Memórias...
2 2 - Lágrimas escarlates
Notas iniciais
O dia havia passado em um piscar de olhos e quando menos a garota percebera já estava anoitecendo, ela não havia recebido telefonema algum de seus pais dizendo para voltar, por isso acabara ficando até tão “tarde”, seus avós então ficaram encarregados de levar a pequena a sua conhecida residência, parando somente para comprar um vidro de geleia de morango, que a menor queria para poder comer com seus pais no dia seguinte.
O caminho de carro havia sido ainda mais rápido do que andar com seu pai de manhã, mas a energia e o clima leve que se aconchegava entre as pessoas presentes era o mesmo. Ao chegar ao destino, a garota se despediu e agradeceu gentilmente, dando as costas logo depois e abrindo a casa com sua chave, as luzes da sala estavam acesas então Natsumi concluiu que seu pai deveria estar lendo enquanto esperava o jantar que sua mãe preparava na cozinha, ela nunca esteve tão errada...
Ao entrar no recinto uma brisa fresca acariciou seu rosto e diferente do que a garota pensara ninguém estava lá, ela foi até a cozinha e logo após, ao pequeno escritório de seu pai, nada... Desesperada, correu até o quanto dos pais e ao chegar lá, a realização do ocorrido a invadiu. Deitada na cama estava à cena mais horrenda que a garota jamais imaginaria, no lençol verde estava o corpo de sua mãe, cujo qual possuía a pele mais pálida que a garota já vira, seus olhos ainda estavam abertos, como se tentassem ver através que qualquer um que entrasse no quanto, como se gritassem e implorassem por ajuda, as pupilas dilatadas e a sensação que vazio... o pai da garota estava logo em frente, sentado no chão frio, com um estado não muito melhor que o de sua esposa. Ambos estavam mortos e agora o sangue que escorria de seus corpos se espalhava pelo quanto não muito grande, chegando até a garota.
Tudo havia sido em uma questão de segundos, a cena, a visão se tornando embaçada e o sentimento de querer gritar e chorar brotou no interior do peito da menina, mas não aconteceu, Natsumi ficou paralisada, sua garganta se tornou seca e ela não gritou.
O pote de geleia escorregou de sua mão atingindo o chão e fazendo o vidro se espatifar em milhões de pedacinhos, seus joelhos cederam, suas mãos alcançaram o chão, se cortando pelo vidro estilhaçado, mas sem dor física, ela tentou esconder seu rosto, tampar sua visão, tudo para não ver a cena que havia sido processada somente parcialmente por seu cérebro, mas ao olhas para as mãos ela via sangue, que mesmo sendo seu, trazia pavor.
O vermelho escarlate que tomava conta de tudo ao seu redor fazia a garota ver nada mais do que somente o desespero, este quase palpável e que encobria a menor, a aconchegando e abraçando como seu único amigo, fazendo a encarar a realidade e cochichando verdades antes não tidas em seu ouvido, Natsumi abaixou a cabeça por alguns instantes, lágrimas escorreram em seus rosto, o gosto salgado destas tornava o ambiente ainda mais desgostoso e quando a garota de cabelos negros levantou o rosto, não havia mais nada em sua expressão, como se ela tivesse acabado de nascer, ou menor, renascer em meio ao sangue de seus pais.
Mas desta vez, sem choros e berros, mas também sem alegria. A Natsumi que acabara de nascer não possuía sentimentos, sua feição era nula, branca como uma folha de papel seus olhos porem transmitiam dor e sofrimento, algo que ninguém nunca entenderá...
Mas não vá pensado, meu caro leitor, que sou apenas um fruto do desespero de uma criança, esse é um sentimento que não existe em mim, se Natsumi é uma folha branca, e seu destino e escrito sobre ela com tinta preta, eu sou a caneta vermelha que corrige suas imperfeições, e que mostra aos outros os erros que ninguém quer ver. Se eu sou mesmo isso... Precisaria muito mais para eu nascer do que duas meras mortes, pois é a garota sofreu muito mais do que “somente” isso...
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