Memórias
7 Capítulo 7 - Elephant Gun
Notas iniciais
Fio a fio acaraciando o tom alaranjado da pele no crepúsculo, um enorme e quente sol a se pôr entre serras, nuvens e alguns prédios de Linoi; Coda tinha um brilho em seus olhos, diferente do que demonstra, ela não é um zumbi vivo de cérebro podre. No rio próximo ao casebre, com um balde cheio de peixe, estava Haran com um celular em mãos, uma ligação não atendida chocou-o, derrubando o celular no balde; saiu correndo em busca de Coda, achou-a por mera coincidência num terreno de pouca vegetação no meio da floresta, encarando o pôr-do-sol; com um pequeno lacrimejar, perguntou:
– Por que não me disse nada?
Coda virou o rosto para Han fazendo uma onomatopéia de dúvida: Huh?
Haran então explicou:
– Fui ligar para nossas famílias e dizer que estamos vivos, falei com todos da minha sem nenhum problema, mas quando fui ligar para a sua... Ninguém atende, não há sinal, não existe!
– Ah, sim, eles morreram. — respondeu com a expressão de sempre.
– Como consegue disfarçar tão bem?! — perguntou predendo o choro.
– Estou com preguiça de ficar triste...
– Foca em mim, Coda! Como consegue ficar assim nessa situação?
Coda encarou-o com estranhamento, nunca havia o visto daquela forma:
– Olha só essa sua cara... — disse ao se levantar, caminhando em sua direção. Passou o dedo numa gota de lágrima teimosa que não caía e a lambeu: — Salgadinha...
– Coda! — chamou a atenção.
– Não se preocupa. — disse voltando a olhar o pôr-do-sol. — Eu já me consolei. — continuou. — Que necessidade esquisita de mostrar o que sente vocês têm.
Haran calou-se surpreso gargalhando bem de leve, como um alívio, e ainda choroso, disse:
– É por isso que eu te amo...!
– Tá.
– "Tá" o quê?
– Também te amo.
–x-
Enquanto isso, como uma criança ganhando doces, Irie gritava animada, comemorando:
– Incrível, Fairun! Seu sutiã coube perfeitamente em mim!
– E eu estou surpresa... — disse chocada.
– Por que...? Desembucha!
– Eu cheguei a usar isso com uns sete anos, mas apertava meu peito e...
– Ai! Cala a boca, não quero ficar falando dessas coisas!
– Tudo bem, mas você não tem peito, Irie...
– Primeiramente, me chama de um apelido decente tipo Tori ou sei lá; segundamente, eu sou uma moça fina! Não preciso dessas tetas de vaca, vadia, ou vaca vadia.
– Er... Meus seios são tamanho M...
– Fecha boca! — interrompeu novamente enquanto se olhava no espelho do quarto de Fairuz. O local estava revirado de roupas por todo o canto, uma verdadeira bagunça. — Agora me trás roupas de cima que aquele paspalho também fez questão de rasgar.
– Ele te salvou... Afinal, como foi parar lá?
– Hã? Lá no lago? Eu não sei, bati a cabeça e quando acordei estava toda molhada sendo assediada pelo Han.
– Entendo... E o que é que você guarda nas calças?
– A minha dignidade!
– ... Não estou falando disso... — respondeu sem jeito. — Estou falando dessa coisa que sua calça ta marcando...
– Ah! Isso? — perguntou puxando uma bainha.
Fairuz assustou-se, Irie carregava uma katana, uma espada japonesa:
– Pra que você carrega isso?!
– Autodefesa, né! Meus pais morreram tem um tempo, tenho que me virar sozinha agora.
Um breve silêncio da parte de Fairuz.
– Entendo... Eles também...
–x-
Numa parte mais densa da floresta com a água elevada ao nível acima do calcanhar, Jaafar andava procurando algo seco que servisse de lenha; os minutos se passavam e nada achava, estava tudo molhado pela chuva de mais cedo, provavelmente por ser mais densa a vegetação e ter um rio e um lago próximo a água não havia secado nessa área ainda. Repentinamente, preparando um ataque na surdina, uma cobra saltou do alto de uma árvore em seu ombro; no susto, Jaafar sacudiu-se lançando-a no chão e escorregou em seguida; enquanto Jaafar caía, a cobra se prontificava para mais um bote consecutivo, avançando com um mini salto causado pelo impulso da cabeça para frente, porém, no momento em que as mãos de Jaafar encostaram na água do chão, a mesma instantâneamente congelou em uma área circular ao redor do mesmo em dois metros antes da cobra sair por completo da água, fazendo com que a mesma também congelasse no ar em posição de ataque.
