Memórias

8 Capítulo 8 - Drumming Song


Notas iniciais
Capítulo que marca o início da nova fase, esta intitulada "Tetrishead".

Há um barulho de tambor dentro da minha cabeça
Que começa quando você está por perto
Eu juro que você poderia escutar
Ele faz um som todo poderoso

Um homem de terno entrava sem bater na sala do prefeito com uma papelada e um certo ar de urgência:

– Dr. Kalil, temos um problema. — disse lançando a papelada na mesa.

– Já estou ciente, tomei medidas para isso.

– Esse é o problema, leia os papéis com cuidado.

O prefeito Kalil encarou-o, pôs o óculos e começou a folhear:

– O que é isto?

– São reivindicações.

– Besteira! Se eu deixar todas essas pessoas entrarem, teremos problemas piores! — respondeu largando a papelada na mesa.

– As autoridades de outras cidades pedem que liberem a rodovia Cereser.

– Não temos estrutura para isso.

Dia 4 de maio ao meio-dia, um meteoro enorme cai no centro de Joinville; helicópteros sobrevoavam Linoi às 15h, momento em que Irie sai aos gritos e é observada, não eram jornalistas, eram policiais.

O que buscavam? Talvez estivessem ali para a preparação do que viria a acontecer.

O prefeito de Linoi, Kalil, bloqueou as entradas da cidade alegando não possuírem estrutura para acomodar tamanho movimento migratório; como o previsto, ocorreu uma revolta nos joinvilenses que queria entrar em Linoi, avançaram contra as barricadas e contra a polícia que revidava com bombas de gás lacrimogêneo e projéteis de borracha, porém, devido ao grande número de imigrantes, a polícia viu-se em situação de recuar.

Enquanto isso, dentro de Linoi, a população dividia-se entre os apoiadores do prefeito que tomavam atitudes extremistas contra os joinvilenses, e os oposicionistas, a favor dos direitos humanos que permitiam a entrada, isso gerou um conflito interno, uma guerra civil batizada pelos jornalistas da capital como "A Batalha de Kalil".

–x-

Estavam todos afônicos diante do cervo que apenas passava o olhar em um por um. Faltava alguém, Tone:

– O quê que você quer conosco? — perguntou Irie gaguejando, aproximando lentamente a mão da katana na calça, quando Fairuz segurou-a pelo pulso. Quando Jaafar se afastou do lago, a criatura fez gestos de galope sem sair do lugar e mais uma vez mudava de forma para algo humanoide e diminuindo seu brilho até extinguir-se; tornava-se um humano:

– Finalmente posso aparecer assim, fazem dez anos, vocês cresceram... — disse de uma maneira nostalgica o homem que aparentava mesma faixa etária dos demais presentes. Como todos os outros, Fairuz surpreendeu-se:

– Uma pessoa...?

– Shh! — interrompeu. — Fiquem calados e deixem-me falar!

Ninguém nada dizia, estavam muito assustados, surpresos e curiosos para isso, o homem, desapontado, continuou então:

– Uau, não esperava que fossem mesmo ficar calados... Estão espantados, né? Pardon, je suis Kaito.

– Como é...? — perguntou Haran sem entender a última frase.

– Mon nom est Kaito. Não sabe francês?

– "Meu nome é Kaito" ele disse.

Com um olhar zombador, Kaito parabenizou:

– Como sempre, intelectualmente superior e diplomático, Jaafar. Merece um vinho francês, presente.

– Diz logo o que quer! — reclamou Irie.

– Eu sei que o julgamento de vocês sobre mim é algo símbolo de desgraça e medo, afinal, todos vocês associam a separação de vocês e as respectivas tragédias, como o acidente aéreo do pai e suicídio da mãe de Irie, por exemplo.

– Desgraçado! — Irie gritou furiosa. — Por que? Quem é você?

Bufando, Kaito, fez um gesto pedindo silêncio com o dedo indicador nos lábios:

– Eu disse para me deixarem falar. — após Irie recuperar a postura, continuou. — Quero esclarecer duas coisas: a primeira é que a própria atitude de vocês levou a isso, realmente tive uma parcela de culpa, mas... Tudo isso foi necessário!

– Necessário?! — interrompeu Irie. — Como a morte dos meus pais foi necessário?!

– Shhh! — reclamou Kaito pedindo silêncio com um chiado.

– Não faz "shh" pra mim! — reclamou.

– Irie... Deixa ele falar. — pediu Fairuz puxando pelo pulso, a pedido Irie calou-se. Kaito continuou:

– É, necessário sim. Como encontrou essa casa quando retornou de Joinville em 2007, Fairuz?

Um choque.

– Estava muito bagunçada, destruída, como se tivesse passado uma...

– Uma tempestade — interrompeu. — Isso mesmo! Em dezembro de 2005 choveu bastante por aqui e houve uma inundação que fez a Cereser desaparecer, suponho que salvei a vida da vocês, aliás, foi para isso que surgi naquela época, Irie. De uma forma ou de outra, seus pais morreriam, não tenho relação com aquilo.

– Então você nos salvou? É isso que está dizendo? — perguntou Irie.

– Sim, sim, afinal você estava tão cheia de si. — riu.

Irie lembrou-se do monólogo que teve antes de cair no lago mais cedo, assustou-se e enfureceu-se novamente:

– Filho da puta! Foi...

– Aham, eu te trouxe aqui, desculpe pelo afogamento, precisava chamar a atenção.

– Então foi tu que fez o meteoro cair? — perguntou Jaafar.

– Eu? — riu. — Não fiz aquilo, apenas fiz a Irie achar um álbum secreto da mãe dela.

– O álbum! Mas qual a relação disso com o meteoro...? — perguntou Irie.

"O que eu sinto é destruição.

Não estou dizendo que quero acabar com tudo:

Estou dizendo que as minhas memórias criam medo.

Pequenos apocalipses."

– Quando está longe de seus amigos e sente alguma emoção forte e negativa, como raiva, medo, tristeza, algum desastre acontece em algum canto do mundo; Irie foi a responsável pelo meteoro. A propósito, o mundo só não acabou pois todos os dias, com tantas emoções acumuladas e abafadas, seu cérebro criou um tipo de descarga emocional diária às 15h, quando você surta.

– Surto? Do que ele está falando, Irie? — perguntou Haran.

– Não te interessa, não é nada, é coisa minha. Afinal, vou perguntar novamente: quem é você para saber tudo isso? Como pode fazer essas coisas esquisitas e saber o futuro? O quê quer?

– Eu sou o guardião do destino... — explicou Kaito segurando uma corrente com um cadeado antigo no pescoço. — Não se preocupem, tenho muito, mas muito o que explicar, principalmente para você, Jaafar.

Enquanto movimento meu pé em direção ao seu corpo
Eu posso ouvir essa batida
Ela enche a minha cabeça
E fica mais alta e mais alta
Ela enche a minha cabeça
E fica mais alta e mais alta

Continua...

Notas finais
Capítulo 9 - No light No light (09/02)