Meio a meio

2 Entre a vida e a morte


Um clarão ofuscava meus olhos. Levou um tempo para me acostumar e conseguir enxergar meus próprios pés. Quando pude ver novamente estava em uma sala branca e vazia. Não havia mais estrada, nem minha moto, nem garotas caindo do céu. Era apenas um imenso vazio sem começo nem fim.

Sentei-me com dificuldade. A cabeça ainda um pouco zonza. Percebi um movimento ao meu lado. Era ela. A menina que havia caído bem em cima da minha cabeça. Lutei para não soltar nenhum gemido de desaprovação quando a olhei direito, mas foi em vão. Seu cabelo era de um castanho cacheado, jogado para o lado esquerdo. A lateral direita da sua cabeça era raspada bem curta, deixando à mostra o alargador do tamanho de uma tampinha de garrafa que ela tinha na orelha. E isso não foi nem o que me chamou atenção. Ela também tinha mechas de cabelo lilás que combinavam perfeitamente com seu extravagante batom roxo vivo.

Ela se aproximou de mim e me encarou como se eu fosse de outro mundo. As sobrancelhas cerradas e a boca em formato de um bico de insatisfação. Seus olhos brilhavam num tom de azul claro. Era como o azul que se vê no céu logo de manhã. Lembro-me bem porque foi a única coisa que gostei nela de inicio.

– Que lugar é esse? O que aconteceu? — Me perguntou num tom sério de cobrança.

– Eu que pergunto. — Disse — Eu morri? Você é um anjo?

– E eu lá tenho cara de anjo? — Ela disse. Depois colocou as mãos na cintura e mordeu o piercing que tinha no canto direito de sua boca carnuda. Parei para analisa-la novamente. Estava vestida como uma roqueira de esquina. A última coisa que ela seria era um anjo.

– Oh não! Eu morri e fui pro inferno! — Eu disse depois de alguns minutos constrangedores em que ficamos nos encarando.

– Ei! Pega leve. Não tenho culpa se você não ajudava velhinhas a atravessar a rua. Não tenho nada a ver com isso.

– Não tem nada a ver com isso? Você caiu bem em cima de mim. Era pra eu estar num trabalho chato, com um chefe chato, numa vida chata! Mas agora por sua culpa estou morto! — Me levantei enquanto apontava um dedo na cara dela. Então a ficha caiu pra mim. — Estamos mortos... Eu estou morto e a culpa é sua!

– Desculpa atrapalhar sua vida extremamente selvagem e excitante. Você pode estar morto, mas eu não. Vou arrumar um jeito de sair daqui rapidinho.

Mutuamente olhamos em volta. Não havia nada pra direita. Nada pra esquerda. Nada em cima e tão pouco embaixo. Estávamos num imenso vazio. Um limbo irritantemente branco e tedioso.

– Ah é? E como vai fazer isso? — Perguntei indiferente.

Ela mordeu os lábios e ergueu uma sobrancelha com um leve ar de desespero.

– Por que caiu lá de cima, estava testando se conseguia voar? — Perguntei.

– Estava tentando me matar. — Disse enquanto encarava o vazio do chão.

– Parabéns você conseguiu não só se matar, mas me levar junto também. Dois coelhos com uma tacada só.

– Você é um saco. — Ela disse revirando os olhos e cruzando os braços.

– Qual seu nome? — Tentei amenizar as coisas entre nós.

– Lucy. — Ela disse depois de me examinar e pensar direito se devia me contar ou não. — E o seu?

– Me chamo Kael.

Lucy bufou e encarou o vazio, depois disse. — Aff, Até seu nome é idiota.

– Tá, você me magoou agora. Menos um ponto pra você... Certo, vamos nos acalmar e pensar. — Falei enquanto massageava as têmporas e tentava controlar o desejo de avançar no pescoço dela. — Do que você se lembra até aqui?

– Não muito. Eu caí e bati em algo duro. Quando acordei estava ao lado de um babaca.

