aqui?
—Faz exatamente um ano, dois meses e sete dias desde a pior coisa que já aconteceu em minha vida — Esme fungou novamente — desde que eu soube que você estava aqui, numa cama de hospital entre a vida e a morte.
—O que aconteceu comigo?
—Você passou o fim de semana inteiro trabalhando, como sempre fazia — ela contou baixinho tentando controlar suas lágrimas — e, quando estava voltando para casa, seu carro perdeu o controle e você capotou várias e várias vezes com ele. Graças a Deus você usava o cinto de segurança, mas isso não impediu que se ferisse gravemente. Você bateu a cabeça, teve um trauma muito grande no cérebro que te deixou em coma assim por tanto tempo. Fizeram muitas cirurgias em você e alguns médicos disseram que você não sobreviveria...
—Mas o médico disse que eu estava bem, que minhas atividades cerebrais estavam em perfeito estado.
—Depois de um longo ano de repouso, com tratamentos constantes. Eu não sei explicar muito bem o que fizeram em você, mas funcionou. Valeu a pena esperar esse tempo todo para te ter de volta.
—Foi mesmo horrível, amor — Tanya chamou a atenção para si, soluçando parecendo assustada — Eu tive tanto medo de ficar sem você, não sei como eu sobreviveria.
—Eu faço uma ideia...
—Emmett! — Carlisle ralhou com ele olhando para mim com preocupação — me perdoe filho, seu irmão as vezes não sabe o que diz.
—Eu não estou entendendo nada...
—Não se preocupe com isso. Você deveria se preocupar em se recuperar depressa para poder sair daqui logo, retomar sua vida...
—O que adiantaria eu retomar minha vida se eu não me lembro de nada?
—Mais cedo ou mais tarde você vai se lembrar, eu sei disso.
—Mas e se eu não conseguir? — acabei expondo o medo que vinha me atormentando desde que acordei — Eu não consegui reconhecer ninguém, não me lembrei de nada até agora. E se eu nunca conseguir? O que vai ser de mim?
—Você só acordou há algumas horas, meu filho, tem muito tempo para se recuperar e se caso não consiga, comece de novo — Carlisle deu de ombos sorrindo para mim — Tenha uma nova vida a partir de agora. Muita gente gostaria de ter a chance de nascer de novo, esquecer as preocupações da vida. Você teve essa chance. Agarre-a, com muita força.
—Acho que não tenho escolha no momento, não é? — respondi me sentindo um pouco melhor.
—Por enquanto. Eu tenho certeza que tudo vai ficar bem.
—Todos nós temos, querida — Carlisle olhou para o relógio e deu um suspiro profundo — Eu acho eu não vamos poder ficar muito tempo aqui com você. Acordou agora e precisa de paz e sossego. Nós podemos voltar amanhã para te ver, se você não se importar, é claro — todos voltaram os olhos para mim. Esme e Carlisle esperançosos, Tanya com um leve sorriso como se mal pudesse esperar por minha resposta. Jasper e Emmett também aguardavam um pouco receosos e eu dei de ombros.
—É claro que podem voltar. Quero que me ajudem em minhas lembranças, além de que deve ser muito chato ficar aqui sozinho...
—Não vai ficar sozinho, meu querido. Agora que acordou ficarei ao seu lado o tempo todo.
—Acho que tem lugar para todo mundo — disse quando vi que Esme ficou um pouco desapontada com a resposta de Tanya — então, vem amanhã?
—Tente me impedir querido, só tente — ela riu e se aproximou de mim — obrigada por voltar para mim, meu filho — eles se despediram de mim, um a um dizendo o quanto estavam felizes por eu estar de volta e dizendo que não deixariam de estar de volta no dia seguinte.
Todos se foram, mas Tanya, minha... esposa ficou ali, olhando para mim. Assim que ficamos sozinhos ela se aproximou beijando meu rosto.
—Senti tanta a sua falta, meu amor. Eu já não podia suportar ficar sem você.
—Sinto muito, mas...
—Eu sei que você não se lembra — ela riu colocando o dedo em meus lábios — nem parecia você com a sua família, meu Deus! Somente sem memória para te ver daquele jeito com aqueles caipiras.
—Do que você está falando?
—Nós não falamos com seus pais, nem com seus irmãos ou qualquer pessoa que esteja envolvida com eles.
—Não falamos?
—De jeito nenhum. Eles não fazem parte de nossa vida.
—Por que? O que houve?
—É muita coisa complicada que eu devo te poupar no momento. Podemos ter essa conversa no futuro, mas agora você precisa se recuperar, tanto quanto eu preciso de seu abraço, de sentir seu cheiro, seu corpo junto ao meu, para ter a certeza de que você está aqui, está bem e de volta para mim.
Assenti me deixando ser abraçado e permitindo que ela se aconchegasse em meu corpo e ficamos em silêncio.
Por mais que tudo o que ouvi nesse dia me parecesse verdade, eu não sabia se era certo.
Tudo o que eu sabia sobre mim foi dito por outras pessoas e isso era muito confuso, como eu poderia acreditar?
Não tive nenhum reconhecimento, nada que me fizesse acreditar que aquelas pessoas eram quem diziam ser, que eu era quem elas diziam.
A não ser por ela.
Aquele anjo foi a que mais me tocou, quem eu tinha vontade de falar, que eu sentia ter algo que nos ligava, mas ela era também sobre quem eu menos sabia, quem eu não tinha a menor ideia de quem fosse.
Tanya ficou comigo até que escureceu e depois foi embora, dizendo que voltaria assim que o dia amanhecesse e que me contaria mais sobre minha vida, que me ajudaria a voltar e controlar meu próprio rumo.
O que me resta agora é esperar e torcer para que desse certo.
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