Memórias
1 Capítulo 1 - Prólogo
Notas iniciais
Oito horas antes da tempestade prevista pela meteorologia local começar, Fairuz abriu os olhos pela primeira vez no dia. Ainda raciocinara e assimilara o fato de estar acordada. Levantou-se cambaleante, cansada como se não houvesse dormido nada, pegou um maço de cigarro na gaveta ao lado da cama e tragou alguns, apagando-os na palma da mão para despertar. Tomou banho, vestiu as roupas mais leves que tinha apesar do frio de onze graus, foi até a cozinha e revirou gavetas e armários, vazios, quase criando teias de aranha.
– Parece que não posso mais adiar as compras do mês. — disse com pesar, exalando fumaça pela boca e narinas.
Sete horas antes dos rostos familiares ficarem frente a frente devido a situações nada comuns, Fairuz pedalara o mais rápido que pôde em sua bicicleta amarela. Estava indo em direção à cidade, morrendo de fome, para fazer as compras, sendo que a mesma mora numa casa de madeira dentro da floresta, um pouco longe da urbanização. A cidade, em frente no caminho, era como um oásis no deserto, e gastar, para ela, não era problema. Seu cabelo cinza balançava como a língua de um cachorro na janela de um carro, até que, como um titereiro manipulando suas marionetes, o destino age impetuoso de acordo com seus planos.
– Parece que arrebentou... — concluiu ao analisar a corrente da bicicleta. Fairuz estava numa rodovia que normalmente é deserta, raramente passa algum veículo por ali, dum lado há uma floresta extensa, do outro há um caminho para um penhasco com vista para a cidade. Ainda havia um longo caminho para percorrer. Ela decidiu esperar algum carro, apesar dos pesares.
Quatro horas antes do alvorecer das memórias causar uma erupção psíquica, às nove da manhã, nenhum carro ou pessoa havia passado por ali, o sol estava ficando mais forte e Fairuz dormira no canteiro do asfalto com a cabeça apoiada no pneu traseiro da bicicleta.
– Ei... Você está me ouvindo? — escutou enquanto dormindo, abriu lentamente os olhos e notou formar uma imagem de um rapaz ainda enquanto ofuscado pelos raios solares. O céu estava limpo, bem diferente do que havia sido anunciado.
– Que dia é hoje...? — perguntou Fairuz.
– Quatro de maio, por que?
– Ainda é hoje. Parece que tô dormindo há décadas.
– O que leva uma pessoa a dormir numa rua tão esquecida e longe de tudo como essa?
– Eu estava indo para a cidade quando a corrente da bicicleta arrebentou, depois disso eu não me lembro, mas... — pausou com a mão na testa, um pouco tonta.
– Tu está bem?
– Sim, estou, é só uma hipoglicemia. Pode me levar até a cidade?
– Não só levo como também te dou algo para comer no caminho, contanto que não suje meu carro.
O rapaz colocou a bicicleta no banco traseiro e carregou-a no braço até o carro, partindo então em viagem.
– Está vendo essa gaveta em sua frente? Tem algumas barras de cereais aí dentro, pegue algumas.
– Obrigada, qual o seu nome?
– Jaafar, e tu?
– Jaafar...? Jaafar...
– O que houve?
– Esse nome me é tão familiar, quantos anos você tem?
– Dezenove, mas, pode me dizer o teu...
– Também tenho dezenove! — interrompeu.
Jaafar estava achando aquilo tudo um pouco esquisito e decidiu mudar de assunto.
– O que vai fazer na cidade?
– Ah, eu vou fazer compras, e agora tenho que consertar a bicicleta também. Moro numa casa na floresta, então sem ela é realmente complicado às vezes, muito obrigada pela ajuda Jaafar.
– Não, não foi nada. Gosta de ter uma vida mais orgânica?
– É só uma maneira de economizar, mas até que é interessante, e geralmente trabalhoso.
– Entendo. — Jaaafar, ainda curioso com o nome da garota, decidiu tentar perguntar pela terceira vez. — Então, qual o teu nome?
Neste instante, um vento forte entrou com tudo pela janela do carro, o cabelo da garota dançava por entre ele em frente a própria face, apenas pôde-se ver a boca pronunciando as palavras: "Meu nome é Fairuz". Há dez anos atrás, seis crianças brincavam juntas num casebre de madeira na floresta, em frente a um lago, duas delas eram os irmãos Morricone, no caso, Jaafar e Faiuz. Naquela época houve um estranho incidente que os separou em destinos diferentes e interligados, mas o que ninguém sabia, é que dez anos depois, o incidente voltaria a acontecer.
– Isso é sério?!
– Por que não seria? Qual o problema do meu nome?
– Não lembra de mim, avestruz?
– Do que me chamou...? — Desconfiou. — Espera um pouco... Essa maneira de me chamar...
– Teu sobrenome é Morricone, estou certo?
– Sim, mas... Não me diga que... Você é...?
– Sim.
– Jaafar?!
– Sim!
Ele havia sorrido de orelha a orelha, em contrapartida, Fairuz não esboçou sentimento algum além de conclusões.
– Então foi por isso que teu nome me era familiar.
– Não parece feliz em me ver.
– Eu tinha nove anos, passei dez anos sem o meu irmão, mal tenho memórias daquele tempo.
– Não vai nem me abraçar?
– Claro que não, você está dirigindo. E vê se entende que saber quem você é não faz surgirem laços afetivos em mim por ti, isso surge com convivência. Para mim, você é um estranho, desculpa.
Repentinamente, um forte trovão ecoou simultaneamente com um estouro no motor do carro, o céu que até então estava limpo, se enche de nuvens escuras.
– Mas o que houve agora? — Fairuz reclamou.
– Parece que o motor explodiu, mas o que está me assustando é esse céu. Quando ele escureceu assim?
Logo começou uma ventania conjunta de uma neblina densa e uma garoa.
– Fairuz, levanta o vidro e fica dentro do carro.
– Acha que vou sair depois daquele trovão?!
– Não sei, mas vamos esperar isso passar aqui dentro.
Alguns minutos antes de tudo finalmente começar, as primeiras gotas de chuva começaram a cair com força e intensidade que as assemelhavam a pedras. A visibilidade era quase nula, estavam ilhados dentro do carro em meio a tempestade. Todavia, Fairuz notou alguma coisa estranha perto do penhasco: Uma luz que tomava forma de alguma coisa viva.
– O que é aquilo? — Pensou ao reparar que estava cada vez mais parecida com um cervo. — Não pode ser, aquilo novamente?! — A mesma abriu rapidamente a porta do carro para seguir o espectro. Na tentativa de impedir-la, Jaafar a segurou pelo pulso.
– Onde pensa que vai nessa tempestade?
– Me larga! — disse socando-o com força no rosto, deixando-o inconsciente. Em seguida, correu até o espectro debaixo de trovões, relâmpagos e uma chuva pouco dolorida até chegar no penhasco. Lá ela possuía visão panorâmica de toda a cidade na tempestade, apesar disso, havia perdido a luz de vista, até que outro fato esquisito aconteceu: Na cidade, as nuvens abrem-se como um todo no centro, e uma estranha pressão pôde ser sentida.
Um segundo. Um enorme meteoro em chamas do tamanho de um condomínio fechado caí junto da tempestade em meio à cidade. Fairuz observou afônica e sem reação, estava encharcada e extremamente assustada.
Um impacto.
Prólogo — Fim.
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