– Isso não foi nada legal. Sério, peça desculpa. — Olhei para seu corpo para avaliar melhor. — Alias você me acertou com força, já pensou em fazer uma dieta?

– Vai se ferrar. — Lucy disse enquanto eu ria.

De repente vindo assim do nada, uma voz grave como se fosse um trovão ecoando numa caixa soou e fez os pelos do meu pescoço eriçarem.

VOCÊS ESTÃO MORTOS

– O quê? Quem está ai?

– Quem é você? Onde nós estamos?

O som era como um estrondo, porém não havia nada ali além de um vazio branco. Era como se ela viesse de todos os lugares e de lugar nenhum ao mesmo tempo.

ESTE É O LUGAR ENTRE A VIDA E A MORTE. — A voz continuou. — VOCÊS ESTÃO PRESTES A SEREM MANDADOS PARA O CÉU OU PARA O INFERNO CONFORME SUAS AÇÕES.

– Como? Isso é um absurdo! — Lucy gritou cerrando os punhos.

Não entendi o porquê de estar tão inconformada. Não era isso que ela pretendia se jogando lá de cima? Eu é que não tenho culpa aqui. Sou eu que deveria estar arrancando os cabelos

– EI! Eu não posso morrer agora! Estou esperando a resposta da faculdade! — Gritei. — Além disso, não estava na minha hora! Eu não queria morrer! Se tiver que levar alguém, leva ela!

A menina me lançou um olhar mortal como se fosse pular no meu pescoço a qualquer momento. Estava vermelha de raiva quando veio na minha direção com intenção de me socar.

UM DE VOCÊS DOIS NÃO DEVIA TER MORRIDO HOJE.

– Até que fim um pouco de bom senso. — Murmurei baixinho.

QUIETO! — A voz soou como um estouro de trovão. Meu coração acelerou e meus joelhos tremeram. De uma hora pra outra senti uma vontade enorme de correr e me esconder. Me encolhi e sussurrei "Sim, senhor, desculpa"

POIS BEM — O Trovão continuou. — IREI PERMITIR QUE APENAS UM DE VOCÊS CONTINUE A VIVER.

– Só um? Mas eu não... — Lucy começou a dizer, colocando as mãos na frente do corpo como se precisasse de proteção.

DAREI-LHES SETE DIAS. NEM MAIS, NEM MENOS. NO FIM DESTE TEMPO OS DOIS TÊM DE DECIDIR QUEM IRÁ MORRER E QUEM IRÁ VIVER.

– Ei! Pare de brincadeira! Quem é você? Do que esta falando? — Gritei no vazio. Sem saber ao certo para onde olhar ou de que direção vinha aquele estrondo. Seja quem for o dono da voz, ele me ignorou e continuou o discurso.

ATÉ O FIM DESTES SETES DIAS VOCÊS COMPARTILHARÃO TUDO... E TENHAM CERTEZA DE NÃO DEIXAR O LADO UM DO OUTRO.

Todo o espaço branco da sala começou a ofuscar meus olhos. Um brilho cresceu até o ponto de que foi preciso proteger o rosto com as mãos. De repente estávamos no meio de um clarão como se tivéssemos entrado dentro de uma lâmpada fluorescente. A luz cegava mesmo quando cobríamos o rosto. Depois foi ficando mais amena. Abri os olhos novamente e um outro tipo de luz me ofuscava.

– Estou ficando cego! — Gemi.

– É só o Sol, idiota! — Lucy disse num tom debochado. — Estamos de volta.

Quando abri os olhos percebi que tínhamos voltado ao mundo normal. Estávamos no meio da Madison Square Park. Como havíamos chegado ali eu não tinha ideia. O céu estava limpo e o Sol brilhava ofuscante. O parque estava movimentado como sempre. Havia muita gente deitada no gramado ouvindo musicas ou lanchando. Dois jovens passaram por mim de bicicleta apostando corrida. Um casal de idosos mal vestidos estava, tirando fotos perto do lago com uma câmera velha segurada ao contrário. As mesmas pessoas chatas de sempre. O mundo estava tão alheio ao que eu tinha acabado de passar que me deu uma vontade de rir.