– Tá brincando... — duvidava do que via, trêmulo, esforçando-se para sair do gelo que prendeu suas mãos e joelhos. Notou que aquilo não estava frio para ele, não o machucava, era até confortável. Ao se levantar decidiu testar novamente ao invés de ignorar o que acontecia como das outras vezes, encostava nas árvores e elas congelavam progressivamente, o mesmo com o chão. As gotas nas folhas altas caiam como cristais de gelos, estava passando da fase de estranhamento para a de divertimento, rindo como uma criança. Tudo que estivesse úmido, qualquer superfície úmida congelava com um toque.
Era o começo do fim.
–x-
O tempo passou, era noite, todos comiam peixes pescados pelo Han ao redor da fogueira enquanto Jaafar arrumava as barracas. Irie cochichou uma pergunta para Fairuz em seu ouvido:
– Impressão minha ou o Jaafar está muito calado? E distante também...
– Ele só está ocupado, não se preocupe. — respondeu normalmente.
Haran levantou-se com entusiasmo e propôs:
– Bom, estamos finalmente juntos, que tal falarmos o que fizemos nesses dez anos?
– Boa ideia, Han! — aplaudiu Irie. — Fairuz começa!
– Hã? Por que eu? — perguntou surpresa.
– Porque você é a anfitriã, oras! Não mora aqui com o Jaafar?
– Na verdade eu e o Jaafar também nos separamos alguns meses depois de todo mundo, eu fui para Joinville com meu pai e ele para Linoi com a Alice, mas depois de um tempo eu voltei para cá e desde então morei sozinha por anos.
– E o velho? — perguntou Han.
– Morreu doente há muito tempo. — respondeu. — Encontrei o Jaafar hoje por coincidência, mas, e você, Han?
– Também fui para Joinville com a Coda, a gente se encontrava em segredo, era muito divertido, morávamos lá até hoje.
– Vocês viram o meteoro de perto?! — perguntou surpresa Fairuz.
– Meteoro? — estranhou Irie.
– Sim, sobrevivemos e decidimos morar juntos em Linoi, mas com o trânsito congestionado na Cereser como estava, decidimos pegar um atalho e acabamos parando aqui com vocês.
– Vocês parecem até um casal com esses planos. — zombou.
– Espera, que meteoro? Não me vacuem, seus lixos! Do que estão falando?
– Como assim não sabe do que estamos falando, Tori? Não notou um estrondo hoje cedo?
– Estrondo? Achei que fossem trovões!
– E a fumaça subindo ali desde cedo? — perguntou apontando para o céu na direção de Joinville. — Não reparou?
– Nem um pouco... — respondeu abismada. — Que incrível...
– Coda, vai ficar calada? — perguntou Fairuz.
– É mesmo, Coda! Você não falou nada!
– Ah! É pra falar? Acho que o Han já disse tudo...
– Ei, Haran idiota! — gritou Irie.
– O que?
– Não se aproveita da minha Coda também ou eu arranco suas bolas!
– Sua... Ah, claro, alguém esqueceu de tomar a vacina anti-rábica.
– Como é que é?!
Jaafar interrompeu de longe perguntando com um sorriso:
– Ei! Deixem algum peixe pra mim!
– Então vem rápido, a Irie nunca viu comida na vida e está acabando com tudo! — respondeu Han aos gritos.
– Eu tenho comida sim, a geladeira da minha casa é cheia de comida! E não me chame pelo nome!
– Não precisa ter vergonha, pode falar a verdade,Irie! — provocou Haran.
– Gente, para! — apartou Fairuz.
– O Jaafar não está estranhamente sorridente desde que voltou com a lenha? — perguntou Coda.
– Também reparei nisso. — disse Haran. — Deve estar pensando na Fairuz.
Corada, Fairuz respondeu:
– Não mesmo! E eu nem reparei nada...
Por dentro, Fairuz estava muito feliz, seus amigos estavam ali novamente e sua família também. "Podia cair um meteoro todo dia..." pensava. Ela já desconfiava que sentia algo diferente pelo irmão, tinha medo de arriscar mas estava disposta para isso. Estava tudo perfeito.
Estava.
– O que é aquilo...? — Perguntou Irie apontando para o lago. Havia um globo de luz do tamanho de uma bola de ping pong, globo este que expandiu-se tomando forma de cervo, assustando a todos trazendo à tona todas as memórias ruins dos últimos dez anos.
Gritos.
Que comece a temporada — onde tudo é certo e errado
Que comece a temporada — abatamos o grande rei
E ele rompe pelo silêncio do nosso acampamento à noite
E ele rompe através do silêncio
Tudo o que resta é tudo o que eu escondi
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