Memórias
6 Capítulo 6 - Komm Süsser Tod
Notas iniciais
– Toninho! Ei, guri!
Alguém do outro lado da janela chamava por Tone; o garoto, com sono, ignorava virando-se para o outro lado da cama, cobrindo a cabeça com um travesseiro. A voz que o chamara, uma idosa simpática que morava na casa do outro lado da rua, insistia e até tacara-lhe pedras na janela; acabara de amanhecer, Tone não costuma acordar tão cedo.
– Eu sei que está aí! Anda, acorda!
Após rosnar desistindo do sono, sabendo que não tinha jeito, respondeu com a voz abafada no travesseiro:
– O que é?
– Oh, acordei-te? Não foi minha intenção.
Tone levantou num salto, elevando o tom de voz ao responder:
– Tu fez de propósito que eu bem sei!
– Ah, sabe? — riu. — Pode abrir essa janela, pelo menos?
– Tá, tá!
Ao abrir a janela e deparar-se com a senhora sorrindo debochadamente, irritou-se por dentro; contra-atacou com um bico de canto de boca e desdém:
– Que sorrisinho é esse? Qual o problema?
– Tem um vivente preso no topo daquela árvore ali. — respondeu apontando para uma árvore enorme do outro lado da rua. Procurou por entre galhos e folhas por uma pessoa; mas nada encontrado:
– Um vivente? Mas não tem ninguém ali.
– Tem certeza?
Foi quando miados tornaram-se audíveis; então o tal vivente era um gato?
– Um gato? Desde quando a senhora tem um gato?
– Não tenho, só fiquei com dó dele, tadinho!
A expressão dramática e poses que a senhora fazia ao dizer isso de forma visivelmente artificial ao responder, deixou Tone furioso; com seu biquinho ainda mais agressivo, fechou a janela na cara da mesma.
– Quantos anos a senhora pensa que tem? Doze? — gritava irritado do outro lado da janela.
– Mas eu vou te recompensar!
Tone abriu a janela entusiasmado; a perguntar:
– Que recompensa?
– Mostra que é um bagual de verdade e prometo que te recompensarei! — respondeu com um gesto de gancho de direita e chave de pescoço no ar junto a um sorriso convidativo.
Não demorou muito para Tone trocar o pijama por roupas decentes e sair animado para escalar a árvore; cuidadosamente posicionava os pés nas falhas e contornos do tronco, segurava-se com as mãos nos galhos e aos poucos ia subindo mais e mais. Assim que finalmente chegou no gato, o bichano miou ferozmente; tal miado assustou-o, caindo no tapete de grama debaixo da árvore, na calçada, murmurando dolorido: Gato maldito...
Após, saltando em seu peito, o gato pôs-se a dormir.
–x-
Haran mergulhou no lago sem hesitar, capturando em seus braços a garota que afogara-se; em seguida revelou a todos sua habilidade de primeiros socorros, rasgando a roupa e sutiã de Irie para fazer massagem cardíaca e respiração boca a boca. Vendo aquela imagem, o pensamento de Coda resumiu-se em centenas de reticências e mamilos formando mais reticências enquanto encarava com olhar de peixe morto. Era realmente necessário tirar até o sutiã?
Jaafar observava há uma certa distância, aquele rosto também lhe era familiar:
– Aquela garota, eu conheço ela?
– É a Irie. — Respondeu Fairuz.
– Ela também está aqui?! De onde ela veio?
– Parece que agora todos nós nos reunimos. Que nostálgico...
– Na verdade, não. — interrompeu Coda.
Jaafar, confuso, perguntou:
– Como assim?
– Éramos seis, não cinco.
Irie finalmente acorda; sua primeira visão é um rapaz descamisado que ela a princípio não reconheceu, tal que estava encima dela com os seios expostos e um suposto beijo do mesmo em sua boca. Estapeando-o na cara, gritou:
– Pervertido! O que pensa que está fazendo se aproveitando da fragilidade de uma nobre dama como eu?! Que disparate!
Irie então começou a chamar pela polícia em francês. Ao notar que não havia sido reconhecido, Han zombou como o de praxe enquanto pressionava o local do tapa com a mão:
– Com um tapa desses, era melhor eu ter me aproveitado da fragilidade de um elefante...
– Paspalho! Como ousa?! Não deveria brincar com quem não... Espera... Esse rosto... Haran?
– Realmente, um elefante não tem essa tua memória lenta, não é? Claro que sou eu.
– Você cresceu! — animou-se. — Pois saiba que uma garotinha como eu não deve ser debochada em público ou leva processo!
– Com os seios de fora assim, não seria atentado ao pudor?
– O quê...?! — envergonhou-se ao lembrar do detalhe, cobrindo-os com os braços.
– E você deve ter uns dezoito anos, garotinha que faz garotinha não é garotinha. Incrível que você não cresceu nada em altura... Nem nos...
– Boboca! — gritou interrompendo-o. — Fecha a boca!
– Certo... A propósito, sinto algo duro dentro das suas calças.
– Dá para sair de uma vez de cima de meu belo e esbelto corpo feminino? Não ria.
Haran levantou-se chamando-a pelo apelido que acabou de criar para ela: "Vossa Majestade". Logo que avistou os outros, Irie avançou alegre em Coda e abraçou-a forte. Surpresa, corada e de olhos arregalados, lembrou-se da antiga amizade das duas:
– Lembra de mim? — perguntou.
– Claro que lembro! Está escrito "Irie" na sua testa! — respondeu Irie com um sorriso.
– Oh... Mesmo?
– Não, mas você entendeu, né?
– Entendi...?
Enquanto isso, Haran ria incontrolavelmente com a cara de Coda ao levar o susto.
–x-
– Bom, qual é a recompensa? É bom valer a pena!
A senhora estendeu os braços na direção de Tone, segurando o gato:
– Aqui está!
– Onde? — perguntou olhando para os lados e atrás da senhora.
– É o gato.
– Estou falando sério!
– O nome dele é Frederich.
Tone encarou o bichano e foi respondido com um miado feroz e arrepio de pelos:
– Que morte horrível... — murmurou desiludido.
Desde então, algumas horas se passaram. O sol começava a se pôr. Jaafar catou lenha para fazer uma fogueira, Haran estava pescando num rio próximo e Fairuz procurava roupas de infância que coubessem em Irie. Eles iriam acampar na frente do lago está noite, para matar a saudade e esperar o caos de Joinville diminuir e facilitar o trânsito. Mas algo que eles não esperavam estava prestes a acontecer.
"Se eu fosse jovem, eu fugiria desta cidade;
Eu enterraria meus sonhos debaixo da terra;
Como eu fiz, nós bebemos pra morrer, bebemos esta noite."
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