Lucy me encarou como se estivesse me cobrando respostas. Agora com a luz do dia eu podia vê-la melhor. Vestia uma calça preta com rasgos paralelos nas coxas. Uma blusa preta surrada do Metallica com mangas longas. Estava usando um All Star cano longo todo personalizado com notas musicais. Além disso, um monte de pulseiras e cordões macabros. Olhando para ela ali no meio do parque era como ver um ponto preto e roxo no meio de um quadro totalmente verde. Ela se destacava facilmente da multidão, mas não era feia. Disso eu tinha certeza.

– Quem era aquela voz? Não vá me dizer que era Deus... — Perguntei tentando fazê-la parar de me encarar daquela forma hostil.

– Eu não acredito em Deus. — Lucy mexeu nos cabelos e mordeu o piercing da boca olhando em volta. Parecia perdida.

– O que vamos fazer agora?

– Fala sério. Eu não entendi nada do que aconteceu, mas pelo que parece estamos vivos. — Ela disse tateando o corpo com as mãos como que para ter certeza. — Bom, agora eu preciso ir. Tenho muitas coisas pra fazer.

– Espera! Eu posso te dar uma caro... — Comecei a dizer, mas depois percebi que minha moto devia estar destruída depois do acidente. Ela não estava no parque, o que significa que apenas meu corpo foi salvo. — Deixa pra lá. — Eu completei com tristeza. Era minha moto novinha.

Lucy e eu tomamos caminhos opostos. Eu não sabia nada sobre ela. Não entendia nada do que tinha acontecido ali, mas um bom banho e eu colocaria os pensamentos no lugar. Era só isso que eu precisava. Não queria mais ver essa roqueira maluca. Tomei o meu rumo de casa.
E então, boom...
Senti um aperto no peito. Minha respiração ficou ofegante de repente. Pensei que logo passaria, mas quanto mais eu andava mais a dor aumentava. Até que chegou num momento que estava insuportável. Era como uma faca me atravessando bem no meu do coração. Caí de joelhos tentango inutilmente sugar o ar para os pulmões e quando olhei novamente para Lucy, ela também estava no chão chorando. Me lançava um olhar de dor e agonia.

"Tenham certeza de não deixarem o lado um do outro."

A frase veio à minha mente como fogo vivo. Com dificuldade me levantei e voltei em direção à Lucy. Na medida em que a distancia entre nós diminuía a dor também sumia. Quando estive perto o suficiente para tocar o corpo dela a dor já nem existia mais. Como um relâmpago que causa medo e no segundo seguinte já se fora.

– O que foi isso? Pensei que meu coração fosse explodir. — Lucy disse recuperando o fôlego.

– Como eu pensei. — Tomei um grande gole de ar. — Estamos ferrados.

– O quê? O que você esta querendo dizer? — Ela perguntou esfregando o peito.

– Aquela voz estranha disse pra gente não deixar o lado um do outro. Resumindo, estamos compartilhando uma vida em dois corpos. Resumindo mais ainda, se nos separamos demais a gente morre.

Lucy fez um careta e depois suas sobrancelhas se ergueram como se tivesse levado uma pancada na cabeça.

– Você não acha mesmo que um de nós vai morrer em sete dias, acha? — Ela perguntou mordendo o piercing da boca.

– É uma droga, mas parece que sim.

Lucy me encarou indiferente. Seu olhar estava pensativo. Seus olhos estavam virados para mim, mas ela não me enxergava. Estava em outro lugar. Eu sabia exatamente o que estava se passando por sua cabeça. Lucy estava pensando que sou eu quem deve morrer.

– Então vamos. — Ela disse me pegando pelo pulso. Me tocava como se eu tivesse doença de pele.

– Vamos? Vamos pra onde? — Perguntei sem entender.

– Pra sua casa, é claro. Parece que vamos ter que ficar juntos por um tempo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.