Querido Michael,

Espero que você esteja bem. Antes de tudo peço desculpa pelo atraso. Faz algum tempo que não te escrevo. É que as coisas estão corridas na minha vida agora. Aconteceram... Coisas que você precisa saber. Aliás, me tornei o homem que eu precisava ser. Consegui um bom emprego nas Indústrias Müller. Quem diria. Faz algum tempo que venho conseguindo me sustentar sozinho e isso já é o suficiente por enquanto. Às vezes me pergunto se você sente orgulho de mim. Eu espero que sim.

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Não quero me enrolar muito. Há dias estou reunindo coragem e forças para lhe escrever esta mensagem. Preciso te contar algo que aconteceu comigo. Algo que fez minha vida virar de cabeça pra baixo da noite para o dia. E tudo isso por causa de apenas uma garota, que aparentemente caiu do céu. Lucy.

Aconteceu numa manhã de terça-feira. Eu estava atolado de trabalho até o pescoço, para variar. Há dias tinha que entregar o relatório do meu projeto, porém naquela manhã especificamente eu estava com muita pouca sorte. Depois que meu computador deu pau, fui obrigado a usar o seu velho notebook que estava comigo. Confesso que não é dos melhores, mas quebrou o galho. Você devia ter me ouvido quando o pedi pra não economizar quando se trata de tecnologia. Não entendo porque você sempre foi tão cabeça dura. Todo mundo sabe que os produtos da Apple são melhores. Mas quando foi a ultima vez que você me escutou, não é mesmo?

Tive que ir até em casa. A Leslie estava me perturbando para conversar comigo. Acho que está arrependida por ter me pedido aquele tempo para pensar. Então ela me beijou e ficou tudo bem. Ter uma namorada é legal, mas sei lá, eu achei que fosse algo mais incrível que isso como nos filmes.

Eu precisava voltar para o trabalho e entregar meu projeto. Peguei o capacete e liguei a moto. Sei que uma Honda Biz não é lá grande coisa, mas é o que eu podia ter no momento. Era incrível como eu sempre conseguia me atrasar pra tudo. Acelerei o máximo que pude. Tinha que chegar lá antes do horário do almoço ou eu estaria muito encrencado.

Foi quando eu estava na Avenida Trindade que aconteceu. A moto já tinha alcançado 80 por hora e era o máximo que eu podia fazer ali. Os carros que vinham de trás buzinavam e me ultrapassavam a centímetros do retrovisor, decidi ficar na pista da esquerda. Estava perto, só precisaria passar o viaduto e então eu estaria no trabalho. Acelerei o máximo que a moto aguentava e então, como se fosse um anjo vindo de lugar nenhum, uma menina caiu do viaduto. Demorei alguns segundos pra entender o que estava acontecendo e quando entendi já era tarde demais. O corpo dela veio voando em minha direção mais rápido do que eu pude desviar e me acertou. Não me lembro de muita coisa, mas foi basicamente assim que eu conheci Lucy. Essa foi a primeira vez que eu morri.

[...]

Abraços,

Kael.